Segundo dia de XX aniversario.

De manhã, nos arrumamos rapidamente, depois de algumas horas de sono, já que o ônibus de traslado chega a Alicante por volta das quatro da madrugada; por isso, dormir bem nesses dias não está nos planos! Já prontos, nos juntamos ao grupo no ônibus às três da tarde. Alguns membros do grupo ficaram para descansar, já que a turnê pela Europa havia deixado sua marca, mas não para nós, que, com uma garrafa na mão e um par de Red Bull no corpo, chegamos ao segundo dia do Leyendas del Rock.

CREEPER

Ao chegarmos, aproveitamos o dia para ir à piscina, curtir um pouco o clima, aguentar o calor e nos refrescar, enquanto ouvíamos ao fundo o Creeper, uma banda de pós-punk muito boa que abriu os palcos, repletos de sons sintéticos e com uma ótima acústica. A proposta deles se destacou por ser a única do gênero no line-up e, posteriormente, ganhou mais espaço com a saída de algumas bandas do festival.

MUSHROOMHEAD

Em seguida, o Mushroomhead começou a tocar quando estávamos descendo em direção aos palcos. Uma banda que mudou totalmente seu estilo ao longo do tempo; a primeira vez que os vimos ao vivo, há quase uma década, eles tinham um estilo um tanto genérico, mas agora evoluíram para melhor.

A banda, acompanhada por máscaras de todos os estilos, nos impressionou com um heavy metal industrial controlado, com ritmos lentos, riffs retumbantes e uma voz feminina que acompanhou o grupo durante várias músicas, criando nuances que mudaram o clima. Seu figurino consistia em agasalhos de cor militar e coletes de alta segurança, além de suas máscaras em tons quentes.

O setlist incluiu músicas como “Fall in Line”, “Qwerty” e “Sun Doesn’t Rise”. Na parte mais tranquila, tivemos as faixas “When Doves Cry” e “Among the Crows”, em uma mistura sintética que toca o coração de qualquer metaleiro. O final desse show foi marcado pelas músicas “12 Hundred”, “Empty Spaces” e “Born of Desire”. Nós assistimos à banda das arquibancadas enquanto saboreávamos um pouco da comida do festival.

Entre as opções gastronômicas, havia hambúrgueres, carne assada e cachorros-quentes, embora acreditemos que poderia haver um pouco mais de variedade da culinária tradicional da região, para que os visitantes estrangeiros pudessem experimentar de tudo e não apenas a comida “comum” de qualquer festival. Achamos que a joia entre as barracas de comida foi a de sorvetes, já que vendiam raspadinhas bem saborosas que refrescavam o corpo todo.

NORTHLANE

Já bem alimentados e hidratados, nos acomodamos para a apresentação da banda australiana Northlane, que, no início, estava vestida com trajes completos. No entanto, foram tirando as roupas à medida que a apresentação avançava, devido ao calor intenso do dia.

O metalcore começou a ressoar nos alto-falantes. Uma proposta bem diferente das bandas tradicionais do gênero, já que eles incluem muitos sons de sintetizadores e elementos eletrônicos em suas músicas, acompanhados por riffs pesados e bem posicionados ao longo das faixas.

Os gritos e guturais de Marcus Bridge foram bem executados, embora sua voz limpa pudesse ter sido melhor; talvez o som tenha influenciado um pouco.

Essa parte do festival foi uma montanha-russa, pois enquanto o Mushroomhead animou a galera e fez todo mundo pular, o Northlane nos trouxe de volta à realidade com seu som eletrônico: uma apresentação para ser apreciada com tranquilidade, mesmo com os gritos do vocalista. Vale lembrar que suas músicas falam de superação, catarse e resiliência. Ao encerrar o show, a banda se mostrou satisfeita e agradeceu a todos, tirando uma foto de lembrança.

DARK TRANQUILLITY

Quase imediatamente, os suecos entraram em cena. Pouco podemos dizer sobre uma das bandas que criou o death metal melódico. O Dark Tranquillity chegou com uma vibração muito boa, muito carisma e alegria. Mikael Stanne ficou sorrindo durante todo o show ao lado de seus companheiros, uma combinação que poucas bandas demonstram nos palcos. “The Wonders at Your Feet”, “Unforgivable”, “Cathode Ray Sunshine” e “Atoma” foram as primeiras músicas a agitar os palcos gêmeos do Leyendas del Rock.

Quando menos esperávamos, surgiu uma das músicas favoritas de um redator: “Not Nothing”, uma peça fundamental na evolução da banda, que se manteve firme na construção conceitual de sua música. Essa música contrastou com a época do início do século, já que “Punish My Heaven” veio em seguida no setlist, uma faixa rápida com escalas de guitarra acompanhando cada seção da música, uma das obras-primas do gênero.

