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Album Review: Sigilo / Luxúria de Lillith – Sermão, por Alma Mater Records
Sigilo e Luxúria de Lillith estabelecem uma ponte sombria entre Portugal e o Brasil, onde duas abordagens distintas ao género convergem numa mesma liturgia sonora. Sermão impõe-se assim como um encontro de forças, um manifesto transatlântico que ecoa tanto tradição como renovação dentro das entranhas do black metal.
Há discos que surgem discretamente, e há outros que parecem erguer-se como um presságio. Sermão pertence claramente à segunda categoria. Lançado a 15 de agosto de 2025 pela Alma Mater Records, com estreia digital a 25 de julho, este split não é apenas mais uma edição no circuito underground: é um marco simbólico que assinala a primeira incursão da editora no black metal, carregando consigo um peso quase ritualístico. Nesta união, Sigiloe Luxúria de Lillith estabelecem uma ponte sombria entre Portugal e o Brasil, onde duas abordagens distintas ao género convergem numa mesma liturgia sonora. Sermão impõe-se assim como um encontro de forças, um manifesto transatlântico que ecoa tanto tradição como renovação dentro das entranhas do black metal.
Idealizado como uma descida às zonas mais sombrias e espiritualmente densas do black metal, Sermão carrega consigo um peso conceptual reforçado pelo próprio Fernando Ribeiro (CEO Alma Mater Records) , que sublinha a importância histórica do lançamento para a editora, por ser o seu primeiro registo Black Metal. Este trabalho afirma-se como um manifesto de intenções: cru, agressivo e imbuído de uma atmosfera ritualística.
De um lado, Sigilo surge como a mais recente encarnação criativa de Selvmord, abrindo o split com 4 composições que funcionam como prenúncio do seu próximo álbum de estreia Gloria ad Inferi. Do outro, Luxúria de Lillith, projeto veterano liderado por Alysson Drakkar, traz décadas de experiência e uma identidade já bem cimentada, explorando temáticas ocultistas e vampíricas com uma abordagem feroz e cantada em português. Assim, Sermãoapresenta-se desde logo como mais do que um split tradicional: é um encontro de caminhos, gerações e geografias dentro do black metal, carregado de simbolismo e ambição.
SIGILO
A primeira metade do álbum fica a cargo do projeto mais recente, Sigilo. Sem qualquer tipo de introdução suave, o split arranca de forma imediata com The Lurking Evil, que entra a rasgar desde o primeiro segundo. A melodia inicial da guitarra instala-se rapidamente no ouvido, criando uma base envolvente que logo é interrompida por uma investida mais crua e agressiva. Ainda assim, nem tudo é velocidade constante: a faixa revela uma dinâmica interessante, alternando entre momentos de fúria e pequenas pausas estratégicas. Essas breves passagens melódicas permitem respirar e evidenciam um lado mais atmosférico do black metal de Sigilo, acrescentando profundidade à composição.
O segundo tema, Preliminary Invocation, cumpre na perfeição aquilo que o título promete: soa verdadeiramente como um ritual de invocação. Desde os primeiros instantes, a faixa apresenta uma dinâmica cativante, oscilando entre explosões de violência e passagens mais melódicas, criando uma tensão constante que mantém o ouvinte preso. A voz surge aqui com uma abordagem um pouco distinta, mais rasgada, quase em agonia, transmitindo uma sensação de desespero sufocante que reforça o carácter ritualístico da composição. Há ainda momentos particularmente marcantes em que surge uma narração, como se ecoasse das profundezas de um poço, acrescentando uma camada extra de inquietação. Esses trechos intensificam uma atmosfera claustrofóbica e opressiva, fazendo crescer um sentimento de desconforto que, paradoxalmente, se torna cativante.
Somber Prayer for the Ostracized inicia-se de forma aparentemente mais leve, no entanto, essa leveza dura pouco: rapidamente a bateria irrompe com intensidade e devolve-nos à velocidade e crueza características do black metal de Sigilo. A partir daí, a faixa desenvolve-se com uma agressividade constante, equilibrada por melodias marcantes que se infiltram facilmente na memória. São precisamente esses pequenos apontamentos melódicos que voltam a demonstrar que Sigilo não se limita a fórmulas previsíveis ou clichés do género. Há um cuidado evidente na construção dos temas, com variações subtis que enriquecem a audição sem quebrar a fluidez. Tudo parece surgir no momento certo, com uma naturalidade quase instintiva, mas por detrás dessa sensação está uma estrutura bem pensada e longe de ser óbvia.
