A sexta-feira revelou-se um capítulo de pura grandiosidade, onde gigantes do metal entregaram emoções em estado bruto. Por algumas preciosas horas, o céu concedeu uma trégua, e o alívio da chuva fez as pernas cansadas parecerem leves. Nesse respiro raro, a cerveja gelada voltou a ser saboreada com a calma que a tempestade havia roubado. Mas que ninguém se engane: o único silêncio foi o da água que parou de cair. Os amplificadores rugiam em fúria, e o metal, pontual e incansável, continuou a ecoar sem misericórdia.
Heavysaurus – W:E:T Stage – (Texto Patricia e fotos por Mia)
O festival mal tinha aberto a sua jornada no W:E:T Stage quando os Heavysaurus apareceram, dando o pontapé inicial com um banquete de metal infantil envolto em diversão e… lama.

Ainda que o barro já cobrisse as botas, quando os dinossauros surgiram em palco a avalanche de emoção foi instantânea. A Intro, com ecos do tema de Jurassic Park, funcionou como um portal para uma festa jurássica.
Com Super Monster-Auto, os pequenos — e também os grandes — fãs explodiram em saltos. O cover Pommesgabel / Don’t Stop Believin’ provocou uma surpresa delirante: um clássico reinventado em tom de rock infantil, recebido com gargalhadas e braços no ar.
Dinos woll’n euch tanzen seh’n incendiou a pista de dança, enquanto Metal um die Welt, estreada ao vivo, brilhou com luz própria e foi recebida como uma promessa cumprida. Com uma teatral Bandvorstellung, os dinossauros apresentaram-se fazendo referências bem-humoradas a hinos do metal como The Trooper ou Master of Puppets — uma declaração de intenções tão divertida quanto poderosa.
Rarrr e Retter der Welt mantiveram a adrenalina no topo, seguidas de Was willst du mal werden / Ufowerkstatt, que abraçou o espírito infantil e imaginativo. Kaugummi ist mega! foi o ponto de explosão: bolhas, saltos e coros pegajosos.
Para encerrar, Dino-Metalheads pôs todos a rugir, enquanto o Outro — novamente com ecos de Jurassic Park — deixou o ambiente carregado de nostalgia e alegria metálica.
Graveyard – Louder – (Texto e fotos por Iúri)

Ao meio-dia, quando o sol suave do Wacken Open Air começava a aquecer o terreno já marcado por milhares de botas, o Louder Stage foi tomado pela energia hipnótica e pelos riffs melódicos do Graveyard, uma das joias mais brilhantes do rock sueco. A multidão, formada por fãs leais que se reuniram com uma hora de antecedência, estava pronta para mergulhar no som que mistura o peso do hard rock clássico com a alma melancólica do blues. Era como se o festival, ainda despertando após noites de caos metálico, encontrasse no Graveyard o equilíbrio perfeito entre energia crua e emoção profunda, dando o tom ideal para o início de mais um dia épico.
Quando Joakim Nilsson e seus companheiros subiram ao palco, a atmosfera mudou instantaneamente. O Graveyard não apenas tocou — eles contaram uma história. Com uma presença que exalava autenticidade, a banda entregou um show que era ao mesmo tempo um abraço quente e um soco na alma. O setlist foi uma viagem pelos capítulos mais marcantes de sua carreira, equilibrando hinos clássicos com pérolas mais recentes. Ain’t Fit to Live Here explodiu como um trovão, com riffs afiados e ritmo galopante que fizeram a multidão se mover como se estivesse sob um feitiço rítmico. Hisingen Blues, carregando o peso da tradição do rock dos anos 70, transformou o Louder Stage em um mar de cabeças balançando e sorrisos nostálgicos, como se todos ali compartilhassem uma memória coletiva de uma era que nunca viveram.
Mas o Graveyard entende que o rock não é apenas fúria — é também coração. Quando os acordes suaves de Cold Love ecoaram, a multidão, antes agitada, silenciou para absorver a melancolia que parecia flutuar no ar, como uma brisa fria que acalma a alma. Uncomfortably Numb, com sua introspecção quase palpável, trouxe um momento de pausa reflexiva, no qual os fãs se permitiram sentir cada nota e cada palavra como se a música dialogasse diretamente com suas próprias cicatrizes. Era o tipo de conexão que apenas uma banda com tamanha sensibilidade e domínio técnico pode criar, transformando um festival colossal em algo íntimo e pessoal.