Embora o Dark Tranquillity tenha tido apenas uma hora de apresentação, foi mais do que suficiente para percebermos como se faz esse estilo de música. A maneira de tocar, de cantar e de controlar o público não se compara à de nenhuma outra banda de death metal melódico. Assim, a aula de boa música continuou com “Lost to Apathy”, onde os mosh pits marcaram presença.

Duas músicas que o público adora foram tocadas: primeiro “ThereIn” e, depois, para fechar com chave de ouro, “Misery’s Crown”. O público se entregou de corpo e alma e cantou vários versos dessas duas músicas que já se tornaram clássicas.

A banda originária de Gotemburgo elevou muito o nível nessa jornada, encerrando com ovações e aplausos. Nesse momento, o céu também fez sua parte, pois um pôr do sol rosado foi a cereja do bolo dessa apresentação.

GODSMACK

Agora era a vez da banda americana Godsmack. Eles subiram ao palco diante de uma enorme multidão que os aguardava ansiosamente. Era uma apresentação muito esperada, que começou com “When Legends Rise”, uma música para os fãs de futebol americano, seguida por uma música lenta chamada “You and I”, para preparar o terreno.

Pois, na terceira música, a violência tomaria conta do local. “Cryin’ Like a Bitch!!” soou como um soco direto na cara, como se estivéssemos no octógono das artes marciais mistas.

A agitação continuou nesse nível de intensidade. Com músicas como “1000hp”, o caos se instalou: circle pits descontrolados, socos e chutes voando por toda parte. Sem dúvida, o Godsmack apresentou todo o seu estilo americano no palco espanhol.

Um repertório de mais de dez músicas manteve a agitação, a ovação e, quase no final, não poderia faltar a batalha de bateristas. Os trilhos aproximaram as baterias da frente do palco. No palco principal, o duelo começou: Sully Erna contra Mike Mangini, o recém-chegado e ex-integrante do Dream Theater.

Foi um momento eletrizante, em que cada um demonstrou seu talento na percussão, cada um com seu estilo e sua técnica. Não houve vencedor, a não ser o público, que curtiu dois bateristas ao mesmo tempo dando tudo de si, demonstrando técnica e resistência.

Um momento de destaque foi ver esses dois talentos se enfrentando cara a cara, sem piedade. Após essa batalha campal, o show chegou ao fim com “Bulletproof” e “I Stand Alone”, depois que o público pediu mais uma música. Ao terminar a noite, já havia escurecido quase completamente em Villena. O Godsmack agradeceu de todas as formas possíveis e cedeu toda a atenção à banda seguinte.

ARCH ENEMY

O momento alto do festival estava prestes a acontecer. Todos se reuniram em frente ao Dave Mustaine Stage, onde Lauren Hart faria sua primeira apresentação em Villena à frente do Arch Enemy.

Com uma hora e meia de show pela frente, poucos se moveram de seus lugares. Lauren, diante de um grande desafio, interpretou “Yesterday Is Dead and Gone”, da época de Angela Gossow, e depois “The World Is Yours”, da época de Alissa White-Gluz. A reação foi contundente: uma aceitação total por parte do público do Leyendas del Rock.

Com um timbre excepcional, Lauren percorreu todas as épocas do Arch Enemy, mantendo os tons, atingindo as notas e rasgando a voz sem parar enquanto eram tocadas músicas como “Ravenous”, “War Eternal”, “Blood Dynasty” e “My Apocalypse”.

Ela, com uma presença deslumbrante, dominou todo o público, movendo-se de um lado para o outro, enquanto a banda fazia o que sempre faz: reservada quanto à interação com o público, mas com uma técnica instrumental que poucas bandas de death metal melódico possuem.

Agora era a vez das novidades. “To the Last Breath” entrou em cena, e Lauren se sentiu como peixe na água. A seus pés, um público que fez circle pit e rugiu com o calor infernal. Além disso, muitas pessoas fizeram crowdsurfing, e vários participantes sofreram quedas bastante dolorosas. Talvez dar uma olhada no público alemão nesse aspecto melhorasse a experiência desse crowdsurfing em edições futuras… Voltando ao estilo, a banda está em boas mãos com sua nova vocalista.

Outras faixas representativas foram “The Eagle Flies Alone”, “No Gods, No Masters” e “We Will Rise”. Com um setlist de mais de quinze músicas, a banda sueca teve uma das apresentações mais longas no aniversário do Leyendas del Rock.

O clímax do show aconteceu quando o próprio Jesus Cristo fez crowdsurfing pelo meio do público, levando a palavra do heavy metal. “Snow Bound” e o clássico “Nemesis” foram responsáveis por esgotar toda a energia do público de Villena. Um show nota dez, de uma banda que está em uma grande turnê por todos os festivais europeus de verão.

