A noite de 26 de Junho de 2025 ficou marcada por uma experiência sonora intensa e visceral com os nacionais Men Eater, uma das bandas mais emblemáticas do sludge. Neste concerto apresentaram-nos o seu novo EP “Whole”, mas também nos proporcionaram uma viagem de vinte anos às suas obras sonoras poderosas cheias de texturas e emoções profundas.

O Maus Hábitos, no Porto, encheu-se de fãs de sludge na passada quinta feira, naquilo que resultou numa noite de verdadeira admiração a um estilo que nunca ficará no esquecimento. Ainda para mais, quando vindo de um grupo que varia tanto dentro deste estilo e o torna tão diversificado e genuíno.

Para quem anda distraído, os Men Eater foram fundados em 2005, tornando-se rapidamente uma força motriz na cena metal portuguesa com o seu som pesado e implacável. Desde então, construíram a reputação de uma das bandas mais impactantes do em solo luso. Porém, algures em 2012, um surpreendente hiato foi anunciado mas, mais tarde, regressaram mais fortes do que nunca com um álbum homónimo em 2023.
Dois anos depois, já existe novo material, talvez um bocadinho diferente do anterior, mas com uma qualidade soberba que contamina desde o primeiro segundo. O novo EP “Whole” apresenta temas que rapidamente voltaram a apaixonar os já fãs e seguidores da banda, mas que também irão conquistar muitos novos.

O primeiro tema a ser interpretado nesta noite quente de verão foi Multitude e parece-me ter sido uma excelente forma de arranque pois este é o single que assinala o regresso da banda após o hiato e que antecipou o quarto álbum homónimo, Men Eater, editado em 2023. Aqui retomamos à base sonora que caracterizou os primeiros álbuns da banda, com riffs densos e pesados, firmemente enraizados no stoner, sludge e post-metal, temperados com alguns toques de punk/hardcore. Se
De seguida voltamos atrás no tempo, a 2009 com First Season, música do eterno álbum Vendaval. Esta faixa criou uma atmosfera sombria e opressiva na sala, transitando entre momentos de explosão sonora e passagens quase hipnóticas. Uma música mais uma vez inserida no universo sludge/stoner metal, e que apresenta riffs pesados e bateria robusta típicos do estilo e cheios da qualidade que estes senhores já nos habituaram há vários anos. A voz é intensa e crua, quase que feita à medida do instrumental e lírico que explora temas como desconfiança e desgaste emocional, como é visível em frases como “snake eyes” e “every time we trust, you push it back in reverse“.

Voltamos ao álbum Men Eeater com as faixas “Hermit” e “Worshipers“, músicas essas que representam dois momentos particularmente marcantes na construção atmosférica e emocional deste disco. “Hermit” desenhou um percurso introspectivo, começando com uma cadência mais leve, quase meditativa, marcada por riffs envoltos em fuzz e uma aura psicadélica que foi ganhando densidade até desaguar num crescendo sludge tenso e poderoso. A sensação de inquietação, resultado deste crescendo era quase palpável na sala. Já “Worshipers” mergulhou numa espessura sonora mais opressiva, onde guitarras arrastadas e batidas pesadas criaram um ambiente ritualístico, quase hipnótico, mantendo uma intensidade constante e sufocante. E é esta dualidade que demonstra o equilíbrio composicional e interpretativo que estes senhores tão bem criam. A sua capacidade e versatilidade em criar diferentes ambientes é um dos pontos mais fortes que lhes deu o título de uma das bandas mais impactantes em Portugal. Aqui, na sala do Maus Hábitos, estivemos perante mais uma prova disso.
E já que estamos em 2023, no seu homónimo álbum, que tal passarmos às novidades fresquinhas? E assim foi. O primeiro tema a ser interpretado e a apresentar o novo EP “Whole”, foi “Madonna“. Nesta música que logo no seu riff inicial nos deixa viciados, estivemos perante uma dinâmica melódica mais suave do que o habitual. A introdução oferece riffs granulados e envolventes que fluem com uma cadência levemente meditativa, antes de evoluir para secções de maior densidade, com vocalizações intensas e bateria robusta. A dualidade vocal é mais uma vez genial, juntando a voz rouca do vocalista e guitarrista principal com a mais rasgada e desesperada do segundo guitarrista. O lançamento desta música e a sua interpretação ao vivo foi mais uma evidência de maturidade composicional, conjugando grooves pesados com uma dimensão emocional e dinâmica que já se tornaram imagens de marca dos Men Eater.
De seguida viajamos por diferentes eras da banda com “Grail“, “Uma Multidão de Pecados“, “Heartbeating” e “Black“, o que nos permitiu admirar as diferentes facetas emocionais e texturais do universo da banda, até regressarmos às novidades com “Eyelid“, tema presente no recente EP “Whole“. Uma faixa com uma abertura atmosférica com riffs pesados e cadenciados que explora uma sonoridade que mistura stoner e post-metal.
Voltamos a viajar no tempo, agora com o álbum “Hellstone“ (2007) e A MÚSICA- “Lisboa“. Esta é e sempre será uma das músicas mais marcantes e emocionantes da carreira dos Men Eater e que, seguramente, nunca sairá do alinhamento dos seus concertos. Sendo a única canção deste álbum em português, a música combina riffs densos com uma melodia melancólica, construída de forma genial, criando uma atmosfera emocionalmente carregada. Tornou-se um hino obrigatório nos concertos da banda e foi, definitivamente, um dos pontos altos deste concerto.

E para encerrar as festividades, “Mortice“, uma música que se destaca pela construção atmosférica, com riffs de peso que criam uma sensação de tensão crescente, evoluindo progressivamente e incorporando elementos de doom metal e post-metal. O resultado? Uma peça densa e emocionalmente carregada, ideal para dar o apito final do do concerto que foi isso mesmo, carregado de emoção.
Neste concerto que passou num abrir e fechar de olhos, com alguma comédia à mistura principalmente por parte do vocalista, a banda alternou entre momentos de pura agressividade e passagens mais introspectivas, mantendo sempre uma conexão forte com a plateia. A performance demonstrou não só o virtuosismo instrumental dos músicos, mas também a sua capacidade de transmitir emoção e intensidade em cada acorde. Estilisticamente falando, estamos a falar de um grupo mega criativo. Apresenta um post-sludge com claras influências mas com uma identidade muito própria. Dentro deste mundo, eles têm tudo: o lado mais emotivo à Amenra, o lado mais progressivo à Baroness ou Mastodon, spoken words, líricos em Português e em Inglês, vozes rasgadas, roucas, berradas, uma atitude punk com a sofisticação do post-sludge… Tudo mesclado na amálgama que é Men Eeater? Simplesmente único e divinal.

A resposta do público foi calorosa, íntima, familiar, com muita energia e entusiasmo. Um concerto que consolidou os Men Eater como uma referência incontornável do metal português contemporâneo.
Setlist: 1- Multitude; 2- First Season; 3- Hermit; 4- Worshipers; 5- Madonna; 6- Grail; 7- Uma Multidão de Pecados; 8- Heartbeating; 9- Black; 10- Eyelid; 11- Lisboa; 12- Mortice.


