No passado dia 20 de Setembro, como a tradição já manda, despedimo-nos do Verão ao som de 8 grandes bandas nacionais e internacionais, naquilo que foi a IX edição do River Stone Fest. Foram cerca de dez horas marcadas por atuações arrebatadoras, grande convívio e um ambiente verdadeiramente inesquecível!

Hate, por @ricardosilvaphotography

O River Stone Fest conta já com 9 edições de história. Mas este ano conseguiu o maior marco de sempre, não só para o festival, como também para a pacata vila de Rio de Moinhos. É com enorme orgulho que vemos o River Stone dar os frutos merecidos! Cada detalhe foi pensado com paixão, e o resultado superou todas as expectativas. Ver a energia do público e a força das bandas foi a maior recompensa possível.

O cartaz deste ano incluía excelentes nomes da música extrema, passando por diversos géneros: começando com a combinação criativa de death metal melódico com bastantes elementos doom dos The Chapter, e seguindo com o death metal brutal de Unfleshed, o Symphonic Death Metal grandioso dos Mortuorial Eclipse, o death metal melódico dos Franceses Destinity, a evolução estilística mega bem sucedida dos Alemães Pyogenesis, o post-black, com elementos de folk da multi-instrumentalista Sylvaine, os enormes do blackened death metal Polaco Hate, e finalizando com chave de ouro com um dos grupos mais promissores do metal português, os enormes do sludge, Music In Low Frequencies.

THE CHAPTER

Os portugueses The Chapter foram responsáveis por abrir a edição mais forte de sempre do River Stone Fest. Tarefa difícil? Não para estes senhores que o fizeram com mestria e profissionalismo.

Com um recinto a encher-se gradualmente, posso afirmar que The Chapter, embora tenham aberto o festival, contaram já com uma plateia bastante composta, provando que muita gente esperava assistir a este concerto.

A banda segue combos como Swallow The Sun e os primórdios de Opeth, mas também incorpora abordagens modernas ao estilo de Gojira. A sonoridade é completada ainda por passagens sonoras melancólicas, como as conhecemos de grandes nomes como Paradise Lost ou Katatonia. Portanto, para fãs destes grupos e estilos, certamente consolaram-se ao assistir a esta grandiosa atuação.

The Chapter, por @ricardosilvaphotography

Foram minutos intensos em que respirámos uma atmosfera catatónica e sombria, sustentada por ritmos pesados e groovy que envolveram por completo o público. As variações rítmicas trouxeram dinâmica e diversidade ao set, enquanto os ganchos de guitarra, melódicos e bem intercalados, adicionaram uma camada extra de profundidade ao som. A voz de Tiago Oliveira encaixou-se de forma perfeita neste cenário sonoro, com os seus berros ásperos e vocais profundos mas surpreendentemente claros, reforçando a identidade e o impacto da performance.

Testemunhamos uma atuação que teve tanto de intenso como de emotivo, e que conquistou o público naquele início de tarde.

The Chapter, por @ricardosilvaphotography

UNFLESHED

Viajamos agora do death metal melódico com elementos de doom dos The Chapter, para algo bem mais brutal e violento: o death metal agressivo dos Unfleshed.

Os Unfleshed subiram ao palco do River Stone com uma presença arrebatadora, e rapidamente deixaram claro que não estavam ali para passar despercebidos. Com uma sonoridade agressiva, técnica apurada e uma coesão impressionante entre os membros, entregaram um concerto poderoso do início ao fim.

Unfleshed, por @ricardosilvaphotography

Cada tema foi executado com precisão brutal, alternando entre passagens demolidoras e momentos de pura fúria controlada. O público respondeu com entusiasmo, rendido à intensidade da performance. Foi uma atuação memorável, que reforça o estatuto dos Unfleshed como uma das bandas mais consistentes do death metal nacional.

