A primeira sexta-feira 13 de 2026 viveu-se de forma diferente. Numa noite de bruxas, com espírito carnavalesco, na cidade onde o Carnaval é rei, os Redemptus invadiram o Buraco Pub e pintaram a noite com tons mais emocionais e sombrios.

No passado dia 13 de fevereiro, o Buraco Pub, em Ovar, recebeu uma noite especial com a atuação dos gigantes do sludge / post-metal Redemptus, que presentearam a cidade com um espetáculo emocionalmente intenso e impossível de ignorar.
Foi particularmente interessante testemunhar a dualidade vivida nesta noite. Se, no exterior, ecoava a música carnavalesca das tendas espalhadas pela cidade, bastava cruzar a porta do Pub para entrar num universo completamente distinto. Uma atmosfera mais densa, mais negra e profundamente melancólica tomou conta do espaço, oferecendo a todos os presentes uma experiência marcante e emotiva, algo que os Redemptus conseguem, consistentemente, entregar.
No acolhedor ambiente do Buraco Pub, a banda apresentou uma atuação emocionalmente densa, sustentada por temas retirados de Blackhearted (2021) e Every Red Heart Fades to Black (2017), dois trabalhos que consolidaram a identidade sonora e emocional do grupo.

A abertura com Pile Of Papers (de Every Red Heart Fades to Black) definiu imediatamente o tom da noite. A música surgiu como uma parede emocional pesada e carregada de vulnerabilidade, funcionando quase como um convite para entrar no universo temático da banda: emoções cruas, existencialismo, fragilidade humana e a complexidade das ligações entre pessoas. Foi um início particularmente forte, não só pela execução segura, mas pela forma como capturou a atenção total da sala logo nos primeiros minutos.
Seguiram-se momentos igualmente marcantes com Doomed to Crumble, Heads You Win Tales I Lose e It Was Never Meant, que ajudaram a consolidar a viagem emocional proposta pela setlist. Sem soar repetitivo, era possível perceber como cada faixa explorava diferentes faces do peso emocional, desde o confronto interno até à aceitação da fragilidade humana.
Um dos pontos altos da noite surgiu com How Much Pain Can Fit in One’s Chest. Ao vivo, o tema ganhou uma dimensão ainda mais sufocante e honesta, com momentos de grande carga atmosférica que quase suspendiam o tempo dentro da sala. Foi talvez o momento onde a banda conseguiu traduzir melhor essa mistura entre dor emocional e catarse coletiva – um espelho direto das temáticas de vulnerabilidade e introspeção que atravessam a sua discografia.
A meio do concerto, Purged by Light Engulfed by Darkness, In a Deep Hole e Opposable Guilt reforçaram a ideia de viagem entre os dois discos, mantendo uma intensidade constante e mostrando a maturidade composicional da banda. A escolha da setlist permitiu realmente percorrer os dois álbuns mais fortes do catálogo recente, sem que o concerto perdesse coerência ou impacto emocional.
Já perto do final, Swallow the Tears trouxe um dos momentos mais emotivos da noite. A interpretação foi particularmente sentida, com a sala completamente imersa naquele sentimento agridoce entre sofrimento e libertação, uma síntese perfeita do ADN emocional da banda.

Curiosamente, apesar da melancolia e do peso emocional constantes, não havia ninguém no público que não estivesse a divertir-se. Talvez o espírito do Carnaval, tão presente nas ruas da cidade, se tenha fundido com os temas mais sombrios da banda, criando algo raro: uma união genuína entre público e músicos, onde tristeza e celebração coexistiam sem contradição.
Um dos momentos mais humanos da noite surgiu, já no final do concerto, quando o vocalista partilhou: “A maioria das caras que aqui estão não me são estranhas, e isso significa muito para nós.” Uma frase simples, mas profundamente honesta, que revelou a humildade e proximidade de uma banda que, apesar do estatuto dentro do estilo em Portugal, mantém uma ligação muito real com quem os acompanha.
O concerto terminou com um último tema Still Resemble The Silence, fechando uma atuação coesa, emocionalmente pesada e artisticamente madura. Mais do que um simples concerto, foi uma experiência coletiva onde emoções, existencialismo, vulnerabilidade e conexão humana deixaram de ser conceitos abstratos para se tornarem algo palpável dentro da sala.
Setlist: 1- Pile Of Papers ??; 2- Doomed to Crumble, 3- Heads You Win Tales I Lose, 4- It Was Never Meant, 5- How Much Pain Can Fit in One’s Chest, 6- Purged by Light Engulfed by Darkness, 7- In a Deep Hole, 8- Opposable Guilt, 9- Swallow the Tears, 10- Still Resemble The Silence.

Todos os presentes podem confirmar que se viveu uma noite rara, daquelas onde intensidade emocional, peso sonoro e ligação humana se alinham de forma quase perfeita. Os Redemptus criaram um momento coletivo de catarse, onde tristeza, reflexão e celebração coexistiram naturalmente. Muito desse impacto deve-se também ao papel do Buraco Pub, que continua a afirmar-se como um espaço cultural essencial em Ovar, dando palco a sonoridades alternativas e mantendo viva uma cena musical que ajuda a definir a identidade artística da cidade.


