Formada em Minsk em 2015, a Dymna Lotva construiu sua identidade artística a partir de uma Belarus que não aparece como paisagem idealizada, mas como território de memória, feridas históricas, pântanos, aldeias, mortos, literatura e sobrevivência cultural. O próprio nome da banda, associado à imagem de um “pântano em fumaça”, remete às regiões de Paliessie e às marcas deixadas por vilas queimadas e sucessivos ciclos de violência. Desde o início, Nokt Aeon e Jauhien Charkasau buscaram nas lendas, na literatura, na história, na língua bielorrussa e em tradições pagãs uma matéria para compor algo que ultrapassasse a simples ornamentação folclórica. Nesse universo, cultura e território nunca funcionaram apenas como cenário: são parte da própria estrutura da Dymna Lotva.
Essa relação já estava presente em The Land Under the Black Wings: Swamp (2016), estreia que transformava os pântanos e a memória da terra natal em matéria obscura, e em Wormwood (2017), atravessado pelo trauma de Chernobyl e pela influência dos testemunhos reunidos por Svetlana Alexievich. Em The Land Under the Black Wings: Blood (2023), a banda aprofundou a dimensão histórica da violência, aproximando memórias da ocupação nazista e dos massacres em Belarus de experiências contemporâneas de guerra e repressão. O folclore, portanto, nunca esteve separado da história: na Dymna Lotva, ambos convivem com os corpos que permanecem depois das catástrofes.
A ruptura política veio de forma definitiva em 2020. A banda participou dos protestos contra o governo de Aliaksandr Lukashenka e passou a sofrer cancelamentos e restrições de apresentações. Nokt, Jauhien e outros integrantes precisaram esconder seus endereços até deixarem o país em 2021. O primeiro refúgio foi Irpin, na Ucrânia; poucos meses depois, a invasão russa de 2022 os colocou novamente diante da guerra e de uma nova fuga, desta vez para a Polônia. A partir daí, aquilo que antes aparecia principalmente como memória histórica e preservação cultural tornou-se também experiência política imediata. Em dezembro de 2025, vídeos da banda foram classificados como “materiais extremistas” pelas autoridades bielorrussas. Em 2026, Nokt passou a responder, in absentia, a acusações formuladas pelo Estado bielorrusso sob cinco dispositivos criminais, com audiência marcada para 14 de agosto. Esse contexto não é detalhe biográfico em Vyraj: é uma das condições que tornam possível compreender o sentido de partida, ausência e retorno que atravessa o álbum.
Lançado em 7 de agosto de 2026 pela Prophecy Productions, Vyraj é o quarto álbum completo da Dymna Lotva e, talvez, o trabalho em que a banda encontra a forma mais elaborada de fundir tudo aquilo que vinha construindo desde o início. Se Blood era frontal, histórico, documental e marcado pela guerra, Vyraj desloca o trauma para uma geografia simbólica. A banda define o conceito do disco como uma espécie de “etnoastronomia bielorrussa”: em tradições eslavas mobilizadas no álbum, o céu estrelado pode ser caminho para o além e também rota de viagem; Vyraj é o lugar mítico para onde as aves migram e onde as almas dos mortos encontram repouso. Para músicos que viveram a emigração forçada, a imagem deixa rapidamente de ser abstrata.
Minha primeira aproximação ao álbum é a de uma espiral do caos mediada por identidade, pertencimento, fuga, dor, política, morte e mortos, memória histórica e a possibilidade de um futuro retorno. Não se trata exatamente de um ciclo, porque cada movimento de volta parece carregar aquilo que foi acumulado anteriormente. Os mortos não ficam para trás, a pátria não permanece intacta, a viagem não conduz necessariamente a uma saída e o retorno pode já não pertencer ao corpo vivo. A identidade funciona como uma linha que impede essa espiral de se dissolver completamente: língua, história, símbolos, cantos, encantamentos e imagens ancestrais permanecem como território portátil quando o território físico se torna inacessível.
