O último dia do Milagre Metaleiro Open Air 2025 nasceu com um misto de cansaço e coração cheio. Mas os passos arrastados dos festivaleiros encontraram ainda forças para mais uma jornada sonora. A noite aguardava com reverência a chegada dos lendários Hypocrisy, e tudo apontava para um encerramento poderoso, onde cada nota seria vivida como um adeus, e uma promessa.

Passou a voar, e chegamos agora ao último dia do Milagre Metaleiro 2025. A nostalgia e saudade já eram quase palpáveis por entre o campismo e recinto, bem como o cansaço e a rouquidão dos festivaleiros. Mas ainda haviam muitas memórias por construir!

O último dia prometia ser talvez o mais memorável de todos, com Hypocrisy a liderar, acompanhado de Mercenary, Patriarkh, Thyrfing e muitos outros grupos. Com um alinhamento destes, não haveria qualquer cansaço que pudesse vencer!

RUTTENSKALLE- Palco 1

Depois de uma manhã mais fresca, à hora dos portugueses Ruttenskalle entrarem em palco, as temperatura altas já tinham tomado conta do recinto do Milagre Metaleiro – foram quatro dias de calor sem dar tréguas- mas já estava tudo preparado para mais um massacre de Death Metal Old School.

E foi isso que estes almadenses nos deram, sem dó nem piedade, cheios de agressividade gore, muito pedal duplo, riffs cheios asquerosos e um growl caracteristico.

Foi um concerto curto mas levantou muita poeira naquele recinto, mesmo com tanto cansaço acumulado, as pernas não pararam e houve muito movimento no público.

Houve tempo para uma homenagem a um amigo da banda que tinha morrido umas semanas antes, mas por outro lado, houve também espaço para algo mais feliz. Um membro da banda aproveitou esta oportunidade de atuar no festival, e pediu a sua namorada em casamento para todo o público do Milagre Metaleiro ser testemunha que ela disse “Sim” e participar na festa. Em meu nome e da Cultura em Peso, desejo as maiores felicidades ao casal!

E assim foi a abertura do último dia do festival, cheio de emoções.

Ruttenskalle, por @edgar_silva_fotografia

 

AFFAIRE- Palco 2

Tempo dos rockers Affaire subirem ao palco para nos darem uma performance de puro espirito rock n´ roll, cheios de estilo e refrões para serem entoados em uníssono e de punho no ar.

Com um timbre diferenciado, o vocalista Tawny Rawk chama a atenção por dar um impulso emocional e quase teatral às músicas e até as suas expressões corporais transmitem alma e paixão. Algo que nunca faltou aos próprios temas. Porque o Rock é mesmo isso, emoção crua e pura, altamente bem representada por estes portugueses.

Claramente o estilo está bem representado em Portugal e respira frescura.

Affaire, por @madness_by_nuno_reis

LIVING TALES- Palco 1

Living Tales são claramente uma das bandas em maior ascensão em Portugal. Estes portuenses fizeram com que o recinto enche-se exponencialmente e sentia-se a ansiedade no público para que eles começassem a sua atuação.

E eles não fizeram por menos, uma entrada em grande, com música poderosas e sempre a puxar pelo público, e o mesmo a responder de forma fantástica.

Sem dúvida que o Metal Progressivo raçudo, com a mistura da grandiosidade sinfónica funciona de forma maravilhosa, principalmente quando se tem uma frontwoman com a presença enorme de Ana Isola, e a juntar a isso, uma versatilidade impressionante, que parecia quase infindável.

Foram verdadeiras lendas vivas!

Living Tales, por @edgar_silva_fotografia

MANTICORA- Palco 2

Tempo para os primeiros dinamarqueses do dia pisarem um palco do Milagre Metaleiro, neste caso, os Manticora. Consigo, trouxeram um Power Metal Progressivo de grandeza epopeica, até pela temática líricas.

Estes senhores já andam nisto há muitos anos e já com dez discos lançados e o que não lhes falta é reconhecimento, pelo menos internacional, e foi perceptível o porquê: mestria na composição, equilíbrio perfeito entre peso e melodia, grande ênfase para a expressividade geral das suas músicas, sempre sem medo de acrescentar algo novo e diferente.

Por tudo isso, e pela viagem às várias fases da carreira, tornou-se um espetáculo surpreendente, com muitas passagens diferenciadas mas sem se tornarem corpos estranhos de umas músicas para as outras, pois estes senhores, sabem bem o que fazem, e soam a eles próprios em todas as músicas.

Manticora, por @madness_by_nuno_reis

ART NATION- Palco 1

De volta ao Palco 1, primeiros segundos na atuação destes suecos Art Nation e a primeira coisa a saltar à vista foi a apresentação impressionante desta banda. Não deixaram nada ao acaso, com vestimentas dignas de senhor dos anéis.

Mas não se ficam pela apresentação visual, obviamente. Também a sua música é grandiosa e pensada ao detalhe, pois apesar se ser super apelativa logo à primeira audição, tem bastantes detalhes que fazem a diferença, e com o som bastante polido, foi tudo bastante perceptível.

