O universo do black metal atmosférico continua a revelar projetos profundamente pessoais e imersivos, e poucos exemplos recentes são tão intrigantes quanto Maria of Copper Mountains. Liderado pela multi-instrumentista e compositora Maria Azanova, este projeto destaca-se não só pela sua identidade sonora melancólica e expansiva, mas também pela sua natureza quase solitária e introspectiva.

Lançado a 16 de abril de 2026, В чёрны омуты (traduzido como Into the Black Pools) surge como mais um mergulho profundo no universo emocional e atmosférico criado por Maria Azanova. Editado numa colaboração entre Satanath Records e Afterlight Records, o álbum carrega consigo o peso de uma estética sonora bem definida e uma visão artística muito pessoal.
O álbum abre com Ой, не кукушечка e, desde os primeiros instantes, delimita um território sonoro onde a melancolia deixa de ser abstrata para se tornar palpável. Uma névoa emocional densa instala-se e envolve tudo, enquanto a voz de Maria Azanova emerge como uma presença fantasmagórica, etérea, delicada, mas atravessada por uma inquietação subtil que a torna profundamente hipnótica. A composição desdobra-se como um ritual de invocação, iniciando-se num registo atmosférico de ressonâncias ancestrais, apenas para rapidamente se transfigurar num crescendo abrasivo, onde cada elemento parece empurrar o outro para o colapso. Quando as passagens de black metal irrompem, com tremolo picking cortante e guitarras que se erguem como paredes em clausura, o ouvinte já está completamente submerso, preso no interior desta espiral sonora. Ao longo do tema, percorremos os múltiplos universos de Maria Azanova com uma fluidez quase onírica, do etéreo ao folk, do contemplativo ao visceral, sem nunca quebrar a coerência emocional. O resultado é um ambiente densamente saturado, que inquieta, consome e, acima de tudo, prepara o espírito para uma descida ainda mais profunda nos abismos que o álbum promete explorar.
Em Святки, Maria of Copper Mountains empurra-nos deliberadamente para um abismo. A faixa abre como um portal para um vazio escuro e insondável, onde os elementos atmosféricos e black/post-black metal ganham maior protagonismo, mas nunca à custa da componente folk e ambiental que continua a dar identidade ao projeto. Mais uma vez, é na voz que reside o verdadeiro feitiço: Azanova pode não ter a imponência de um “vozeirão” tradicional, mas surpreende com um timbre singular: frágil, quase angelical, e ao mesmo tempo profundamente viciante, infiltrando-se nos sentidos de forma silenciosa mas irreversível. Quando os vocais rasgados de Nikita Sapogov surgem, rasgam também a própria atmosfera, introduzindo uma dualidade que se tornará central ao longo do álbum: beleza e violência, luz e asfixia. Já na reta final, a entrada de um instrumento de matriz folclórica abre uma janela, transportando-nos para paisagens gélidas e vastas da Rússia, onde a voz limpa de Azanova paira como um eco distante. Por esta altura, qualquer dúvida dissipa-se: estamos perante uma obra que se experiencia profundamente.