DARTAGNAN

Ao final da apresentação do Arch Enemy, uma grande multidão se retirou para jantar e descansar, já que o dia de death metal tinha sido muito intenso. Mas o festival estava longe de terminar: ainda restavam mais três bandas, que prestaram homenagem à resistência.

O Dartagnan foi o primeiro a subir ao palco. A banda alemã de folk metal, liderada por Ben Metzner, que também é vocalista da grande banda irmã Feuerschwanz, que estará presente na edição de 2027 do Leyendas del Rock.

As bandas alemãs fazem tudo certo: um som de qualidade, uma boa execução e um clima maravilhoso. Ben e sua banda se encarregaram de renovar a energia com folk metal de alta qualidade. O resultado: uma festa pirata total, com álcool por toda parte, gaitas de foles, flautas, bombos e tarolas.

Ao ritmo da língua alemã, foram entoadas “Ruf der Freiheit”, “Feuer & Flamme” e “My Love’s in Germany!”, uma canção de amor que nós, os apaixonados de verdade, entendemos e vivemos com toda a intensidade. A festa atingiu seu auge com músicas como “Wake Me Up”, “Holding Out for a Hero” e “Hey Brother”, reconhecidas por muitos e com um estilo único.

Um dos momentos de destaque foi com “Was wollen wir trinken”, quando Ben desceu do palco e se colocou no meio do público, que o cercou e protegeu. Ao som de sua voz, todos giraram, dançaram e gritaram. Um momento especial que o vocalista realiza em seus shows tanto com o Dartagnan quanto com o Feuerschwanz.

A apresentação favorita deste redator, pois, por um momento, nos encheu daquela energia que se vive na meca do heavy metal e que todo metalhead precisa vivenciar com toda a intensidade. O Dartagnan encerrou com “Mosqueteros”, uma música feita em colaboração com o Mago de Oz, na qual Rafa Blas, o atual vocalista da banda, participa. Nessa ocasião, a música foi cantada inteiramente em espanhol, deixando um sabor muito agradável na boca.

BOLU2 DEATH

Antes de encerrar, fomos para o palco secundário para ouvir um pouco da banda espanhola Bolu2 Death. Ao chegarmos, nos deparamos com outra festa, mas uma hardcore, com todo o estilo extremo que a banda exala, encerrando o palco com toda a família espanhola. O estilo mudou radicalmente em comparação com o que vivemos no palco principal.

O público do hardcore tinha um espaço no meio para dar golpes para todos os lados; nas laterais, as pessoas eram carregadas nos ombros, além de muitos looks de alta qualidade, com meias de rede, maquiagens elaboradas, roupas com pontas e tachas. Um ambiente que poucos compreenderão.

No palco, o Bolu2 Death dava tudo de si, com riffs violentos e rápidos, sinergia entre a banda e uma conexão bastante forte com o público. Uma banda que estará presente em grandes palcos em breve, pois sua qualidade musical e humana está em outro nível. A catarse era palpável, pois os gêneros hardcore sempre ajudam a libertar a alma de todo o mal.

LEPOKA

Ao terminar, voltamos para o jantar e para curtir um pouco mais de folk metal. Agora era a vez do Lepoka, que encerrou o show com um estilo de taberna festiva. Com grandes infláveis ao redor, a banda se encarregou de fazer os últimos piratas beberem.

Assim como o Dartagnan, as músicas dessa banda fizeram o público vibrar e a festa continuar. Uma das músicas que mais apreciamos dessa banda é “A las calles”, uma canção de luta e resistência, um apelo a todos por um mundo mais justo e cheio de igualdade.

Um momento especial aconteceu quando a música “Yo Controlo” foi tocada. Muito confete foi lançado e o circle pit se formou no centro, com a galera correndo bem rápido, para falar a verdade, considerando que já era bem tarde da noite. Temos certeza de que vários deles não acordaram cedo no dia seguinte.

A banda originária de Castelló de la Plana encerrou a noite com chave de ouro, dando continuidade à linha de folk metal deixada pela banda alemã, com músicas repletas de alegria e uma mensagem sobre liberdade e a Palestina livre. A banda se despediu de todos, desejando boa noite a cada um.

Por nossa parte, voltamos para Alicante com os pés em frangalhos!! mas com uma grande satisfação, agradecendo por um dia incrível de death e folk metal. Porque no Leyendas del Rock convergem todos os gêneros musicais: uma mistura que poucos festivais conseguem alcançar. Nos vemos no terceiro dia. Vida longa ao volume brutal.

FOTOS: todas por @photohorus

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