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Numa noite de verdadeira turbulência, os Toxikull apresentaram o seu novo álbum "Turbulence" na invicta e provaram, mais uma vez, que o heavy metal português está num patamar de excelência.
Na noite de 25 de abril, o Porto vestiu-se de resistência e celebração para assinalar mais um Dia da Liberdade, mas, no subsolo vibrante da cidade, houve um palco onde essa liberdade ganhou forma em distorção, atitude e comunhão. O Woodstock 69 Rock Bar foi o epicentro de uma tripla celebração: da música underground, da energia crua do metal nacional e da aguardada apresentação de Turbulence, o novo álbum dos enormes do Heavy Metal português, os Toxikull.
Com um alinhamento que reuniu os Yaatana e os Toxik Attack como bandas de abertura, a noite prometia intensidade, e cumpriu. Viveu-se um verdadeiro manifesto sonoro, onde a liberdade se expressou em cada acorde e cada headbanging.
Toxikull, por @catiasousacts
Bem antes da hora marcada para o início dos concertos, já o espaço se encontrava cheio de malta que fez questão de estar presente desde a primeira banda. Num ambiente de expectativa e camaradagem, o Woodstock 69 Rock Bar pulsava com conversas animadas, copos erguidos e olhares fixos no palco ainda vazio, como quem sabe que está prestes a testemunhar algo especial. Era o reflexo de uma comunidade que valoriza cada momento ao vivo, especialmente numa noite que cruzava celebração histórica, espírito underground e a promessa de novas sonoridades a serem reveladas.
YAATANA
A abrir a noite, os Yaatana trouxeram consigo uma lufada de ar fresco e surpreendentemente jovem ao palco. Foi impossível não notar a quantidade de público mais novo que encheu o recinto desde cedo, muito por influência direta da banda. Num panorama onde tantas vezes se questiona o futuro do metal, os Yaatana surgem como uma resposta clara: há uma nova geração pronta para pegar no legado e levá-lo mais longe. Estão a moldar mentalidades e a reacender o interesse pelo género junto de quem agora começa a descobrir este universo, e isto foi perfeitamente notável durante esta atuação.
Se há algo que normalmente marca o início de um concerto é aquela timidez inicial de um público ainda a aquecer motores, mas aqui isso simplesmente não aconteceu. Desde o primeiro riff, a reação foi imediata: mosh constante, headbanging sem tréguas e uma energia contagiante que raramente se vê logo de entrada. A interação foi total e espontânea, criando um ambiente eletrizante que rapidamente elevou a fasquia para o resto da noite. Para quem já percorreu inúmeras salas de concertos, este arranque fica facilmente registado como um dos mais intensos e genuínos de sempre.
Em palco, os Yaatana demonstraram uma maturidade técnica impressionante para a sua curta trajetória (formados em 2023). Há um conforto e uma segurança pouco comuns, com uma execução sólida em todos os elementos: vocais poderosos e versáteis, guitarras que surpreendem com solos bem trabalhados e uma secção rítmica implacável, rápida e precisa. Quatro jovens que sabem exatamente ao que vêm, com uma identidade bem definida, uma ambição clara e uma execução surpreendentemente segura, e é precisamente por isso que têm vindo a conquistar, de forma consistente, cada vez mais palcos por todo o país. Longe de serem apenas mais uma promessa, afirmam-se como uma presença sólida no circuito nacional, justificando plenamente a crescente atenção e reconhecimento que têm vindo a receber dentro da cena.
Um dos momentos mais altos do concerto surgiu com Blood of Lusitânia, uma verdadeira declaração de intenções que sintetiza o espírito da banda, antes de fecharem com o irreverente Thrash Dead, recebido em uníssono pelo público. Entre grunhidos inesperados e uma entrega total, ficou claro que os Yaatana não são apenas uma promessa, mas sim uma força viva do underground nacional, com tudo para garantir o futuro do metal em Portugal.
Yaatana, por @catiasousacts
Setlist: 1- Hatred; 2- Comboios de Portugal; 3- Nt-Control; 4- War; 5- Amnesia; 6- Riot Attack; 7- Arma nuclear; 8- Deadly Chamber; 9- OBEY; 10- Blood of Lusitania; 11- Thrash Head.
TOXIK ATTACK
Manter o nível e a intensidade depois de um arranque tão explosivo poderia parecer uma tarefa impossível, mas não para os Toxik Attack. Com o seu thrash metal old school / speed metal sempre no limite, entraram em palco com o pé cravado no acelerador e assim permaneceram do início ao fim. A resposta do público, já totalmente envolvido, foi imediata, com uma plateia fiel, conhecedora dos temas, que acompanhou cada momento como se de um ritual se tratasse, garantindo que a energia nunca caía.
Musicalmente, a banda entregou exatamente aquilo que prometeu, e mais. Riffs orelhudos, daqueles que ficam colados à memória, aliados a uma prestação vocal poderosa e versátil, capaz de oscilar entre registos graves e agudos com naturalidade. O baixo destacou-se pela sua presença musculada, acrescentando uma densidade extra aos temas, enquanto a bateria, rápida e implacável, não dava espaço para respirar. Foi uma verdadeira viagem às raízes do thrash e speed, com uma execução segura e um profissionalismo que reforçam a identidade da banda dentro do género.