A performance foi uma aula de equilíbrio entre técnica e emoção. Joakim Nilsson, com sua voz carregada de histórias não contadas, comandava o palco com naturalidade, enquanto os riffs de Jonatan Ramm e a base rítmica de Truls Mörck e Oskar Bergenheim pulsavam com energia precisa e selvagem. Cada música era um convite para sentir — fosse dançando com a energia de um hino rock’n’roll, fosse se perdendo nas camadas mais sombrias e introspectivas das composições.
Quando o último acorde ressoou, a multidão explodiu em aplausos que pareciam não ter fim, como se tentasse prolongar aquele instante. O Graveyard não apenas abriu o dia no Wacken — eles o abençoaram, provando por que são um dos nomes mais respeitados do rock mundial. Para os fãs que saíam com sorrisos no rosto e o coração cheio, o show foi mais do que uma apresentação: foi um lembrete de que o rock, em sua essência, é sentir cada nota como se fosse a última. Um início perfeito para um dia que ficará gravado como pura magia sônica.
Lakeview – Louder Stage – (Texto e fotos por Mia)

Lakeview – A estreia do country no festival
O show de Lakeview foi um dos grandes destaques para mim e algo que eu aguardava desde o anúncio do lineup. Eles fizeram história como a primeira banda de country a se apresentar no festival, e ver um grupo em ascensão dos Estados Unidos em um dos palcos principais foi empolgante e inovador. Eu nunca havia visto a banda ao vivo, mas já os acompanhava há algum tempo e sempre quis essa oportunidade, então poder fotografá-los aqui foi especialmente significativo.
Mesmo com algumas dificuldades técnicas, Jesse Denaro e Luke Healy nunca perderam a atenção do público. A energia deles era contagiante, com cada música atraindo mais pessoas e criando uma atmosfera animada e envolvente. Um dos momentos mais memoráveis ocorreu quando Luke fez uma pausa entre as músicas para pedir a cerveja de um fã. A segurança passou a bebida até o palco, e ele a tomou ali mesmo, derramando boa parte em si no processo, o que fez a plateia explodir em risos e aplausos. Foi uma mistura perfeita do charme sulista com a cultura alemã de amor à cerveja, mostrando como eles estavam à vontade em se conectar com o público.
O setlist trouxe sucessos como Money Where Your Mouth Is, Rock Bottom e o divertido encerramento Bad Day to Be a Beer. Ao final, toda a multidão vibrava de energia, e parecia que todos sabiam que tinham acabado de testemunhar algo especial. Lakeview provou que não está apenas quebrando barreiras para o country no festival, mas também se firmando como um dos novos nomes mais empolgantes para se acompanhar.
Se você gosta de descobertas musicais e apresentações marcantes, continue acompanhando nossas coberturas e não perca os próximos destaques do festival!
Dominum – Faster Stage – (Texto e fotos por Iúri)
Às luzes flamejantes do Faster Stage, sob o céu nublado de Wacken, o Dominum irrompeu no palco como uma força da natureza, entregando um espetáculo que combinava teatralidade, peso e carisma em doses cavalares. A multidão, tomada por uma ansiedade quase palpável, explodiu em êxtase assim que os primeiros acordes ecoaram, transformando o espaço em um caldeirão de energia contagiante. O Dominum não apenas apresentou um show memorável — eles criaram uma experiência arrancada de um conto gótico, com produção visual tão meticulosa que cada detalhe, dos figurinos aos cenários, transportava a plateia para um mundo onde zumbis e horrores dançam sob a luz da lua. Foi uma noite que o Wacken não esquecerá tão cedo.

O setlist foi uma verdadeira jornada pelo universo único do Dominum, explorando sua mitologia sombria e divertida que prendeu a atenção dos fãs desde o primeiro segundo. Danger Danger abriu o show com uma explosão de energia, riffs galopantes e vocais poderosos que incendiaram a multidão, que cantava cada verso com punhos erguidos. Frankenstein trouxe uma atmosfera quase cinematográfica, mesclando peso e melodia de forma a dar vida ao monstro lendário. Já Immortalis Dominum elevou a energia a um nível épico, com o público se entregando a um frenesi de headbanging e gritos.
O ponto alto veio com o cover de Rock You Like a Hurricane, do Scorpions, homenagem que honrou os gigantes do hard rock alemão e demonstrou a versatilidade e o carisma avassalador da banda. A multidão cantou o refrão em uníssono, transformando o Faster Stage em um mar de vozes que ecoava muito além dos limites do festival.
