O trio português Zero Massive estreou-se com Zero Massive, álbum homónimo lançado de forma independente a 24 de maio de 2024. Inserido num território onde o progressive metal cruza caminhos com o atmospheric rock, este primeiro registo apresenta desde cedo uma identidade construída sobre contrastes: peso e subtileza, intensidade e contemplação, riffs densos e passagens mais expansivas. Inspirando-se numa estética sonora que parece refletir a vastidão e a dualidade do oceano, a banda procura criar uma experiência marcada por ambientes detalhados e estruturas que alternam entre a serenidade e a força esmagadora.

Por detrás desta estreia encontra-se uma formação composta por Pedro Porto Fonseca na guitarra, Pedro Simão no baixo e João Colaço na bateria. Embora o álbum tenha chegado apenas em 2024, as raízes do projeto remontam a uma ideia inicialmente concebida por Pedro Porto Fonseca ainda em 2009, alimentada por décadas de contacto com diferentes vertentes do rock e do metal. Entre influências que passaram pelo hard rock, thrash, metal progressivo e sonoridades mais alternativas, o conceito foi amadurecendo lentamente até ganhar forma definitiva em 2023, culminando num trio cuja dinâmica assenta na interação entre guitarras expressivas, linhas de baixo marcantes e uma secção rítmica sólida e poderosa.
O resultado já tem formato físico e materializa anos de desenvolvimento, ideias acumuladas e uma visão artística que foi ganhando contornos mais definidos ao longo do tempo. Zero Massive surge como um ponto de partida que procura estabelecer a identidade da banda, apresentando um equilíbrio entre composição técnica e construção atmosférica. Com uma abordagem que privilegia a dinâmica e a criação de ambientes, o disco deixa desde cedo a sensação de que cada tema desempenha um papel específico dentro de uma experiência pensada para ser absorvida como um todo.

O álbum arranca com Ocean Inverted, tema que, através dos seus acordes e riffs iniciais, nos transporta imediatamente para o universo progressivo de Zero Massive. Apesar de abrir com uma carga sonora intensa e pesada, o trio evita cair na armadilha da força constante e unidimensional. Pelo contrário, compreende que momentos de contenção e desaceleração estrategicamente colocados acrescentam profundidade à composição, tornando-a mais dinâmica, envolvente e emocionalmente rica. Outro elemento que surge logo nesta primeira faixa, preparando o terreno para aquilo que se seguirá ao longo do disco, são as passagens atmosféricas que introduzem tensão e uma certa carga dramática sem dependerem de palavras. Desde cedo fica claro que Zero Massive não pretende ser apenas mais um nome dentro do metal progressivo. Existe aqui um cuidado evidente na construção dos riffs, na criação de ambientes e na forma precisa como cada elemento encontra o seu espaço dentro da composição.
O álbum prossegue com 8 Stones, uma faixa que entra de forma intensa, carregada de peso e onde a dissonância assume um papel central na sua identidade sonora. Os riffs mais arrastados convidam naturalmente ao headbanging, enquanto as texturas e distorções parecem empurrar a composição para territórios mais abstratos e imersivos. Ao longo do tema, somos quase convidados a fechar os olhos e simplesmente deixar que a música assuma o controlo, mas é nos minutos finais que a faixa revela uma das suas facetas mais interessantes. Um crescendo de identidade, sustentado por atmosferas simultaneamente etéreas e sombrias, cria uma tensão inquietante que se torna estranhamente viciante, elevando a composição para um patamar de maior profundidade emocional antes de regressar ao peso para o seu encerramento.
Peaceful Trap, contrariamente aos dois temas anteriores, inicia-se envolta numa maior leveza e, mesmo quando mergulha em territórios mais pesados, mantém sempre uma sensação de serenidade ao longo da sua duração. Os riffs que antecedem os momentos de desaceleração são estranhamente contagiantes, construindo uma atmosfera inquietante e quase ameaçadora recorrendo apenas às cordas e à forma como estas são trabalhadas. É precisamente aqui que se começa a perceber a maturidade musical do trio: a capacidade de criar tensão, desconforto e emoção sem depender de excessos, mas sim de composição inteligente e atenção ao detalhe. As pequenas pausas atmosféricas surgem como momentos de respiro, colocadas com precisão cirúrgica exatamente quando a intensidade pede uma pausa, antes de sermos novamente arrastados para o universo de peso e complexidade que caracteriza Zero Massive. A isto, juntam-se crescendos pacientes e cuidadosamente construídos que, ao atingirem o seu clímax, provocam uma genuína sensação de libertação, quase como uma viagem cósmica. Ao longo da sua estrutura imprevisível, a faixa acaba por traduzir perfeitamente aquilo que o seu próprio nome sugere: uma armadilha pacífica, um paradoxo sonoro do qual não sentimos qualquer vontade de escapar.
