Chegamos ao dia 3 do Vagos Metal Fest e o que esperar? Mais um dia de música e festa, um dos nomes mais ansiados de toda a edição e muito mosh!
O terceiro dia do Vagos Metal Fest arrancou com uma energia contagiante, mantendo viva a chama do metal que tomou conta da capital ao longo do fim de semana. Entre headbangers e fãs de todas as idades, o ambiente continuou a ser de comunhão, intensidade e celebração, com o público a mostrar-se incansável perante o calor e o peso das guitarras. Desde o punk violento, ao black metal, até o folk metal festivo, criou-se uma jornada sonora diversificada que cativou todos os presentes.

O alinhamento do terceiro dia contava com Mayhem a encabeçar, Black Flag, The Exploited, Bizarra Locomotiva, Serrabulho, Mata-Ratos, Furor Gallico, VXPXOXAXAXWXAXMXC, Nihilo e Iznutri.
IZNUTRI- Palco Illegal
A banda responsável por abrir as hostilidades deste terceiro dia que se avizinhava ser de muita agressividade foi Iznutri.
Este grupo de Alternative Metal originário da República de Komi, na Rússia, foi formado apenas em 2018. Neste concerto apresentou-se com Alexey Dugin (vocal e guitarra), Andrey Dugin (baixo e vocal de apoio) e Dmitriy Oleynik (bateria).
Algo de realçar é que, no espaço de 7 anos, Iznutri já lançou três álbuns de estúdio e por entre as obras é visível uma variedade de subgêneros, desde hard rock e alternative metal até nuances de metalcore, o que confere diversidade e dinamismo às composições, algo que foi claramente visível nesta energética atuação.
Estivemos perante riffs contundentes, vocais explosivos e arranjos melódicos bem elaborados. As músicas são energéticas, com toques de thrash metal, há passagens com vocais emotivos e transições entre intensidade brutal e momentos mais atmosféricos.
A banda teve uma presença em palco envolvente, com Alexey a interagir diretamente com a plateia. Seja puxando coros nos refrões melódicos ou incitando a participação do público.
Foi uma excelente forma de arrancar o terceiro dia!

NIHILO- Palco Vagos
Vamos agora viajar para um universo mais pesado, com os suiços Nihilo. Embora ainda fosse bastante cedo, o recinto já se encontrava composto. Nem o extremo calor, nem o cansaço acumulado obrigou os festivaleiros perderem este concerto!
Nihilo viajaram de Berna para nos apresentarem o seu Death Metal com raízes firmes na cena underground e com mais de uma década de atividade contínua. O seu som abraça o death metal clássico, incorporando influências pesadas de grindcore, criando uma fusão visceral e dinâmica.
Com um alinhamento a incluir faixas cruas de verdadeira intensidade, criaram uma experiência sonora verdadeiramente agressiva. O palco vibrou com uma atmosfera carregada, típica das sonoridades densas do death metal. O público, imerso na intensidade técnica e brutalidade do som, respondeu com energia pulsante e headbanging coletivo.
Nihilo entregaram uma atuação visceral e precisa, destacando-se pela técnica afinada, sonoridade implacável e presença de palco sólida mesmo diante da diversidade do cartaz.

IRONWILL- Palco Illegal
Os Ironwill foram os terceiros a atuar no terceiro dia de festival, e apresentaram-nos o seu projeto liderado por Salvo “Ironwill” Dell’Arte, que se autodenomina como um coletivo de Psychological Rock.
Este projeto, de origem italiana, resulta de uma fusão entre música, arte visual e narrativa emocional. Musicalmente, o estilo deles varia desde rock com toques de blues e funk, sempre com um enfoque literário e emotivo.
Pelo meio desta intensa atuação, houve ainda espaço para uma dedicação ao príncipe das trevas, Ozzy Osbourne, refletindo-se em mais um momento de pura intensidade emocional e união.

