No passado sábado, 11 de abril de 2026, o Auditório CCOP foi palco de uma noite dedicada ao peso, à emoção e à afirmação do metal nacional. Duas propostas distintas, mas perfeitamente complementares, dividiram o alinhamento: a solidez dos Godark e a força inegável dos Anifernyen com um novo álbum acabadinho de sair.

Anifernyen, por @ricardosilvaphotography

Numa noite onde duas das propostas mais intensas do metal português subiram ao palco, viveu-se uma demonstração clara de que a cena portuguesa é vibrante, ambiciosa e com muito para oferecer. Se a noite começou com qualidade indiscutível através da atuação dos Godark, com um álbum ainda bem fresco lançado no final de 2025, foi a apresentação de um novo capítulo na história dos Anifernyen que a elevou a um momento verdadeiramente marcante e especial. Estaríamos prestes a assistir em primeira mão, à atuação na íntegra do seu novo álbum Ex Tenebris Lvx.

GODARK

Os Godark subiram ao palco, como convidados especiais de Anifernyen, e voltaram a provar por que continuam a afirmar-se como uma das propostas mais sólidas dentro do universo do melodic death metal. Perante um público inicialmente contido, quase hesitante, a banda foi, tema após tema, quebrando essa barreira invisível com uma segurança e maturidade notáveis. Ao longo de oito músicas, ficou claro que não se trata apenas de tocar bem, mas de apresentar um concerto coeso, pensado e executado com um nível de profissionalismo que não vacila.

Godark, por @ricardosilvaphotography
Setlist: 1- This is the End; 2- Frozen in Time; 3- Freedom; 4- Looking for a New Meaning; 5- Disorder’s Edge; 6- Into the Hollow; 7- Leaving Out.

ANIFERNYEN

Se os convidados especiais Godark já tinham elevado a fasquia, foi com a entrada dos Anifernyen que a noite atingiu o seu verdadeiro clímax. O concerto de apresentação de Ex Tenebris Lvx, álbum lançado apenas dois dias antes, revelou uma banda em estado de afirmação plena, segura da sua identidade, ambiciosa na sua visão e, acima de tudo, completamente entregue ao momento. Logo nos primeiros temas, Silentium Est Aureum e None Shall Be Denied, tornou-se evidente que estávamos perante uma obra pensada não só para o estúdio, mas também para o palco, para ser vivida, sentida e absorvida na sua totalidade.

Anifernyen, por @ricardosilvaphotography

Há um equilíbrio particularmente refinado entre brutalidade e dinâmica naquilo que a banda constrói dentro do universo do blackened death metal melódico. Os Anifernyen movem-se com uma fluidez impressionante entre momentos de agressividade crua e passagens mais contidas, quase atmosféricas, criando um fluxo que nunca soa artificial. As músicas não se perdem em excessos nem cedem à tentação dos preenchimentos desnecessários, pois cada secção, cada transição, cada variação rítmica cumpre um propósito claro dentro do todo. A composição, essa revela uma maturidade surpreendente para uma banda com apenas dois álbuns. Há aqui uma consciência estrutural e narrativa que normalmente só se encontra em projetos com um percurso muito mais longo e consolidado.

No centro desta construção está uma performance vocal que eleva ainda mais o impacto global. Daniel demonstra um alcance e uma versatilidade notáveis, navegando entre diferentes registros com uma naturalidade que acrescenta camadas e profundidade a cada tema. Entre uma entrega intensa e momentos de humor inesperado, com pequenas piadas entre músicas que quebram a densidade sem nunca a comprometer, cria-se uma ligação muito própria com o público, quase à imagem de um Abbath à portuguesa. Essa proximidade ganhou especial força em Frustra, um dos momentos mais marcantes da noite: cantado em português, carregado de emoção e, mesmo com o apoio de cábulas (compreensíveis num álbum tão recente), foi interpretado com uma intensidade que lhe acrescentou ainda mais profundidade.

Essa dualidade entre peso emocional e leveza humana foi, aliás, uma das marcas mais fortes do concerto. A proximidade entre banda e público sentiu-se tanto durante os temas como nos momentos de pausa: se, por um lado, era impossível não ser absorvido pela densidade emocional da música, por outro, também era inevitável soltar uma gargalhada entre as pausas. Daniel revelou um lado cômico algo inesperado, destacando-se o aviso bem-humorado para não confundir o novo álbum de Anifernyen com um disco chamado Lux de Rosalía – “são Lux’s diferentes”, atirou ele, num momento que ajudou a humanizar ainda mais a experiência e soltou risos descontrolados do lado da plateia.

Focando novamente na música, a execução integral de Ex Tenebris Lvx foi recebida com entusiasmo crescente, à medida que o público se deixava envolver pela densidade e coerência do álbum. Lançado a 9 de abril, o disco afirma-se desde já como uma obra incontornável dentro do blackened death metal: maduro, coeso e com uma identidade vincada que convida à repetição imediata. Ainda assim, houve espaço para olhar para trás: o concerto encerrou com uma incursão por Angur (2019), com Tyrant, Eldritch Moon e Emissary a estabelecerem uma ponte sólida entre passado e presente, reforçando a consistência do percurso da banda.

Aquilo que poderia ter sido apenas um concerto de apresentação, transformou-se numa verdadeira declaração de intenções. Os Anifernyen não estão apenas a crescer, estão a afirmar-se com uma convicção rara, expandindo o seu caminho com uma clareza e ambição difíceis de ignorar. Uma banda que, mesmo com uma discografia ainda curta, já soa maior do que o seu tempo de existência, como se cada passo não fosse apenas evolução, mas a consolidação inevitável de um nome destinado a ocupar um lugar de destaque.

Anifernyen, por @ricardosilvaphotography
Setlist: 1- Silentium Est Aureum; 2- None Shall Be Denied; 3- The Lost Word; 4- Fortuna; 5- Frustra; 6- Ditesco Mori; 7- Disciple Surpasses the Master; 8- Virtue Lies Defeated; 9- From Darkness Comes Light; 10- Tyrant; 11- Eldritch Moon; 12- Emissary

No seu todo, a noite revelou-se um verdadeiro testemunho da força e vitalidade do metal português. Da consistência e experiência dos Godark à identidade vincada e maturidade dos Anifernyen, ficou claro que estamos perante projetos que sabem exatamente o seu lugar e o caminho que querem percorrer. Houve entrega, houve emoção e, acima de tudo, uma ligação genuína com o público que transformou estes dois concertos em experiências.

Resta agradecer ao Auditório CCOP por abrir portas a este tipo de eventos, criando um espaço para que a música nacional possa crescer e afirmar-se. Um reconhecimento também às bandas, pela entrega total, e ao público, que acabou por responder à altura e dar ainda mais vida à noite. Que venham mais momentos assim, intensos, autênticos e absolutamente memoráveis.

Agradecimentos finais a Ricardo Silva e aos Anifernyen pela cedência das fotografias.