Na passada terça-feira, o Estádio da Luz, em Lisboa, foi palco de um dos concertos mais aguardados do ano. Pelas mãos da Prime Artists, os lendários Iron Maiden regressaram a Portugal para mais uma noite histórica, reafirmando por que continuam a ser uma das maiores bandas de heavy metal de todos os tempos.

Pouco mais de um ano após a última passagem pelo país, quando esgotaram a MEO Arena em poucas horas, Bruce Dickinson e companhia voltaram para apresentar novamente a sua Run For Your Lives Tour. Desta vez, com pequenas alterações no repertório, uma produção ainda mais grandiosa e um palco à altura da dimensão do grupo: um Estádio da Luz completamente lotado numa terça-feira. Definitivamente, isso não é para qualquer banda.

A turnê celebra cinco décadas de uma carreira monumental revisitando algumas das fases mais emblemáticas dos Iron Maiden. O repertório mergulha na era clássica da banda, percorrendo álbuns fundamentais, de Iron Maiden (1980) até Fear of the Dark (1992).

A responsabilidade de abrir esta tarde/noite histórica ficou nas mãos de outra instituição da música pesada: os norte-americanos Anthrax. Um dos pilares do lendário Big Four do Thrash Metal, ao lado de Metallica, Megadeth e Slayer, o grupo regressou aos palcos vivendo uma fase bastante ativa, impulsionada pelo lançamento de material inédito e mostrando que continua tão relevante quanto nas últimas décadas.

Continue lendo para conferir tudo o que aconteceu nesta celebração inesquecível!

ANTHRAX

A a responsabilidade de abrir os trabalhos não foi uma simples banda, mas sim um dos maiores nomes da história do thrash metal: Anthrax. Pouco antes das 19h30, o ecrã atrás do palco já exibia a arte dos novos singles lançados pela banda no último mês.

Em 2026, a banda vive uma das fases mais ativas da carreira, marcando um retorno triunfal aos palcos e também ao estúdio, trazendo material inédito para esta nova etapa. O grupo apresentou um set enxuto, porém extremamente eficiente, composto por oito músicas que equilibraram clássicos indispensáveis de sua discografia, mas com espaço para a novidade, mantendo a energia do Estádio da Luz sempre em alta desde o primeiro minuto.

O pontapé inicial veio com Among the Living, faixa-título do clássico álbum de 1987. Bastaram os primeiros acordes para que o público começasse a cantar junto, enquanto cabeças começavam a rolar. A banda entrou em palco transbordando energia, e a resposta dos fãs foi à altura.

Ver os Anthrax ao vivo é mesmo um privilégio e tanto. Joey Belladonna mostrou, mais uma vez, por que permanece entre os grandes vocalistas do thrash metal. Sua performance foi impecável, com agudos impressionantes e uma potência vocal que chegou a me arrepiar. Scott Ian, como de costume, distribuía sorrisos durante todo o concerto, enquanto toda a banda demonstrava um entrosamento invejável, aproveitando cada oportunidade para interagir com o público de forma espontânea e muito simpática.

Na sequência vieram Got the Time, o já tradicional cover de Joe Jackson que há muito conquistou lugar definitivo no repertório da banda, seguido por Madhouse, um dos maiores clássicos da carreira, que levou ao coro nos refrões.

Com Caught in a Mosh, o caos tomou definitivamente conta da plateia. Os moshpits surgiram naturalmente, conduzidos pela própria banda, enquanto o público apenas respondia. Logo depois, Medusa trouxe aquele sabor irresistível dos primeiros anos da carreira, sendo cantada em peso pelos fãs mais antigos.

Um dos momentos mais especiais da apresentação aconteceu com o novo single It’s for the Kids. Lançado oficialmente em maio deste ano com direito a videoclipe, o novo single marca o início de uma nova fase para o Anthrax e já vinha recebendo excelentes críticas. Boa parte do público já conhecia a letra e acompanhava a música com entusiasmo, mostrando que o novo material foi rapidamente abraçado pelos fãs. É exatamente esse equilíbrio entre tradição e renovação que mantém a banda tão relevante mesmo após mais de quatro décadas de carreira.

Na reta final, veio Antisocial, cover da banda francesa Trust que se tornou um hino do Anthrax ao longo dos anos. O encerramento ficou reservado para Indians, um dos maiores clássicos. Um circle pit ganhou força, e Belladonna desceu até o pit para cantar junto ao público, que o abraçou na grade.