Estes senhores deram uma verdadeira lição de como apresentar brutalidade, agressividade, qualidade técnica e destruição instrumental e lírica e o público ficou a ferver após esta atuação.

Unfleshed, por @ricardosilvaphotography

MORTUORIAL ECLIPSE

E chegou a hora do Symphonic Black/Death Metal dos Argentinos Mortuorial Eclipse entrar em ação.

Com uma imagem incrível, este grupo rapidamente captou a atenção de todos os presentes, ainda antes de tocaram a primeira nota. Mas se a sua imagem era espetacular, o público ficou ainda mais surpreendido depois do primeiro riff ser lançado.

Mortuorial Eclipse apresentam um estilo musical profundamente enraizado no death metal sinfónico, mas elevam-no com uma abordagem quase cinematográfica e ritualista. As suas composições são densas e meticulosamente construídas, combinando camadas de orquestrações épicas, percussões tribais e atmosferas litúrgicas que evocam um universo sonoro apocalíptico. As guitarras são pesadas e bem definidas, servindo como base para vocais guturais profundos que reforçam o carácter obscuro e cerimonial da banda.

Mortuorial Eclipse, por @ricardosilvaphotography

DESTINITY

Viajamos agora para França, Lyon, com os Destinity. Este grupo emergiu no mundo do black metal, mais tarde fundiu esse género com o sinfónico black/death metal e, atualmente, focam-se no death metal melódico fundido com thrash. Uma viagem estilística que foi sendo perceptível e até imprevisível com o passar do tempo e com o lançamento das mais diversas obras lançadas.

Aqui, nesta atuação, testemunhamos um pouquinho de cada uma dessas fases, o que foi bastante interessante no ponto de vista do progresso da banda.

Destinity, por @ricardosilvaphotography

O que estes senhores fizeram? Incendiaram o palco do River Stone com uma atuação absolutamente esmagadora. Com uma carreira sólida e uma sonoridade criativa, mostraram-se uma máquina bem oleada, dominando o público com confiança e carisma. As guitarras cortantes, os refrões poderosos e a energia contagiante da banda criaram um dos momentos mais intensos do festival.

Foi uma atuação dinâmica e envolvente, que provou o porquê de os Destinity continuarem a ser um nome de peso no metal europeu e no River Stone. Conquistaram cada ouvinte, do primeiro ao último riff e provocaram o caos no público que respondeu com energia vibrante, moshe e circle pits.

Destinity, por @ricardosilvaphotography

PYOGENESIS

Os Pyogenesis deram um espetáculo absolutamente inesquecível! Este concerto no River Stone marcava o regresso dos alemães a Portugal, 30 anos mais tarde, e deram uma lição de como se unirem com o público a todos os níveis. A proximidade que tiveram conosco foi absolutamente incrível e isso nunca mais será esquecido!

Arrancaram o concerto logo cheios de energia e vontade de estar ali a tocar para nós! Após os primeiros minutos, o vocalista e guitarrista Florian V. Schwarz tem de parar uns segundos devido a um pequeno corte na mão, que foi controlado com fita cola, o que resultou num momento de alguma forma bastante engraçado. Mas nada era capaz de parar esta banda.

Pyogenesis, por @ricardosilvaphotography

Os lendários Pyogenesis trouxeram ao River Stone um concerto carregado de nostalgia, energia e mestria musical, mostrando porque continuam a ser uma referência incontornável no metal alternativo europeu. Com uma carreira que atravessa várias fases e sonoridades, a banda alemã brindou o público com um alinhamento equilibrado entre temas mais recentes e clássicos intemporais, todos executados com enorme entrega. Viajamos pelas várias fases da sua carreira: pelo Doom, pelo Death Metal, pelo Gothic Metal, pelo Alternative Rock e até mesmo o Punk. E todas as faixas e fases da sua carreira foram recebidas bom uma energia brutal do público.