October Storm surge como a faixa mais curta do álbum, com aproximadamente quatro minutos de duração. Mas que ninguém interprete essa duração mais reduzida como sinal de simplicidade, porque a realidade está bastante longe disso. Na verdade, estamos perante um dos temas mais grandiosos e emocionalmente expansivos do disco. Existe algo na sua construção que gera uma forte sensação de libertação, elevando a experiência para um patamar diferente. Ao longo da faixa, continuamos a navegar entre momentos de intensidade máxima e passagens puramente atmosféricas, entre a imponência e a serenidade, construindo um percurso instável onde nem tudo é aquilo que aparenta ser à primeira audição. E talvez o próprio título não seja inocente: tal como as tempestades de outubro, que podem passar rapidamente de uma aparente tranquilidade para uma força inesperada e imprevisível, também este tema alterna entre calma e turbulência, deixando a sua marca muito depois de terminar.
Lost Ship desbloqueia um novo território dentro do universo sonoro do álbum. A sua introdução apresenta uma identidade que parece oscilar entre o cósmico e o industrial, criando desde os primeiros instantes uma sensação diferente de tudo o que surgiu anteriormente. Pouco depois, a faixa mergulha numa estrutura carregada de dissonância, sustentada por um riff viciante que se instala naturalmente na memória e se recusa a desaparecer. Como se isso não bastasse, surgem ainda elementos de teclado que transportam a composição para um território quase próximo do dungeon synth, acrescentando uma dimensão inesperada e reforçando a sua componente atmosférica. Se até este momento parecia que Zero Massive já tinham revelado todas as suas cartas, Lost Ship prova precisamente o contrário. É uma das composições mais surpreendentes do disco e uma das que mais facilmente deixa uma impressão duradoura.
The Beginning surge como o momento de respiro de que precisávamos antes de entrar nos minutos finais do álbum. A faixa carrega consigo, tal como o nome indica, uma sensação de esperança e renovação, sustentada por atmosferas serenas que nos transportam para um lugar de tranquilidade quase absoluta. Existe aqui algo de profundamente contemplativo, como uma pausa silenciosa no meio da natureza, longe do peso e da tensão acumulados até este ponto. Os acordes revelam-se simultaneamente inspiradores e reconfortantes, envolvendo-nos numa sensação de paz que parece suspender o tempo por instantes. Mas Zero Massive não se acomodam na tranquilidade durante muito tempo. De forma quase inesperada, o peso regressa, a inquietação reaparece e a percussão volta a assumir protagonismo, trazendo novamente a complexidade e intensidade características do trio, como se a calmaria fosse apenas uma breve ilusão antes do derradeiro capítulo desta viagem.
E tão rapidamente chegamos ao final. É precisamente neste momento que nos apercebemos de quão depressa passaram estes minutos na companhia de Zero Massive e surge inevitavelmente a pergunta: como terminará esta viagem? Fire Underwater apresenta-se como o culminar natural de tudo aquilo que foi sendo construído ao longo do álbum. Os riffs memoráveis, a percussão imprevisível, as atmosferas densas e as guitarras marcadas pela dissonância convergem numa estrutura complexa e dinâmica, fiel à essência progressiva, mas interpretada de uma forma muito própria pelo trio. Ao longo da faixa vão surgindo diferentes influências sonoras que parecem cruzar-se naturalmente sem nunca desviarem a banda da sua identidade, reforçando um ADN muito particular. Fire Underwater é intensa, imponente e funciona como um encerramento à altura da viagem que a antecede. Muito longe de ser apenas um simples final, a faixa deixa a sensação de estarmos perante uma obra capaz de marcar quem a ouve, revelando uma maturidade criativa que dificilmente se associaria a um projeto em estreia.
Alinhamento:
1- Ocean Inverted;
2- 8 Stones;
3- Peaceful Trap;
4- October Storm;
5- Lost Ship;
6- The Beginning;
7- Fire Underwater.
No seu todo, Zero Massive afirma-se como uma estreia de enorme qualidade e personalidade, revelando uma banda que parece ter chegado com uma identidade já plenamente definida. Ao longo do disco, o trio demonstra uma capacidade impressionante para equilibrar peso e subtileza, complexidade e emoção, técnica e atmosfera, sem nunca sacrificar a fluidez ou a naturalidade das composições. O álbum destaca-se ainda pela forma como consegue provocar sensações, transportar o ouvinte e criar imagens sem recorrer a uma única palavra.
Há discos que se ouvem, há discos que se sentem, e depois existem discos como este: obras que nos engolem por completo e nos deixam à deriva no seu próprio oceano sonoro. Zero Massive é uma experiência intensa e profundamente imersiva, que deixa uma marca clara e a confirmação de que estamos perante uma obra construída com visão, maturidade e uma identidade sonora difícil de ignorar.
Banda: Zero Massive;
Álbum: Zero Massive;
Data de Lançamento: 24 Maio 2024;
Estilo: Metal Progressivo / Atmosférico

