Porto Alegre tremeu no último dia 14 de agosto. Mais de 900 pessoas ocuparam cada canto do Opinião para testemunhar a passagem da Perpétuo Tour — uma noite que ficará marcada não apenas pela música, mas pela intensidade política e emocional que o Black Pantera trouxe ao palco.

A abertura e a preparação do terreno

Se a missão de uma banda de abertura é aquecer o público, a No Rest foi além disso no último dia 14 no Opinião. Diante de uma casa praticamente lotada, a banda transformou sua apresentação em uma descarga de peso, política e resistência, preparando o terreno para o Black Pantera de forma explosiva.

Um setlist como manifesto

O show da No Rest não foi apenas uma sequência de músicas, mas um discurso construído em cima de riffs, gritos e suor. Abriram com “Sistema” e “Não”, duas faixas que já deixaram claro o tom da noite: contestação contra a engrenagem social que sufoca. Em seguida, “Informação” e “Auto Corrupção” reforçaram a verve política, ecoando no Opinião como hinos de denúncia.

Canções como “Caridade” e “Contest to Construct” trouxeram o peso do hardcore direto e incisivo, enquanto “As Amarras” e “Vai” fizeram o público mergulhar em refrões gritados em uníssono. O meio do set foi carregado de críticas afiadas: “Nem Sujeição Nem Apatia”, “Abraçando o Fascismo” e “Trancada” incendiaram rodas de pogo que se abriram sem trégua.

Na reta final, a intensidade aumentou: “Suportar a Dor” e “Desumanizar Para Prosperar” mostraram a ferocidade da banda ao tratar temas sociais pesados. “Existência Sentenciada” e “Resistência Sempre” soaram como verdadeiros gritos coletivos, antes do fechamento catártico com “Sangue”, que encerrou a apresentação de forma devastadora.

Política em primeiro plano

A No Rest não esconde suas intenções: cada música é uma pedra atirada contra estruturas de opressão. O hardcore que eles entregam não se contenta em ser apenas som — ele exige reflexão, posicionamento e ação. E foi exatamente isso que vimos no palco: a arte como arma política, na tradição do punk mais combativo.

Performance visceral

Aline, a vocalista foi o epicentro da tempestade, despejando versos com fúria e presença magnética. O baixo denso e a bateria precisa sustentaram a parede sonora, enquanto a guitarra disparavam riffs como metralhadoras. A cada música, a sensação era de que a banda não apenas tocava, mas lutava.

Conexão com o público

A resposta do público foi imediata: gritos, rodas e coros que mostravam que a mensagem da No Rest encontrou terreno fértil em Porto Alegre. Mesmo sendo a banda de abertura, não havia sensação de espera. A plateia estava entregue, consciente de que aquela apresentação também fazia parte do todo que a noite representava.

Hardcore necessário

Ao final, ficou claro que a No Rest não apenas abriu para o Black Pantera. Eles cravaram seu nome em uma noite que ficará marcada na cena gaúcha. Com um setlist sólido, letras afiadas e uma performance incendiária, a banda mostrou que o hardcore segue vivo, pulsante e indispensável.

Black Pantera : manifesto em forma de música

Quando o Black Pantera entrou em cena, a sensação era clara: aquilo não seria apenas entretenimento. O trio estava afiado, coeso e letal. Cada riff parecia um soco, cada virada de bateria uma explosão, cada verso um grito contra o silêncio que insiste em tentar calar vozes.

O setlist passeou entre hinos já consagrados e faixas mais recentes, sem jamais perder a veia política que é a espinha dorsal da banda. “Fogo nos Racistas” e “Sem Anistia” soaram como palavras de ordem, recebidas em coro por uma plateia que respondia não como espectadores, mas como cúmplices daquela luta. “Perpétuo”, faixa que dá nome à tour, ressoou quase como um manifesto de sobrevivência.

Entre o pogo e a consciência

O público não parava: rodas se abriam, punhos se erguiam, vozes ecoavam. Era pogo e catarse, mas também consciência. Em canções como “Provérbios” e “Revolução é o Caos”, a banda reforçava seu lugar de porta-voz de uma cena que não se contenta com riffs bem tocados, mas que exige discurso, contexto, atitude.

Afiados e necessários

O Black Pantera está no auge. Não apenas tecnicamente — porque o trio soa ajustado como uma engrenagem de aço — mas politicamente, no sentido de urgência que suas músicas carregam. Eles sabem o peso que têm e sabem como usá-lo.

E o Opinião respondeu à altura: 900 pessoas transformadas em uma só voz, em uma só vibração.

Encerramento catártico

O show terminou com “Boto pra Fuder”, coroado pela entrega de uma plateia que não arredava o pé. Mais do que aplausos, havia ali um sentimento coletivo de pertencimento. Porto Alegre entendeu, mais uma vez, que o Black Pantera não é apenas uma banda — é um movimento.