Musicalmente, Vyraj mantém o black e o post-black metal como base, mas a Dymna Lotva amplia a passagem por doom, post-metal, heavy, progressivo, elementos góticos, eletrônicos e folclóricos sem que o disco pareça interessado em exibir uma lista de influências. O que chama atenção inicialmente é a mobilidade: peso e agressividade podem se desfazer em ambientes contemplativos; passagens quase rituais são quebradas por explosões de bateria e vocais dilacerados; melodias acessíveis surgem sem eliminar a sensação de desconforto. Nokt continua trabalhando o vocal não apenas como condução melódica, mas como matéria dramática: grito, lamento, fala, invocação e personagem. A sonoridade parece acompanhar a própria ideia da espiral, avançando, recuando e retomando imagens com outra densidade.
Zory abre o disco como uma passagem. A Via Láctea conduz a Vyraj e a letra aproxima viagem, terra estrangeira, casas vazias, mortos e transformação do corpo em natureza. O céu permanece o mesmo enquanto a terra deixa de ser reconhecível, uma oposição simples e potente para um álbum em que pertencimento não depende apenas de fronteiras. A faixa apresenta a dinâmica que será retomada ao longo do trabalho: espaços amplos e atmosféricos, melodia e peso convivendo com a sensação de que alguma coisa está sempre prestes a romper. Em vez de oferecer uma abertura segura, Zory coloca o ouvinte dentro do deslocamento.
Veha aprofunda esse estado ao aproximar prisão e caixão como formas distintas de desaparecimento. A presença de vozes infantis no meio de imagens de demônios, afogamento e ausência cria um contraste incômodo, quase como uma cantiga preservada depois que seu sentido original já foi contaminado por novas violências. Na sequência, The Boat of Despair, com Aaron Stainthorpe, amplia o caráter funerário e teatral do álbum. Inspirada em Laddzia Rospachy, de Uladzimir Karatkevich, a música coloca mortos, barqueiro, dívida e liberdade na mesma travessia. A participação de Stainthorpe não funciona apenas como nome convidado: seu registro grave acrescenta outra presença à cena e reforça a aproximação entre doom, narrativa e ritual.
Em Viedźmieragina, a estrela de Vênus aparece como estrela do lobo, entidade invocada diante da despedida, das sepulturas esquecidas e de um mundo apodrecido que inevitavelmente cairá. É um dos pontos em que o álbum mostra como a política pode existir sem transformar a letra em panfleto: o regime não precisa ser nomeado para que decadência, resistência, memória e necessidade de força adquiram peso político. Niama Darohi leva esse movimento para a experiência do retorno impossível. Não há estrada de volta; restam ossos, madeira apodrecida, cansaço, uma nascente e a insistência de que, apesar de tudo, haverá retorno. A casa já não é apenas um endereço, mas um conjunto de marcas que o tempo e a violência não conseguiram apagar por completo.
Bu Samoje torna essa ligação histórica ainda mais explícita. A composição utiliza Balbuta, língua artificial criada pelo escritor bielorrusso Aĺhierd Bacharevič para Dogs of Europe, obra posteriormente classificada como “material extremista” em Belarus, e incorpora a última Carta de Debaixo da Forca de Kastuś Kalinoŭski, escrita antes de sua execução em 1864. Passado e presente deixam de existir em compartimentos separados: uma voz do século XIX atravessa uma linguagem literária contemporânea censurada, chega a uma banda exilada e reaparece num momento em que sua vocalista também é alvo do aparato repressivo do Estado. A história aqui não é citação erudita; é instrumento de continuidade e confronto.
Ustań Za Mianie leva a guerra novamente para o primeiro plano, confrontando não apenas quem produz a violência, mas também quem observa, silencia e permanece de lado enquanto a casa queima. A oposição entre liberdade tomada e dignidade abandonada voluntariamente é uma das imagens mais duras do álbum, e a sobrevivência das ervas daninhas oferece uma resposta que não tem nada de grandiosa: aquilo que foi considerado indesejado pode ser justamente o que permanece. A Dymna Lotva encontra força nessa permanência imperfeita, distante de qualquer ideia higienizada de heroísmo.
