Após um primeiro dia cheio, com 13 concertos intensos em uma mistura de stoner, psych, doom e metal com bandas nacionais e internacionais, agora era a vez de curtir o segundo dia do Sonic Blast Fest 2025, que prometia ainda mais vibrações únicas!
O clima estava mais frio e com névoas que no dia anterior, mas nada intimidou a malta, que compareceu em super peso.
Continue lendo para ficar por dentro de tudo o que rolou!
TŌ YŌ

Iniciando as festividades no Stage 3 às 15h30 pontualmente, o quarteto psicadélico de Tóquio Tō Yō abriu o segundo dia do Sonic Blast Fest 2025 com a sua psicadelia etérea, marcada por elementos de pop, folk, garage e ácido, tudo temperado por uma sensibilidade japonesa moderna e vibrante.
Se o primeiro dia havia sido dominado pelo peso, o segundo começou em tom de imersão. O público já se aglomerava em frente ao palco, de olhos fechados, deixando-se levar pela técnica e pela atmosfera criada. A abertura com “Moku” mostrou de imediato o caráter contemplativo da apresentação.
À medida que o set avançava, o ritmo e a intensidade iam crescendo, acompanhados pelo uso de efeitos que adicionavam camadas de peso e densidade ao som. Foi um concerto que começou suave, mas que, faixa após faixa, conduziu o público às alturas, aquecendo gradualmente os ânimos.
Uma estreia perfeita para o dia: introspectiva, viajante e carregada de boas vibrações, preparando a malta para uma jornada sonora repleta de contrastes.
NAGASAKI SUNRISE

Às 16h25, no Stage 2, foi a vez dos portugueses Nagasaki Sunrise abrirem as cortinas da tarde com seu poderoso thrash punk/crust metal, marcado por uma estética bélica intensa e uma energia incendiária.
Depois do clima contemplativo trazido pelos Tō Yō, a mudança foi brutal: um choque de realidade que fez a malta levantar os punhos e se jogar no mosh e no headbanging. O setlist percorreu seus dois álbuns de estúdio, Distalgia (2021) e o mais recente Distroyer (2024). Logo na abertura com “Pacific Nightmare Ain’t Over”, o público já respondia em peso, com cabeças a balançar e energia em alta.
Faixas como “Distroyer” e “Kommando” desencadearam crowdsurfings e coros empolgados, com a malta a cantar, se divertir e soltar toda a adrenalina. Foi um concerto visceral, rápido, cortante e cheio de garra, remetendo diretamente à essência do metal oitentista.
Os Nagasaki Sunrise entregaram um show de puro rock cru e honesto, repleto de simpatia e atitude. Para mim, foi uma das apresentações mais marcantes do dia, e uma felicidade imensa poder vê-los novamente, agora em um grande palco do Sonic Blast.
SUNFLOWERS

Às 17h20, no Stage 1, chegou a vez do trio do Porto Sunflowers, uma das bandas mais queridas da cena nacional, que já era aguardada com ansiedade pela malta reunida em frente ao palco. Bastaram os primeiros acordes para que todos começassem a se mexer sem esforço.
Logo no início, uma mensagem projetada no telão deu o tom do concerto:
“SUNFLOWERS RALLY BEHIND THE VULNERABLE, STAND FIRMLY IN SOLIDARITY WITH THE DISPOSSESSED, AND PLEDGE SUPPORT TO THOSE RESISTING POVERTY, WAR, CENSORSHIP, DICTATORSHIP, AND OPPRESSION.
WE RISE AGAINST GENOCIDE AND INJUSTICE, AGAINST FASCISM, RACISM, AND HOMOPHOBIA, AGAINST ERASURE AND HATE IN ALL ITS FORMS – EVERYWHERE.
WHEREVER THESE FORCES STRIKE, ACROSS ALL BORDERS.”
Com um som psych-garage punk abrasivo, visceral e cheio de fuzz e feedback, os Sunflowers entregaram uma energia descontrolada, carregada de atitude. O destaque absoluto foi para a bateria furiosa de Carolina Brandão, que imprimia um ritmo veloz e preciso, despertando a dança na malta a cada batida.
O vocalista Carlos de Jesus aproveitou para anunciar o novo álbum You Have Fallen … Congratulations!, com lançamento marcado para novembro de 2025 pela Fuzz Records, sucessor do aclamado A Strange Feeling of Existential Angst (2023).
O setlist passou sobretudo por esse último trabalho, levando todos a mergulharem no som intenso e divertido da banda. O encerramento com “Zombie” foi pura diversão: Carlos desceu ao pit e se juntou à malta em um mosh.
Com carisma, peso e uma energia contagiante, os Sunflowers mostraram porque são tão amados e porque cada concerto deles é uma experiência única.
GNOME

