Exterminate transforma paixão pelo death metal em resistência em Pray for a Lie — Brasil

Álbum lançado em 2018 sintetiza a brutalidade, a crítica ao dogma e a permanência de uma das formações do death metal gaúcho

Paixão é a palavra escolhida pelo Exterminate para definir sua trajetória, e talvez seja a chave mais precisa para entrar em uma história construída longe de qualquer ideia de facilidade. A banda surgiu em Porto Alegre em meados dos anos 2000 e se firmou dentro de uma cena gaúcha em que death metal e brutalidade técnica possuem longa tradição. A demo Insane Fate, de 2009, e o EP Ascension, de 2012, prepararam o terreno para Burn Illusion, primeiro álbum completo, lançado em 2015. Pray for a Lie, de 2018, chega três anos depois como resultado de uma permanência que exige mais do que disciplina: exige vínculo afetivo real com a música extrema.

Essa paixão não aparece como romantização do underground. Ela se manifesta na insistência em produzir, tocar e sustentar uma linguagem que nunca buscou se tornar confortável. Pray for a Lie mantém o ataque frontal de Burn Illusion, mas organiza o peso em um trabalho mais amplo e conceitualmente mais coeso. A brutalidade continua central, porém o repertório se articula ao redor de um campo semântico definido por deus morto, fé cega, oração, mentira, almas, fanatismo religioso, guerra e caos. O segundo full length não abandona a origem; concentra melhor aquilo que a banda já vinha construindo.

Intro: The Call funciona como abertura ritual e prepara Image of Dead God, cujo título coloca o sagrado diante da decomposição. Blind Faith e Pray for a Lie aproximam crença e manipulação, enquanto I See Inside Your Soul desloca a tensão para o indivíduo. Religious Zombies radicaliza a crítica ao automatismo da fé; Fallen Beyond the Hands of God transforma abandono em imagem; War e Chaos ampliam novamente o foco para a destruição coletiva. The First, a faixa mais longa, encerra o disco sem reconciliação confortável. O arco é agressivo, mas não aleatório: existe uma progressão entre crença, controle e ruína.

É tentador reduzir esse universo à blasfêmia, já que o metal extremo construiu uma longa tradição de inversão religiosa. Pray for a Lie permite uma leitura mais fértil quando a provocação é aproximada da crítica ao dogma. Blind Faith e Religious Zombies deslocam a questão da existência de Deus para a forma como crenças podem se transformar em automatismo, autoridade e obediência, o que tensiona e dialoga com uma tradição moderna de desconfiança diante de verdades aceitas sem exame.

A palavra paixão muda também a maneira de ler essa agressividade. O Exterminate não trata o death metal como uma roupa estética escolhida para produzir impacto; há compromisso com uma linguagem construída ao longo de anos, dentro de circuitos independentes e de uma cena que exige permanência. Historicamente, a blasfêmia no death e no black metal funcionou tanto como choque quanto como contestação institucional. No caso da banda, ela se combina com a fisicalidade do brutal death metal sul-americano e com uma dedicação que atravessa diferentes fases e formações.

A arquitetura de Pray for a Lie é mais variada do que uma audição concentrada apenas na velocidade pode sugerir. As duas guitarras criam espessura e permitem que ataques rítmicos convivam com desenhos melódicos e linhas de tensão. Adriano Martini ocupa posição central ao articular voz e guitarra; Marcelo Feijo sustenta o grave; Sandro Moreira conduz mudanças de andamento com precisão; Rafael C. Lavandoski completa uma formação que ficou registrada como parte importante da história do grupo. A técnica existe, mas não se sobrepõe ao impulso das composições.

A maioria das faixas orbita os quatro minutos, duração que oferece espaço para desenvolver riffs sem sacrificar concisão. Pray for a Lie, com mais de cinco minutos, e The First, que ultrapassa seis, expandem essa lógica e impedem que o álbum se transforme em uma sequência indiferenciada de explosões. A produção privilegia presença de guitarra e bateria, mas mantém os instrumentos reconhecíveis dentro da massa sonora. É um disco físico, pensado para impacto, porém organizado com clareza e precisão.

A arte e o layout de Marcos Miller prolongam a oposição entre sacro e corrompido sugerida pelo título. Em um álbum chamado Pray for a Lie, a imagem funciona como porta de entrada para um universo em que símbolos religiosos perderam estabilidade. O visual não precisa ilustrar literalmente cada letra; basta preparar o terreno para a inversão que atravessa o repertório: oração sem verdade, fé sem autonomia e transcendência contaminada por violência.

Hoje, o álbum carrega ainda uma camada histórica que não existia quando foi lançado. A morte de Rafael C. Lavandoski, em 2023, transformou Pray for a Lie também em registro de uma formação que não pode ser repetida. É importante não projetar esse acontecimento retrospectivamente sobre as músicas, mas é impossível ignorar o peso de memória que ele acrescenta ao disco. A paixão que a banda escolhe para definir sua trajetória passa, nesse ponto, a incluir também vínculo, convivência e permanência de uma história compartilhada.

O Exterminate nunca pareceu interessado em suavizar a própria linguagem para ampliar acesso. Pray for a Lie reafirma essa escolha e mostra que paixão, no underground, não precisa ser uma palavra sentimental. Ela pode significar insistência, comprometimento, desejo de continuar criando e fidelidade a uma música que exige tempo, corpo e presença. Dentro dessa trajetória, o álbum funciona como síntese de uma banda que conhece profundamente o idioma do death metal e continua falando nele porque ainda encontra algo verdadeiro a dizer.

Para quem acompanha a história do death metal brasileiro e, especialmente, da cena gaúcha, Pray for a Lie permanece como um registro importante da trajetória do Exterminate. O álbum combina brutalidade, crítica e precisão sem abandonar a identidade construída pela banda ao longo dos anos.

Músicas

  1. Intro: The Call
  2. Image of Dead God
  3. Blind Faith
  4. Pray for a Lie
  5. I See Inside Your Soul
  6. Religious Zombies
  7. Fallen Beyond the Hands of God
  8. War
  9. Chaos
  10. The First

Formação

Adriano Martini: guitarras e vocais

Marcelo Feijo: baixo

Rafael C. Lavandoski: guitarras

Sandro Moreira: bateria

Ficha técnica

Lançamento: 7 de dezembro de 2018

Gravadora: Mutilation Productions

Duração aproximada: 41 minutos

Arte e layout: Marcos Miller

Origem: Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Divulgação oficial

Spotify: Pray for a Lie

YouTube: Image of Dead God (Official Video)

Instagram: @exterminatedeathmetaloficial

Facebook: Exterminate