A escolha musical para encerrar o concerto passou pela faixa I Have Seen My Soul, um tema que tem tudo o que é preciso para criar um momento marcante ao vivo, com um refrão impossível de não ser cantado e repetido em uníssono pelo público, seguido de Don’t You Say Maybe, que permitiu deixar um coro vindo do público até aos últimos segundos de atuação da banda. Uma escolha perfeita para um final em grande.

Foi uma atuação marcante, que uniu gerações e confirmou que os Pyogenesis continuam em plena forma, capazes de criar momentos memoráveis em qualquer palco.

Pyogenesis, por @ricardosilvaphotography

SYLVAINE

E chegou um dos pontos mais altos da noite. O regresso de Sylvaine a palcos portugueses !

Após a estreia do projeto em Portugal em 2023, com duas datas em Lisboa e no Porto, o regresso de Kathrine e companhia era muito desejado, e tal foi tornado possível agora, na IX edição do River Stone.

Vários minutos antes do início da atuação, o recinto já se encontrava lotado e a expectativa em torno de Sylvaine era palpável. E não só essas expectativas foram cumpridas, foram amplamente superadas, num concerto que tocou fundo e deixou marca.

Este projeto da multi-instrumentalista criado em torno de 2013 em Oslo, tem vindo a dar muito que falar pelos melhores motivos. Estilisticamente, Sylvaine demonstra algumas variantes que vão desde o black metal, ao post-black metalfolk nórdicoambiental e até roça no DSBM. Mas o que está presente em todas as suas obras são os verdadeiros tesouros e delícias musicais, de natureza extrema mas também delicada. Faixas suaves, hipnóticas, quase lamentosas às vezes, expressando uma ampla profundidade de emoção com precisão e subtileza praticadas, mas também faixas de verdadeiro peso e violência que demonstra desespero, dor, angústia. A versatilidade composicional da artista é um dos seus maiores pontos fortes, e a sua criatividade foi o que a permitiu alcançar patamares tão altos.
Sylvaine, por @ricardosilvaphotography

HATE

A adrenalina e as vibrações estavam ao máximo após o magnífico concerto de Sylvaine, mas ainda não era hora de abrandar: os poderosos polacos Hate estavam prestes a criar mais um dos momentos mais memoráveis do dia!

Após uma presença em Portugal em 2022, o seu regresso já era esperado por muitos! Ainda mais, com material fresquinho: o seu novo álbum Bellum Regiis, um trabalho recebido com grande entusiasmo pelo público, consolidando-se como um dos lançamentos mais impactantes da banda, graças à sua combinação poderosa de brutalidade, atmosfera e identidade própria.

Hate, por @ricardosilvaphotography

Os Polacos têm vindo a manter o seu nível em todos os trabalhos apresentados, quer numa realidade mais death metal como foram as suas origens, como na sua vertente com elementos de black, como é a realidade atual. E devido a esta gigante competência e homogeneidade, atingiram um reconhecimento mundial tão grande e conquistaram uma enorme rede de fãs, merecendo um lugar no pódio deste estilo.

Neste concerto no River Stone, trouxeram uma descarga implacável de death/black metal, num concerto que foi puro caos controlado. Com uma presença imponente e uma execução fria e precisa, a banda dominou o palco com um som avassalador, riffs cortantes e uma brutalidade ritualística que hipnotizou o público. A intensidade da performance foi constante, sem espaço para tréguas, mergulhando a audiência num ambiente sombrio e esmagador.

Ver Hate ao vivo é presenciar uma máquina de guerra sonora, e no River Stone, provaram por que são um dos nomes mais respeitados do metal extremo europeu.

No meio de um concerto verdadeiramente marcante, houve apenas um momento que deixou um ligeiro sabor a pouco. Já perto do final, após agradecerem ao público, os músicos ausentaram-se do palco, deixando no ar a expectativa de um possível encore. No entanto, após alguns minutos de espera, as luzes acenderam-se, encerrando o espetáculo de forma algo abrupta e inesperada. Apesar do cansaço acumulado e da noite fria, o público português estava disponível e desejoso por mais. Ainda assim, este detalhe em nada retirou mérito à performance arrebatadora que presenciámos. Foi, sem dúvida, o ponto mais alto do evento, e isso é absolutamente indiscutível.

