Totengott expande os limites do doom e death metal em Beyond the Veil — Espanha
O terceiro álbum da banda espanhola transforma influências de Celtic Frost em uma linguagem própria, marcada por densidade, atmosfera e experimentação
A história do Totengott começa nas Astúrias, na Espanha, por volta de 2013, e carrega uma origem que ajuda a entender tudo o que veio depois. O trio nasceu inicialmente em torno de uma paixão por Celtic Frost, repertório que ensinou à banda uma forma muito específica de pensar o peso: riffs monolíticos, estranheza, espaço, desaceleração e liberdade para contaminar o metal extremo com elementos que não pertencem a uma única escola. Doppelgänger, de 2017, e The Abyss, de 2019, transformaram essa referência inicial em identidade própria. Beyond the Veil, lançado em 2024, é o momento em que essa emancipação se torna mais evidente.
O terceiro álbum não abandona Celtic Frost e Triptykon como parte de sua genealogia, mas deixa de depender deles como horizonte. O Totengott amplia o doom metal e o death metal com thrash, camadas corais, dark wave, ambient, elementos étnicos e sugestões de música clássica. Essa abertura já existia nos discos anteriores, porém aqui parece assumir uma função estrutural. A banda não usa a experimentação para ornamentar um núcleo tradicional; o próprio núcleo passa a ser instável e expansivo de forma própria e interessante.
O arco de Beyond the Veil é construído como uma passagem. Inner Flame abre com a imagem de uma chama interior, uma energia ainda encerrada no sujeito. Sons of the Serpent introduz filiação, conhecimento e ambiguidade; Marrow of the Soul desloca a viagem para a matéria íntima; The Architect, minha favorita, sugere criação e ordenação. As duas partes da faixa-título, Mirrors of Doom e Necromancer, marcam a travessia do limiar. O encerramento, The Golden Crest: The Ritual / The Curse / The Path / The Light, com mais de treze minutos, organiza a conclusão explicitamente como rito, maldição, caminho e iluminação.
A imagem do véu possui uma longa história em tradições religiosas e esotéricas. Ela costuma separar aquilo que pode ser percebido daquilo que permanece oculto, o mundo material de um plano espiritual, a consciência cotidiana de uma zona de mistério. O Totengott não precisa oferecer uma doutrina para que essa imagem funcione. O álbum trabalha com a própria experiência de atravessar: repetição, lentidão, alteração de textura e expansão formal criam a sensação de que as faixas não conduzem apenas para a próxima música, mas para outro estado.
Há uma dimensão interessante na ideia de limiar. O véu também funciona como uma metáfora para os limites da percepção. Aquilo que chamamos de realidade depende do que conseguimos ver, nomear e organizar; atravessar o véu significa colocar essas categorias sob suspeita. No metal extremo, essa operação aparece muitas vezes por meio do ocultismo, mas em Beyond the Veil ela pode ser percebida musicalmente: o trio parte de formas reconhecíveis e as deixa se deformar, como se o gênero também precisasse atravessar sua própria fronteira.
A estrutura sonora sustenta essa leitura. Guitarras de afinação grave trabalham riffs de grande peso, frequentemente repetidos até adquirirem uma função quase hipnótica. A bateria alterna marcha ritual, explosões de death/thrash e espaços mais abertos. Baixo e frequências graves não servem apenas como sustentação; são parte da sensação física de profundidade. Ao redor desse núcleo surgem orquestrações, coros, ambientação e passagens que ampliam a paleta sem retirar sua aspereza.
Essa diversidade se torna ainda mais evidente nas participações. Eric Forrest, conhecido por Voivod e E Force, acrescenta outra conexão com uma história do metal que sempre desafiou formas convencionais. Já J. F. Fiar, ligado a Graveyard e Foscor, e Marija Krstevska, do Drioma, ampliam o espectro vocal e atmosférico. O disco preserva a identidade de trio, mas aceita vozes externas sem perder coesão e gravidade.
Na minha percepção, a produção ajuda a impedir que a quantidade de camadas se transforme em excesso. A mixagem de Javier Felez, no Moontower Studios, e a masterização de Jaime Gomez Arellano mantêm o peso muito presente, porém permitem que detalhes de coro, ambientação e orquestração apareçam quando precisam. A sensação é de um som áspero, mas cuidadosamente construído, o que combina com um álbum que quer permanecer ritualístico sem sacrificar a inteligibilidade.
A arte de Khaos Diktator Design acompanha essa expansão. O trabalho visual é épico e sombrio, mas sua função mais interessante está em reforçar a ideia de limiar. Beyond the Veil precisa de uma capa que pareça abrir um espaço, não apenas representar uma criatura ou um cenário. A imagem funciona como entrada para um disco em que passagem, ocultação e revelação são mais importantes do que uma narrativa literal.
Comparado a Doppelgänger e The Abyss, Beyond the Veil é menos tributário e mais autoral. As marcas de origem continuam audíveis, como deveriam, mas o Totengott parece interessado em testar até onde sua linguagem pode ir sem perder peso. É justamente essa tensão entre fidelidade e desvio que torna o álbum convincente: ele reconhece sua genealogia enquanto procura uma forma própria de atravessá-la.
Para quem acompanha a evolução do metal extremo espanhol e procura trabalhos que não se limitem a repetir fórmulas, Beyond the Veil merece uma audição atenta. O álbum encontra seu diferencial justamente na capacidade de transformar peso, atmosfera e experimentação em partes de uma mesma experiência.
Faixas
- Inner Flame
- Sons of the Serpent
- Marrow of the Soul
- The Architect
- Beyond the Veil I: Mirrors of Doom
- Beyond the Veil II: Necromancer
- The Golden Crest: The Ritual / The Curse / The Path / The Light
Formação
Chou Saavedra: vocais, guitarras e arranjos orquestrais
Nacho Void: baixo, vocais de apoio e coros
José Mora: bateria, percussão, teclados e vocais de apoio
Participações
Eric Forrest: participação vocal
J. F. Fiar: participação vocal
Marija Krstevska: participação vocal
Ficha técnica
Lançamento: 12 de julho de 2024
Formato: terceiro álbum completo
Mixagem: Javier Felez, Moontower Studios
Masterização: Jaime Gomez Arellano
Arte: Khaos Diktator Design
Origem: Astúrias, Espanha
Divulgação oficial


