AMANHECER EM ALICANTE

photo by. Ubaldo García. @photohorus

O amanhecer em Alicante foi marcado por um calor intenso, além de uma sensação térmica capaz de desidratar qualquer pessoa não acostumada às terras do Mediterrâneo. Nós, recém-chegados da Alemanha, tivemos um pouco de dificuldade para nos acostumar com o clima, mas já estávamos prontos para curtir um festival espanhol com uma história longa e complexa, forjada ao longo de vinte edições.

Nosso ponto de encontro foi a Plaza Luceros, de onde o ônibus de traslado partiria às 15 horas. Bem pontuais, as portas do ônibus se abriram e os fãs estrangeiros embarcaram. Encontramos pessoas vindas da Austrália, Colômbia, Espanha, Japão e México, todas preparadas para a festa.

Após um trajeto de aproximadamente uma hora, chegamos ao local do evento, onde trocamos as pulseiras e entramos diretamente para recarregá-las e comprar os produtos oficiais: camisetas, copos, cordões e emblemas. Lá tivemos a surpresa de que não havia nenhum emblema relacionado a esta edição, apenas um com o nome do festival. Mesmo assim, compramos para colocar no colete de metal.

TAILGUNNER

Naquele momento, havia pouca sombra nos palcos, por isso muitos participantes se refugiaram sob a tenda, no palco coberto ou foram para a piscina para tentar amenizar o calor. Enquanto isso, nós nos acomodamos para assistir à primeira banda: Tailgunner, o grupo inglês formado em 2018, teve a missão de abrir a comemoração de aniversário do Leyendas del Rock.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Com um estilo bem anos 80, couro, capuzes, tachas e muito heavy rock, a banda impôs sua energia ao público. Com muito ânimo e uma ótima apresentação, sem dúvida tudo indicava que seria um dia maravilhoso em Villena. No bar, as cervejas eram servidas bem geladas, enquanto os integrantes animavam o local, esperando que o sol baixasse um pouco para que mais pessoas se aproximassem da frente dos palcos.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

A Tailgunner foi aplaudida e elogiada, além de receber gritos da plateia. Eles, por sua vez, responderam com riffs sólidos e bons solos de guitarra, confirmando a boa vibração que transmitiram durante sua apresentação.

HELEVEN

No palco coberto, chamado “New Rock”, as apresentações também começaram às 17h05 com a banda espanhola Heleven, que incendiou o palco mais pesado do festival. O grupo mistura um estilo de metalcore com metal progressivo, e os músicos de Granada, na Espanha, dominaram o palco como se fosse deles durante cada música. Os primeiros espectadores nesse espaço prestaram bastante atenção à proposta musical de seus compatriotas, fazendo comentários positivos.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

O momento em que os circle pits começaram ocorreu durante as últimas músicas da banda, quando o público se agachou e pulou ao ritmo dos riffs lentos e harmoniosos do grupo, girando sem parar e, em alguns casos, desferindo os primeiros golpes no ar. Isso prenunciava a onda de música extrema que estaria muito presente durante todo o festival ao longo dos quatro dias.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

THUNDERMOTHER

De volta aos palcos gêmeos, o “Dave Mustaine Stage” foi tomado pelas garotas do Thundermother. As suecas aperfeiçoaram sua apresentação com puro hard rock: uma proposta muito divertida, sonora, ardente e veloz, recuperando as raízes do gênero. Música perfeita para erguer a cerveja bem alto e dar início à festa.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Entre as músicas que a banda tocou estava “Driving in Style”, uma das favoritas deste redator. As garotas se vestiram de acordo com a ocasião, com shorts curtos, meias de rede, blusas de rock e maquiagem pesada. A energia transbordou durante todo o show, com as integrantes se movimentando por todo o palco e alternando de posição.

Quanto ao público, muitas famílias compareceram para curtir a apresentação. A sombra começava a tomar conta de um espaço cada vez maior, fazendo com que mais pessoas saíssem de seus esconderijos.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Os solos de guitarra que ouvimos foram rápidos e harmônicos, bem precisos, enquanto as vozes se mantiveram consistentes. Além disso, uma das integrantes desceu até a área do público para ter um contato mais próximo e protagonizar um momento especial logo no início do dia. A essa hora, o calor já estava forte, por isso os jatos de água foram acionados repetidamente para refrescar a todos.

Ao final, a banda agradeceu pelo espaço e pelo tempo, dando lugar a um dos momentos mais marcantes do festival: o início da fase de música feroz, pesada e destrutiva, com a Orbit Culture.