Universal Gathering Chantic encerra a participação de Sigilo neste split e serve como uma síntese poderosa daquilo que o projeto tem vindo a construir ao longo das faixas anteriores. Os blast beats impõem-se desde o início, dando imediatamente um carácter intenso e distinto ao tema, enquanto os riffs iniciais se destacam pela sua abordagem pouco convencional (há aqui algo de inesperado, quase fora dos padrões habituais do género) que acaba por soar refrescante. Os vocais, cavernosos e carregados de força, entram em cena para reforçar essa densidade sonora, e a música desenvolve-se como uma amálgama coesa de elementos que, apesar da diversidade, se encaixam de forma orgânica. É, no entanto, na reta final que a faixa revela um novo lado de Sigilo: a introdução dos teclados neste tema acrescenta uma dimensão mais dramática e quase cerimonial, elevando a atmosfera a um outro nível. Este detalhe final não só enriquece o tema como também deixa uma impressão duradoura, funcionando como uma despedida marcante desta primeira metade do split antes da transição para o universo de Luxúria de Lilith.
Sigilo
LÚXURIA DE LILLITH
Assim que soam os primeiros segundos de A Testemunha do Mal, torna-se imediatamente claro que estamos perante uma mudança de universo, de linguagem e de identidade sonora. Se a instrumentação inicial já sugere essa transição, é com a entrada da voz que a separação se torna definitiva: deixamos para trás o mundo de Sigilo e entramos plenamente na estética de Luxúria de Lilith. Aqui, o uso da língua portuguesa destaca-se de imediato, reforçando a diferença e dando uma identidade própria ao tema. A estrutura musical assume contornos mais definidos e diretos, podendo até parecer mais acessível à primeira audição, embora isso não signifique qualquer perda de intensidade ou interesse. Pelo contrário, há uma clareza intencional na construção que dá espaço para que cada elemento respire e impacte de forma mais consciente. Os vocais surgem extremamente rasgados, carregados de expressão e violência emocional, enquanto o ritmo se torna mais contido e pesado, com um pulsar constante e bem marcado. Esta nova abordagem cria uma atmosfera mais ritualística e densa, estabelecendo desde logo a identidade distinta de Luxúria de Lilith dentro do split.
Coração de Dragãoabre com uma forte presença sinfónica, introduzindo de imediato uma nova dimensão sonora dentro do split. Esta camada orquestral mantém-se ao longo de toda a faixa, funcionando como um pano de fundo constante que amplia a grandiosidade e a densidade emocional da composição. Os vocais acompanham essa evolução com um crescendo notável de intensidade, tornando-se progressivamente mais expressivos e carregados de emoção. Ao longo dos seus cerca de quatro minutos, a sensação transmitida é a de um aumento contínuo de tensão, como se o sufoco e o desespero fossem crescendo sem nunca encontrar verdadeira resolução. O resultado é uma faixa profundamente envolvente, onde a componente sinfónica e a agressividade vocal se entrelaçam de forma dramática e coesa.
Nosferatos surge com uma introdução mais contida, marcada por uma melodia de guitarra subtil, um coro distante e um pulsar lento, mas profundamente cavernoso. Desde logo, a faixa estabelece uma atmosfera mais sombria e ritualística, como se estivéssemos a entrar num espaço mais profundo e cerimonial dentro do universo de Luxúria de Lilith. A intensidade vocal e o caráter dramático que já se faziam sentir na faixa anterior são aqui ainda mais reforçados, dando a sensação de que um novo patamar estético é alcançado. É como se esta composição desbloqueasse uma nova camada dentro do projeto, mais melódica, mais densa e menos acelerada, mas nem por isso menos impactante. Apesar da redução de velocidade, a faixa mantém-se profundamente envolvente, apostando na construção atmosférica e na carga emocional para prender o ouvinte. O resultado é um tema mais introspectivo e opressivo, que expande o universo de Luxúria de Lillith com uma abordagem mais madura e imersiva.
Aos Filhos de Asmodeus é a faixa mais curta do split e assume-se claramente como um ritual de invocação condensado. Ao longo dos seus dois minutos, a sensação dominante é a de estarmos a assistir, ou a participar, num momento cerimonial intenso, quase claustrofóbico, onde tudo é reduzido ao essencial para potenciar o impacto. A composição baseia-se na repetição do mesmo texto, um recurso que reforça deliberadamente o carácter hipnótico e ritualístico do tema. Essa insistência cria um efeito de transe, como se o ouvinte fosse gradualmente absorvido pela própria invocação.