Ao final da apresentação, a banda permaneceu algum tempo no palco agradecendo a recepção dos fãs. Enquanto o som mecânico tocava Long Live Rock ‘n’ Roll, dos Rainbow, na inesquecível voz de Ronnie James Dio, Belladonna continuou caminhando pelo palco, cantando o refrão de maneira descontraída e arrancando ainda mais aplausos.

Foi uma apresentação intensa, extremamente competente e recebida com enorme entusiasmo pelo público português. Uma abertura à altura da grandiosidade da noite e a preparação perfeita para aquilo que ainda estava por vir!

SETLIST COMPLETO: 1. Among the Living | 2. Got the Time (Joe Jackson cover) | 3. Madhouse | 4. Caught in a Mosh | 5. Medusa | 6. It’s for the Kids | 7. Antisocial (Trust cover) | 8. Indians

Iron Maiden @ Estádio da Luz, Lisboa | Photos: @rodrigosimasphoto & @culturaempeso
Iron Maiden @ Estádio da Luz, Lisboa | Photos: @rodrigosimasphoto & @culturaempeso

Com o público completamente aquecido, chegava finalmente o momento mais aguardado da noite: Iron Maiden. A ansiedade era enorme, especialmente entre aqueles que haviam ficado de fora da última passagem da banda por Portugal, há pouco mais de um ano, quando esgotaram a MEO Arena em poucas horas.

Marcados para as 20h50, atrasaram pouco mais de cinco minutos. Então ouvimos no som mecânico Doctor, Doctor, dos UFO. Quem acompanha os Maiden há anos conhece bem esse ritual: quando essa música toca, é sinal de que o espetáculo está prestes a começar. O Estádio da Luz estava completamente tomado pela ansiedade. O público cantava, dançava e aplaudia em expectativa.

De repente, o enorme ecrã ganhou vida, transportando-nos para uma corrida pelas ruas da East London dos anos 80, enquanto The Ides of March ecoava pelos alto-falantes. Os braços se erguiam em uníssono, acompanhados por palmas sincronizadas que pareciam chamar a banda para o palco e, finalmente, a banda apareceu.

A abertura foi simplesmente maravilhosa. Uma sequência vinda diretamente de Killers (1981), um dos discos mais crus e com aquela pegada punk tão característica do início da carreira. A guitarra começou lentamente e logo reconhecemos Murders in the Rue Morgue, uma das minhas músicas favoritas. Foi impossível não me emocionar. Os gritos do público tomaram conta do estádio enquanto os Maiden ocupavam o palco.

Logo depois veio Wrathchild, conduzida pelo inconfundível baixo de Steve Harris, com todo o estádio berrando o refrão. Para completar a tríade perfeita, Killers encerrou essa primeira passagem pelo álbum de maneira impecável.

Com o céu ainda tingido pelos últimos tons alaranjados do pôr do sol, Bruce Dickinson fez a primeira pausa para conversar com o público. E aqui preciso abrir um parêntese. A produção deste espetáculo era puro cinema, exatamente aquilo que se espera. Era a minha primeira vez vendo os Maiden ao vivo e, sinceramente, a experiência superou qualquer expectativa que eu pudesse ter criado ao longo de tantos anos. E acredito que até quem já os viu dezenas de vezes tenha sentido que esta tour possui um sabor especial.

Bruce Dickinson, agora com os cabelos totalmente brancos, me arrancava lágrimas só de vê-lo correr de um lado para o outro. Que ele é um grande maestro todos já sabem, mas testemunhar isso de perto é outra experiência. Steve Harris continua sendo uma presença gigantesca, esbanjando energia e carisma, enquanto o trio das guitarras Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers seguem demonstrando técnicas impecáveis e uma sintonia invejável.

Esta turnê também marca a ausência de Nicko McBrain nas baterias, algo que inevitavelmente deixa um vazio enorme. Ainda assim, Simon Dawson mostrou que assumiu essa responsabilidade com enorme competência. Não há substituição para Nicko, mas Simon mostrou enorme competência e respeito pelo legado deixado pelo lendário baterista. Tudo parecia perfeitamente encaixado.

Phantom of the Opera trouxe uma das passagens mais emocionantes da noite, revisitando o álbum de estreia Iron Maiden (1980). Na sequência veio o inevitável The Number of the Beast. Gostem ou não do fato de ser uma das músicas mais conhecidas da banda, não há como negar: trata-se de um dos maiores hinos da história do gênero. Com imagens clássicas projetadas no ecrã, fogos no palco e milhares de vozes cantando juntas, foi um daqueles momentos arrepiantes.