ORBIT CULTURE

Os compatriotas do Thundermother subiram ao palco, desta vez cercados por motivos azuis. Assim, a banda de death metal melódico apareceu diante de uma grande ovação. O trabalho das garotas com seu hard rock tinha sido impressionante, mas o que nos esperava com os rapazes e sua música furiosa estaria em outro nível.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Ao longo de dez músicas, a banda fez o que quis com todo mundo, criando circle pits que incluíram pogo e mosh. O grupo demonstrou um excelente timbre vocal, com gritos guturais agudos, longos e dilacerantes. Os riffs pesados acompanharam a tempestade sonora, enquanto o duplo bumbo da bateria sacudia o chão sem piedade.

Death Above Life”, “The Storm” e “The Tales of War” foram as músicas com as quais a banda começou. Sem um lugar seguro para o público, o círculo de fúria ficava cada vez maior, cada vez mais rápido e com cada vez mais golpes. “Bloodhound” e “Rasen” se alimentaram da energia dos metaleiros, como se a banda transformasse cada acorde em pura catarse.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

A apresentação do Orbit Culture deixou todo mundo impressionado. Foi uma força abrasadora que levantou a poeira e transformou o palco em um verdadeiro campo de batalha. No final, “Hydra” e “Vultures of North” encerraram a apresentação, mas as ovações e os gritos não pararam.

O show do Orbit Culture foi muito difícil de superar até altas horas da noite.

BLACK LABEL SOCIETY

O poder do groove metal marcou presença nos palcos do Leyendas del Rock. Vestindo uma saia escocesa xadrez vermelha e verde, o grande Zakk Wylde apareceu com cabelos longos e uma presença imponente. Seu microfone estava adornado com um crucifixo e apoiado em uma base composta inteiramente por esqueletos. No telão, apareceu o logotipo do Black Label Society em tons de laranja.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

A aula de música começou com “Funeral Bell”, “Name in Blood” e “A Love Unreal”: acordes lentos, solos rápidos e esquizofrênicos, em uma apresentação metódica e técnica no sentido mais pleno da palavra.

O show também contou com “No More Tears”, um cover de Ozzy Osbourne, a quem sempre lembramos. Agora, com a presença de bolhas de sabão sempre que olhávamos para o público, alguém balançava a cabeça com os chifres erguidos.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

A banda impressionou com suas músicas, já que Dario Lorina e John DeServio não ficaram atrás em suas performances, complementando cada faixa com suas técnicas instrumentais.

Ao longo de onze músicas, a banda agitou o Leyendas del Rock. Faixas como “Set You Free”, “Fire It Up”, “Suicide Messiah” e “Stillborn” fizeram com que o headbanging não parasse. Temos certeza de que todos acabamos com dor no pescoço, uma sensação impossível de controlar.

A essa altura da tarde, o local estava totalmente lotado, deixando claro o motivo do show esgotado: não cabia mais ninguém na área do palco principal. No final, Zakk lembrou da importância da união no heavy metal e agradeceu pela tarde musical, pelo convite e ao festival.

SAVATAGE

Com uma trajetória de mais de quarenta anos, a banda norte-americana de heavy metal Savatage deu início à sua apresentação no Doro Pesch Stage pouco depois das nove da noite, com um repertório bastante sério, técnico, conceitual e direto.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

A banda não precisou de mais do que um pano de fundo com o nome do grupo para chamar a atenção. Os conhecedores de heavy metal se reuniram para ouvir clássicos como “Dead Winter Dead”, “Jesus Saves” e “Strange Wings”, além de uma das favoritas: “Sirens”, uma música que mexe com a alma.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Com mais de uma hora de show, o Savatage relembrou a importância do heavy metal clássico, com andamentos moderados, solos de guitarra rítmicos e nada desordenados, vocais tranquilos e a seriedade própria de uma banda com tanta longevidade.

A apresentação continuou com “Handful of Rain”, “Chance”, “Believe” e “Gutter Ballet”, chegando ao clímax com quatro músicas importantes na história da música: “Edge of Thorns”, “Power of the Night” e “Hall of the Mountain King”, música que liberou a euforia contida com gritos e aplausos.

SLAUGHTER TO PREVAIL

Durante a última sequência de músicas do Savatage, o palco oposto começou a ficar lotado. Todos se acomodaram para uma das apresentações mais marcantes do festival. Vinda da Rússia, a banda Slaughter to Prevail dava início ao seu show, que viria a ser um verdadeiro inferno na terra.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Com uma sensação térmica elevada e acompanhada por chamas durante todo o show, o público suava por todos os lados. Alex, o Terrível, deixou claro quem proporcionaria a melhor atmosfera do dia, começando com “Bonebreaker”, “Banditos” e “Russian Grizzly in America”.

O grande destaque foi o timbre vocal do russo, que, mesmo sem microfone, foi ouvido por toda parte quando soltou alguns guturais sem som, apenas para que todos pudessem observar seu grande poder.

