Na passada quarta-feira, dia 19 de novembro de 2025, o Sonicblast presenteou-nos com uma oportunidade imperdível de testemunhar um dos nomes mais emergentes da cena Punk Americana, os Poison Ruïn, que vieram acompanhados de Somatic Anxiety. Juntos, fizeram do Porto, o epicentro da sua descarga sonora!

Público, por @_thepennylane

O M.Ou.Co voltou a afirmar-se como um dos espaços mais emergentes da cena musical do Porto ao receber, numa gélida quarta-feira, mais uma noite dedicada ao melhor da música alternativa, desta vez, organizado por Sonicblast. A sala encheu-se cedo, misturando curiosos, fiéis do underground e quem simplesmente queria sentir algo bruto e visceral numa quarta-feira à noite.

O alinhamento trouxe duas propostas distintas, mas alinhadas no espírito: Somatic Anxiety a abrir e, como prato principal, Poison Ruïn, a banda maior da noite e claramente o motivo pelo qual a sala estava tão apertada. A expectativa em torno dos norte-americanos era visível e palpável, e não era para menos: o grupo carrega uma identidade sonora singular, onde o punk áspero e a estética medieval se fundem com incursões de dungeon synth que reforçam o lado atmosférico e quase ritualístico da banda. Esta mistura, rara e magnética, ajuda a explicar porque tantos vieram para sentir ao vivo a intensidade que o grupo tem espalhado por palcos lá fora, e a sua enorme dimensão em tão poucos anos de formação.

SOMATIC ANXIETY

Somatic Anxiety entraram em palco como quem acende o primeiro rastilho antes de uma explosão. E foi exatamente isso que eles entregaram. Em apenas trinta minutos, a banda portuguesa de punk experimental descarregou uma corrente de energia crua que misturou black metal, punk anárquico e alguma sonoridade industrial de forma visceral, sem pedir licença e sem qualquer preocupação em suavizar arestas. A sala, que ainda a ganhar forma, rapidamente percebeu que tinha tropeçado numa surpresa maior do que esperava.

Somatic Anxiety, por @_thepennylane

A vocalista Lykomania dominou imediatamente o espaço. Visualmente, é impossível ignorá-la: com uma presença que a tornava simultaneamente poderosa e assombrosa, quase espectral. A atitude era puro punk: sempre em movimento, a contorcer-se pelo chão, a viver cada berro como se estivesse a fazer um exorcismo. A voz? Soava a desesperante, transpirava raiva, brutalidade e energia crua. Não houve passividade possível por parte do público. Mesmo quem não conhecia a banda, sentiu-se puxado para dentro daquela tempestade. A presença dela, somada ao caos controlado dos restantes três membros, fez o concerto ser maior do que o que o público poderia contar.

Os Somatic Anxiety fizeram mais do que o que uma banda de abertura normalmente faz: surpreenderam quem não os conhecia, deixaram uma impressão física no espaço e prepararam o terreno para os Poison Ruïn com uma violência elegante que só bandas verdadeiramente convictas conseguem oferecer.

Se o Sonicblast os colocou para abrir a noite, foi porque sabia o que estava a fazer. Nada aquece um público como uma descarga de punk experimental entregue no limite do corpo, e Somatic Anxiety fizeram-no com mestria.

Somatic Anxiety, por @_thepennylane

POISON RUÏN

Os Poison Ruïn regressaram ao Porto com a segurança de quem já tinha deixado marca no Sonicblast Fest 2024, e a expectativa refletia isso mesmo. A sala estava cheia antes da primeira nota, como se toda a gente soubesse que a noite ia ser destrutivamente inesquecível. E foi!

A banda de Filadélfia voltou a provar porque tem sido destacada como uma das propostas mais singulares do punk contemporâneo: um cruzamento feroz entre urgência crua e um imaginário medieval carregado de sombras e misticismo. Era impossível não sentir que estávamos perante algo que foge às categorias habituais.

Poison Ruïn, por @_thepennylane

Posso dizer que ao vivo, o som dos Poison Ruïn ganhou uma dimensão ainda mais atmosférica e urgente. As guitarras soavam quase como lâminas a rasgar neblina, enquanto a secção rítmica mantinha um pulso tenso e implacável. Aquela fusão característica entre punk, post-punk e toques de dungeon synth criava uma paisagem sonora que tanto evocava batalhas ancestrais como ruas húmidas e modernas. A música do grupo continua a ser uma descarga de emoções: fúria, mas também pequenos lampejos de esperança que surgem onde menos se espera. É uma combinação estranha e poderosa que conquista tanto quem vem do punk mais clássico como quem procura algo mais sombrio e introspectivo.

Ao longo do alinhamento, os Poison Ruïn fizeram questão de percorrer toda a sua discografia, mostrando como evoluíram sem nunca perder a sua identidade crua e evocativa. Passaram pelo espírito mais primitivo e direto de Poison Ruin II (2021), revisitaram a urgência amarga de Not Today, Not Tomorrow (2022) e deram o devido destaque aos seus dois álbuns, Harvest (2023) e Confrere (2024). Esta viagem pelas várias fases da banda ajudou a acentuar o alcance emocional do concerto: do punk mais despido às melodias épicas dos trabalhos mais recentes, ficou claro que o grupo não apenas cresceu, tornou-se mais denso, mais atmosférico e ainda mais inconfundível ao vivo.

Poison Ruïn, por @_thepennylane

Os quatro elementos da banda apresentaram-se com uma energia contagiante, sempre intensos, sempre presentes, mas sem qualquer teatralidade forçada. Havia poucas interações do vocalista com o público, não por frieza, mas pela crueza típica do punk, que dispensa floreados. Ainda assim, quando falava, a sala reagia de imediato. E entre cada tema a reação era ainda maior: o público simplesmente não parou quieto. Houve moshe constante, muita gente a dançar e um sentimento coletivo de libertação que já não se via há algum tempo numa sala daquela dimensão. O concerto foi um turbilhão, e a banda soube alimentá-lo sem nunca abrandar.

O momento final acabou por ser um dos pontos altos da noite. “Esta é a última… ou talvez não, depende de vocês“, atirou o vocalista antes de arrancarem para o que seria, teoricamente, o encerramento. Mas quando o tema acabou, a intensidade dos gritos e palmas foi tão esmagadora que não deixou margem para dúvidas: tinham de voltar. E voltaram, não com um, mas com dois temas extra, empurrando a sala para a última explosão coletiva. Foi uma despedida à altura, confirmando que, em palco, os Poison Ruïn são tão épicos quanto brutais, tão profundos quanto incendiários. Um regresso triunfante, e uma noite que ficará muito provavelmente entre as melhores do ano para quem a viveu.

Poison Ruïn, por @_thepennylane

No final da noite, ficou claro que no M.Ou.Co testemunhamos muito mais do que apenas dois concertos: foi uma descarga necessária a meio da semana. Os Somatic Anxiety surpreenderam e incendiaram o arranque, e os Poison Ruïn consolidaram a noite como algo memorável, com um espetáculo intenso, energético e arrebatador.

Fica um agradecimento devido à organização da Sonicblast, por ter trazido ao Porto estas propostas ousadas e relevantes, e ao M.Ou.Co , que cada vez mais fica reconhecido como uma das casas mais importantes para a música alternativa na cidade. Quem esteve lá saiu com a sensação de ter respirado uma lufada de ar fresco, ruidosa, urgente e absolutamente revitalizante.

Público, por @_thepennylane

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