Muitas pessoas entoaram as músicas destes suecos, mas sinceramente, conquistaram-me e eu própria gostaria de as saber cantar, sinal que ganharam pelo menos uma fã. Mas certamente não serei a única nesta posição!

E tenho que sublinhar, como é possível as bandas suecas terem uma capacidade tão grande de criar melodias maravilhosas? Melodias que se agarram ao nosso cérebro com unhas e dentes e tão cedo não saem. Parece que lhes está no ADN…

Estes senhores foram mais uma das grandes surpresas desta edição do Milagre Metaleiro.

Art Nation, por @edgar_silva_fotografia

BRAINSTORM- Palco 2

E no Palco 2 entram os alemães Brainstorm, com uma moldura humana impressionante. Ainda não eram os cabeças de cartaz mas quase que parecia de tanta gente para os ver. Mas verdade seja dita, esta banda já tem um nome bastante conhecido e ao longo de 35 anos de carreira, não têm um único album mau, e depois do último “Plague of Rats”, lançado em fevereiro deste ano, já lá vão 14 álbuns de originais.

E se a qualidade de composição é imaculada, também a sua atuação o foi. Talvez tenha sido a banda, dentro do Heavy/Power desta edição do MMOA, mais pesada mas sem destoar na vertente melódica. Fazem-no e fizeram-no com mestria, e é interessante o facto de Andy B. Franck ter parecenças vocais com as de Matthew Barlow, mítico vocalista dos americanos Iced Earth.

Ainda de notar algumas inclusões de world music nas suas malhas, para lhes dar um toque ainda mais característico e tornar este concerto ainda mais uma viagem intemporal. Tinha-se posto a noite mas os ânimos não baixavam.

Brainstorm, por @madness_by_nuno_reis

THYRFING- Palco 1

Foi a primeira vez destes suecos em solos lusos, e qual seria o melhor palco para eles? Só podia ser o palco 1 do MMOA e com o recinto já praticamente lotado para estes vikings. Os  astros estavam alinhados: som perfeito, temperatura ambiente perfeita, fatos, machados, espadas e muitos cornos, de forma a entrar ainda mais no ambiente viking.

A ajudar, uma performance irrepreensível destes senhores, que não deixaram pedra sobre pedra, e tornaram o recinto do festival um campo de batalha por entre mitos e historias épicas.

Houve muito mosh, muito pó, muito punho no ar e por vezes até cerveja a voar. Ficava difícil distinguir se realmente era apenas música ou uma batalha, só os sorrisos na cara e as expressões de satisfação diriam que realmente era “apenas” um concerto de Metal.

E sem uma única palavra numa língua que o português comum entenda, os Thyrfing conseguiram exaltar tanta emoção de um povo que em termos históricos pouco tem em comum com a mitologia viking.

Já perto do fim o vocalista levanta uma bandeira preta (toda rasgada) num dos temas mais melódicos, identificando ainda mais o fator emocional e grandioso. Depois deste concerto, todos acabaram com um sentido de irem diretos para Valhalla, mesmo não tempo morrido em batalha! Na realidade, nunca nos sentimos tão vivos!

Thyrfing, por edgar_silva_fotografia

MERCENARY- Palco 2

A lua já ia alta e os segundos dinamarqueses do dia entram no Palco 2-. Os Mercenary dispensam apresentações, mas para os mais distraídos, são provavelmente uma das melhores bandas a fazer uma simbiose entre do Death Metal Melódico e o Power Metal com elementos Prog.

Estes dinamarqueses são donos de uma capacidade composicional extraordinária e com um cunho tão próprio que, nos primeiros segundos de cada mÚsica, já se sabe que se trata de Mercenary: os riffs característicos, tanto os mais rápidos com os mais groovy, os teclados quase sci-fi, o melo dramatismo, e claro, a versatilidade enorme do vocalista.

Ao vivo, não houveram falhas, foi tudo perceptível, emotivo e com vontade de agarrar o público e só soltar no fim do concerto. Ainda para mais, a prestação do vocalista é mesmo impressionante, tanto na voz limpa como na berrada. Nunca tinha visto um vocalista a fazer a transição de forma tão natural, quase como se o fizesse sem o mínimo esforço.

Foi pena só ter duração de uma hora, pois, dava vontade de ouvir muito mais e até dar margem para viajarem a álbuns mais antigos, pois, o ênfase foi claramente o ultimo álbum “Soundtrack For The End Times” de 2023, que foi, de facto, um álbum fantástico. Mas, na minha humilde opinião, opinião essa de fã de longa data, faltaram músicas que traziam alguma nostalgia, como por exemplo My World Is Ending, Redefine Me ou Embrace The Nothing.

Que voltem de novo a Portugal, e que o MMOA tenha sido apenas um aguçar de apetite!

Mercenary, por @madness_by_nuno_reis

HYPOCRISY- Palco 1

E é hora para o último e derradeiro cabeça de cartaz da edição do Milagre Metaleiro Open Air de 2025. E são mais uns suecos, de seu nome Hypocrisy! Os pilares do Death Metal.