O prometido foi cumprido, pois houve um imenso Wall of Death durante várias músicas. Depois disso, vieram os circle pits, onde todos correram e se empurraram. A banda parecia satisfeita com o resultado, e assim “Imdead”, “Babayka”, “Bratva” e “Baba Yaga” impulsionaram ao máximo o estilo do grupo.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

O público, apesar do calor constante e do fogo, resistiu na primeira fila como verdadeiros guerreiros.

O único momento de descanso foi durante o solo de bateria, quase no final da apresentação. Naquele momento, todos puderam recuperar um pouco de energia, arrumar seus pertences e respirar fundo. No entanto, toda essa tranquilidade estava prestes a acabar.

Alex pegou o microfone novamente e uma das músicas emblemáticas da banda começou a tocar: “Demolisher”. Era hora de “dançar” de novo; não havia mais o que fazer. O final se aproximava e “Conflict”, “Kid of Darkness” e “Behelit” encerraram com chave de ouro a melhor apresentação do dia, na nossa opinião.

Alex não se limitou a dar uma aula de boa música. A banda não apenas demonstrou sua qualidade musical, mas também transmitiu uma mensagem de aprimoramento pessoal, sobre o cuidado com o planeta, o respeito às pessoas, a convivência saudável e uma sociedade harmoniosa.

Simplesmente, o Slaughter to Prevail presenteou o público com uma noite de sonho que ficará marcada na história do festival.

SEPULTURA

Mas essa apresentação não foi o ato final. Mesmo com todo o cansaço físico já acumulado, o público se preparou para um show igualmente único: a apresentação final da banda brasileira Sepultura.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Liderada por Derrick Green, Paulo Jr., Andreas Kisser e Greyson Nekrutman, a banda, com quatro décadas de história do que os irmãos Cavalera, chegou ao Leyendas del Rock. Sempre haverá opiniões divididas sobre essa fase, mas o Sepultura vem realizando shows de despedida lindos e cheios de energia poderosa.

A banda que vimos também se despedir do Wacken Open Air faria o mesmo agora no Leyendas del Rock, iniciando seu show com “Inner Self”, “All Souls Rising” e “Desperate Cry”.

O show do Sepultura nos levou por todas as épocas da banda. As músicas foram interpretadas com seriedade e muita alegria, em um espetáculo agradável, repleto de frases em português e espanhol que criaram uma conexão ainda maior com o público. Os presentes levantaram os chifres ao ar ao ouvir “Kairos”, “Attitude” e “The Place”.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

O show durou mais de uma hora e contou com aproximadamente quinze músicas. O estilo do Sepultura, forjado ao longo dos anos, dominou o palco: solos intensos e imagens no telão que combinavam com o sentimento dos músicos.

O show seguiu com “Dead Embryonic Cells”, “Beyond the Dream”, “Territory” e “Arise”. A essa altura da noite, o público já estava exausto, mas dedicou suas últimas energias aos sul-americanos, que encerraram com dois clássicos entoados por todo o mundo, músicas que marcaram a história e que, sem dúvida, farão falta quando a banda deixar os palcos nos próximos meses.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Estamos falando de “Ratamahatta” e “Roots Bloody Roots”, joias que soaram inigualáveis, em nossa opinião.

O Sepultura agradeceu a todos os presentes, agradeceu pela experiência vivida e por mais um show muito apreciado, esperando que sejam lembrados para sempre.

SALDUIE

Após a apresentação do Sepultura, a maior parte do público começou a se retirar. A maioria foi dormir e recuperar as energias; outros, jantar; e mais alguns, voltaram para suas cidades natais. Enfim, os mais resistentes ficaram até o final, pois ainda havia mais um show: a apresentação da banda Salduie, com todo o seu folk metal, que encerrou o primeiro dia de atividades.

A banda espanhola invadiu o palco com um estilo enérgico e festivo, sabendo que o público já não tinha mais energia, mas que, mesmo assim, permaneceu fiel e ficou até o fim para ouvi-los. As flautas tomaram conta do palco, as gaitas ressoaram e a essência do folk metal surgiu para trazer aos presentes a tranquilidade após a tempestade.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Uma apresentação que organizou os sentimentos, serviu para acalmar o espírito e encerrar o festival com um sorriso no rosto e alegria no coração.

Assistimos à maior parte do show com o jantar nas mãos, conversando com amigos e trocando impressões sobre o que vivemos durante o primeiro dia do festival. A Salduie também surpreendeu com seus vocais guturais presentes em várias de suas músicas. Aquele tom celta do folk que faltava finalmente apareceu.

photo by. Ubaldo García. @photohorus

Ao final, todos se retiraram para seus locais de descanso e nós embarcamos no ônibus de traslado para chegar a Alicante, apenas para recuperar um pouco de energia, já que dormiríamos poucas horas antes de estarmos prontos para o segundo dia do festival!

Nos vemos no segundo dia do festival.

ALBUM COMPLETO NO FACEBOOK.