VXPXOXAXAXWXAXMXC- Palco Vagos
Depois de uma atuação com tanto peso emocional como a dos Ironwill, o público estava a precisar de acalmar a alma. E qual a melhor forma de o fazer? Com o degredo (no bom sentido) máximo trazido pelos VXPXOXAXAXWXAXMXC e o seu goregrind!
VxPxOxAxAxWxAxMxC, também conhecidos pelo nome completo “Vaginal Penetration of an Amelus with a Musty Carrot“, é um grupo de goregrind oriundo da Áustria, ativo desde 2008, e estes 3 senhores vieram para o Vagos provocar uma verdadeira onda de circle pits, destruição e diversão!
Trouxeram consigo o seu som que resulta da fusão de death metal, black metal e slam, e letras que abordam temas grotescos e humor negro, frequentemente explorando o absurdo e o grotesco de forma satírica (não que seja perceptível, mas é sempre interessante saber). A juntar a tudo isso, apresentaram-se também com uma estética visual provocadora, de aventais brancos cobertos de sangue e ainda um pequeno detalhe que possa ter passado despercebido: as leggings verdes do baixista tinham um pequeno orifício num sitio que não convém aqui detalhar, mas penso que percebem… Portanto meus senhores, penso ser bem perceptível qual foi o resultado: JAVARDICE máxima no bom sentido da palavra!
Por entre enormes e violentos circle pits, wall of the blinds, e frases cómicas como “Boobbies boobbies boobbies”, foram minutos de puro caos e diversão!
Setlist: 1- Rancid Monstruosity; 2- Eyeball Peeler; 3- Slushy Baby; 4- Mass Suicide; 5- Embryos Orgasmen; 6- Lacerate Some Farmers With a Harvester; 7- Daily Shower; 8- Gang Raped Acranius; 9- Double Emetophilia Session; 10- Baptized In Clammy Scat.

FUROR GALLICO- Palco Illegal
Viajamos agora no tempo com os Italianos Furor Gallico e o seu folk metal. O folk não esteve muito presente nesta edição do Vagos Metal Fest mas foi muito bem representado e defendido por este grupo que deu um espetáculo digno do estilo!
Furor Gallico são uma das referências do folk metal no panorama europeu, e nesta atuação defenderam bem essa posição. Destacam-se por fundir com maestria sonoridades celtas com a intensidade do metal mais extremo.
Originários de Milão e ativos desde 2007, os membros foram-se unindo a partir de uma ideia inicial de unir guitarras agressivas e vocais metalizados com instrumentos tradicionais como harpa celta, whistle, bouzouki, violino e flautas.
Desde faixas de folk metal mais puro e orgânico, até faixas mais pesadas e direcionadas para o melodic death metal, a complexidade estrutural dos temas foi bem notável. Os vocais são um dos seus elementos mais distintivos, contribuindo fortemente para a fusão entre o metal extremo e a herança folk celta que caracteriza o som do grupo: com uma voz masculina mega versátil e forte, capaz de apresentar growls, berros e voz limpa, até aos vocais femininos que aparecem como contraste etéreo aos guturais, ora para criar coros épicos ou momentos mais melancólicos.
A energia do concerto foi contagiante, com contrastes cativantes entre violino, harpa e whistles, misturado com riffs pesados e vocais que alternavam entre limpidez melódica, gritos e guturais.
Neste dia em que se esperava tanto punk, hardcore e black metal de bandas como Mata-Ratos, The Exploited e Mayhem, a sonoridade folk-metal dos italianos trouxe uma lufada de textura e atmosfera, transportando o público para uma dimensão ancestral, quase ritualística, mas igualmente poderosa.
Setlist: 1- Call of the Wind; 2- Among the Ashes; 3- Venti Di Imbolc; 4- Canto D’Inverno; 5- The Phoenix.

MATA-RATOS- Palco Vagos
A partir das 18h30 sensivelmente, não houve mais tempo para respirar! Mata-Ratos foram o arranque de tarde e noite de puro extremismo e caos e que excelente arranque!
Estes senhores já dispensam de apresentações no panorama nacional. A banda lendária do punk rock, formada em 1982, veio de Oeiras para criar um dos momentos mais marcantes de toda a edição do Vagos 2025. Com o seu som cru e direto, influenciado por bandas como Dead Kennedys, Sex Pistols e Black Flag, destacam-se pelas letras corrosivas, irreverência e espírito de resistência contra o status quo. O resultado disso? Verdadeiros hinos cantados em uníssono e uma energia absolutamente brutal.
Esta atuação foi uma corrente de energia, com riffs velozes, vozes carregada de sarcasmo e crítica social e uma a plateia a corresponder com mosh pits, cânticos e um espírito coletivo contagiante. Uma performance intensa, com alguma comédia à mistura, cheia de alma, que fez vibrar quem estava presente com o poder das suas canções mais icónicas, a atitude irreverente e a energia intacta de quem continua a desafiar o sistema com punhos erguidos.
Por entre uma setlist que incluiu temas obrigatórios como “Tsunami de Cerveja“, “És um homem ou és um rato” e “Sai Da Minha Vida“, ficou mesmo só a faltar “A Minha Sogra é Um Boi“.

SERRABULHO- Palco Illegal
Já vi bastantes vezes concertos de Serrabulho e a minha ausência de palavras após o mesmo é sempre a receita do dia. É daquelas coisas que é mesmo impossível descrever minimamente o que se passou no espaço, o que se viu, o que se ouviu, o que se sentiu. Não há qualquer texto capaz de representar aquilo que é um concerto de Serrabulho mas, como sempre, vou tentar.
Que javardice foi aquela (no bom sentido da palavra)?. Desde as personagens inesperadas no palco, à espuma que inundou o recinto de lama, ao wall of dog, aos insufláveis e peluches, aos circle pits com todos os objetos imagináveis…. Com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo (e tanta coisa estranha), é impossível absorver tudo.
O senhor Guerra (vocalista) é realmente uma personalidade daquelas, como entertainer, como vocalista, carismático, tem tudo. Por entre comédia sonora e visual, comboinhos, referências estranhas e inesperadas e banhos de espuma, viveu-se um momento de verdadeira loucura.
Foi algo estranho Serrabulho tocarem às 19h e não a encerrar como é habitual e a verdade é que o recinto ficou ligeiramente degradado após este concerto, mas a malta gosta. E a realidade é resultou na perfeição neste horário. O recinto encheu e não se via uma única alma parada!
No final de contas, a verdade é que estes senhores têm o dom do entretenimento, e por isso é que já levam a sua música muito para além de fronteiras. Neste concerto, ofereceram-nos mais uma experiência coletiva que marcou o Vagos Metal Fest como um dos concertos mais divertidos e marcantes do evento.
Setlist: 1- Rest in Piss; 2- Congro; 3- Caguei na Betoneira; 4- Pissachu; 5- Dingleberry Ice Cream; 6- Sweet Grind O’Mine; 7- Piss Or Love; 8- Toco Loco du Moi; 9- Pentilhoni Nu Culhoni; 10- Pubic Hair in the Glasses.

THE EXPLOITED- Palco Vagos
“Punk is not dead” foi a moral da história e a mensagem transmitida pelo gigante Wattie Buchan (vocalista) e companheiros. Se havia malta que ia pensar que este senhor não iria estar à altura, ficou muito enganado. O homem deu uma verdadeira lição do que é ser punk, ter espírito punk e viver o punk a muito jovem que por aí anda.
Originários de Edimburgo, Escócia, The Exploited formaram-se em 1978 e rapidamente se afirmaram como ícones da segunda vaga do punk britânico. Com o icónico Wattie Buchan à cabeça, tornaram-se símbolos de resistência e pureza punk, confrontando a vida com atitude direta, confrontacional e sem concessões.
Este concerto foi uma explosão de atitude e autenticidade. Wattie Buchan mantém o palco como território de caos descontrolado, provocativo, intenso e genuíno. O público reagiu com mosh pits frenéticos, constante crowd surfing, cânticos coletivos e uma comunhão eletrizante que só um nome lendário do punk pode provocar. Foi um momento de revolta, festa e ancestralidade punk numa reafirmação de que o espírito do mesmo não está morto, como eles próprio proclamam desde 1981.
Um dos pontos mais intensos do concerto foi quando Wattie chama o público ao palco, e se o ambiente já era descrito como descontrolo total, então aqui isso ainda se intensificou mais. Dezenas de metaleiros subiram ao palco para finalizar a festa junto da banda num momento que se tornou icónico. A melhor forma de terminar a festa!
Entregaram um espetáculo carregado de fúria, com os clássicos que definiram o punk para sempre. Um dos pontos mais altos desta edição do Vagos Metal Fest, algo completamente indiscutível!

BLACK FLAG- Palco Illegal
Embora Black Flag tenham anunciado há uns meses uma “mudança de página” nas redes sociais, houve muita gente surpreendida com o alinhamento apresentado no Vagos Metal Fest. A emblemática banda hardcore punk de Hermosa Beach apresentou-se este ano e neste concerto com uma formação revitalizada, liderada pelo guitarrista fundador Greg Ginn, acompanhado por Max Zanelly nos vocais, David Rodriguez no baixo e Bryce Weston na bateria.
Não se pode falar em Black Flag sem falar da sua importância na história do hardcore punk. Henry Rollins (ex-vocalista após Keith Morris, Ron Reyes e Dez Cadena) foi um catalisador da transformação dos Black Flag e, por extensão, do punk hardcore, num fenómeno com impacto duradouro não só no punk, mas também no metal e em tudo o que veio a seguir nos cruzamentos entre géneros pesados, extremos e marginais. Henry é uma das figuras mais marcantes da história do punk hardcore, tanto pela sua voz poderosa quanto pela sua personalidade intensa e multifacetada.
Após longos anos, a banda decide terminar em 1986, retornando em 2013 com Ron Reyes novamente na voz, relação que não durou muito tempo. Após mais alguns saltos no alinhamento, chegamos agora a Max Zanelly, vocalista que marca pela diferença pela sua atitude irreverente e, ainda mais chocante, por se tratar de uma voz feminina.
Formações e discussões à parte, Black Flag é um dos nomes mais impulsionadores do punk mundial e possivelmente o nome que mais uniu os mundos do punk e do metal. A sua importância é inegável! Esta banda ajudou a quebrar a barreira entre dois mundos que nos anos 80 eram muitas vezes rivais: O punk trouxe a urgência e a rebeldia, e o metal trouxe o peso, a técnica e escuridão sonora. Black Flag uniu os dois mundos!
Mas chega de história e vamos então falar da experiência no Palco Illegal no Vagos Metal Fest. Desde os primeiros acordes, o que se sente é intensidade bruta. Greg Ginn, o eterno comandante da banda, continua a disparar riffs sujos e hipnóticos com a mesma obsessão de sempre. No palco, não há efeitos, não há pirotecnia, só suor, distorção e agressividade. A nova vocalista, Max Zanelly, trouxe uma energia fresca: voz rasgada, corpo em tensão e olhos em fúria. Ela não tenta imitar o icónico Rollins, mas assume o legado e entrega-o à sua maneira, com respeito mas também com identidade própria. A postura é menos “messias punk” e mais voz da multidão: direta, colérica, envolvente.
Ver este concerto, independentemente da faixa etária, é como assistir a um ritual de resistência. Já não é o grito desesperado da juventude, mas sim o grito insistente da sobrevivência. Foi mais uma demonstração de que o punk não morreu e, independentemente de todas as transformações, Black Flag continuam a passar a sua mensagem!
Setlist: 1- Can’t Decide; 2- Nervous Breakdown; 3- No Values; 4- I’ve Had It All; 5- Wasted; 6- Black Coffee; 7- Six Pack; 8- Depression; 9- Forever Time; 10- Nothing Left Inside; 11- Fucked Up; 12- My War; 13- I’ve Heard It Before; 14- Revenge; 15- Clocked In; 16- Gimmie Gimme Gimme; 17- Slipt It In; 18- Jealous Again; 19- Rise Above; 20- Louie Louie.

