Com mais de uma década de caminho no metal português, os Godark afirmam-se hoje como uma das bandas nacionais mais sólidas dentro do melodic death metal. Desde os primeiros passos com Reborn From Chaos (2015) até ao muito elogiado Forward We March (2020), o grupo tem construído uma identidade marcada pela intensidade emocional, pela evolução constante e por uma química interna singular, alimentada, em parte, pelos laços familiares que unem vários dos seus membros.

Em 2025, regressaram com Omniscience, um álbum mais ambicioso e expansivo, que aprofunda questões como conhecimento, consciência e propósito. O disco tem vindo a conquistar críticas positivas além-fronteiras e a elevar ainda mais o nome da banda, que nos últimos anos, passou por grandes festivais nacionais, realizou uma tour europeia e reforçou a sua presença na cena internacional.
Nesta entrevista, os Godark falam sobre o amadurecimento criativo entre lançamentos, os desafios técnicos e pessoais que marcaram a produção de Omniscience, a dinâmica de trabalhar com seis membros, muitos deles ligados por sangue, e a forma como veem a evolução da cena metal portuguesa na última década. Revelam ainda planos futuros, desde concertos e possíveis tours até novos videoclipes que deram ainda mais vida ao novo álbum.
ENTREVISTA
1. Godark conta com vários membros ligados por laços familiares direta ou indiretamente. Como é que essa dinâmica influencia o processo criativo e a forma como trabalham em banda, se é que influência?
R: Não tanto no processo criativo em si, mas o facto de termos vários membros ligados por laços familiares influencia bastante a forma como trabalhamos e a dinâmica dentro da banda. Existe uma confiança maior, uma honestidade natural e tudo acaba por fluir com mais facilidade porque crescemos juntos, já sabemos como cada um pensa, reage e o que podemos esperar, para o bem e para o mal. Claro que, sendo família, também há momentos de faíscas, mas isso costuma ser produtivo: ajuda-nos a puxar uns pelos outros e a avançar. No fim, essa ligação torna tudo mais autêntico e simples no funcionamento da banda.
2. Desde o vosso EP, Reborn From Chaos, lançado em 2015, até ao primeiro álbum Forward We March em 2020 passaram cinco anos. Que aprendizagens e mudanças marcaram esse período de evolução que acredito ter sido o mais desafiante?
R: Esse período foi, sem dúvida, um dos mais desafiantes para nós. Foi uma fase de amadurecimento em várias dimensões: enquanto músicos, enquanto banda e até enquanto indivíduos. A reestruturação do grupo, com a saída e entrada de novos membros, trouxe momentos difíceis e exigiu adaptação. Além disso, ainda éramos uma banda com pouco reconhecimento, o que tornava cada passo mais complexo. Foram também anos importantes para percebermos exatamente o que queríamos para o nosso som e para a nossa identidade artística. Esses cinco anos permitiram-nos crescer, consolidar a nossa química e chegar a Forward We March muito mais focados e convictos do caminho que queríamos seguir.
3. O novo álbum Omniscience lançado agora em 2025 já angariou muitas críticas positivas para além de fronteiras. Em que é que este trabalho representa um passo em frente em relação ao disco de 2020, na vossa opinião?
R: Acaba por ser natural que Omniscience alcance um público maior e gere mais interesse do que o nosso álbum anterior, porque hoje somos uma banda muito mais madura. Ganhámos consciência do que precisa de ser feito, de como o devemos fazer e do momento certo para cada passo, embora, mesmo assim, tenham surgido alguns contratempos e atrasos pelo caminho. Tudo o que aprendemos com o lançamento de Forward We March foi agora aplicado de forma mais eficaz. Também trabalhámos muito mais a divulgação e a promoção, seja através dos videoclipes que lançámos, seja através de outras estratégias que reforçaram a visibilidade do álbum. Além disso, entre um álbum e o outro, crescemos bastante em notoriedade tanto a nível nacional como internacional: atuamos nos maiores festivais do país, fizemos uma pequena tour pela Europa e marcamos presença em eventos lá fora. Tudo isso ajudou a criar curiosidade e expectativa sobre o que estávamos a preparar. Nesse sentido, Omniscience representa claramente um passo em frente e um reflexo direto da nossa evolução enquanto banda.

