IRON MAIDEN

Com o público completamente aquecido, chegava finalmente o momento mais aguardado da noite: Iron Maiden. A ansiedade era enorme, especialmente entre aqueles que haviam ficado de fora da última passagem da banda por Portugal, há pouco mais de um ano, quando esgotaram a MEO Arena em poucas horas.
Marcados para as 20h50, atrasaram pouco mais de cinco minutos. Então ouvimos no som mecânico Doctor, Doctor, dos UFO. Quem acompanha os Maiden há anos conhece bem esse ritual: quando essa música toca, é sinal de que o espetáculo está prestes a começar. O Estádio da Luz estava completamente tomado pela ansiedade. O público cantava, dançava e aplaudia em expectativa.
De repente, o enorme ecrã ganhou vida, transportando-nos para uma corrida pelas ruas da East London dos anos 80, enquanto The Ides of March ecoava pelos alto-falantes. Os braços se erguiam em uníssono, acompanhados por palmas sincronizadas que pareciam chamar a banda para o palco e, finalmente, a banda apareceu.
A abertura foi simplesmente maravilhosa. Uma sequência vinda diretamente de Killers (1981), um dos discos mais crus e com aquela pegada punk tão característica do início da carreira. A guitarra começou lentamente e logo reconhecemos Murders in the Rue Morgue, uma das minhas músicas favoritas. Foi impossível não me emocionar. Os gritos do público tomaram conta do estádio enquanto os Maiden ocupavam o palco.
Logo depois veio Wrathchild, conduzida pelo inconfundível baixo de Steve Harris, com todo o estádio berrando o refrão. Para completar a tríade perfeita, Killers encerrou essa primeira passagem pelo álbum de maneira impecável.
Com o céu ainda tingido pelos últimos tons alaranjados do pôr do sol, Bruce Dickinson fez a primeira pausa para conversar com o público. E aqui preciso abrir um parêntese. A produção deste espetáculo era puro cinema, exatamente aquilo que se espera. Era a minha primeira vez vendo os Maiden ao vivo e, sinceramente, a experiência superou qualquer expectativa que eu pudesse ter criado ao longo de tantos anos. E acredito que até quem já os viu dezenas de vezes tenha sentido que esta tour possui um sabor especial.
Bruce Dickinson, agora com os cabelos totalmente brancos, me arrancava lágrimas só de vê-lo correr de um lado para o outro. Que ele é um grande maestro todos já sabem, mas testemunhar isso de perto é outra experiência. Steve Harris continua sendo uma presença gigantesca, esbanjando energia e carisma, enquanto o trio das guitarras Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers seguem demonstrando técnicas impecáveis e uma sintonia invejável.
Esta turnê também marca a ausência de Nicko McBrain nas baterias, algo que inevitavelmente deixa um vazio enorme. Ainda assim, Simon Dawson mostrou que assumiu essa responsabilidade com enorme competência. Não há substituição para Nicko, mas Simon mostrou enorme competência e respeito pelo legado deixado pelo lendário baterista. Tudo parecia perfeitamente encaixado.
Phantom of the Opera trouxe uma das passagens mais emocionantes da noite, revisitando o álbum de estreia Iron Maiden (1980). Na sequência veio o inevitável The Number of the Beast. Gostem ou não do fato de ser uma das músicas mais conhecidas da banda, não há como negar: trata-se de um dos maiores hinos da história do gênero. Com imagens clássicas projetadas no ecrã, fogos no palco e milhares de vozes cantando juntas, foi um daqueles momentos arrepiantes.
Um dos momentos mais emocionantes da noite chegou com o presente de Infinite Dreams. A faixa retornou ao repertório apenas em maio deste ano, durante o concerto em Atenas, substituindo The Clairvoyant, e voltou a ser executada após 38 anos fora dos palcos. Nem preciso dizer a emoção que foi viver esse momento.