Às 18h30, no Stage 2, chegou a vez dos belgas Gnome, e o recinto já estava tomado por fãs usando os característicos chapéus vermelhos de gnomo, em homenagem à banda. A cena era linda de se ver: de trás do palco, o mar de chapéus criava um ambiente único de conexão entre público e músicos.
Com a pergunta provocativa “Are you ready for some Belgian shenanigans?”, abriram com “Old Soul”, que imediatamente desencadeou moshs. O setlist seguiu com hinos como “Duke of Disgrace”, “The Ogre” e encerrou em grande estilo com “Ambrosius”, cantado em coro por todos.
A sonoridade da banda une a densidade do stoner e do prog metal com riffs e grooves hipnóticos, mas também traz uma faceta divertida e irreverente, com letras lúdicas e cheias de humor. Esse equilíbrio entre peso e descontração é o que torna os Gnome tão especiais.
Foi uma apresentação vibrante, com presença de palco marcante e uma sonoridade impecável. Difícil não se deixar contagiar por essa mistura única de peso, teatralidade e diversão. Um dos pontos altos do dia, até então!
EMMA RUTH RUNDLE

Às 19h40, no Stage 1, a atmosfera do Sonic Blast Fest mergulhou em pura introspecção com a chegada de Emma Ruth Rundle. O público, numeroso, manteve-se em silêncio quase absoluto, absorvendo cada detalhe do ambiente que Emma construía.
Sozinha, apenas com voz e violão, Emma mostrou sua força e intensidade. A sua voz, poderosa, divina e ao mesmo tempo frágil e melancólica, encheu o recinto, enquanto no telão surgiam imagens de oceanos, paisagens e cores que se misturavam ao pôr do sol. O resultado foi uma ambiência quase meditativa, que convidava à contemplação e à reflexão.
Seu set circulou entre o folk gótico, o post-rock e o metal atmosférico, passando por canções como “Living With the Black Dog”, “Arms I Know So Well”, “Darkhorse” e “Marked for Death”. Cada música recebia aplausos calorosos ao final, em um contraste lindo com o silêncio respeitoso durante as execuções.
Em um dos momentos mais emocionantes, Emma agradeceu à comunidade presente e reforçou como aquele apoio significava muito para ela: “Thanks to the kind audience”. Ao final, era visível o estado de relaxamento e paz estampado em cada rosto, como se todos tivessem feito uma pausa para respirar e sentir.
Foi um espetáculo lindo, delicado e arrebatador, que provou que o festival não vive apenas de peso e distorção, mas também de emoção pura. Apenas LINDO de se ver!
CHALK

Às 21h00, no Stage 2, chegou a vez dos irlandeses do Norte Chalk agitarem o público com uma descarga de energia eletrizante. Depois do clima introspectivo deixado por Emma Ruth Rundle, o trio de Belfast trouxe um verdadeiro choque sonoro, transformando o recinto numa pista de dança caótica.
O som da banda é uma fusão intensa de post-punk gótico, noise rock, techno industrial e eletrónica. O resultado é uma atmosfera densa, tensa e ao mesmo tempo dançante, que fez toda a malta pular e se soltar sem reservas.
O setlist trouxe faixas poderosas como “Afraid”, “Static”, “Bliss”, “Them” e “Conditions”, todas recebidas com entusiasmo por um público entregue, que dançava e aplaudia sem parar.
Foi um concerto vibrante, cheio de energia e atitude, que recuperou a malta do transe meditativo anterior.
MY SLEEPING KARMA

