
Tivemos o privilégio de ouvir o novo álbum da banda Blindead 23, que será lançado no dia 22 de maio deste ano pela Peaceville Records. Tenho a complexa missão de tecer algumas linhas sobre o trabalho de estreia desta nova fase do antigo Blindead.
Para (tentar) entender o novo álbum a partir da visão desta redatora, um alerta se torna necessário: a experiência não é apenas auditiva. Se você, assim como eu, também se entrega quando está ouvindo algo, saiba que aqui a jornada é também sensorial e emocional! Novamente, explicar o tipo de som que a banda faz é quase impossível, pois não há definição estrita; é algo totalmente EXPERIMENTAL, com influências que transitam dentro e fora do Metal. Olhando a trajetória da banda como um todo, nenhum álbum do Blindead é igual ao outro.
Diferente da análise prévia feita do single “Deuterium” em fevereiro (leia aqui), e ao buscar outras percepções, realizei pesquisas mais “frias” e assim criar a minha própria. Como por exemplo, buscar o significado da palavra Deuterium, que segundo o site Science Direct, o nome refere-se ao segundo isótopo de hidrogênio a ser identificado — uma espécie de “hidrogênio pesado”, já que possui um nêutron extra em seu núcleo.
Não tentarei explicar química nesta resenha (até porque sou da área de humanas e tenho verdadeira aversão a exatas), entretanto, realizando uma analogia, o conceito não poderia ser mais perfeito: o Blindead 23 nada mais é do que o “segundo Blindead”. Ou seja, um Blindead mais pesado e que possui um elemento a mais em seu núcleo. Aqui, esse elemento pode ser único ou um somatório de fatores: composição, músicos convidados, densidade instrumental e o peso da própria alma da banda. Talvez algum leitor apaixonado por exatas adoraria explicar isso através de uma fórmula, mas fiquemos com a música.

O álbum abre com “Immersion I“. O trecho “Have I gone deaf?” (“Fiquei surdo?”) funciona como a metáfora perfeita para o desligamento do mundo externo e convida a um momento de introspecção necessário para a atmosfera imersiva que virá. O solo denso de piano faz você submergir, preparando o terreno para uma música que traz força não apenas nos guturais, mas em guitarras potentes e uma linha de baixo muito presente.
Em seguida, temos “Immersion II“. O rito iniciado anteriormente torna-se mais profundo e letárgico. A letra traz uma ideia de tempo descrita como cinza e inexistente, enquanto o instrumental carrega uma fúria inicial que desperta uma força interna única. A variação entre o vocal limpo e o gutural é belíssima, soando como um confronto (doloroso) consigo mesmo; enquanto o vocal lírico te faz flutuar, a brutalidade te puxa para o fundo. O destaque vai para as influências rítmicas: temos o peso dos pedais, mas com uma levada “quebrada” (característica do progressivo) que gera uma sensação constante de movimento. Ao final, a partir do sétimo minuto, o instrumental domina completamente, silenciando em um “vazio” absoluto.
É curioso como, na mesma música, pensamos em “Banda A” e, logo depois, no “Vocalista B”. A terceira faixa, “Wither“, traz esse sentimento. Com um andamento rítmico totalmente ‘quebrado’, a música remete fortemente ao Opeth. Ao entrar o vocal, é imediato pensar: “Åkerfeldt, é você?”. Até a letra — “I must pass through the throes/To recompose” — indica a necessidade de passar pela dor para se reconstruir. Mas então surge a identidade do B23: você até lembra de outros artistas, mas a banda possui um DNA tão peculiar, que você bate o martelo categoricamente. A voz de Patryk Zwoliński possui um drive e uma técnica carregada de sentimento que raros vocalistas no Metal conseguem proporcionar. Não há previsibilidade aqui sobre o andamento das músicas, ao contrário do que ocorre em outros gêneros, como no metal melódico.
Em “Worst Laid Plans“, as batidas de pedais da bateria são mais secas, deixando um pouco de lado a uniformidade orgânica para flertar com a velocidade e a técnica do Death Metal Técnico. Ligando esta sensação à letra, é como se fosse o som da mente questionando suas próprias convicções. E sabemos que dificilmente nossa mente ‘suaviza’ esse tipo de situação.
Já em “Deuterium” (faixa-título), conforme escrito anteriormente, encontramos um monumento que molda sentimentos e transmuta o colapso mental em estabilidade sonora. A analogia química ganha ainda mais peso nas letras, onde a banda menciona explicitamente o ato de “treading heavy water” (pisar em água pesada). É a representação perfeita da luta para se manter à tona e não afundar sob o peso das próprias escolhas e da densidade sonora que o álbum apresenta. Entretanto, contextualizando a faixa dentro da obra como um todo, ela surge com um punch de fúria que faz o coração saltar do peito — um contraste magistral no meio do disco. Se isolada ela já era monumental, aqui serve como o ponto de ignição, a “reação química” que justifica o peso extra no núcleo desse novo Blindead, definindo de vez a rota experimental da banda.
A penúltima faixa, “Towards The Dark” traz uma obscuridade combinada com uma leveza progressiva: você decide seguir em frente, mesmo que este caminho seja para a escuridão, mas não como um fim, e sim como um destino necessário. Os sintetizadores criam um contexto de penumbra fascinante, culminando em uma pegada quase “pop moderna” que se conecta perfeitamente à essência experimental da banda.

Por fim, “You Are The Universe” possui um balanço que me fez sentir abraçada pela melodia. A progressão das guitarras e do vocal cria uma sensação de “volta” à realidade, mas de forma suave, quase flutuando. A faixa nos lembra que a verdadeira batalha é introspectiva (“War is inside”). O sentimento de acolhimento (o abraço) que a melodia proporciona é o resultado final de aceitar o caos e, como diz a letra, simplesmente mergulhar e “juntar-se à dança”. É o desfecho cósmico onde entendemos que nós somos, de fato, o universo. Por volta do quarto minuto, quando surge o piano, os olhos “ameaçam suar” de tão bela, leve e intensa que é a composição. Nem o “Sorrow” mais profundo da música Burden (Opeth) seria capaz de explicar o sentimento gerado por esta parte final (“Por que choras, Åkerfeldt?”).
A jornada termina onde começou: no vazio absoluto, mas agora preenchido por uma compreensão cósmica da própria dor e renovação. Deuterium é o tipo de obra complexa que exige ser decifrada, sentida e revisitada, pois a cada audição, uma nova camada da alma — e da própria banda — se revela. O Blindead 23 entrega aqui não apenas um álbum, mas construiu um novo paradigma para o experimentalismo contemporâneo dentro do metal e também soa um novo elemento pesado na tabela periódica da música extrema. É denso, é real e, acima de tudo, é inesquecível.
Tracklist:
1.Immersion I
2.Immersion II
3.Wither
4.Worst Laid Plans
5.Deuterium
6.Towards The Dark
7. You Are The Universe
Blindead 23:
Patryk Zwoliński: Vocais
Mateusz Śmierzchalski: Guitarras, synths e piano
Roger Öjersson: Guitarras, keys e backing vocals
Paweł Jaroszewicz: Bateria
Convidados em ‘Deuterium’:
Maciej Janas: Guitarras e piano
Vinne Zwolinski (Vinicius Nunes): Baixo
Stephane Azam: Synths
Nota: 10/10.
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