A passagem por Powerslave (1984) começou com a própria Powerslave, enquanto Bruce surgia usando sua icônica máscara de penas. Em seguida, 2 Minutes to Midnight fez o estádio cantar em coro antes da monumental Rime of the Ancient Mariner. O longo épico foi acompanhado com atenção absoluta pelo público, mostrando que um clássico dessa magnitude continua tão fascinante quanto sempre foi. Era um espetáculo completo, em que música, teatro, iluminação e cenografia caminhavam juntos.
Depois da viagem proporcionada, Run to the Hills devolveu a euforia ao estádio. Era impossível ficar parado. Logo depois, Seventh Son of a Seventh Son trouxe toda a atmosfera mística do álbum de 1988, preparando o terreno para um dos momentos mais aguardados da noite.
The Trooper apareceu acompanhada da tradicional bandeira britânica empunhada por Bruce, enquanto um grande Eddie soldado atravessava o palco. Sim, é previsível. Sim, todos já esperam por isso. Ainda assim, continua sendo impossível não sorrir ao ver acontecer ao vivo. Uma bandeira de Portugal foi lançada ao palco, e Bruce fez questão de colocá-la sobre os ombros enquanto desfilava, arrancando uma enorme ovação do público.
Poucas músicas conseguem transmitir tantas emoções quanto Hallowed Be Thy Name. Uma verdadeira obra-prima. Bruce apareceu usando mais um figurino diferente dentre vários, e protagonizou outra sequência teatral memorável, incluindo a cena da cela, reforçando que os Maiden continuam sendo uma referência quando o assunto é transformar um concerto em uma experiência completa.
Iron Maiden encerrou a primeira parte do espetáculo em clima de pura celebração. Um novo Eddie surgiu no enorme ecrã, agora inspirado na versão de Piece of Mind, usando sua icônica camisa de força em uma releitura renovada. Após a música, a banda deixou o palco enquanto apenas os olhos azuis de Eddie permaneciam brilhando ao fundo. Mas todos sabíamos que ainda havia mais por vir.
A introdução de Churchill’s Speech anunciou o encore, levando imediatamente à explosão de Aces High. Percebi apenas que o microfone de Bruce pareceu um pouco mais baixo nesta música, mas isso em nada afetou a energia da apresentação.
Logo depois veio Fear of the Dark. É impossível fugir desse clássico. Independentemente de quantas vezes alguém já o tenha ouvido, basta o primeiro refrão para que todos cantem juntos. Todo o estádio pulava, cantava e vibrava como se estivesse vivendo aquele momento pela primeira vez.
E então chegou o inevitável fim com Wasted Years. A única representante de Somewhere in Time (1986) encerrou o espetáculo de maneira emocionante. Milhares de pessoas cantando e aproveitando cada segundo, já sabendo que aquele momento ficaria guardado para sempre.
Vale destacar que, como já era esperado, No Prayer for the Dying (1990) permaneceu completamente de fora do repertório. Mas isso não importava diante da grandiosidade do espetáculo que assistimos.
Foi verdadeiramente bonito. Digno do tamanho dos Maiden. Tenho certeza de que quem já os viu inúmeras vezes saiu dali feliz. Mas, para quem, como eu, finalmente realizou o sonho de vê-los pela primeira vez, foi impossível conter as lágrimas. Eles continuam sendo uma força absolutamente inabalável. Cinco décadas depois, continuam mostrando exatamente por que ocupam esse lugar tão especial na música e no coração de milhões de fãs ao redor do mundo.
Obrigada, Iron Maiden. Up The Irons!
SETLIST COMPLETO: 1. Murders in the Rue Morgue | 2. Wrathchild | 3. Killers | 4. Phantom of the Opera | 5. The Number of the Beast | 6. Infinite Dreams | 7. Powerslave | 8. 2 Minutes to Midnight | 9. Rime of the Ancient Mariner | 10. Run to the Hills | 11. Seventh Son of a Seventh Son | 12. The Trooper | 13. Hallowed Be Thy Name | 14. Iron Maiden | Encore – 15. Aces High | 16. Fear of the Dark | 17. Wasted Years