MAYHEM- Palco Vagos
Chegou o derradeiro momento. O momento pelo qual esperei tantos anos… Finalmente chegou a hora de MAYHEM pisarem o palco!
Embora a sua história seja bem conhecida no meio da música extrema, nunca é demais contextualizar um pouco. Estes senhores são uma das bandas mais influentes e controversas do black metal norueguês. Formados em 1984 em Oslo, Noruega, por Øystein Aarseth (Euronymous), Jørn Stubberud (Necrobutcher) e Kjetil Manheim. A sua história é marcada por tragédias e polémicas que definiram para sempre o percurso da banda: por entre mortes, igrejas queimadas e adornos macabros, tudo isto criou uma aura negra que acompanha a banda até aos dias de hoje.
Após todas essas tragédias e acontecimentos que definiram a banda, esta ficou inativa por algum tempo, mas Necrobutcher (baixista fundador e atual membro) reformou os Mayhem com novos elementos.
Neste dia, celebramos os 40 anos de história de Mayhem. Sob um véu de escuridão e mistério, o palco foi envolto em névoa e iluminação dramática, criando uma aura teatral e ritualística. Era como assistir a um mantra demoníaco encenado sob luzes e sombras que evocavam o culto ao black metal. “Mais que uma banda, uma religião… uma força bruta”.
Durante toda a atuação, existiam projeções no fundo do palco que ajudaram a intensificar ainda mais o ritual. Era como se a sua história estivesse a ser contada no fundo do palco enquanto os temas eram interpretados. Imagens de Euronymos, de Dead e de membros que foram passando e saindo da banda, fotografias icónicas que ficarão registadas na história e muito mais. Foi a cereja no topo do bolo no que toca à experiência que Mayhem nos proporcionou.
Em termos de alinhamento, foi uma verdadeira viagem no tempo. Obras como Daemon, Esoteric Warfare, Chimera, Grand Declaration of War, De Mysteriis Dom Sathanas e Deathcrush estiveram aqui presentes para contar toda a história da banda. Claro que o clímax do concerto foi atingido nos segundos iniciais da mítica “Freezing Moon“. Aqui o público sentiu algo inexplicável. Ter a oportunidade de ouvir aqueles primeiros acordes ao vivo, tocados pelos próprios Mayhem…
Por entre uma postura fria, sentiu-se uma ligação entre banda e público quase palpável. São 40 anos de história que será falada daqui até por daqui a 300 anos. Não há mais nenhuma banda assim. Não haverá mais nenhum concerto assim. Restam as memórias, a experiência e o pedido: MAYHEM, por favor voltem a Portugal em breve. E obrigado Vagos e Illegal por terem tornado isto possível!
Setlist: 1- Malum; 2- Bad Blood; 3- MILAB; 4- Illuminate Eliminate; 5- Chimera; 6- My Death; 7- Crystalized Pain in Deconstruction; 8- View From Nihil; 9- Ancient Skin; 10- Freezing Moon; 11- Life Eternal; 12- De Mysteriis Doom Sathanas; 13- Funeral Fog; 14- Deathcrush; 15- Chainsaw Gutsfuck; 16- Carnage; 17- Pure Fucking Armageddon.

