Na passada quinta-feira, 29 de janeiro, o Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi tomado por uma noite absolutamente incrível e memorável de metal sinfónico, que foi muito mais do que uma simples homenagem ao passado. Pelas mãos da Prime Artists, o público português foi presenteado com o reencontro de duas vozes icónicas: Tarja Turunen e Marko Hietala, históricos ex-membros dos Nightwish, hoje unidos numa fase de reconciliação e intensa parceria artística.
Os finlandeses juntaram-se para a tour “Living The Dream Together”, e Lisboa foi a primeira paragem desta viagem. Um concerto cheio de carisma, proximidade, entrega e uma execução técnica irrepreensível, daqueles que nos lembram exatamente porque este género continua a tocar tão fundo.
A acompanhá-los no cartaz, duas bandas com propostas distintas: Serpentyne e Rok Ali & The Addiction.
SERPENTYNE

Pontualmente às 19h, dava-se início a uma noite encantadora. Os responsáveis por aquecer o público foram os britânicos Serpentyne, trazendo o seu Symphonic/Folk Metal carregado de elementos celtas, medievais e orquestrais, com letras inspiradas em mitos, lendas e figuras históricas.
A sala ainda não estava cheia, mas já havia bastante gente atenta e envolvida. O setlist arrancou com “Angel of the Night”, seguida de “Away From The World”, ambas do álbum Angels of the Night (2019). Ao longo da apresentação, o alinhamento percorreu os vários trabalhos da banda ao longo de 16 anos de carreira, sempre com apoio visual dos seus videoclipes no ecrã.
Foi em “Into the Night” que o público reagiu mais, acompanhando com palmas, e temas como “Run For Your Life” surgiram aumentando ainda mais essa interação. O fecho deu-se com “Dangerous Mind”, já do mais recente Tales From the Dark (2025).
Em cerca de 30 minutos de concerto, a banda mostrou-se coesa, com bom som e muita simpatia. Maggiebeth Sand fez questão de expressar o carinho pelo público português, dizendo o quão bom era regressar a Lisboa. Despediram-se muito aplaudidos!
ROK ALI & THE ADDICTION

@ Coliseu dos Recreios – Lisboa | Ph: @rodrigosimasphoto & @culturaempeso
Às 19h40, era a vez dos Rok Ali & The Addiction prepararem o terreno. Liderada pela carismática Rok Ali (Alison Krebs), a banda norte-americana trouxe uma proposta diferente para a noite: hard rock com influências de grunge, metal e rock clássico, criando uma quebra de estilo que funcionou bem, ao menos pra mim.
A abertura com “Change The Script”, do álbum Pulse (2024), deu o tom, seguida de “Vanishing Screams” e “Darker Day, Pt. 2”, já do mais recente A Map To The Stars, Pt. 1 (2025). Rok Ali mostrou-se visivelmente feliz por ali estar, brincando com o público ao confessar que tinha bebido “um tantinho a mais”, arrancando gargalhadas e boa disposição.
Com a sala agora mais composta, seguiram-se “Pulse” e, para fechar, “Violently Fast”, deixando claro que uma sonoridade mais densa e diferente também tinha espaço naquela noite, e pessoalmente, gostei bastante dessa variação.
Encerraram às 20h05, sob aplausos animados!
MARKO HIETALA

Por volta das 20h25, a ansiedade começava a tomar conta do ar. O público já chamava por Marko em ovação e, exatamente às 20h30, o impacto foi imediato quando estourou o som de “Frankenstein’s Wife”. O músico e a banda entraram já a colocar a malta em delírio: refrões cantados a plenos pulmões, punhos erguidos e headbanging desde o primeiro contato.
No ecrã, surgia a temática do seu mais recente lançamento, o álbum Roses from the Deep (2025). Conhecido pela sua voz potente e pelas linhas de baixo marcantes, Hietala é uma presença imponente em palco, mas não precisa de mais do que a sua simpatia natural para dominar tudo à sua volta, sempre acompanhado daquele bom humor que lhe é tão característico.
Seguiu-se “Rebel of the North”, mantendo a energia sempre em alta, com o público cada vez mais empolgado. Cada faixa era um novo ponto alto, com a malta a demonstrar toda a devoção ao artista, e também à banda que o acompanha, que em nada deixa a desejar, funcionando como um complemento perfeito em todos os momentos.
Entre músicas, Hietala parava para conversar com o público, comentando o longo tempo que passou sem pisar por aqui, cerca de 10 anos desde a última vez em Lisboa, ainda como membro dos Nightwish. Adiantou também que queria que todos ali se divertissem muito com ele, claramente feliz por aquele regresso. Aliás, parou várias vezes para contar histórias, trocar palavras e criar essa proximidade que só ele sabe fazer. É mesmo uma presença que nos leva com facilidade.
Mais um tema do novo álbum chegou com “Proud Whore”, mas logo a seguir era hora de pausar este capítulo para revisitarmos outras fases da sua carreira. Veio então “Isäni ääni”, do álbum Mustan Sydämen Rovio (2019), num momento que nos transportou diretamente para a cultura e identidade finlandesa do artista.
Sempre comunicativo, Marko anunciou então “uma trilogia dedicada aos monstros”, e fomos brindados com a sequência perfeita de “Impatient Zero”, “The Dragon Must Die” e “Juoksen rautateitä”.
Com o passar dos anos, e já no auge dos seus 60 anos recém-completados no dia 14 de janeiro, Hietala continua a mostrar potência, vitalidade e uma forma invejável. Esta alternância entre temas do novo álbum e faixas mais antigas só reforça como ele continua capaz de surpreender e envolver.
Chegou então o momento de “Roses from the Deep”, antecedido por Marko a perguntar o que achávamos de uma música romântica, arranhando algumas palavras em português, como sempre arrancando sorrisos. Foi o sinal para o ritual clássico das lanternas dos telemóveis no ar, criando um ambiente íntimo e imersivo, com todos completamente entregues.
Mas o ponto alto era previsível, e ainda assim, nunca estamos preparados para ele: ver Tarja Turunen e Hietala juntos em palco. Marko pediu para abrir espaço, reorganizou os microfones, e Tarja surgiu com toda a sua aura, simpatia e aquela certeza absoluta de que é — e sabe que é — profundamente amada.
E assim veio “Left on Mars”, num encontro bonito, genuíno, com as mãos dadas no final e duas vozes que parecem feitas para se completar. O público respondeu com aplausos como poucas vezes se vê. É realmente lindo de testemunhar!
Depois desse momento arrebatador, ainda houve espaço para o gran finale com “Stones”, fechando o concerto com total maestria e deixando todos em êxtase com o que acabava de ser presenciado. Marko despediu-se, mas claro… despedimo-nos sabendo que ele voltaria àquele palco em poucos minutos. E ansiávamos por isso!
TARJA TURUNEN

