Há shows que a gente assiste. E há shows que, de alguma maneira, a gente sente.
Na última terça-feira, 11 de agosto, o Hangar 110, em São Paulo, recebeu uma das bandas que mais representam aquilo que existe de sombrio, melancólico e ao mesmo tempo grandioso dentro do Doom/Death Metal: os finlandeses do Swallow the Sun.

A apresentação fez parte da Shining Over Latin America 2026, turnê que traz a banda de volta à América Latina para divulgar Shining, seu mais recente trabalho, lançado em 2024. São Paulo foi a primeira parada dessa passagem pelo continente. E talvez não existisse cenário climático mais apropriado para receber o Swallow the Sun. São Paulo estava fria. Daquelas noites em que o vento parece atravessar a roupa e em que qualquer pessoa um pouco menos disposta, refletiria se iria sair de casa ou não, em plena terça-feira.
Mas, conforme o horário do show se aproximava, o frio foi ficando em segundo plano.
Aos poucos, o público chegava ao Hangar 110, com camisas do último álbum e discos anteriores ( inclusive logos diferentes), traziam consigo expectativa e, principalmente, aquela vontade de finalmente ver ao vivo uma banda que, para muita gente ali, acompanha uma parte importante da própria história dentro do Metal.
Não houve banda de abertura. O palco permaneceu escondido atrás de uma cortina preta levemente transparente por conta das luzes no palco, criando uma espécie de suspense involuntário.
Do outro lado dela, sabíamos que estava uma banda que construiu sua carreira justamente em torno da atmosfera, da tensão e da capacidade de transformar sentimentos difíceis em música. Até que as cortinas foram abertas revelando o palco sem muitos ornamentos e/ou adornos. E ali estava o Swallow the Sun.
O logotipo da turnê ao fundo, os músicos ocupando o palco e, diante deles, um Hangar 110 pronto para cantar.
E cantou. A abertura veio com “Innocence Was Long Forgotten”, e talvez seja difícil imaginar uma maneira melhor de começar aquela noite. O peso tomou conta do espaço rapidamente, mas não era apenas peso. Havia atmosfera, havia melancolia e havia aquela característica tão própria do Swallow the Sun de fazer uma música parecer enorme mesmo quando tudo parece caminhar em direção ao silêncio.

Logo depois veio “Descending Winters”, e o público já mostrava que não estava ali apenas para assistir.
As vozes vindas da pista acompanhavam a banda, criando uma situação curiosa: uma música nascida em terras finlandesas, carregada daquela sensação de inverno permanente, sendo cantada em uníssono em uma noite gelada de São Paulo.
E então veio “New Moon”. Para quem acompanha a trajetória da banda, é impossível não reconhecer a importância desse repertório. New Moon, de 2009, está entre os trabalhos que ajudaram a consolidar o Swallow the Sun dentro do Doom/Death Metal, e ouvir sua faixa-título naquela noite teve um peso especial.
Mas o que mais chamava atenção era justamente a reação do público. Cada música era recebida como se fosse aquela faixa específica que alguém havia esperado durante anos para ouvir ao vivo.
E essa sensação continuou em “Under the Moon & Sun”, seguida por “Don’t Fall Asleep (Horror, Part 2)”.
O show avançava sem pressa, respeitando o próprio tempo do Swallow the Sun.
Não havia necessidade de transformar tudo em espetáculo exagerado.
A música já carregava sua própria dimensão. “Out of This Gloomy Light” manteve a atmosfera pesada, enquanto “November Dust” trouxe novamente aquela combinação entre melodia, tristeza e peso que parece ser uma das grandes especialidades da banda.
E então veio “Hope”. Talvez aqui seja impossível não fazer uma pausa. Hope, de 2007, é um daqueles discos que ajudaram a estabelecer definitivamente o nome do Swallow the Sun entre os grandes representantes do estilo. E quando uma música como essa começa a ser executada diante de um público que conhece cada detalhe, não existe muito mais o que explicar. É simplesmente deixar acontecer.

O mesmo vale para “MelancHoly”. O título já entrega parte do que o Swallow the Sun sabe fazer como poucos: transformar melancolia em algo que, paradoxalmente, aproxima as pessoas.
Não era uma plateia silenciosa simplesmente absorvendo um espetáculo. Era uma plateia participando dele. “Falling World” veio na sequência, seguida por “These Woods Breathe Evil”, preparando o terreno para o encerramento da primeira parte da apresentação.
Quando a banda deixou o palco, ficou aquela sensação de que ainda faltava alguma coisa. As luzes não se apagaam e as cortinas não forram fechadas. O que dava a entender que retornariam para o Bis e assim ocorreu.
E nisto que faltava, a banda fez então o seu retorno. Com direito a aceno da banda que parecia animada e sorria, além de fazer questão de pegar na mão e comprimentar os fãs mais próximos ao palco.
O retorno para o bis trouxe “Deadly Nightshade”, mantendo a intensidade da apresentação, antes de chegarmos ao momento final da noite: “Swallow (Horror, Part 1)”. E talvez terminar dessa maneira tenha sido tão significativo quanto começar com “Innocence Was Long Forgotten”. “Horror” em duas partes atravessando o repertório, uma no corpo principal do show e outra fechando a apresentação. Um ciclo que começou sombrio e terminou sombrio — mas, acima de tudo, bonito. Porque existe beleza na música do Swallow the Sun. Mesmo quando ela fala de dor, perda, luto, solidão ou daqueles sentimentos que normalmente tentamos esconder.
Essa é uma das razões pelas quais a banda consegue estabelecer uma relação tão particular com quem a acompanha.
Não é apenas uma questão de gostar de Doom Metal. Existe identificação. Existe memória. Existe sentimento.
E talvez tenha sido justamente isso que tornou aquela terça-feira tão especial.
O frio de São Paulo parecia combinar perfeitamente com a música que vinha do palco, me faltava apenas vinho para a cereja do bolo. A cortina que pontulmente às 21:00 se abriu, a espera, as primeiras notas, o peso das guitarras, os vocais, a atmosfera e, principalmente, aquelas centenas de pessoas cantando juntas.

Não importava se era “New Moon”, “Hope”, “Falling World” ou qualquer outra faixa do setlist.
A reação era sempre a mesma: como se aquela fosse aquela música. A música que cada um tinha vindo buscar.
É difícil pedir mais de um show. O Swallow the Sun não precisou transformar o Hangar 110 em uma arena gigantesca.
Não precisou de grandes discursos ou de uma produção gigantesca.
Bastou tocar suas músicas. E o público fez o restante naquela noite, a Finlândia encontrou São Paulo em algum ponto entre a escuridão, o frio e a melancolia.
E, por pouco mais de uma hora, o Hangar 110 deixou de ser apenas uma tradicional e lendária casa de shows no Bom Retiro para se transformar em um lugar onde tristeza, peso e beleza conseguiram coexistir. Foi uma noite fria. Mas ninguém pareceu se importar. Porque o Swallow the Sun estava no palco e foi lindo!
Diferentes fases da banda e diferentes gerações de fãs coabitaram em um show único, onde os sentimentos foram celebrados e nem o frio congelou os corações quentes que queriam apenas conteplar o seu caos interior.
Parabéns Overload! Parabéns Tedesco Midia! Swallow The Sun e público, minha eterna gratidão por uma noite tão mágica!

Assista o video da apresentação disponibilizada no canal Rock Doido do Argoth e verifique, cada palavra deste texto não foi apenas escrita, foi sentida, vivenciada, apreciada e principalmente experimentada com juizo de valor e sentindo o calor de cada emoção.