Hate, por @ricardosilvaphotography

MUSIC IN LOW FREQUENCIES

Os promissores representantes do sludge em Portugal, os Music In Low Frequencies, tinham, talvez, o desafio mais exigente de todo o festival. Já passava das duas da manhã, o frio fazia-se sentir intensamente e o desgaste de um longo dia pesava nos corpos do público. Ainda assim, MILF subiram ao palco com garra e entregaram uma atuação arrebatadora, provando que a força da música, quando é genuína, supera até as condições mais difíceis.

Music in Low Frequencies são uma força em ascensão no panorama do sludge e post-metal português. Com uma sonoridade densa, arrastada e profundamente atmosférica, a banda conjuga peso e emoção de forma intensa e autêntica. As suas composições mergulham em paisagens sonoras melancólicas, marcadas por riffs pesados, ritmos hipnóticos e uma entrega emocional que se sente a cada nota.

Music In Low Frequencies, por @ricardosilvaphotography

Nesta atuação, a banda transformou essa energia em pura catarse, criando momentos de imersão total que agarraram o público do início ao fim. A vocalista Mariana Faísca desempenha um papel fundamental na identidade e força da banda. A sua voz, carregada de emoção crua e autenticidade, acrescenta uma dimensão única às composições densas e atmosféricas do grupo. Com uma capacidade impressionante de transitar entre momentos mais suaves e explosões intensas, ela guiava a narrativa sonora, tornando cada tema ainda mais envolvente e visceral. Ao seu lado, Sergio Ferreira (guitarra) e Diogo Vale (bateria) dão uma coesão incrível, combinando riffs pesados e ritmos hipnóticos que criam a espinha dorsal do som denso e atmosférico. Juntos, formaram uma máquina sonora potente que apoia perfeitamente a expressividade da vocalista, tornando cada concerto uma experiência imersiva e impactante.

São, sem dúvida, uma das melhores bandas nacionais da atualidade, destacando-se pela sua sonoridade única e poderosa, e este concerto no River Stone Fest foi mais uma prova disso. Com um talento evidente e uma entrega incansável, têm um caminho promissor pela frente, capazes de conquistar cada vez mais espaço no panorama musical, tanto em Portugal como além de fronteiras.

A hora tardia acabou por afastar alguma parte da audiência, mas muitas foram as almas resistentes que ficaram até ao fim para testemunhar esta estrondosa atuação. E posso confirmar que quem resistiu, não se arrependeu!

Music In Low Frequencies, por @ricardosilvaphotography
E com esta estrondosa atuação de um dos grupos mais promissores portugueses, nos despedimos do River Stone e do verão!
O sucesso desta edição foi inegável: público vibrante, bandas de peso, organização dedicada e uma energia que se sentia em cada canto do recinto. Claro que, como em qualquer evento ambicioso, há sempre pontos a melhorar, e é justamente essa consciência que prova que este projeto está vivo, em constante evolução.
Público, por @ricardosilvaphotography
O caminho do River Stone é firme, determinado e, acima de tudo, ascendente. O que começou como um sonho é agora uma realidade com futuro, e que futuro. Foi mais do que um festival, foi uma celebração épica da união, da música e da paixão pelo metal.
Resta-me agradecer à organização do evento e a todo o staff envolvido pela oportunidade proporcionada a centenas de pessoas de ver excelentes bandas, de dar a conhecer grupos que muita gente não sabia que tinha de conhecer, e ainda por nos darem a melhor despedida do verão de sempre!
Não é um adeus, é um até já, pois em março teremos certamente encontro marcado para a edição de inverno deste grande festival.

 

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