A aproximar-se das 22h, o público aguardava agora mais ansioso do que nunca, entre burburinhos constantes e chamadas pelo seu nome. Quando se ouve a intro “The Golden Chamber (Loputon Yö)”, é impossível conter a reação. Os gritos anunciam a chegada de uma Rainha. E mesmo sendo uma presença já recorrente em Portugal, mesmo para quem já a viu antes, Tarja é daquelas artistas que fazem cada concerto parecer uma primeira vez. E ela entra, recebida em grande!
O setlist abre com “Eye of the Storm”, com Tarja sendo… Tarja. Ilustre, imponente, amplamente reconhecida como uma das maiores vozes do metal sinfónico, muitas vezes descrita como uma das verdadeiras rainhas do género.
Mas ela é muito mais do que isso. Independentemente do pedestal em que esteja, Tarja é sempre um amor. Parou para agradecer em português perfeito, dizendo estar feliz por nos ver ali, sempre com gestos de carinho. É uma artista completa: canta, pula, dança, bate cabeça e, acima de tudo, diverte-se e leva o público junto. É presença real, é conexão. E não há como não amar de volta. Quanto à voz… não há muito a dizer. Há coisas que simplesmente beiram a perfeição!
O concerto seguiu com “In for a Kill”, colocando toda a gente a pular e cantar com força. Sempre em crescente, tudo parecia ponto alto. “Undertaker” veio na sequência e, logo depois, fomos presenteados com dois verdadeiros tesouros há muito ausentes dos palcos: “500 Letters”, tocada pela primeira vez desde 2000, e “Crimson Deep”, que não era executada ao vivo desde 2012.
Seguimos cada vez mais imersos com “Demons in You”, cantada em coro, e depois “Victim of Ritual”. Mas aqui vale abrir um parêntese para os detalhes. A banda que a acompanha é impecável, complementando perfeitamente toda a aura criada. Destaque para o baixista Doug Wimbish, dos Living Colour, e para os guitarristas Alex Scholpp e Julian Barrett. Tudo se encaixa com precisão. No ecrã, os clipes de Tarja passavam ao fundo, ampliando ainda mais a beleza do momento.
Mas então chega aquele momento que todos queriam. Esperamos por ele, sabemos que ele vem, mas quando acontece… não dá para conter a emoção. Numa troca de ato, Tarja chama ao palco o querido Marko. Eles dão as mãos. E pronto. O coração aperta. Segue-se então um medley acústico com “The Crying Moon / Feel for You / Eagle Eye / Higher Than Hope”, todas originais dos Nightwish. Um mergulho profundo no passado que ainda pulsa forte no presente.
Saindo dessa imersão acústica, voltamos ao peso. Era hora de despertar com a sequência arrebatadora de “Slaying the Dreamer”, “Wishmaster” e “Silent Masquerade”. Ver aqueles dois velhos amigos juntos em palco foi uma demonstração clara de respeito pelo passado, e da beleza do que ainda está por vir, juntos. Ao final desse bloco, Marko agradece e sai de cena, e Tarja volta a dizer que somos incríveis.
Sozinha novamente, Tarja entrega “I Walk Alone”, emocionando toda a sala. Após essa, ela sai, mas o público responde com punhos ao alto e pés batendo forte no chão, fazendo o Coliseu tremer. Não demorou para a banda regressar para o encore, com o epílogo da pesada “Dead Promises”. Era loucura, felicidade e aquela consciência coletiva de que o fim se aproximava, e que precisávamos aproveitar cada segundo.
Mas ainda havia o ponto máximo. Marko retorna para o último dueto da noite, talvez um dos momentos mais arrebatadores de todo o concerto, para interpretarem “Wish I Had an Angel”. Um verdadeiro presente da era dourada dos Nightwish, executado de forma perfeita, tão intenso quanto há anos atrás. Depois disso, Marko despede-se novamente, agora de verdade, e agradece.
O público ainda pediu muito por “The Phantom of the Opera”, mas não aconteceu. O último suspiro da noite veio com “Until My Last Breath”. Ao final, Tarja apresenta a sua banda, agradece mais uma vez e despede-se.
E só nos resta dizer: OBRIGADA, DE CORAÇÃO, TARJA E MARKO. Nem eu mesma sabia o quanto precisava vê-los juntos em cena novamente. Foi belíssimo. Foi grandioso. Foi inesquecível!