Return My Coffin Home fecha o álbum com mais de oito minutos e concentra sua lógica conceitual. A faixa parte de um encantamento tradicional bielorrusso para proteger viajantes e garantir que retornem vivos ao ninho, cruza referências à canção ucraniana Plyve kacha po Tysyni, associada contemporaneamente aos mortos da Ucrânia, e termina com um pedido que altera toda a ideia de retorno construída pelo disco: se não for possível voltar vivo, que o corpo retorne. A ave migratória de Vyraj encontra aqui o exilado e o morto. A estrada celeste e a estrada para casa tornam-se quase a mesma coisa.
É nesse ponto que Vyraj deixa de ser apenas um álbum sobre emigração ou um trabalho folclórico com moldura política. O disco pergunta o que ainda pode significar pertencimento quando território, corpo, memória e futuro foram separados pela violência. A pátria é desejada, mas nunca idealizada; é também a terra das prisões, das aldeias destruídas, das sepulturas e dos mortos. Da mesma forma, o folclore não oferece fuga confortável do presente. Ele funciona como linguagem para compreendê-lo, transformando estrelas, lobos, pássaros, encantamentos e figuras históricas em instrumentos para falar de repressão, ausência e sobrevivência.
A arte e o layout assinados por Jauhien acompanham essa mesma lógica de travessia. Em Vyraj, o imaginário visual não funciona como um apêndice folclórico, mas como parte de uma cosmologia em que céu, rota, morte e retorno permanecem conectados. O projeto gráfico reforça a passagem entre memória terrestre e orientação celeste, coerente com um disco que utiliza etnoastronomia, mitologia e deslocamento forçado para falar de pertencimento. A capa prepara o ouvinte para um mundo em que o céu pode continuar sendo reconhecível mesmo quando a terra natal se torna inacessível.
Vyraj se apresenta como um trabalho denso e inquieto, capaz de converter o caos sem domesticá-lo. A Dymna Lotva não parece querer ordenar a experiência do exílio em começo, meio e fim; prefere fazê-la retornar em espiral, cada vez mais carregada de mortos, história e vontade de pertencimento. Entre brutalidade e delicadeza, mito e documento, futuro e passado, o álbum encontra sua força justamente onde as fronteiras começam a falhar. Talvez por isso o retorno seja sua imagem mais dolorosa: voltar continua sendo necessário mesmo quando já não existe estrada, e mesmo quando a única certeza possível é pedir que, ao final, ao menos o corpo encontre novamente a sua terra.
Faixas:
- Zory
- Veha
- The Boat of Despair (feat. Aaron Stainthorpe)
- Viedźmieragina
- Niama Darohi
- Bu Samoje
- Ustań Za Mianie
- Return My Coffin Home (feat. Ingvarr)
Formação:
Katsiaryna “Nokt Aeon” Mankevich – vocais, flautas tradicionais e letras
Jauhien Charkasau – guitarras, baixo, teclados e composição
Mikita Stankevich – guitarras e backing vocals
Wojciech “Bocian” Muchowicz – bateria
Participações:
Aaron Stainthorpe (High Parasite, ex-My Dying Bride) – vocais em “The Boat of Despair”
Ingvarr (Schreigarm) – vocais em “Return My Coffin Home”
Déhà – baixo fretless em “Return My Coffin Home”
Deanna F. – harpa em “Veha”
Andrii “Deicider” Sovgar – backing vocals em “Bu Samoje”
Miraslava Palynskaya e Jan Palynski – vozes infantis em “Veha”
Velzevul – backing vocals e efeitos em “Return My Coffin Home”
Balbuta Choir em “Bu Samoje” – Andrii “Deicider” Sovgar, Jan Mačuĺski, Aliaksandr Čarnuha, Jauhien e Mikita
Ficha técnica:
Gravadora: Prophecy Productions
Lançamento: 7 de agosto de 2026
Bateria gravada por: Piotr Nowak no Studio Młyn, Bycina, Polônia
Vocais gravados por: Pavel Sinila no Everest Studio, Varsóvia, Polônia
Guitarras e baixo gravados por: Jauhien no Hata Studio, Varsóvia, Polônia
Arte e layout: Jauhien
Divulgação oficial:
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