O recinto estava completamente cheio para ouvirem Peter Tagtgren e companhia a debitar mais um segmento de pura revolta, critica mundial e teorias de conspiração. Assim que a banda entra em palco, uma demonstração de fanatismo é experienciada como se um deus se tratasse, e os seus hinos são entoados em uníssono. Um misto de sentimentos apodera-se de todas as almas lá presentes, pois as suas músicas funcionam como chamadas de atenção, em lembretes de que nós, humanos, somos demasiados pequenos para ter interferência num universo tão basto. Se assim é, porque só criamos destruição e nos deixamos levar por ganância?

A expressividade e potência sempre foram imagem de marca dos Hypocrisy nas suas atuações ao vivo, e esta não foi excepção. Com uma setlist escolhida para atingir níveis de grandiosidade paranormais, mesmo faltando malhas como Children Of The Gray ou Fearless, mas nada de grave para tanto hino ao Death Metal. Não faltaram temas míticos como Eraser, Chemical Whore ou Let The Knive Do The Talking, esta última que foi um dos melhores exemplos de como o público esteve em sintonia com a banda, ao gritar repetidamente: “KILL!“, de punho cerrado como se fosse uma sentença de morte.

Para finalizar, entra o guitarrista que acompanhou Dirkschneider na sua atuação no Milagre Metaleiro no dia anterior, para soltar Peter da sua guitarra, e cantar dirigido diretamente ao público com toda a sua alma, e ainda elevar os níveis de transcendência para transformar o recinto num verdadeiro furacão que só parou depois dos largos minutos de despedida que a banda teve e todas as palhetas e baquetas atiradas ao público.

Depois do concerto de Hypocrisy foi preciso alguns minutos para respirar.

Hypocrisy, por @edgar_silva_fotografia

PATRIARKH- Palco 2

E de repente já estamos na ultima banda do MMOA 2025, tudo passou tão rápido. Tanta emoção, tanta energia, tanta camaradagem, mas ainda falta algo grandioso. Era difícil imaginar que ainda seria possível sermos surpreendidos mais uma vez, e de que maneira…

Portanto, temos de nos situar na relação tempo/espaço: quase 1h manha em Pindelo dos Milagres, final de um festival de verão que durou 4 dias, debaixo de um calor extrema, e com uma banda algo controversa pela história recente por usar elementos de cristianismo ortodoxo no seu Black Metal, tudo para ser uma atuação, no mínimo estranha.

Ainda antes de começar o ritual litúrgico destes polacos, o templo estava montado, como se uma missa se tratasse, não faltavam velas, imagens religiosas invertidas e cruzes ortodoxas também invertidas.

E começam as cerimónias com som de coros e o acender de velas, o cheiro a incenso é sentido, a aura negra é quase palpável. Ouvem-se os primeiros textos litúrgicos na característica voz de Bartłomiej Krysiuk como se de um sacerdote se tratasse e aí a nossa alma é puxada para um espectro transcendental de contornos religiosos e blasfemos, onde uns blastbeats dão uma vertente sónica a toda a atmosfera visceral dos coros tanto masculinos como femininos, e ainda aos gritos desesperantes de Bart.

A presença feminina em palco, traz uma vertente angelical àquela cerimónia. Pela própria imagem branca nas lanças frágeis e na belíssima voz da mesma, que para além da dicotomia criada, também cria momentos de paz de alma, no meio de tanta pressão espiritual resultante dos momentos mais rápidos.

O conceito está bem criada e, em espaços, vai havendo o avançar de textos litúrgicos e processos característicos de eucaristias, o que davam um lado teatral à performance, sem nunca ser um teatro, muito menos uma arte performativa. Era tudo demasiado real! Apenas as palmas do público, a pedido pelo vocalista em poucos momentos, eram o que mais se aproximava de espetáculo, no conceito comum da palavra.

No final do concerto, os elementos saem um a um, sendo os últimos os guitarristas que se ajoelham para dar os últimos acordes, dando final a uma cerimónia majestosa, arrebatadora e imponente. Só aí deixaram de fazer parte do quadro eucarístico e passaram a ser músicos e a agradecer ao público.

Foi uma experiência de uma vida e para mim, um dos melhores e mais marcantes concertos da XVI edição do MMOA. 

Patriarkh, por @madness_by_nuno_reis

E em jeito de contraste com aquilo que se tinha passado ali no palco, no final do concerto e das luzes se acenderem, começa a dar a icónica musica dos Zurrapa,  Pindelo Metaleiro, para uma última despedida.

No último dia do Milagre Metaleiro 2025, o sol pôs-se sobre os palcos gastos mas cheios de alma, onde os últimos acordes ecoaram como despedidas difíceis. Entre abraços, vozes roucas e olhos brilhantes, sentiu-se que algo mágico aconteceu ali ao longo destes quatro dias. Foi o fim de mais um capítulo gravado a ferro e emoção, e já se sonha com o regresso.

Obrigada Milagre Metaleiro e a todo o staff que permitiu que esta edição corresse às mil maravilhas. Resta aguardar ansiosamente para o próximo ano. Lá estaremos!

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