Já perto do final do split, surge Asmodeus, quase como uma continuação natural da faixa anterior. O que mais se destaca aqui, e que confere ao tema uma identidade verdadeiramente singular dentro do trabalho, é a forma como os coros são utilizados, recorrendo a vozes limpas, profundas e graves, que acrescentam uma dimensão quase litúrgica à composição. Neste tema, encontramos uma espécie de síntese do universo de Luxúria de Lillith: todos os seus elementos característicos parecem concentrar-se aqui, mas reorganizados numa estrutura mais instável e imprevisível. Essa abordagem reforça a sensação de inquietação e mantém o ouvinte constantemente à espera do que pode surgir a seguir, tornando a experiência mais dinâmica e envolvente.
Negras Chuvas de Sangue encerra o split de forma intensa e marcante, funcionando como uma conclusão à altura de tudo o que foi apresentado até aqui. A faixa começa de forma inesperadamente melódica, com um piano que introduz uma atmosfera mais contida e solene, apenas para rapidamente dar lugar a uma explosão de peso, com blast beats e guitarras rasgadas que reinstalam a agressividade característica do universo de Luxúria de Lillith. Um dos elementos mais distintivos deste projeto, e que aqui volta a destacar-se, é a presença de batidas bem marcadas e quase hipnóticas, que conferem ao tema uma energia estranhamente dançável, sem nunca perder a sua densidade sombria. Essa dualidade entre ritmo e brutalidade cria uma dinâmica muito própria dentro da faixa. No clímax, o último grito a entoar “Negras Chuvas de Sangue” surge como um ponto de viragem, imediatamente seguido pelo regresso dessa pulsação rítmica e envolvente. É então que a composição se dissolve gradualmente, dando lugar a um coro de tonalidade quase angelical em fade out, que afasta o ouvinte de forma subtil e melancólica. O resultado é um final que não só encerra o tema, como também deixa uma marca persistente, quase como um eco que permanece após o término do split.
Luxúria de Lillith
No conjunto, o split apresenta dois projetos que, embora distintos na sua linguagem e abordagem, se encontram num mesmo ponto de intensidade e visão artística. Sigilo surge como a mais recente manifestação da longa dedicação de Selvmord ao black metal, um projeto que nasce como uma espécie de continuação e refinamento de um percurso já iniciado em projetos anteriores como Mournkind. Aqui, há uma sensação clara de propósito e direção, como se cada composição fosse canalizada com um objetivo definido, funcionando não apenas como expressão musical, mas como veículo de algo mais profundo e inevitável. Do outro lado, Luxúria de Lillith traz consigo décadas de experiência e uma identidade já profundamente consolidada, marcada por uma exploração contínua de temas como ocultismo, vampirismo e a condição humana. A sua presença no split acrescenta uma camada de maturidade e ferocidade distinta, reforçada pelo uso da língua portuguesa e por uma abordagem mais ritualística e teatral.
Juntos, os dois projetos complementam-se, criando um diálogo entre duas formas diferentes de entender e expandir o black metal contemporâneo. Apesar das diferenças evidentes, há um fio condutor comum: a capacidade de criar ambientes hipnóticos e emocionalmente intensos, que absorvem o ouvinte do início ao fim. O split não funciona apenas como uma justaposição de estilos, mas sim como uma viagem progressiva por diferentes formas de expressar o sombrio dentro do black metal, deixando uma impressão final de unidade dentro da diversidade apresentada.
Alinhamento:
1- Sigilo – The Lurking Evil;
2- Sigilo – Preliminary Invocation;
3- Sigilo – Somber Prayer for the Ostracized;
4- Sigilo – Universal Gathering Chantic;
5- Luxúria de Lillith – A Testemunha do Mal;
6- Luxúria de Lillith – Coração de Dragão;
7- Luxúria de Lillith – Nosferatos;
8- Luxúria de Lillith – Aos Filhos de Asmodeus;
9- Luxúria de Lillith – Asmodeus;
10- Luxúria de Lillith – Negras Chuvas de Sangue
Bandas: Sigilo & Luxúria de Lilith Label: Alma Mater Records Data de Lançamento: 15 Agosto 2025 Estilo: Black Metal