Energia “setentista moderna” do Graveyard no Basement Cultural, Curitiba. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

Existem shows que assistimos e existem experiências que nos modificam. Na última sexta-feira, dia 08 de maio, o Basement Cultural foi o epicentro de um terremoto sonoro. Após abertura da Space Grease e Bike (leia review aqui), pela primeira vez em Curitiba, os suecos do Graveyard não apenas tocaram; eles exorcizaram demônios e reafirmaram por que são a maior autoridade do rock psicodélico e “bluesy” da atualidade. O que vimos foi um absurdo de sonoridade com o básico, uma aula de timbre e, acima de tudo, uma entrega que beirou o sobrenatural desafiando as leis da física.

Graveyard no Basement Cultural, Curitiba. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

O clima no Basement era de um verdadeiro caldeirão — literalmente. O calor intenso foi alvo de reclamações recorrentes dos músicos, transformou o palco em uma prova de fogo, mas o que poderia ser um obstáculo tornou-se o combustível para uma performance crua.

Oskar Bergenheim, Basement Cultural, Curitiba. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

Ver o vocalista Joakim Nilsson literalmente “derretendo”, com a camisa totalmente encharcada e o suor escorrendo em bica, só deu mais verdade à sua voz ancestral e performance. Ele parecia desidratar em nome da arte, provando que a alma das composições do Graveyard não é apenas ouvida, é sentida na pele — mesmo que essa pele esteja ardendo sob as luzes e o abafamento.

Truls Mörck no Basement Cultural, Curitiba. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

 

Oskar Bergenheim, e a precisão e força, fazendo o básico! Basement Cultural, Curitiba. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

Truls Mörck, o baixista, mesmo incomodado com a alta temperatura, não deixou cair um milímetro da precisão, agradecendo a bela recepção enquanto público retribuía agradecendo a oportunidade de testemunhar o histórico “debut da banda” em solo curitibano. Bergenheim exalava uma técnica fora da curva, com grooves e viradas espetaculares que mantinham o transe coletivo da plateia. E não menos importante, de forma mais contida, porém se fazendo presente, Jonatan Ramm com solos encantadores que fazia qualquer alma desintegrada pelo calor, flutuar.

Graveyard no Basement Cultural, Curitiba. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

A jornada começou com a urgência de “Please Don’t” e o groove hipnotizante de “Cold Love“, que de imediato mostraram o entrosamento impecável do quarteto. Em “No Good, Mr. Holden“, a ‘cozinha’ exalou uma técnica fora da curva, com linhas de baixo pulsantes.
Breathe In, Breathe Out” trouxe uma melancolia necessária, revelando as camadas melódicas que a banda domina, como poucas.

A sequência com “From a Hole in the Wall” e “Walk On” manteve a temperatura lá no alto, preparando o terreno para o soco no estômago que é “Ain’t Fit to Live Here“. A precisão do baterista aqui foi algo sobrenatural; mesmo com o calor, suas viradas e grooves eram esmagadores. Em “Bird of Paradise“, o timbre das guitarras “chorou“, criando uma atmosfera densa que culminou no peso de “An Industry of Murder“.

Quando os primeiros acordes da clássica “Hisingen Blues” ecoaram, o Basement veio abaixo. Seguir com a força de “Goliath” e a sensibilidade de “Uncomfortably Numb” serviu para destacar o controle dinâmico absurdo da banda. “Evil Ways” e a profunda “Hard Times Lovin‘” prepararam o espírito para o encerramento, enquanto “Satan’s Finest” despejou a última dose de adrenalina pura antes do grand finale.

Carisma mesmo com o calor no Basement Cultural, Curitiba. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto
Graveyard no Basement Cultural, Curitiba. Foto: Nicoli Gielow – @gielowphoto

O encerramento com “The Siren” não foi apenas o desfecho épico que todos esperavam: foi o respiro final — ou melhor, a gota de suor final — de uma entrega absoluta. Ver Nilsson atingir o alcance vocal impecável e incrível desta música diante de tamanha adversidade climática foi de arrepiar!! Mesmo exausto e literalmente derretendo, sua voz cortou o ar com uma clareza e potência que pareciam vir de outra dimensão. Foi o ápice de um ritual onde a técnica e a alma se fundiram de forma indissociável.

Saímos da noite chuvosa de Curitiba com a certeza de que fomos testemunhas de algo maior.

O Graveyard não faz apenas música; eles manipulam o tempo, a eletricidade e as emoções humanas. Foi histórico, foi suado, foi denso, foi perfeito! Se o paraíso do rock tem um som, ele ecoou no Basement naquela noite. Vida longa ao Graveyard, que nos deixou encharcados de suor e com a alma devidamente purificada pelo peso!

Setlist
1.Please don’t
2.Cold Love
3.No good, Mr. Holden
4.Breathe in Breathe out
5.From a hole in the wall
6.Walk on
7.Ain’t Fit to Live Here
8.Rampant Fields
9.Bird of Paradise
10.An Industry of Murder
11.Hisingen Blues
12.Goliath
13.Uncomfortably Numb
14.Twice
15.Evil ways
16.Hard Times Lovin’
17.Satan’s Finest
18.The Siren