Um dos momentos mais emocionantes da noite chegou com o presente de Infinite Dreams. A faixa retornou ao repertório apenas em maio deste ano, durante o concerto em Atenas, substituindo The Clairvoyant, e voltou a ser executada após 38 anos fora dos palcos. Nem preciso dizer a emoção que foi viver esse momento.

A passagem por Powerslave (1984) começou com a própria Powerslave, enquanto Bruce surgia usando sua icônica máscara de penas. Em seguida, 2 Minutes to Midnight fez o estádio cantar em coro antes da monumental Rime of the Ancient Mariner. O longo épico foi acompanhado com atenção absoluta pelo público, mostrando que um clássico dessa magnitude continua tão fascinante quanto sempre foi. Era um espetáculo completo, em que música, teatro, iluminação e cenografia caminhavam juntos.

Depois da viagem proporcionada, Run to the Hills devolveu a euforia ao estádio. Era impossível ficar parado. Logo depois, Seventh Son of a Seventh Son trouxe toda a atmosfera mística do álbum de 1988, preparando o terreno para um dos momentos mais aguardados da noite.

The Trooper apareceu acompanhada da tradicional bandeira britânica empunhada por Bruce, enquanto um grande Eddie soldado atravessava o palco. Sim, é previsível. Sim, todos já esperam por isso. Ainda assim, continua sendo impossível não sorrir ao ver acontecer ao vivo. Uma bandeira de Portugal foi lançada ao palco, e Bruce fez questão de colocá-la sobre os ombros enquanto desfilava, arrancando uma enorme ovação do público.

Poucas músicas conseguem transmitir tantas emoções quanto Hallowed Be Thy Name. Uma verdadeira obra-prima. Bruce apareceu usando mais um figurino diferente dentre vários, e protagonizou outra sequência teatral memorável, incluindo a cena da cela, reforçando que os Maiden continuam sendo uma referência quando o assunto é transformar um concerto em uma experiência completa.

Iron Maiden encerrou a primeira parte do espetáculo em clima de pura celebração. Um novo Eddie surgiu no enorme ecrã, agora inspirado na versão de Piece of Mind, usando sua icônica camisa de força em uma releitura renovada. Após a música, a banda deixou o palco enquanto apenas os olhos azuis de Eddie permaneciam brilhando ao fundo. Mas todos sabíamos que ainda havia mais por vir.

A introdução de Churchill’s Speech anunciou o encore, levando imediatamente à explosão de Aces High. Percebi apenas que o microfone de Bruce pareceu um pouco mais baixo nesta música, mas isso em nada afetou a energia da apresentação.

Logo depois veio Fear of the Dark. É impossível fugir desse clássico. Independentemente de quantas vezes alguém já o tenha ouvido, basta o primeiro refrão para que todos cantem juntos. Todo o estádio pulava, cantava e vibrava como se estivesse vivendo aquele momento pela primeira vez.

E então chegou o inevitável fim com Wasted Years. A única representante de Somewhere in Time (1986) encerrou o espetáculo de maneira emocionante. Milhares de pessoas cantando e aproveitando cada segundo, já sabendo que aquele momento ficaria guardado para sempre.

Vale destacar que, como já era esperado, No Prayer for the Dying (1990) permaneceu completamente de fora do repertório. Mas isso não importava diante da grandiosidade do espetáculo que assistimos.

Foi verdadeiramente bonito. Digno do tamanho dos Maiden. Tenho certeza de que quem já os viu inúmeras vezes saiu dali feliz. Mas, para quem, como eu, finalmente realizou o sonho de vê-los pela primeira vez, foi impossível conter as lágrimas. Eles continuam sendo uma força absolutamente inabalável. Cinco décadas depois, continuam mostrando exatamente por que ocupam esse lugar tão especial na música e no coração de milhões de fãs ao redor do mundo.

Obrigada, Iron Maiden. Up The Irons!

SETLIST COMPLETO: 1. Murders in the Rue Morgue | 2. Wrathchild | 3. Killers | 4. Phantom of the Opera | 5. The Number of the Beast | 6. Infinite Dreams | 7. Powerslave | 8. 2 Minutes to Midnight | 9. Rime of the Ancient Mariner | 10. Run to the Hills | 11. Seventh Son of a Seventh Son | 12. The Trooper | 13. Hallowed Be Thy Name | 14. Iron Maiden | Encore – 15. Aces High | 16. Fear of the Dark | 17. Wasted Years

MAIS FOTOS AQUI: