O primeiro dia do Rock dos Romanos foi marcado por uma energia constante e uma sensação de caos controlado que se foi instalando desde cedo no recinto. Mais do que uma sequência de concertos, a noite ganhou forma como uma espécie de progressão de intensidade, onde cada banda acrescentava mais volume, mais distorção e mais entrega ao ambiente geral.
Desde a abertura até ao fecho, a ideia foi sempre a mesma: não deixar a energia cair e manter o festival num estado permanente de tensão e libertação.
A partir daí, cada atuação foi construindo o seu próprio impacto dentro dessa atmosfera geral, com propostas muito diferentes mas todas alinhadas numa coisa: intensidade ao vivo.
Traz os Monstros
Os Traz os Monstros abriram o primeiro dia do Rock dos Romanos com uma atuação intensa e desconfortavelmente magnética. Volume alto, ruído controlado e uma tensão constante marcaram um concerto que parecia estar sempre à beira do colapso, mas sem nunca perder direção. Desde cedo percebeu-se que aquilo não seria apenas um concerto de abertura.

O vocalista parecia lançar fragmentos de discurso urgente sobre o público, num registo quase performativo e de exposição emocional permanente. Em palco, essa componente ganhou ainda mais força, criando uma sensação caótica e hipnótica que prendia a atenção mesmo nos momentos mais abrasivos e difíceis de absorver.

A tudo isto juntava-se um detalhe visual que acabou por marcar a memória do espetáculo: o baterista atuava com uma máscara preta pintada, enquanto o teclista contrastava com uns óculos ”estilosos”, acrescentando um lado inesperadamente cómico à intensidade geral da performance.
Este equilíbrio entre o sombrio e o caricatural reforçava ainda mais a estranheza controlada do concerto.
Os Traz os Monstros acabaram por entregar uma das atuações mais marcantes da noite precisamente por recusarem o caminho mais óbvio. Um concerto que deixou ruído no corpo e imagens na cabeça muito depois do último tema terminar.
setlist:
Outro
Pedra Pomes
Casa do Amor
Jonhhy B. Nice
Intro Manif. II
Manifesto II
Febril
Porcos
Rescaldo
Ateu
Alvaro Fields
Pilates
El Saguaro
Os El Saguaro trouxeram uma viagem direta ao psicadelismo “old school”, carregada de groove, improviso e energia orgânica. Desde os primeiros minutos sentiu-se aquela estética setentista muito própria dos power trios clássicos, com a banda a tocar constantemente no limite entre o controlo e o caos.

Grande parte da força do concerto esteve na química evidente entre os três músicos. A ligação entre baixo, bateria e guitarra funcionou de forma quase intuitiva, permitindo jams longas e cheias de dinâmica sem nunca perderem fluidez. Os solos de guitarra apareceram sempre no momento certo, intensos mas naturais, integrados numa sonoridade viva e pulsante que parecia crescer tema após tema.

Houve ainda um momento que resumiu bem a atitude da banda em palco. A meio de uma das viagens instrumentais, a cinta da guitarra soltou-se inesperadamente. Qualquer outro músico poderia ter interrompido o tema, mas não foi o caso. O guitarrista continuou a tocar sem perder o ritmo enquanto tentavam recolocar tudo no sítio, numa demonstração perfeita do espírito “the show must go on”. E que show foi.

O mais impressionante foi a forma como El Saguaro conseguiram transmitir uma vibe vintage sem cair no cliché ou na sensação de homenagem vazia. Tudo soou genuíno e cheio de personalidade própria. Num festival marcado por peso e intensidade, a banda destacou-se precisamente por criar um concerto hipnótico e profundamente musical, daqueles que pedem pouca conversa.
Jepards
Os Jepards levaram ao Rock dos Romanos um concerto intenso, energético e caótico no melhor sentido possível. Desde os primeiros minutos percebeu-se uma banda completamente confortável no meio da explosão sonora que criava em palco, transformando tensão e ansiedade em movimento constante. Houve sempre uma sensação de urgência, como se cada música estivesse prestes a sair do controlo sem nunca realmente o perder.

A sonoridade da banda mistura indie rock com punk de forma crua e direta, recuperando muito da estética britpop e indie dos anos 90, mas atravessada por uma identidade muito própria e contemporânea. Por baixo das guitarras nervosas e dos ritmos acelerados existia também um lado sarcástico e quase autodestrutivo, refletindo aquela ansiedade millennial e Gen Z portuguesa feita de excesso, ironia e inquietação permanente.

Ao vivo, os Jepards destacaram-se sobretudo pela capacidade de transformar caos em espetáculo. O concerto teve impacto não apenas pelo volume ou velocidade, mas pela atitude constante em palco e pela ligação imediata com o público. Entre refrões explosivos, mudanças bruscas de energia e momentos de pura descarga emocional, acabaram por entregar uma das atuações mais vivas do primeiro dia do festival.

Setlist:
Syncopated tunes
A way to feel just fine
Deafening sounds
Let’s call it a night
Outdated
Soul relational
Everybody Go!
Tubular auctions
What I want, who am I?
Cautionary Tales
Crook postured boys
Beastie boyz
Orangotango
Desde o primeiro minuto, o concerto mergulhou o público num caos controlado feito de distorção, velocidade e atitude crua, sem espaço para grandes pausas ou momentos de respiração. Tudo soou direto ao osso, barulhento e visceral.

Os Oragotango construíram uma atuação que parecia viver da urgência do momento. Não houve preocupação em polir som ou procurar perfeição técnica – a força estava precisamente na espontaneidade e no impacto físico que criavam em palco.
Ao vivo, a sensação era a de assistir a uma banda completamente entregue ao ruído e à energia coletiva da sala. O público respondeu da mesma forma, entrando facilmente na intensidade do concerto e ajudando a transformar a atuação num dos momentos mais caóticos e libertadores da noite. Um concerto curto, direto e absolutamente sem filtros.
Setlist:
Zero
Hill veins
Veils of perception
So long
Warping to Empyrean
Empyrean
Muteye
For a dying star
Bolt
Dust
TRAVO
Os TRAVO transformaram o Rock dos Romanos numa verdadeira viagem psicadélica pesada, feita de groove contínuo, distorção e intensidade constante. Mais do que um concerto tradicional, a atuação da banda funcionou como uma onda sonora que nunca perdeu força, empurrando o público para dentro de um fluxo hipnótico difícil de abandonar.

Tudo pareceu construído para criar saturação e transe. Os momentos de explosão sonora surgiam naturalmente no meio das jams e das camadas de ruído, sem quebrar o movimento contínuo da atuação. Aos poucos, via-se a sala inteira a entrar no mesmo ritmo: cabeças a abanar em uníssono e os corpos presos ao groove.
Os TRAVO não precisaram de grandes interações para controlar o ambiente – a música fazia esse trabalho sozinha.

O mais impressionante foi precisamente essa capacidade de prender o público sem esforço aparente. A banda cria tensão através da repetição, do peso e da progressão constante, deixando cada tema crescer até atingir níveis quase físicos de impacto. Entre psicadelismo, kraut, stoner e noise rock, os TRAVO acabaram por entregar uma das atuações mais imersivas e intensas do primeiro dia do festival.
Zurrapa
Os Zurrapa trouxeram um dos momentos mais imediatos e caóticos do primeiro dia. Punk/garage sem filtros, direto ao impacto, com uma atitude que vive claramente mais da descarga de energia do que de qualquer preocupação com polimento ou estrutura excessiva. Desde o início, ficou claro que o objetivo era simples: fazer barulho e mexer com o público.


A reforçar o espírito irreverente da atuação, a banda trouxe consigo as suas próprias “bailarinas”: dois cartazes colocados nas extremidades do palco, cada um exibindo uma mulher em pose exuberante e confiante😂. O detalhe acrescentava uma camada extra de humor e provocação ao espetáculo, encaixando perfeitamente na estética despreocupada e divertida dos Zurrapa.

Setlist:
. Um Mundo Sem Paz
. Hey! Quero Trotil!
. A Vingança de Jaqueline Rose
. Putas, vinho e rock ‘n’ roll
. Quando a tua fome aperta
. Rosalina Metaleira
. Escravo do Poder
. Estou-me a Cagar (P’ra Vocês)
. Vampiro Português
. Queremos Uma Festa Punk
. Nós Não Cantamos Canções De Amor
. Encostado á Parede
. Kiss Kiss Banga Banga
. Sem Saia Nem Soutien
. Taberna Do B.A.
. Queimei o casaco c’um morango
. Cucaracha Da Cerveja
Ficou uma sensação clara de intensidade acumulada – uma noite longa, ruidosa e cheia de energia, onde o punk, o garage e o psicadelismo foram moldando diferentes formas de caos ao longo do cartaz. Foi um arranque sem travões, mais cru do que polido, onde a atitude e a descarga sonora falaram sempre mais alto do que qualquer outra coisa.
O público saiu do recinto com aquela mistura típica de cansaço e euforia, depois de uma sequência de concertos que nunca deixou a energia cair.
Mas a noite não terminou quando o último amplificador se desligou. A after party ficou entregue a @helderbungle3, que assumiu os comandos para prolongar a festa madrugada dentro, mantendo o ambiente vivo e garantindo que a energia acumulada ao longo dos concertos continuasse muito para lá do encerramento oficial do primeiro dia.
E se este primeiro dia foi dominado pelo punk e pelo caos mais cru, o segundo já aponta noutra direção. O metal entra em cena para subir ainda mais o peso e a intensidade, prometendo uma continuação ainda mais agressiva e densa daquilo que começou em Condeixa.
📄 & 📸 : @j.m_miranda | Jéssica Miranda
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