Sérgio Ciccone (bateria), Guilherme Spilack (guitarra) e Dilson Siud (baixo) – StringBreaker & The StuffBreakers. Foto: Divulgação oficial da banda.

No último dia 14 de abril, foi lançado o mais novo álbum da banda StringBreaker & The StuffBreakers, power trio instrumental do estado de São Paulo. O trabalho sai pelo selo Forest Lab (ao final da matéria, há um link de uma campanha para ajudar na reconstrução do estúdio, tão importante na história musical do país e também da América Latina).

Com o título de Ancient Sorcery, o novo álbum, que já conta com dois vídeos lançados no YouTube, traz a inovação da gravação analógica e uma sonoridade mais orgânica, sem deixar de lado aquele selo de qualidade sonora inquestionável. Ainda nesse sentido, o lançamento do álbum foi feito prioritariamente pela plataforma do YouTube e conta com pré-venda do LP (link ao final da matéria). A intenção de lançar pelo YouTube se dá ao fato de o trio não concordar com a forma como as plataformas de streaming (como Spotify, Deezer, etc.) remuneram e divulgam os artistas — um movimento de resistência que tem sido adotado por diversos músicos, não apenas no Brasil, mas no exterior também.

O álbum inicia com Witchcraft, e aqui encontramos o “puro suco” e a essência da StringBreaker. Para aqueles fãs mais antigos, a faixa vai pescar quase que um pedacinho de cada álbum anterior, porém repaginado. São toques e retoques mais modernos, mas envelopados em uma energia que apenas esse power trio brazuca pode proporcionar.

É interessante observar que bandas instrumentais possuem um certo charme e, eu diria, até uma “certa etiqueta ou grife”. Explico: geralmente, quando vamos ouvir bandas instrumentais, a depender do estilo, as pessoas têm um preconceito velado. Mas com a StringBreaker é diferente. A qualidade técnica da banda é um convite sedutor onde seus ouvidos NUNCA mais serão os mesmos ao término da audição, saindo muito mais refinados e qualificados. E não apenas isso: quando mergulhamos no universo “StringBreakeriano“, a experiência não é apenas auditiva, é visual e realmente conceitual. Faixa a faixa no YouTube, as músicas são explicadas e definidas pelos próprios membros da banda!

Entretanto, como dito por esta redatora em outras reviews, tento, em um primeiro momento, passar o que senti logo na primeira escuta. Ou seja, não leio comentários, contextos, textos ou subtextos previamente; tento transmitir o sentimento cru ao ouvir e a captação subjetiva obtida. Posteriormente, ao pesquisar, muitas dessas percepções coincidem. É importante fazer esse tipo de nota pois penso que as reviews aqui escritas também funcionam como um convite para aqueles que não conhecem o estilo ou a banda, para que se deixem levar pela curiosidade, ouçam, apreciem e desenvolvam a própria crítica!

Mas voltando ao disco: quando vamos para a segunda faixa, Trail Rope, captamos mais uma vez o DNA da String. As linhas de baixo são elaboradíssimas (e me remeteram ao Rush imediatamente), casadas com uma levada na bateria mais “quebrada”, porém digna de qualquer fã, não apenas do Led Zeppelin, mas do bom rock setentista! Contudo, estes ouvidos, ao chegarem mais ou menos aos 2:50, lembraram de um trecho de uma música de uma certa banda de thrash metal — chamo de coincidência musical ou apenas ouvidos viciados, mas isso não tira jamais o brilho da música em que a própria banda assim a define: “o cabo que amarra um Zeppelin. Com claras inspirações na sonoridade de Wired, álbum icônico de 1976 de Jeff Beck e uma evidente influência do Led Zeppelin”.

Quando passamos para Panburulunbundi, preciso comentar: a banda tem certas singularidades (além da genialidade de cada um) e uma delas são as linguagens usadas pelos membros. Essa, certamente, podemos dizer que se trata de um “Spilaquês” (oriunda do guitarrista Guilherme Spilack). É uma música mais aceleradinha e bem anos 70. Mais ou menos pela metade, ela dá uma “quebrada”, mudando totalmente de ritmo e te fazendo fechar os olhos para se permitir viajar, mas logo “voltando ao normal”. E essa costura casa muito bem com o título, porque é uma linguagem (em notas, viradas e harmonias) muito peculiar e particular da própria banda!

Ancient Sorcery, capa do novo álbum da StringBreaker & The StuffBreakers.