BIZARRA LOCOMOTIVA- Palco Illegal
O encerramento da noite ficou ao cargo dos gigantes do industrial nacional, os Bizarra Locomotiva. Como é que a malta sobreviveu a Mata-Ratos, The Exploited, Black Flag e Mayhem, e ainda conseguiu chegar aqui com energia? Muito simples. Os Bizarra simplesmente têm o dom de contaminar toda a gente com a sua arte tanto sonora como visual. A energia dos membros, especialmente do animal de palco Sidónio é absolutamente contagiante. Todos estávamos com níveis de energia negativos, mas durante toda esta atuação um estado de ectasy se apoderou de nós e não existia mais nada se não nós, os Bizarra e a sua música.
Os Bizarra Locomotiva são uma das bandas mais singulares e intensas da cena musical portuguesa e a cada atuação o provam mais. Um verdadeiro comboio industrial de fúria sonora, teatralidade e peso emocional. Combinando elementos de metal industrial, eletrónica, rock alternativo e uma identidade profundamente enraizada na língua e cultura portuguesa, estes senhores estão no topo daquilo que se faz em portugal.
Para reforçar a intensidade das suas composições, a presença em palco de Bizarra é absolutamente avassaladora. O vocalista Rui Sidónio apresentou-se mais uma vez como sendo um verdadeiro animal de palco! Quando pisou o mesmo, pareceu entrar num estado de possessão ou exorcismo, com gestos convulsivos, olhares intensos e um timbre vocal entre o grito, o sussurro e o brado apocalíptico. Não há ninguém como ele nesse sentido!
O que o público sentiu? Que entrou numa espécie de transe coletivo, embalado pelas batidas mecanizadas e o peso emocional. Um concerto de Bizarra tem sempre tanto de físico quanto de psicológico. Fomos arrastados por uma locomotiva em chamas que atravessava um pesadelo industrial e poético. Não há espaço para indiferença. Quem lá esteve ou se rendeu ao caos, ou ficou a ver, de fora, o mundo arder.
Como muitos fãs estavam à espera, Fernando Ribeiro (Moonspell) subiu ao palco para acompanhar o amigo Sidónio nos temas O Anjo Exilado e O Escaravelho e é sempre incrível ver estes dois senhores atuarem juntos. Não só pelas suas vozes se complementarem, mas pela energia que transmitem e pela cumplicidade que têm. Criou-se uma química quase ritualística onde não há competição mas sim comunhão. É sempre um prazer testemunhar esta união, e como esta não há muitas…
A um setlist de ouro, diria que que ficou a faltar um tema (perspectiva pessoal): Vala Comum do mais recente álbum Volutabro (2023). Sendo esta uma das minhas faixas favoritas do último álbum, adoraria tê-la testemunhado neste concerto mas com o reportório já tão vasto de Bizarra, começa a ficar muito difícil construir um setlist e deixar músicas de fora…
Setlist: 1- Vendaval Utópico; 2- Volúpia; 3- Mortuário; 4- Vejo-me Fantasma; 5- Ergástulo; 6- Volição dos Escravos; 7- Vector Arcano; 8- Druídas; 9- Na Ferida Um Verme; 10- Foges-me em Chamas; 11- Engôdo; 12- O Anjo Exilado; 13- O Escaravelho.

E com esta máquina locomotiva terminou o terceiro e penúltimo dia de Vagos Metal Fest. Um longo dia onde The Exploited incendiaram o recinto com punk cru e feroz, Black Flag trouxeram a raiva crua do punk à pele, Mayhem envolveram tudo numa névoa e ritual de caos e escuridão, e Bizarra Locomotiva selaram a noite com peso industrial e catarse. Um fim de dia que não foi apenas barulho, foi libertação.
Para muitos, era o dia mais forte e o encerramento do mesmo foi um abraço coletivo entre suor, distorção e libertação. Ficou a sensação de ter vivido algo maior do que música. Ali, entre corpos exaustos e sorrisos rasgados, havia uma certeza: por breves horas, fomos todos parte de algo indomável.
Amanhã arrancaremos para o último dia e a saudade já começa a apertar…
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