Na passada terça-feira, 10 de fevereiro, numa noite chuvosa daquelas que pedem abrigo… o Sagres Campo Pequeno foi palco de uma celebração ao rock para aquecer muitos corações. Pelas mãos da Prime Artists, a What Lies Within Tour passou por Lisboa e abraçou centenas de fãs numa sala cheia, celebrando os 20 anos de carreira dos Alter Bridge e a apresentação do seu mais recente trabalho homónimo, lançado no passado dia 9 de janeiro.
O regresso da banda norte-americana à capital portuguesa foi mais do que um concerto. Foi celebração, foi reencontro, foi memória viva de duas décadas de uma carreira marcantes, com uma legião de fãs que permanece fiel.
E como se isso já não bastasse, a noite contou com duas presenças de luxo na primeira parte, com Daughtry e Sevendust. Não foram apenas bandas de abertura. Foram pilares sólidos que elevaram ainda mais a emoção, e prepararam o terreno para uma noite realmente incrível!
SEVENDUST

Pontualmente à hora marcada, às 19h, os influentes Sevendust já estavam a postos no palco para aquecer os motores. Liderada pelo carismático Lajon Witherspoon, a banda, com seus mais de 30 anos de carreira, trouxe pela primeira vez a Portugal o seu poderoso metal alternativo.
A sala ainda não estava completamente preenchida, talvez por ser uma terça-feira e com o espetáculo a começar cedo. Mas os presentes não deixaram dúvidas quanto ao entusiasmo. Quem estava ali, estava por inteiro!
Primeiro ouvimos a intro de “We’ve Only Just Begun” (Roger Nichols & Paul Williams), e o público já se mostrava atento e aplaudindo. Logo ouvimos “Are you feeling tonight?”, e o pontapé inicial no setlist dá-se com a clássica “Black”, transportando-nos diretamente para o álbum homónimo de 1997. Desde o primeiro minuto, Lajon já interagia intensamente com a plateia, puxando todos para mais perto e comandando as interações com naturalidade e presença imponente.
O setlist foi bem articulado, privilegiando clássicos dos álbuns Animosity (2001) e Seasons (2003), mas também abrindo espaço para o novo single “Is This the Real You”, lançado no final de janeiro deste ano.
Com “Enemy”, voltamos ao passado com força, e depois “Praise” elevou ainda mais a energia, com o público a cantar, balançar suas cabeças e absorver cada segundo. Em uma pausa para reflexão, Lajon compartilhou uma mensagem simples e poderosa: “não importa no que você acredita, mas é importante acreditar em algo”. A plateia respondeu com aplausos e vibração, e logo explodiu “Crucified”, mantendo a intensidade lá no alto.
O desfecho deu-se com “Face to Face”, evocando um mosh pit, culminando numa ovação completa. Lajon, com a sua voz potente e impecável como nos velhos tempos, fez questão de agradecer profundamente o carinho do público português, visivelmente emocionado.
E ficou aquele sentimento inevitável: queremos os Sevendust novamente. Mas desta vez, em nome próprio!
DAUGHTRY

Às 19h50, foi a vez dos talentosos Daughtry tomarem o palco. Liderados por Chris Daughtry, também fizeram a sua estreia em solo português, trazendo o seu hard rock carregado de emoção e potência vocal.
Apostaram num alinhamento com forte foco no EP Shock to the System (Part One) de 2024 e no álbum Shock to the System (Part Two), lançado em 2025, abrindo com uma sequência certeira do mais recente: “Divided” deu o pontapé inicial, seguida de “The Bottom” e depois “The Day I Die”. Não foi difícil conquistar a malta. Na verdade, o público mostrava-se feliz por vê-los ali, e mais do que isso, afiado, cantando e mergulhando na experiência desde o primeiro momento.
A primeira grande surpresa da noite veio com o cover de “Separate Ways (Worlds Apart)” dos Journey. Esta é uma versão gravada em 2023 em parceria com a talentosíssima Lzzy Hale, e ao vivo levou a malta a cantar com entusiasmo, celebrando um dos grandes clássicos do rock oitentista.
Mas ainda havia espaço para algo ainda mais emocionante. O tecladista Elvio Fernandes revelou que é português, com família na Madeira, o que gerou uma onda imediata de apoio e carinho do público. Ele começou dizendo que o seu português não era dos melhores, então leu uma mensagem no telemóvel. Contou que era a primeira vez em Lisboa com a banda, que tinha muito orgulho das suas raízes portuguesas, que estar ali tornava tudo ainda mais especial por causa da família, e agradeceu profundamente o carinho recebido. Foi um momento simples, mas que estreitou ainda mais esta conexão.
O setlist seguiu com a primeira viagem ao álbum homónimo de estreia, de 2006, com “It’s Not Over”, levando ao passado, seguida de “Antidote”, já de regresso ao presente. Depois, uma sequência do EP de 2024 com “The Dam” e “Pieces”, depois voltando novamente às raízes com “Over You”. Uma aparição do álbum Dearly Beloved (2021) veio com “Heavy Is the Crown”, e ao final desta, a banda deixou o palco se despedindo.
Mas não demoraram a regressar, batendo palmas juntamente com a malta, elevando ainda mais a emoção. O encerramento ficou por conta de “Artificial”, fechando o concerto com energia em alta.
Após quase uma hora de espetáculo, o público ovacionou a banda com entusiasmo. Os Daughtry mostram-se extremamente coesos e precisos ao vivo. E Chris fez jus ao seu vocal reconhecido mundialmente: alcance poderoso e controle absoluto. Não há nota fora do lugar!
Então fica a sensação clara: esta é mais uma banda que, quem sabe em breve, poderá regressar a Portugal em nome próprio. E se isso acontecer, é certo que já terão dobrado o número de fãs por aqui!
ALTER BRIDGE

21:15 e a expectativa estava nas alturas. Todos ansiosos pela entrada dos Alter Bridge, as grandes estrelas da noite, com o público agora se aglomerando o máximo possível à frente para não perder absolutamente nada do que estava prestes a acontecer.
A banda, composta pelos aclamados e talentosos Myles Kennedy, Mark Tremonti, Brian Marshall e Scott Phillips, trouxe um alinhamento que equilibrou o presente com faixas do novo álbum homónimo, lançado a 9 de janeiro deste ano, e grandes sucessos dos trabalhos anteriores, celebrando os 20 anos de carreira da melhor maneira possível.
O passo inicial veio com “Silent Divide”, do novo álbum, numa entrada marcante. O público já estava claramente rendido, cantando e se divertindo sob grandes jogos de luz, com contrastes intensos em vermelho e ecrãs que complementavam a temática de forma minimalista, sem excessos. E isso combina perfeitamente com a essência da banda: estética direta, sem rodeios. Eles não precisam de exageros, garantem-se na voz, nos instrumentos e na técnica, e é realmente importa no final das contas.
Seguindo o set, “Addicted to Pain” e “Cry of Achilles” surgem em sequência, levando-nos ao álbum Fortress (2013), com a malta elevando a energia a cada faixa. O concerto foi crescendo de forma orgânica, escalando naturalmente conforme o setlist avançava.
E vale dizer: este foi um show particularmente revigorante. Não foi caótico, não foi aquela movimentação intensa de mosh pits ou correria. E isso não é negativo, muito pelo contrário. Foi introspectivo, contemplativo. Um concerto para admirar, absorver e sentir. Havia muitos fãs mais velhos na plateia, e isso reforçou ainda mais esse clima parceiro e emocional. Todos estavam verdadeiramente felizes, cantando, dançando no seu próprio ritmo, partilhando uma alegria coletiva, mas serena.
Myles, sempre com seu humor leve, conversava com a malta em momentos pontuais, sem exageros ou pausas longas. É cativante de forma natural. A banda comanda a plateia com simplicidade e eficiência. A voz de Myles segue intacta, poderosa, e o grupo inteiro brilha em conjunto, espontâneo e alinhado.
“Playing Aces” mantém-nos no presente, mas logo somos catapultados novamente para “Fortress”, até saltarmos ainda mais para trás com a primeira passagem pelo One Day Remains (2004), através de “Burn It Down”. Aqui, Tremonti assume os vocais, mostrando que não brilha apenas na guitarra, mas também mantém a voz afiada. Myles limita-se à guitarra, caminhando pelo palco, contemplando a malta. Ao final, diz que somos incríveis, e a resposta é imediata e genuína. Mas sejamos honestos: incríveis são eles, e os fãs estavam ali em peso para provar isso.
Continuamos em 2004 com “Open Your Eyes”, cantada em coro, mas que precisou ser brevemente interrompida quando Myles percebeu uma fã a sentir-se mal junto à grade. Com a ajuda da banda e do público, a equipa médica foi acionada. É reconfortante perceber que estamos num ambiente seguro, onde há cuidado e empatia.
O setlist segue nessa montanha-russa entre presente e passado, trazendo “Tested and Able”, depois “Broken Wings”, e antes da primeira passagem pelo aclamado Blackbird (2007) com “Watch Over You”, acontece um momento especial: um pedido de casamento na plateia. Myles percebe, comenta e transforma aquilo num instante ainda mais memorável. Felicidades aos noivos, que foram abençoados pela banda!
Entramos então na reta final do primeiro ato, antes do encore, com “Silver Tongue” representando Pawns & Kings (2022), seguida de “Rise Today” e depois “Metalingus”, onde Myles atinge o maior pico de interação da noite, colocando todos ao chão para depois saltarem juntos. Ao final, agradecem e são ovacionados. As luzes se apagam, mas sabíamos que não era o fim.
O público chama, insiste, e logo eles regressam para um encore muito aguardado com a icónica “Blackbird”, encerrando definitivamente com “Isolation”, do álbum AB III (2010).
Foi um concerto equilibrado, coerente e extremamente bem construído. Um espetáculo que não se prende apenas à promoção do novo álbum, mas que contextualiza a trajetória da banda, abraçando os fãs antigos e conquistando novos. Eles não precisam de pirotecnia exagerada ou produções grandiosas. São seguros, alinhados e eficientes. Diretos ao ponto.
E isso prova algo simples e bonito: o rock tem muitas facetas, e todas funcionam quando há verdade. E ali, naquela noite chuvosa em Lisboa, houve verdade. E foi bonito demais de ver!


