No último domingo, 12 de abril, o Carioca Club foi palco de um encontro que extrapolou a simples proposta de um show: tratou-se de uma verdadeira ponte entre diferentes gerações do rock nacional. De um lado, a irreverência ácida e histórica do Camisa de Vênus; do outro, a energia pulsante e autoral da Violett. O resultado foi uma noite marcada por contrastes que, longe de se anularem, se complementaram de forma orgânica e intensa.

A abertura ficou por conta da Violett, quarteto formado em Itu (SP), composto por Camila Doná (vocal), Andressa Mouxi (guitarra), Ana Júlia Nihil (baixo) e Júlia Baats (bateria). Desde os primeiros acordes, ficou evidente que não se tratava de uma simples banda de abertura. Com postura firme e entrega visceral, o grupo apresentou um set coeso, dinâmico e carregado de identidade própria — algo cada vez mais raro em um cenário muitas vezes dominado por fórmulas previsíveis.
Mesmo sendo essencialmente autoral, a Violett soube ler o ambiente e dialogar com o público presente. A inclusão estratégica de clássicos do rock e do metal internacional ajudou a criar uma conexão imediata, aproximando diferentes perfis de espectadores. Essas releituras, longe de soarem como um recurso fácil, foram executadas com personalidade, respeitando as origens, mas imprimindo a assinatura da banda.
No entanto, foi com seu material próprio que o grupo realmente se destacou.
Faixas como “Rollercoaster” e “Despertar” evidenciaram maturidade composicional, alternando momentos mais melódicos com passagens intensas e carregadas de peso. A resposta do público foi imediata: ,cabeças balançando e uma adesão crescente a cada música. O entrosamento entre as integrantes, aliado à presença de palco segura e carismática, transformou a apresentação em um verdadeiro espetáculo — não apenas um aquecimento, mas um dos pontos altos da noite.

Após esse início eletrizante, coube ao Camisa de Vênus subiram ao palco com energia — e o mérito — de quem ajudou a escrever capítulos fundamentais da história do rock brasileiro. Liderados por Marcelo Nova, a banda entregou um show que transitou entre a celebração e a provocação, marcas registradas de sua trajetória.

O repertório foi um desfile de clássicos que atravessaram gerações, incluindo “Eu Não Matei Joana D’Arc”, “Bete Morreu” e “Simca Chambord”. Cada canção era recebida como um hino, entoado em coro por um público que claramente carregava essas músicas na memória afetiva. A apresentação também dialogou com a celebração de fases importantes da carreira da banda, remetendo aos álbuns “Viva” e “Correndo o Risco”, obras que ajudaram a consolidar sua identidade irreverente e contestadora.
No palco, o Camisa de Vênus manteve intacta sua essência: atitude, crítica e uma energia crua que resiste ao tempo. Marcelo Nova, com seu carisma singular e presença marcante, conduziu o show com naturalidade, equilibrando momentos de interação com o público e execuções afiadas das músicas.
Ao final da noite, o que se viu no Carioca Club foi mais do que uma sequência de apresentações.
Foi um retrato fiel da continuidade do rock nacional — um diálogo entre passado, presente e futuro.
Se o Camisa de Vênus reafirmou sua relevância e legado, a Violett deixou claro que há uma nova geração pronta para ocupar seu espaço, não como mera herdeira, mas como protagonista de sua própria história.
Uma noite que não apenas celebrou o que já foi construído, mas também apontou, com convicção, para o que ainda está por vir.

Obs: Matéria originalmente direcionada/disponibilizada para o site Rock Vibrations.

