Na passada sexta-feira, 10 de julho de 2026, o Parque da Fundação de Serralves, no Porto, recebeu um dos concertos mais aguardados deste verão para os apreciadores de música experimental: SUNN O))) apresentaram o seu novo álbum homónimo e hipnotizaram todos os presentes. Durante cerca de hora e meia, o Parque da Fundação de Serralves transformou-se numa enorme câmara de ressonância, onde o som se tornou matéria física e o público foi convidado a mergulhar numa experiência sensorial tão extrema quanto fascinante. Não foi um concerto para todos, e nunca pretendeu sê-lo. Mas para quem procura viver o som para lá da melodia, do ritmo e da estrutura convencional, o que aconteceu naquela noite foi absolutamente inesquecível.

SUNN O))), por @catiasousacts

Formados em 1998 por Stephen O’Malley e Greg Anderson, os SUNN O))) tornaram-se uma das maiores referências da música experimental contemporânea. A sua linguagem sonora habita num território singular onde o drone, o metal, o minimalismo e a composição avant-garde se cruzam, privilegiando frequências graves, feedback, sustain e uma abordagem quase escultórica ao som. As suas composições constroem massas sonoras de enorme densidade, fazendo do volume e da ressonância elementos centrais de uma experiência tanto física quanto auditiva.

Com quase três décadas de percurso, o duo norte-americano regressou ao Porto para apresentar o seu novo álbum homónimo e proporcionar uma experiência verdadeiramente singular. Num cenário pouco habitual para uma proposta desta natureza, o Parque da Fundação de Serralves transformou-se num espaço de imersão sensorial, onde a ideia convencional de concerto rapidamente se dissipou. Mais do que ouvir música, o público foi convidado a habitar o som, deixando-se envolver por um universo de frequências, ressonâncias e vibrações que se faziam sentir tanto nos ouvidos como no corpo.

SUNN O))), por @catiasousacts

Ainda muito antes da abertura das portas, era evidente que esta não seria uma noite qualquer. A fila crescia à entrada de Serralves e, curiosamente, grande parte do público parecia vir de fora de Portugal, um sinal de que um concerto dos SUNN O))) continua a ser um acontecimento capaz de mobilizar fãs de vários países. Afinal, não é todos os dias que uma banda desta dimensão atua num cenário tão peculiar como o Parque da Fundação de Serralves.

Mas a experiência começou muito antes de Stephen O’Malley e Greg Anderson pisarem o palco. Bastava entrar no recinto para perceber que aquela não seria uma noite convencional. O enorme muro de amplificadores dispostos no palco impunham respeito e despertavam imediatamente a curiosidade sobre o que estaria para acontecer. Aos poucos, o espaço começava a ser invadido por uma fina camada de fumo, enquanto a iluminação ia desenhando um ambiente simultaneamente misterioso e inquietante. Sem que uma única nota tivesse sido tocada, a tensão já era palpável. Havia uma expectativa coletiva no ar, como se todo o cenário estivesse cuidadosamente preparado para anunciar que o que se seguiria não seria apenas um concerto, mas uma experiência sensorial cuidadosamente construída desde o primeiro instante.

Assim que Stephen O’Malley e Greg Anderson subiram ao palco, percebeu-se que a palavra “concerto” seria insuficiente para descrever o que se seguiria. Os movimentos lentos e quase cerimoniais do duo, o palco completamente envolto em fumo branco e um muro de amplificadores responsável por fazer tremer o chão, criaram uma atmosfera quase apocalíptica. A certa altura, era impossível não pensar que aquela poderia muito bem ser a banda sonora para o fim do mundo. O extraordinário desenho de luzes, sempre em diálogo com o fumo, transformava cada flash numa descarga elétrica, cada mudança de cor numa nova paisagem, criando uma sensação constante de tempestade iminente. Tudo ali contribuía para uma experiência profundamente imersiva, onde visão, audição e até o próprio corpo eram chamados a participar.

Quem nunca mergulhou no universo de SUNN O))) poderá achar que tudo assenta numa única nota prolongada. Na realidade, acontece precisamente o contrário. O duo pega nessa matéria-prima aparentemente simples e molda-a ao longo de vários minutos, explorando subtis variações de frequência, textura, dinâmica e ressonância. É uma música que exige entrega e paciência, mas que recompensa quem aceita entrar no seu ritmo.

E se em disco já impressionam, ao vivo tudo ganha outra dimensão. Nenhuma gravação consegue reproduzir a pressão das frequências graves no peito, o chão a vibrar debaixo dos pés ou a forma como o som parece ocupar todo o espaço físico. Em Serralves, os SUNN O))) provaram mais uma vez que a sua música só se compreende verdadeiramente quando vivida na primeira pessoa. Mais do que assistir a um concerto, o público participou numa experiência sensorial rara, desafiante e inesquecível, daquelas que dificilmente se conseguem explicar a quem não esteve lá.

SUNN O))), por @catiasousacts

Quando a última frequência se dissipou, o silêncio durou apenas um instante. Seguiram-se largos minutos de aplausos sentidos, com Stephen O’Malley e Greg Anderson a permanecerem no palco, visivelmente agradecidos, retribuindo o carinho de um público que acabara de testemunhar algo verdadeiramente especial.

Por fim, as luzes acenderam-se, o público começou lentamente a abandonar Serralves, mas as frequências permaneceram no corpo durante muito mais tempo. Para quem aceitou embarcar nesta viagem, ficará a memória de uma das experiências sonoras mais intensas que passou pelo Porto nos últimos anos. Para quem decidiu ficar de fora, resta esperar que os SUNN O))) regressem. Porque há concertos que se ouvem, mas os de SUNN O))) vivem-se.