Os MEAN chegam em 2024 como um verdadeiro supergrupo do underground nacional, reunindo nomes experientes que já andavam há anos a sujar palcos e a construir a cena. Não são miúdos a experimentar, são veteranos com algo a provar. E com IMMINENT, lançado a 24 de fevereiro de 2026, deixam logo claro que vieram para incendiar tudo à sua volta.

IMMINENT é um murro direto no estômago. Desde o primeiro tema, sente-se uma urgência crua, quase sufocante, como se cada segundo fosse vivido no limite. A produção não tenta polir demasiado, e ainda bem, porque essa sujidade dá-lhe identidade. Há uma base sólida de hardcore, mas constantemente contaminada por uma atitude punk mais rasgada e até sombria, que cria uma atmosfera pesada e quase claustrofóbica.
O álbum abre com Dystopia I, e logo percebemos que os MEAN não vieram para brincar com fórmulas. A faixa quebra o molde do hardcore tradicional com passagens mais arrastadas, riffs penetrantes e vocais absolutamente rasgados, criando uma atmosfera crua e hipnotizante. À medida que a música avança, a sensação de urgência cresce, envolvendo o ouvinte numa tensão quase palpável, e deixando claro desde o início que IMMINENT vai explorar territórios sonoros ousados e imprevisíveis.
Segue-se Bad Blood, que dispara com uma violência muito mais direta. A batida rápida conduz a energia de forma implacável, mas os MEAN sabem respirar: pequenos momentos de pausa dão espaço para absorver a intensidade antes de voltar ao ataque. O final da faixa é particularmente memorável: um convite irresistível ao headbanging, onde o moshe deixa lugar a movimentos sincronizados de pura fúria controlada. É um contraste perfeito com a abertura mais arrastada, mostrando a versatilidade da banda e a sua capacidade de manipular a tensão e a adrenalina.
World War Free cria um ambiente denso e quase sufocante desde os primeiros segundos. A introdução de ruído crescente que se prolonga por quase dois minutos antes de decrescer, gera uma ansiedade deliciosa, preparando o terreno para um instrumental de cortar a respiração. O riff central é criativo, brutal e único, e o refrão parece feito para ser gritado em uníssono, consolidando o poder coletivo do hardcore em palco. Momentos breves tocam ligeiramente em elementos de black metal, nomeadamente blastbeats que acrescentam uma dose extra de agressividade. É uma das faixas mais memoráveis do disco, e mostra que os MEAN estão confortáveis em misturar elementos de vários estilos sem perder a sua identidade.
Vicious Crown retorna ao registo mais arrastado, mergulhando o ouvinte numa tensão quase palpável desde os primeiros riffs. Mas é a meio da faixa que os MEAN surpreendem: um solo de guitarra abismal surge, rasgando a atmosfera e elevando a intensidade para outro nível. Quando chega o breakdown longo, inesperado e absolutamente inevitável, vemo-nos num daqueles momentos que nos deixa sem fôlego, mas que sentimos que só poderia ter acontecido exatamente assim. Até aqui, fica claro que os MEAN não estão a improvisar: cada riff, cada pausa, cada explosão sonora surge no momento certo e na quantidade certa. Eles não seguem uma receita, inventam-na.
Hollow Words destaca-se pela participação especial de Thiago Sierra, dos Worst, cuja presença acrescenta ao tema (e ao álbum) uma camada extra de desespero e intensidade gritante. Conhecido pela sua abordagem visceral e descontrolada em palco, Thiago imprime cada segundo da sua curta passagem com uma energia que se sente mesmo fora das caixas de som. A importância deste tema no conjunto do álbum é enorme: é como um golpe concentrado de emoção crua que reforça a identidade do disco e mostra a capacidade dos MEAN de incorporar colaborações sem diluir a sua força.
Broken Hands introduz novas nuances, especialmente na percursão, que se tornam o destaque da faixa. Ao longo dos seus 2:40 minutos, a bateria conduz variações rítmicas e passagens inesperadas, mostrando uma criatividade que eleva a intensidade sem quebrar o fluxo do álbum. Esta atenção aos detalhes revela a versatilidade dos MEAN, que mesmo numa faixa relativamente curta, conseguem explorar texturas diferentes e manter o ouvinte atento, acrescentando camadas de sofisticação ao hardcore que caracteriza IMMINENT.
Já na reta final do álbum, No Redemption surge como uma descarga total de energia, quase como se fosse o ponto de ebulição de tudo o que veio antes. Desde os primeiros segundos, somos automaticamente colocados em estado de alerta, com os dentes cerrados, prontos para deixar que a violência da faixa nos contamine por completo. É hardcore na sua forma mais pura: vocais desafiantes que rasgam o silêncio, breakdowns estrondosos que nos derrubam e guitarras dissonantes que acrescentam uma camada extra de caos controlado.
O álbum encerra com Dystopia II, que, à semelhança de Dystopia I, abre espaço para tudo: criar ansiedade, descarregar energia, alternar abrandamentos e momentos rápidos, e entregar breakdowns brutais que prendem completamente o ouvinte. Sendo a faixa mais longa do álbum, funciona quase como uma compilação de tudo aquilo que os MEAN são capazes, mostrando a sua versatilidade e criatividade sem concessões. Não há espaço para monotonia, nem repetições. A construção imprevisível mantém-nos constantemente em alerta. É uma faixa que não só encerra IMMINENT com força, mas também deixa a sensação de que os MEAN não são apenas uma banda de hardcore, são arquitetos de tensão, caos e emoção.

O que mais impressiona nesta obra é a sua consistência: não há enchimento. Cada faixa entra com intenção e sai sem pedir licença. Os riffs são cortantes, a bateria soa como um motor em colapso constante e os vocais surgem carregados de raiva genuína. Não é pose, é descarga emocional. Há momentos em que o som abranda ligeiramente, mas nunca perde tensão. É como respirar fundo antes de voltar ao caos. Há também uma sensação clara de identidade: IMMINENT não soa a cópia de ninguém. Nota-se influência do hardcore clássico, sim, mas reinterpretado com um lado mais obscuro e moderno. Isto não é revivalismo nostálgico, é evolução com dentes.
IMMINENT é um statement. É o tipo de estreia que não pede atenção, mas exige-a. Os MEAN mostram aqui que o hardcore no Porto (e em Portugal) está longe de estar morto, e fazem-no com uma intensidade que poucos conseguem igualar. Se procuras hardcore que respira, suja e desafia, IMMINENT é a tua passagem obrigatória.
Alinhamento: 1- Dystopia I, 2- Bad Blood, 3- World War Free, 4- Vicious Crown, 5- Hollow Words, 6- Broken Hands, 7- No Redemption, 8- Dystopia II.
Banda: MEAN
Álbum: Imminent
Data de Lançamento: 24 Fevereiro 2026
Label: Independente
Páginas da banda: linktr.ee/meanofficial