Nem mesmo um problema técnico já perto do final conseguiu quebrar o ritmo da atuação. Durante a pausa, bateria e baixo mantiveram o público ativo, num momento espontâneo que acabou por reforçar ainda mais a ligação entre banda e audiência. Resolvida a situação, tudo regressou à intensidade máxima, e antes do último tema houve ainda espaço para assinalar o simbolismo da data, o Dia da Liberdade, celebrado da melhor forma possível: com metal underground em estado puro.
Longe de mostrar sinais de cansaço, o público continuou a vibrar até ao último acorde, provando que o espírito do old school thrash / speed continua bem vivo na Invicta.
Toxik Attack, por @catiasousacts
Setlist: 1- Thrash Maldição; 2- Seita do punhal; 3- Assassínos em série; 4- Chainsaw massacre; 5- Sanguinário; 6- Prazer de matar; 7- Loucos pelo old school; 8- Pentagrama de sangue.
TOXIKULL
Antes dos Toxikull subirem ao palco, houve ainda espaço para um dos momentos mais marcantes e emotivos da noite. Ao som de Grândola, Vila Morena, o ambiente transformou-se por completo: punhos erguidos, vozes em uníssono e uma sensação coletiva de respeito e celebração tomaram conta da sala. Foi um instante arrebatador que ligou a música à história, lembrando a força simbólica daquele dia e tudo o que ele representa.
Quando finalmente chegou o momento mais aguardado da noite, o ambiente já fervilhava, mas nada poderia preparar totalmente o público para o que aí vinha. Logo na Intro, o aviso foi claro: “preparem-se para turbulência”, e assim foi … Os Toxikull entraram em palco com uma autoridade avassaladora, transformando imediatamente o Woodstock 69 Rock Bar num verdadeiro campo de batalha sonoro. A sala, completamente cheia, respondeu à altura, com um mar de gente em ebulição, pronto para cada riff, cada grito e cada explosão de energia que se seguiria.
Toxikull, por @catiasousacts
O alinhamento foi uma combinação perfeita entre passado e presente, unindo clássicos já enraizados na memória dos fãs com os temas mais recentes de Turbulence. Curiosamente, os novos temas soaram tão familiares como os antigos, naquilo que encaro como um sinal claro da sua força e impacto imediato. Dragon Magic,Midnight Fire e outros momentos do novo álbum encaixaram na perfeição, revelando-se verdadeiros hinos de heavy metal que dificilmente saírão das setlists tão cedo. Há ali qualquer coisa de intemporal, uma capacidade rara de criar músicas que colam ao ouvido desde a primeira audição.
No centro de tudo isto, Lex Thunder mostrou, uma vez mais, porque é uma das figuras mais marcantes do metal nacional, e facilmente comparável a nomes do panorama internacional. A sua presença em palco é absolutamente magnética, uma postura animalesca, intensa e contagiante, que eleva cada tema a outro nível. A voz? Incomparável, absolutamente segura e potente, bem como o seu domínio das cordas. Mas reduzir os Toxikull ao seu frontman seria injusto. A guitarras afiadas de Michael Blade, o baixo pulsante de Infernando e a bateria demolidora de Tommy 666, formam um coletivo que está, sem sombra de dúvidas, entre o melhor que se faz em Portugal.
Já na reta final, e com a energia da sala ainda em níveis absurdos, houve espaço para uma homenagem que elevou ainda mais o momento. Ao som de Stand Up and Shout, deDio, Lex largou a guitarra e entregou tudo o que lhe restava, e mais ainda. Foi um encerramento explosivo, catártico, digno de uma noite que celebrou não só um álbum, mas toda uma cultura. No fim, ficou claro de que o heavy metal está mais vivo do que nunca, e que os Toxikull são, sem dúvida, uma das suas maiores forças.
Toxikull, por @catiasousacts
Setlist: Intro; 1- Turbulence; 2- Strike Again; 3- Metal Defender; 4- Night Shadows; 5- Dragon Magic; 6- Hard to Break; 7- Around the world; 8- Cursed and Punished; 9- Midnight Fire; Encore; 10- Stand Up and Shout (Cover).
No final da noite, a sensação que fica foi de que se viveu uma comunhão rara, quase física, entre bandas e público. Estar num evento focado em thrash e heavy metal é sempre diferente: há uma energia mais crua, mais direta, menos distante e muito mais participativa. Punhos erguidos, vozes em uníssono, mosh constante e uma entrega coletiva que transforma cada música num momento partilhado e não apenas assistido. Longe de qualquer frieza, viveu-se uma atmosfera de batalha sonora e celebração conjunta, onde todos pareciam fazer parte da mesma coisa.
Esta noite provou, sem margem para dúvidas, que o metal continua vivo, pulsante e cheio de força em Portugal. Do sangue novo dos Yaatana à consistência dos Toxik Attack, culminando na imponência dos Toxikull, tudo convergiu para uma celebração completa do metal em todas as suas formas. Resta agradecer a todas as bandas pela entrega total, ao público pela energia inesgotável e ao espaço por acolher uma noite que certamente ficará na memória de quem a viveu.