O quarteto mongol The Hu reafirma seu lugar no cenário internacional ao mesclar a brutalidade do metal moderno com a ancestralidade das estepes da Ásia Central. Pioneiros do gênero batizado como “Hunnu Rock”, os músicos utilizam o gutural milenar Khoomei e instrumentos tradicionais feitos à mão para criar uma sonoridade épica e envolvente. Longe de ser apenas um elemento exótico no circuito do rock, o grupo prova que a verdadeira identidade cultural pode soar tão pesada e impactante quanto qualquer distorção de guitarra.

No trabalho intitulado HUN, lançado com todo o suporte da gravadora Better Noise Music, a banda demonstra uma evolução notável na forma como estrutura suas composições. O registro entrega uma lapidação sonora polida e incisiva, equilibrando com maestria a intensidade dos ritmos percussivos e as frequências graves. A engenharia de som do álbum consegue capturar o dinamismo de uma cavalgada sem perder a clareza técnica, transformando a escuta em uma jornada imersiva que conecta o ouvinte a um imaginário épico e ancestral.

O grande trunfo que torna a proposta do The Hu tão singular é a decisão de dispensar a instrumentação padrão do heavy metal ocidental. A dobradinha entre a rabeca de cabeça de cavalo (Morin Khuur) e o alaúde de duas cordas (Tovshuur) assume a função que normalmente pertenceria às guitarras elétricas. Essa substituição confere ao som uma textura única, provando que é possível atingir uma densidade pesada e agressiva apenas explorando a ressonância natural de cordas acústicas e o poder do canto difônico. Para além da estética musical, o grupo carrega marcas históricas que poucas bandas do circuito pesado alcançaram. Reconhecidos pelo governo local com o título oficial de “Embaixadores Culturais da Mongólia“, eles também foram nomeados “Artistas pela Paz” pela UNESCO por conta da preservação patrimonial em sua arte. Essa projeção permitiu até mesmo que expandissem sua sonoridade para universos da cultura pop, compondo temas em uma língua fictícia criada especialmente para a franquia Star Wars nos videogames.

"A Marcha Épica de "Horsemen"

Um dos pontos mais marcantes do repertório é a faixa Horsemen, escolhida como single de trabalho. A música funciona como uma verdadeira ode à cavalaria histórica da região, impulsionada por um andamento contagiante e cheio de energia. As frases de corda executadas em ritmo acelerado constroem uma tensão constante, enquanto as vozes profundas ditam o tom de uma marcha de combate. Desenvolvida para criar grande impacto ao vivo, a faixa consegue traduzir o movimento e a força da narrativa guerreira em pura pressão sonora.

 


Outro momento de enorme destaque na obra é a faixa Lost Soul, que conta com a participação especial de Jonny Hawkins, vocalista da banda norte-americana Nothing More. A colaboração cria um contraste fascinante entre a entrega vocal visceral e melódica do rock ocidental de Hawkins e os timbres sombrios e guturais do quarteto oriental. Essa fusão orgânica expande o alcance emocional da faixa, servindo como uma ponte perfeita entre o hard rock das grandes arenas americanas e o misticismo do folclore mongol.

Em suma, HUN consolida o The Hu como um nome definitivo e maduro no panorama do rock global. O álbum prova que o impacto da banda vai muito além da surpresa inicial de sua fusão cultural, entregando composições sólidas que se sustentam por mérito próprio. Trata-se de um lançamento indispensável para quem procura um som visceral, original e capaz de renovar a energia da música pesada sem recorrer às fórmulas ultrapassadas do mercado.

FAIXAS:

  1. Warrior Chant
  2. Lost Soul (com participação de Jonny Hawkins, do Nothing More)
  3. The Men
  4. Echoes of My Father
  5. Shadow
  6. Horsemen
  7. Greed
  8. The Real You
  9. Grey Hun
  10. Universe
  11. Second Face

NOTA: 7.5/10