Às 22h00, de volta ao Stage 1, chegou um dos momentos mais aguardados do festival: os alemães My Sleeping Karma, mestres do psychedelic groove rock instrumental.
Após a perda do baterista Steffen Weigand, era esperado um concerto carregado de emoção, e foi exatamente isso que a banda entregou. Antes de iniciar, os membros se abraçaram no palco, gesto simbólico que deu início a uma apresentação de mais de uma hora que se transformou numa verdadeira meditação coletiva.
Abriram com “Brahama”, seguindo com temas como “Prithvi” e “Ephedra”, conduzindo a malta por uma viagem hipnótica, de complexidade sonora altíssima e emoções profundas. Mesmo sem vocais, a música falava por si: cada riff, cada textura, cada groove transmitia sentimentos intensos que pareciam emergir diretamente da alma.
As projeções no telão, com cores vibrantes e imagens psicadélicas, amplificavam a experiência, tornando-a quase transcendental. O público fechava os olhos, balançava lentamente e se deixava guiar pelo som, como se cada nota fosse um convite para olhar para dentro de si.
Foi um espetáculo belíssimo, espiritual e arrebatador, daqueles que provam como a música instrumental pode ser tão ou mais poderosa que qualquer palavra. Um dos pontos altos – e bonitos – do festival, sem dúvida alguma!
WITCHCRAFT

Ainda no Stage 1, sob uma noite mais fria que a anterior, foi a vez dos suecos Witchcraft, uma das bandas mais aguardadas do festival. Houve um pequeno atraso em relação ao horário previsto, algo raro no Sonic Blast, que até então vinha cumprindo tudo de forma rigorosa, mas nada abalou a paciência e o entusiasmo da malta que se aglomerava à frente do palco.
Com seu característico occult rock/doom metal de alma vintage, inspirado nos anos 70, os Witchcraft trouxeram uma aura sombria e mística. Liderados por Magnus Pelander, apresentaram o novo álbum Idag (2025), além de clássicos dos discos Witchcraft (2004), Firewood (2005), The Alchemist (2007) e Nucleus (2016). Confesso que senti falta de músicas do álbum Legend (2012), mas a seleção foi ainda assim ótima.
A performance teve ares de culto: riffs pesados, baixo denso e bateria envolvente, embalando um público que cantava e se movia lentamente, completamente imerso na atmosfera.
Magnus mostrou-se cordial e simpático, interagindo algumas vezes com a malta, e sua voz, tão poderosa ao vivo quanto em estúdio, era o grande destaque, acompanhada por uma guitarra tocada com leveza. O baixo de Ida Tennerdal e a bateria precisa de Jussi Kalla completaram a experiência com perfeição.
O concerto foi calmo, ritualístico e envolvente, deixando a sensação de que cada faixa era uma invocação. Uma apresentação excelente, que reafirmou a maestria e a relevância dos Witchcraft após mais de duas décadas de carreira!
DAME AREA

Às 00h55, no Stage 2, foi a vez do duo catalão-italiano Dame Area encerrar as atividades deste palco com a sua proposta intensa e viciante. Com uma sonoridade que mistura industrial, pós-punk e EBM, o projeto incorporou ecos tribais e experimentais que transformaram o recinto numa verdadeira pista ritualística.
O setlist incluiu temas como “Vengo dall’aldilà”, “Devoción” e “Tú me hiciste creer”, todos executados com energia pulsante e uma presença magnética. A malta incansável se entregou a cada batida, dançando e pulando ao ritmo de linhas eletrônicas densas e percussões primitivas que tornavam a experiência hipnótica.
Os Dame Area mostaram-se impactantes e originais, incorporando ruído, melodia e intensidade numa mistura de estilos. Foi um espetáculo que conquistou o público!
DAEVAR & WITCHTHROAT SERPENT
Mesmo após um dia intenso, a madrugada do Stage 3 ainda reservava peso e obscuridade para os incansáveis. Às 02h00, subiu ao palco o trio alemão Daevar, que vem ganhando destaque por renovar o stoner/doom metal com sua abordagem crua e moderna, apelidada de “doom grunge”. O setlist incluiu hits como “Lilith’s Lullaby”, “Wishing Well”, “Yellow Queen”, “Siren Song” e “Amber Eyes”, todas carregadas de atmosfera sombria e envolvente.
Logo depois, às 02h55, os franceses Witchthroat Serpent, já com quase 15 anos de carreira, mergulharam o festival em uma aura ocultista com seu stoner/doom abrasivo. Com riffs densos e fuzz esmagador, camadas pesadas de guitarra e vocais brutos, a banda trouxe temas como “A Caw Rises From My Guts” e “Nosferatu’s Mastery”, entregando um espetáculo denso e carregado de obscuridade.
Foi o fechamento perfeito para a segunda noite do Sonic Blast: duas bandas que equilibraram tradição e renovação dentro do doom metal, mantendo a malta firme, mesmo com o frio e a madrugada avançada.
Um encerramento à altura de um festival que se propõe a explorar cada nuance da música pesada e psicadélica!