4. Omniscience soa mais expansivo e ambicioso. Há arranjos mais ricos, uma produção mais detalhada e uma sensação clara de que quiseram elevar a vossa identidade e complexidade sonora. Que ideias ou experiências inspiraram o conceito do álbum e como é que isso influenciou o vosso processo de composição?
R: O álbum nasceu da vontade de explorar temas mais vastos e quase filosóficos: conhecimento, consciência, propósito, o impacto das nossas escolhas. Musicalmente queríamos algo mais expansivo, mais cinematográfico e mais intenso. Essas ideias acabaram por influenciar muito a composição: arranjos mais ricos, ambientes mais densos, detalhes que ajudam a contar a história do álbum. Sentimos que elevamos a nossa própria fasquia.
5. Tendo vocês já mais de 10 anos de experiência enquanto banda, como viram a cena nacional evoluir ao longo destes 10 anos?
R: Sentimos que a cena nacional cresceu bastante, embora reconheçamos que parte dessa percepção possa estar ligada ao próprio crescimento da banda. Há 10 anos era bem mais difícil encontrarmos locais para tocar, enquanto hoje isso acontece com mais facilidade, mas é possível que isso se deva tanto à evolução da cena como ao facto de termos conquistado mais espaço e visibilidade.
O que podemos afirmar com certeza é que hoje existe mais profissionalismo e mais entidades, especialmente festivais, dispostas a apostar na música pesada. Ainda há desafios, naturalmente, mas sentimos que o metal português está vivo, em movimento, e com muito talento a surgir. É gratificante ver essa evolução e saber que fazemos parte dela.
6. Há temas recorrentes nas vossas letras ou houve alguma mudança temática com o crescimento da banda e com o novo álbum?
R: Sempre nos inclinamos para temas como conflito interno, superação e a busca por significado, mas com o tempo acabamos por aprofundar mais esses assuntos. Em Omniscience há uma abordagem mais conceptual e até mais madura, ligada à ideia de conhecimento e consciência. Não deixamos para trás aquilo que sempre escrevemos, só evoluímos a forma de o dizer.
7. Que desafios enfrentaram durante a criação de Omniscience, seja em termos técnicos, pessoais ou logísticos?
R: As primeiras ideias para Omniscience começaram a surgir ainda em 2020, e o álbum só foi lançado em 2025, só isso já revela um pouco dos desafios que enfrentamos. Passámos por dificuldades de vários tipos: técnicas, pessoais e logísticas. Coordenar seis pessoas com vidas, agendas e prioridades diferentes torna sempre tudo mais complexo.
Fomos extremamente exigentes connosco, por vezes até em demasia, porque queríamos que cada detalhe refletisse exatamente aquilo que imaginávamos para o álbum. Esse nível de perfeccionismo prolongou o processo, mas sentimos que era necessário para alcançarmos o resultado final que queríamos.
No fim, apesar de ter sido um percurso difícil e demorado, foi também o nosso álbum mais gratificante de criar.
8. Tendo seis elementos, cada um com as suas influências, como decidem o rumo sonoro de cada faixa? Há alguém que tem mais peso na decisão ou é tudo bastante democrático?
R: Normalmente começamos por uma ideia-base trazida por um elementos, essa ideia é depois discutida a aprimorada em banda e com a contribuição de outros elementos. Não há alguém que “manda” mais; discutimos, experimentamos e vemos o que funciona melhor para a música. Claro que quem traz a ideia inicial acaba por ter um pouco mais de peso em certas decisões, porque já tem uma visão definida para o que pretende. Mas, no fim, é a mistura das influências de cada um que dá identidade e personalidade ao nosso som.
9. Ainda sobre a dimensão da banda: com seis elementos, quem é que ganha mais discussões no estúdio, quem é mais teimoso e quem é que foge sempre quando chega a hora de arrumar o material?
R: Discussões há sempre, seis cabeças, seis opiniões… mas no final fica tudo bem, já nos conhecemos há muitos anos, muitos de nós desde crianças, o que também nos deixa mais à vontade quer seja para discutir quer seja para fazer as pazes logo de seguida.
Quanto a arrumar, uns mais outros menos, mas cada um dá o seu contributo.
10. Após o lançamento do novo álbum, a recepção parece-me ter sido calorosa pelas críticas que leio, comentários em redes sociais e até a recepção no vosso concerto de apresentação em novembro na Casa do Artista Amador. Há planos futuros de digressão, videoclipes ou colaborações que possam partilhar?
R: A recepção ao álbum tem sido incrível, tanto em Portugal como lá fora. Os nossos ouvintes no Spotify aumentaram de forma significativa e as encomendas dos formatos físicos estão a correr muito bem, estamos mesmo muito agradecidos. O concerto de apresentação na CAA também superou as expectativas: tivemos casa cheia, o público recebeu-nos de forma fantástica e o feedback que recebemos foi muito motivador.
Quanto ao que vem a seguir, podemos dizer que já há concertos marcados, para já em Portugal e Espanha. Uma digressão mais extensa por outros países está nos nossos planos, não é algo fácil de concretizar, mas estamos a trabalhar nesse sentido, porque queremos continuar a apostar na internacionalização da banda, seja através de tours completas ou de participações em festivais e eventos pontuais.
Em relação aos videoclipes, lançámos dois antes da saída do álbum e temos mais três a caminho: dois visualizers e um lyric video. Quando esta entrevista for publicada, é bem possível que alguns , ou até todos, já estejam disponíveis.

11. Existe alguma coisa que gostariam de dizer aos vossos fãs e aos seguidores da Cultura em Peso?
R: Queremos agradecer de coração a todos os que nos têm apoiado, aos que nos seguem desde o início e aos que chegaram agora. Sem vocês nada disto faria sentido. Continuem a apoiar a música nacional e obrigada à Cultura em Peso por promover o metal nacional.
Esta conversa com os Godark confirma aquilo que muitos já sabiam: o metal português vive, cresce e conquista. Omniscience marca mais um passo firme de uma banda que continua a elevar a fasquia e a representar o país lá fora. Que venham mais palcos, mais discos e mais momentos como este, porque o metal nacional merece, e bandas como os Godark provam-no todos os dias.
Agradecimentos à banda a disponibilidade e simpatia ao partilhar connosco esta visão tão completa do seu percurso e do seu novo capítulo. Continuaremos deste lado a acompanhar !