Em Elektra Gone Silent, temos uma faixa acústica. Preciso dizer que esta, antes mesmo de eu saber do contexto, além de me remeter imediatamente a “Going to California” do Zeppelin, é uma música que, embora tenha uma melodia linda, possui um “tocar” fortíssimo e potente. Ela fez com que eu me fechasse um pouco em introspecção e serviu como uma introdução quase perfeita para a próxima, The Hopeless Dream of Being. Esta é talvez a mais pesada, meio “No Quarter“, e convenhamos: que emenda maravilhosa! A melodia é belíssima e deu continuidade à densidade da música anterior. No meio da faixa há uma espécie de “pausa eloquente“, e a sensação é a de um duelo: duas mentes dentro de uma só, se chocando e duelando para, ao fim, chegarem a algum acordo.

Back on Track traz, como podemos dizer, a “alegria” após o duelo denso das faixas anteriores! Aqui vemos o rock ‘n’ roll dialogar com algo mais progressivo, porém sem deixar de lado o DNA inconfundível da StringBreaker.

Na sétima música, Cataclysm on Channel 24, o nome e o ritmo são bem sugestivos. Você chega do trabalho daquele jeito, querendo só se jogar no sofá e tomar alguma coisa (refri, água, cerveja, o que seja) para relaxar. Você liga a TV e a sensação é de que tudo fica pior: a cada “zapeada” de canal, é difícil ter algo bom ou alguma notícia positiva, e nos vemos cercados de tragédias cotidianas, não conseguindo relaxar de fato. Em uma pequena nota pessoal, aqui senti uma pegada melodiosa “à la Dream Theater“, então nem preciso dizer o quanto, aos meus ouvidos, ficou maravilhoso em todos os aspectos!

A próxima, Aftershock.Fallout.Wasteland., é uma “balada intimista” linda, suave, mas profunda, que nos brinda com um solo de bateria INACREDITÁVEL. É quase um “Moby Dick invertido” — neste caso, não são 18 minutos, possui um andamento mais lento, mas de uma intensidade insana! É para fechar os olhos e se transportar para aquele lugar seguro que só você sabe o endereço. Funciona perfeitamente também para quem gosta de pegar a estrada! Essa me pegou de uma forma inexplicável. Por alguma razão, a sutileza harmônica, a leveza “baterística” e um baixo conduzido com extrema suavidade criaram a união perfeita dos três elementos. Essa simbiose abraçou e deixou o órgão que bombeia o sangue apertadinho, mas no bom sentido. O lado sentimental aqui bateu forte e a composição é maravilhosa!

Trio de São Paulo e seu rock instrumental!

A penúltima música, Flying Fists, volta com aquela pegada mais animada e acelerada da banda. Aqui vemos mais uma faixa que te remete ao DNA puro do trio, com solos e duelos de instrumentos ricos que remetem muito aos antigos trabalhos do grupo.

E, por fim, A.A.R. coroa o trabalho em um fechamento de álbum perfeito. O encerramento aqui é uma verdadeira “volta ao início”: ela se conecta diretamente à primeira música deste primoroso álbum. Mais uma vez, testemunhamos o “puro suco” da banda, uma passagem por trabalhos já gravados e um resumo musical primoroso sobre este álbum. É como se fosse uma “review” interna, trazendo um pedacinho de cada música e fazendo com que você sinta o desejo incontrolável de voltar a ouvir tudo novamente — não apenas este lançamento, mas também os discos antigos!

Sem dúvida alguma, Ancient Sorcery é uma obra de uma riqueza artística ímpar no cenário nacional. Em tempos de produções digitais saturadas e milimetricamente corrigidas por computadores, o StringBreaker & The StuffBreakers entrega uma verdadeira carta de amor à música orgânica, provando que o talento cru gravado na fita analógica ainda é a maior força do rock. Para qualquer bom apreciador de música setentista, rock instrumental de excelência e, acima de tudo, arte da mais alta qualidade FEITA NO BRASIL, este álbum não é apenas uma recomendação: é um item obrigatório que não pode faltar na sua coleção. Permita-se ser enfeitiçado por essa feitiçaria antiga e redescubra o prazer de ouvir música de verdade.

Tracklist:
1.Witchcraft
2.Trail Rope
3.Panburulunbudi
4.Elektra Gone Silent
5.The Hopeless Dream of Being
6.Back on Track
7.Cataclysm on Channel 24
8.Aftershock.Fallout.Wasteland.
9.Flying Fists
10.A.A.R.

StrinBreaker & The StuffBreakers:
Sérgio Ciccone: Bateria
Guilherme Spilack: Guitarra e Violão
Dilson Siud: Baixo

Nota: 10/10.
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