Brothers of Metal – Harder Stage (Texto e fotos por Iúri)

Às 13h45, quando o sol castigava o terreno sagrado do Wacken Open Air, o Harder Stage foi tomado por uma onda de energia épica com a chegada do Brothers of Metal, a força ascendente do power metal sueco. Conhecidos por sua abordagem teatral e narrativas inspiradas na mitologia nórdica, eles não apenas subiram ao palco — reivindicaram-no como guerreiros vikings desembarcando para a batalha. O show, que se estendeu até 14h45, foi uma explosão de vitalidade, precisão e paixão, transformando o Harder Stage em um campo de Valhalla onde cada riff era uma espada e cada verso, um grito de guerra. Para muitos, foi mais que um show: uma experiência que transcendia o tempo, unindo passado mítico e presente fervoroso em uma celebração inesquecível.
O Brothers of Metal trouxe ao Wacken uma jornada sonora grandiosa e visceral. O setlist mergulhou profundamente na mitologia nórdica, com hinos evocando deuses, guerreiros e o fim dos tempos. Fimbulvinter abriu com intensidade gélida, como se o inverno profético tivesse descido sobre a multidão, que respondeu com urros e punhos erguidos. Prophecy of Ragnarök elevou a energia a níveis estratosféricos com seus coros épicos e riffs galopantes, levando a plateia a um frenesi coletivo. Njord, ode ao deus dos mares, trouxe uma atmosfera mística, com o público balançando como ondas em um oceano de metal. O Harder Stage tornou-se um campo de batalha glorioso, com mosh pits girando como tempestades e rodas de fãs que pareciam dançar em honra aos deuses antigos.
A performance foi uma masterclass de carisma e precisão. Com Ylva Eriksson e Mats Nilsson dividindo os vocais, a dinâmica era única: Ylva, com voz poderosa e etérea, canalizava o espírito de uma valquíria; Mats, com guturais e energia bruta, evocava a fúria de um berserker. Riffs afiados e uma base rítmica pulsando como o coração de um dragão davam vida a cada capítulo dessa saga. O ápice veio com Defenders of Valhalla, hino feito para ecoar nos salões dos deuses, cantado com paixão por milhares, fazendo o chão tremer em catarse coletiva.
A energia era elétrica, quase sagrada. Fãs com bandeiras tremulando e rostos pintados com runas entregavam-se por completo, conectando-se visceralmente à banda. O Brothers of Metal não apenas tocava — liderava como generais de um exército de headbangers. Figurinos vikings e presença de palco majestosa elevaram o espetáculo a um patamar que poucos no festival alcançaram. Quando o último acorde de Defenders of Valhalla ecoou, aplausos e gritos incessantes tentavam prolongar o momento. Eles deixaram o Harder Stage como conquistadores, provando serem uma das forças mais empolgantes do power metal atual. Para os que saíram com corações acelerados e vozes roucas, foi mais que um concerto — foi uma saga viva, um capítulo épico na história do Wacken, marcado com fogo e glória.
Faster Stage – Landmvrks – (Texto e fotos por Mia)

Uma performance eletrizante de metalcore
Landmvrks é uma daquelas bandas que sempre digo que amo, mesmo que raramente as coloque para tocar sem um motivo real que consiga explicar. Vê-los ao vivo me lembrou exatamente por que sinto isso. A energia deles no palco foi inacreditável, e os vocais tinham uma qualidade única e crua que os fazia parecer existir em seu próprio universo. Como alguém vindo dos Estados Unidos, fiquei sinceramente surpreso em vê-los tocando no palco principal aqui. Em casa, eles farão um show como headliners em um local com capacidade para 2.500 pessoas, a apenas uma hora de mim, ainda este ano — e eu já garanti meu ingresso. Assistir a banda dominar um palco tão massivo foi surreal, mas completamente merecido.
Desde o momento em que subiram ao palco, prenderam totalmente a atenção da plateia. Os fãs se moviam, cantavam e entravam no mosh do primeiro gradil até o fundo, e mesmo com o chão enlameado dificultando, ainda havia gente fazendo crowdsurfing. Esse tipo de energia é difícil de alcançar neste festival, mas eles tornaram tudo natural e sem esforço. Cada música — de Blistering a Lost in a Wave até o devastador encerramento Self-Made Black Hole — bateu com a mesma intensidade, e o público correspondeu a cada instante.
Esse pode ter sido meu show favorito de todo o festival. Landmvrks provou que não são apenas uma das bandas mais empolgantes do metalcore atualmente, mas também um grupo capaz de unir uma multidão de forma totalmente elétrica.
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Harder Stage – Peyton Parrish – (Texto Gustavo e fotos por Iúri)
O sol já estava alto quando a Harder Stage começou a receber um público variado: veteranos de festival, curiosos e fãs fiéis de Peyton Parrish. Não era sua primeira vez em Wacken, mas o clima tinha algo diferente: sentia-se que Peyton vinha com um repertório preparado para marcar presença.
O público não precisou esperar muito pelas esperadas canções vikings que deram fama a Peyton Parrish, “My Mother Told Me“, que imediatamente acenderam as chamas. A voz profunda e cavernosa de Peyton preencheu todos os cantos do terraço, e a plateia respondeu como um coral viking improvisado. “Valhalla Calling” intensificou ainda mais essa energia, com milhares de vozes repetindo o refrão como se fosse um juramento tribal. E as canções “Ragnarök” e “Draugr” transformaram a plateia em um exército viking.

No meio do show, veio um momento especial: Peyton apresentou Void, uma faixa inédita que, segundo anunciou, será lançada oficialmente no outono de 2025. Mais sombria e pesada que as anteriores, a música apresentou um riff denso e um ritmo carregado que prendeu até quem nunca a tinha ouvido. Apesar de ninguém poder cantar junto, a recepção foi entusiasmada e deixou claro que o tema tem potencial para se tornar presença constante em seus concertos.
Não faltaram as adaptações mais conhecidas, como a épica I’ll make a man out of you do filme Mulan da Disney, nas quais a banda de apoio pisou fundo com uma seção rítmica precisa e esmagadora. Entre as músicas, Peyton agradecia ao público pelo apoio e celebrava estar de volta ao palco de Wacken.
O encerramento com Battle Cries foi um estouro final, com toda a esplanada cantando o refrão e marcando o tempo com palmas. Quando a última nota se apagou, o público continuou aplaudindo e ovacionando, ciente de que havia presenciado um show que combinou sucessos conhecidos, momentos de comunhão coletiva e uma prévia exclusiva do que está por vir.
Faster Stage – Krokus – (Texto e fotos por Iúri)

Quando o Krokus, uma das lendas mais duradouras do hard rock suíço, subiu ao palco do Wacken Open Air, o ar se encheu de uma energia nostálgica e eletrizante, como se o festival tivesse sido transportado diretamente para os gloriosos anos 80. Com mais de quatro décadas de estrada, a banda provou que o tempo não diminuiu sua chama — pelo contrário, parece tê-la tornado ainda mais intensa. O show foi uma celebração vibrante do puro espírito do hard rock, uma viagem no tempo que fez a multidão dançar, cantar e reviver a essência de uma era em que o rock reinava supremo. Cada riff, cada grito, cada batida era um lembrete de por que o Krokus continua sendo um nome reverenciado no mundo da música.
O setlist foi um verdadeiro arsenal de clássicos, escolhido para incendiar o público e honrar a trajetória da banda. Headhunter abriu o show com força avassaladora, seus riffs pesados e o vocal rasgado de Marc Storace cortando o ar como lâmina afiada. A multidão respondeu com explosão de entusiasmo, cantando cada verso com punhos erguidos e sorrisos que misturavam nostalgia e euforia. Long Stick Goes Boom veio em seguida, com ritmo contagiante que transformou o palco em festa, com headbangers de todas as idades pulando como se não houvesse amanhã. O cover de Stayed Awake All Night, do Bachman-Turner Overdrive, foi pura conexão com as raízes do rock, com a plateia entoando o refrão como um hino de juventude.
O Krokus ainda guardava surpresas que elevaram o show a outro patamar. Rockin’ in the Free World, de Neil Young, foi um dos pontos altos, com a banda injetando energia crua na música, transformando-a em hino de rebeldia sob medida para o Wacken. A plateia cantava com paixão que fazia o chão tremer, como se cada nota fosse um grito de liberdade. Aos 74 anos, Storace comandava o público com vitalidade de um jovem rebelde, enquanto os riffs de Fernando von Arb e a base rítmica de Chris von Rohr pulsavam com precisão que desafiava o tempo.
O encerramento veio com Screaming in the Night, trazendo onda de emoção que envolveu cada alma presente. A música, um dos maiores hinos do Krokus, foi cantada pela multidão com intensidade arrebatadora, como se fosse uma despedida e uma promessa ao mesmo tempo. Live for the Action fechou o show com chave de ouro, resumindo o espírito da banda: viver pelo rock, pela adrenalina e pela conexão com os fãs. Quando o último acorde ecoou, aplausos e gritos tomaram conta, com rostos brilhando de suor e felicidade, como se todos soubessem que viveram um momento único.
O Krokus não apenas tocou no Wacken — reacendeu a chama do hard rock clássico, mostrando que sua música ainda pulsa com força e relevância. Foi uma noite de celebração, nostalgia e pura energia, em que a banda provou que, mesmo após mais de 40 anos, ainda tem o poder de eletrizar corações e fazer o público acreditar na magia do rock’n’roll. Para os fãs que saíram com vozes roucas e espíritos elevados, ficou a certeza: lendas como eles não apenas sobrevivem — elas prosperam e continuam a inspirar.
Louder Stage – Nailbomb – (Texto e fotos por Iúri)
Louder Stage do Wacken Open Air 2025 foi transformado em um campo de batalha sônica com a chegada do Nailbomb, o lendário projeto de Max Cavalera que ressurgiu das cinzas para reacender a chama do industrial-thrash dos anos 90. Após décadas de silêncio, a banda, agora acompanhada por Igor Amadeus Cavalera, Travis Stone, Adam Jarvis e Jackie Cruz, entregou uma performance como um soco no peito, revivendo a raiva crua e a energia caótica que fizeram de Point Blank um clássico cult. Mais que um show, foi um manifesto de fúria — prova de que o Nailbomb continua sendo uma das forças mais devastadoras do metal extremo.

O setlist foi uma granada sonora, detonando hinos que capturam a essência niilista e rebelde do projeto. Wasting Away abriu o show com intensidade esmagadora, riffs industriais e batidas pulsantes transformando a multidão em um mar de corpos colidindo em mosh pits furiosos. 24 Hour Bullshit veio como um grito de protesto, com Max despejando raiva característica em cada verso, enquanto a plateia cantava junto como se expurgasse frustrações acumuladas. Vai Toma no Cú explodiu como um furacão punk, transformando o Louder Stage em pandemônio, com fãs brasileiros e estrangeiros celebrando rebeldia e caos. Ainda houve espaço para covers brutais de Exploitation, do Doom, e Police Truck, do Dead Kennedys, reafirmando as raízes punk e a capacidade de transformar influências em algo ainda mais agressivo.
No palco, Max Cavalera era pura eletricidade. Com voz gutural e postura de quem ainda tem contas a acertar com o mundo, comandava a multidão como um general em guerra sonora. A nova formação — com destaque para a bateria avassaladora de Adam Jarvis e a energia visceral de Igor Amadeus — soava tão suja e agressiva quanto o Nailbomb original. A produção visual, crua mas impactante, com luzes estroboscópicas e estética pós-apocalíptica, reforçava a sensação de revolta musical, onde cada acorde era um protesto contra a apatia. Sob chuva e lama, a plateia respondia com energia primal, transformando o Louder Stage em um caldeirão de caos e paixão.
Mais do que uma performance, foi uma catarse coletiva. Cada música parecia um convite para liberar raiva, gritar contra injustiças e celebrar a liberdade que o metal proporciona. Quando o último riff ecoou, a multidão — exausta, mas extasiada — aplaudiu como se quisesse prolongar o momento para sempre. O Nailbomb deixou no Wacken uma marca de destruição, provando que, mesmo após 30 anos, continua sendo uma Abrissbirne — bola de demolição — que nada poupa em seu caminho. Para quem viveu essa experiência, ficou o lembrete: a raiva, quando canalizada pela música, é uma das formas mais poderosas de expressão. O Nailbomb voltou — e mais furioso do que nunca.
Eihwar – Wackinger Stage – (Texto e fotos por Iúri)
No Wackinger Stage, por volta das 18h30, a magia tomou forma. O sol se punha, pintando o céu em tons de laranja e roxo, e toda a atmosfera do Wacken Open Air parecia convergir para aquele momento. Foi quando o Eihwar subiu ao palco, trazendo não apenas música, mas um espetáculo de pura adrenalina e mitologia nórdica.

O visual da banda por si só já era um show. O guitarrista, lembrando um druida ancestral; o baixista, com um imponente capuz de lobo; a vocalista, uma verdadeira guerreira tribal; e o baterista… ah, o baterista, vestido como um carrasco medieval, roubando olhares com um figurino tão único que competia com o resto da banda. Cada detalhe das roupas parecia saído de uma saga épica, criando uma estética que misturava arte e combate. O público, hipnotizado, estava pronto para entrar nessa batalha sonora.
O setlist foi uma viagem pelos Nove Mundos da mitologia nórdica. Völva’s Chant trouxe a força e a solenidade de um ritual ancestral; Ragnarök liberou uma energia caótica e avassaladora; Baldr mergulhou a todos em melancolia e reverência. Era como se cada nota fosse um elo entre Midgard e Asgard, e a banda, o canal para a voz dos deuses.
Os ápices ficaram por conta de Viking War Trance e Berserkr. A vocalista parecia entrar em transe, o baterista golpeava como se invocasse a própria tempestade, e os demais músicos se entregavam completamente aos seus instrumentos. A energia no ar era palpável — o público, que antes apenas assistia, agora estava em êxtase, mãos erguidas, gritos de guerra e cabeças batendo em sincronia.
O show do Eihwar foi mais que música: foi história, foi lenda. Uma fusão arrebatadora de folk e metal que transcendeu gêneros e se tornou uma experiência ritualística. Saímos de lá com o coração acelerado, a alma purificada e a certeza de termos testemunhado algo verdadeiramente épico.
Dirkschneider – Louder Stage – (Texto por Gus)
O céu já começava a ganhar os tons quentes do entardecer quando a Harder Stage recebeu uma verdadeira instituição do heavy metal alemão: Udo Dirkschneider. Com seu característico traje camuflado e aquela voz áspera inconfundível, o ex-vocalista do Accept não precisou de apresentação: bastou aparecer no palco para que o rugido do público dissesse tudo.

A abertura com Starlight deixou as cartas na mesa. Guitarras cortantes, bumbo duplo e um Udo que, apesar dos anos, mantém intacta a força e o carisma que o tornaram uma lenda. Em seguida vieram London Leatherboys e Midnight Mover, com um público entregue que não parava de cantar os refrões.
O clima ganhou ainda mais intensidade quando Doro Pesch surgiu entre a neblina para interpretar Winter Dreams, em uma versão do Accept que nunca soou tão poderosa. O dueto foi um verdadeiro encontro de titãs: a voz grave e áspera de Udo, a clareza metálica de Doro e uma performance conjunta envolta em névoa e olhares cúmplices. Um momento que ficará na memória de Wacken, celebrado tanto pelo valor artístico quanto pela conexão entre dois ícones do metal.
O coração do concerto foi um tributo completo ao Accept: Princess of the Dawn soou monumental, com todo Wacken cantando em uníssono, e Restless and Wild fez até as últimas filas se levantarem. Entre as músicas, Udo falou com o público em alemão e inglês, relembrando suas primeiras visitas ao festival e agradecendo por continuar a fazer parte da história do metal.
O ápice veio com Metal Heart, um clássico absoluto. Os telões mostravam imagens da multidão formando chifres com as mãos enquanto as guitarras recriavam o icônico solo com toques de Beethoven.
Para encerrar, o inevitável Balls to the Wall provocou delírio coletivo: milhares de vozes cantando juntas, saltos, bandeiras ao vento e um Udo sorrindo de orelha a orelha. O último acorde se fundiu com uma ovação que parecia não ter fim.
Fear Factory – Louder Stage – (Texto e fotos por Iúri)
Foi exatamente às 19h00 que o Fear Factory invadiu o Louder Stage, e a lama, antes apenas um obstáculo, se tornou parte do espetáculo. O show, que se estendeu até às 20h00, foi uma declaração de força e resistência, provando que a banda não apenas sobreviveu ao tempo, mas continua evoluindo de forma impressionante.

Dino Cazares, maestro do caos sonoro, empunhava sua guitarra como uma arma, disparando riffs brutais que pareciam abrir fendas na terra. A combinação entre precisão técnica e agressividade pura transformou o palco em um caldeirão de energia. Essa performance se tornou um dos pontos mais altos de todo o festival, reafirmando o lugar do Fear Factory na história do metal.
O setlist foi um mergulho intenso na discografia da banda, recheado de hinos do metal industrial. As primeiras notas de Demanufacture já incendiaram a plateia. Replica e Pisschrist vieram com uma entrega avassaladora. O novo frontman, com uma voz potente e visceral, se encaixou perfeitamente na sonoridade clássica, honrando o legado enquanto trazia nova energia. A bateria, precisa e impiedosa, junto aos riffs demolidores de Dino, criou uma parede sonora que engoliu o público por completo.
Como presente, a banda surpreendeu com o cover de Dog Day Sunrise, do Head of David, fortalecendo ainda mais a conexão com a multidão. Para encerrar, a poderosa Linchpin deixou todos extasiados, provando que o Fear Factory é mais do que uma banda de metal industrial — é uma força da natureza. Foi um espetáculo visceral, técnico e inesquecível, que fez o público esquecer o cansaço, a chuva e a lama, lembrando que no metal, a paixão é o que realmente importa.
Moonsorrow – Wackinger Stage – (Texto por Patricia)
A noite caía sobre Wacken quando o Louder Stage mergulhou na penumbra. Uma densa cortina de fumaça começou a cobrir o palco, enquanto um murmúrio reverente percorria o público. Não era para menos: Moonsorrow, titãs finlandeses do folk/pagan metal, estavam prestes a revelar sua inconfundível fusão de épica, obscuridade e paisagens sonoras infinitas.
Sem apresentações ou discursos, a banda iniciou com um tema que parecia emergir da própria terra: guitarras distorcidas e arrastadas, teclados envolventes e uma percussão que ecoava como tambores de guerra distantes. Desde o primeiro minuto, o show foi uma imersão completa: riffs monolíticos que se estendiam por longos minutos, mudanças de tempo calculadas e passagens atmosféricas que davam a sensação de trilha sonora de uma saga nórdica.
Kylän päässä e Suden Tunti marcaram momentos decisivos, com os vocais guturais de Ville Sorvali se misturando a coros e melodias que soavam como cânticos ancestrais. As luzes, predominantemente em tons frios — azuis, verdes e brancos — reforçavam a atmosfera de floresta boreal, enquanto a fumaça e a névoa artificial transformavam os músicos em silhuetas etéreas.
No momento intermediário, Moonsorrow abriu espaço para um trecho instrumental quase hipnótico: guitarras limpas, teclado etéreo e um silêncio absoluto na plateia, como se todos prendessem a respiração. Foi o prelúdio perfeito para o retorno à tempestade elétrica, com um tema final que cresceu até atingir um clímax ensurdecedor.
Na despedida, não houve discursos longos. Apenas um gesto coletivo de agradecimento e o eco das últimas notas se prolongando no ar frio da noite. Mais do que um concerto, Moonsorrow ofereceu um ritual sonoro que envolveu Wacken em um manto de épica melancolia.
Papa Roach – Faster Stage – (Texto Patricia)
Era já noite cerrada quando o Faster Stage se converteu em um caldeirão de energia nu metal. Papa Roach, mesmo em sua primeira vez como headliners na Europa, chegaram determinados a provar por que continuam vivos na memória coletiva do metal moderno.

As primeiras chamas explodiram ao compasso da estreia de BRAINDEAD, projetada desde fita, como prelúdio de uma avalanche sonora. Even If It Kills Me e Blood Brothers se sucederam diante de uma multidão que cantava cada verso como se fosse um hino pessoal. Dead Cell elevou ainda mais a adrenalina, enquanto …To Be Loved apresentou a elasticidade emocional da banda, equilibrando fúria e melodia.
Jacoby Shaddix não deixou espaço para respirar. Corria, gritava e agitava o público, transformando o campo em uma massa vibrante de adrenalina. Kill the Noise veio com riffs diretos ao peito, e Getting Away With Murder desatou um coro titânico.
O momento mais inusitado surgiu com um cover instrumental de California Love, usado para apresentar cada membro da banda, gerando risos e cumplicidade antes de retomar a tempestade sonora. Em Liar e no medley Forever / In the End / Changes, Jacoby prestou tributo a Chester Bennington com uma introdução carregada de emoção.
O tom mudou com um breve vídeo sobre prevenção ao suicídio, seguido por Leave a Light On (Talk Away the Dark), que gerou um silêncio denso e significativo no campo lamacento. Jacoby pediu um minuto de silêncio pelos que se foram e disse que doaria os lucros do show para uma linha local de prevenção ao suicídio. Logo depois, Scars explodiu como catarse coletiva, antes de um solo de bateria reacender a euforia.
O bloco final foi uma descarga de energia: Help, Born for Greatness, Between Angels and Insects, Infest… cada faixa incendiava mais o público. Um medley nu metal (Blind / My Own Summer / Break Stuff / Chop Suey) acendeu os ânimos antes do clímax com Last Resort: confete, luzes, punhos erguidos e uma catarse coletiva.
Como disse um fã presente: “I did not expect too much from Papa Roach, but they were surprisingly awesome… they used the moment to draw attention to suicide, which was pretty damn emotional.”
No final, Papa Roach não apenas tocou — reivindicou seu lugar no legado do metal moderno com uma atuação que combinou nostalgia, impacto visual e um coração coletivo.
Schandmaul – Wackinger Stage – (Texto por Gus)
Chegar até o Wackinger Stage naquela noite foi, para muitos, quase uma prova de resistência. Coincidindo com a saída em massa do show de Papa Roach no Harder Stage, a área do Wackinger Village se transformou em um funil humano. O barro acumulado após vários dias de chuva fazia de cada passo uma batalha, e os acessos estreitos do espaço medieval colapsaram por completo. Avançar era um exercício de paciência: centenas de pessoas presas, algumas tentando chegar ao concerto, outras apenas querendo sair, todas mergulhadas em um caos lento e escorregadio.
Quem conseguiu alcançar a frente do palco chegou encharcado, coberto de lama e com a sensação de ter superado uma odisseia. Mas a recompensa valeu a pena. Entre tochas, barracas de hidromel e bandeiras medievais ao vento, Schandmaul surgiu no palco como se nada pudesse alterar a magia que estava prestes a acontecer.
In der Hand foi mais do que uma canção — foi uma mão estendida ao público, uma ponte sobre o barro. Em seguida veio Tatzelwurm, com o seu ritmo avassalador, incitando a multidão a mergulhar no folclore lendário.
Teufelsweib e Knüppel aus dem Sack trouxeram o humor ácido e a força combativa que caracterizam a banda, enquanto Die Tafelrunde convidou a imaginar banquetes guerreiros e juramentos sagrados ao calor da música.
Der Teufel… e Traumtänzer levaram a audiência a uma viagem mística, unindo o sombrio e o onírico com melodias que flutuavam sobre o caos do festival. Pakt reforçou essa atmosfera de pacto ancestral, enquanto Bunt und nicht braun incendiou a alma com uma celebração vibrante e coletiva.
E então chegou Walpurgisnacht, um encerramento que tinha de tudo: fogo, coros, saltos frenéticos e uma névoa de magia que selou o espírito do dia. O barro foi absorvido pelo canto geral, e as tochas pareciam prestar tributo ao final de uma noite extraordinária.
Harder Stage – Dimmu Borgir – (Texto e fotos por Iúri)
A multidão massiva e impaciente se reunia diante do Harder Stage, com o ar carregado de antecipação. Às 22h30, as luzes se apagaram e a escuridão deu lugar à imponência do Dimmu Borgir. Não vieram apenas para tocar — apresentaram um verdadeiro ritual de black metal sinfônico que ecoou por todo o Wacken, consolidando-se como um dos pontos altos do festival.

O espetáculo começou com Moonchild Domain, transportando o público para um reino de trevas e grandiosidade. O setlist foi uma jornada épica, mesclando a agressividade de clássicos com a complexidade de faixas de diferentes fases da banda. Puritania explodiu com energia quase violenta, enquanto Interdimensional Summit e Gateways ressoaram com majestade por toda a planície. A plateia, em êxtase, entoava cada refrão em uníssono, enquanto o headbanging seguia o ritmo insano da bateria de Daray.
Em um momento especial, o Dimmu Borgir presenteou os fãs com Cataclysm Children, tocada pela primeira vez desde 2014, fazendo o coração dos mais dedicados pulsar mais forte. A banda exibiu sua maestria ao unir brutalidade e melodia, como nas poderosas The Serpentine Offering e Stormblåst, onde orquestrações grandiosas se fundiram à fúria do black metal.
O clímax veio no encerramento com Progenies of the Great Apocalypse e Mourning Palace, deixando a multidão completamente rendida. Ao final da meia-noite, todos sabiam que haviam testemunhado um espetáculo histórico. O Dimmu Borgir não apenas tocou — reafirmou seu status de lenda, provando que sua música continua a ressoar com força incomparável, marcando o festival com uma noite inesquecível de black metal.

