O terceiro dia do Milagre Metaleiro Open Air 2025 tinha um alinhamento absolutamente incrível! Liderado pelo lendário Dirkschneider (ex-Accept), acompanhado por Necrophobic, Rotting Christ, Tyr e muitos mais, prometia ser um dos dias mais marcantes desta edição!

Sábado, dia 23 de Agosto, após dois dias longos de boa música e festa, ainda existia muita energia em Pindelo dos Milagres. E com o alinhamento que este dia tinha, não haveria de ser de outra forma.
DAERIA- Palco 1
A primeira banda a pisar os palcos no terceiro dia de festival, foram nuestros hermanos Daeria. Um projeto recente, nascido em 2018 em Barcelona que emergiu “das cinzas“ da antiga banda Döria, e que agora, com o seu novo nome, tem conquistado o público com seu estilo marcante e presença em palco vibrante, e aqui, em Pindelo dos Milagres, não foi exceção.
Power Metal é sempre uma boa forma de arrancar um dia longo de festival e captar todos os presentes, inundando-os de energia e refrões orelhudos. Aqui, Daeria, com o seu som que converge principalmente para o power metal melódico, mesclando teclado, melodias marcantes e riffs poderosos, foi precisamente isso que aconteceu: quem lá esteve ficou até ao fim pois foi absolutamente conquistado com o seu som e atitude em palco.
Por entre faixas onde a agressividade é predominante, e outras onde ganha a delicadeza, além de toques subtis de eletrônica enriquecerem a atmosfera geral, estes senhores deram um verdadeiro espetáculo digno do estilo!
Já agora, agradeço ao Angel Ortiz (vocalista) por ter refrescado o público com a sua pistola de água de piscina. Foi um momento engraçado, mas também bastante útil pois o calor era extremo!

JOLLY JOKER- Palco 2
Ainda com Nuestros Hermanos a animar e contagiar o ambiente, mas agora com Jolly Joker vindos de Valência e numa onda mais Glam Rock/ Hard Rock.
Com uma identidade a roçar nos anos 80, os fãs de bandas como Motley Crüe, Skid Row, New York Dolls e Kiss tinham de estar presentes, pois este grupo apresenta um som que mescla as golden eras de todos esses grupos de outrora com maestria.

MOONSHADE- Palco 1
E o primeiro grupo português a incendiar o recinto foram os Moonshade, e quem conhece bem este grupo sabe que não poderia ser de outra forma.
Com o seu Melodic Death Metal combinado com atmosferas evocativas que combinam peso, técnica e profundidade emocional, o público foi transportado para uma realidade poderosa e envolvente.
Algo que me impressiona sempre nesta banda, e aqui não foi exceção, é que cada um dos elementos exibe um vigor impressionante: riffs densos e melódicos entrelaçam-se com vocais irrompentes e intricadas texturas instrumentais. As composições fluem quase como capítulos de uma narrativa que é tão bem interpretada pelo animal de palco Ricardo (vocalista) e companheiros. Sempre claros e coesos, mas dotados de uma força bruta.
Foi uma jornada visceral e emocional, com uma entrega apaixonada por parte dos músicos e uma plateia imersa em atmosferas intensas, onde o melódico encontrou o extremo, e cada nota carregou propósito e dimensão. Um concerto de Moonshade é sempre um concerto de Moonshade: cada vez mais profissional, cada vez com mais entrega, e quando parece que não dá para ser melhor, consegue sempre elevar o nível.
Por entre uma setlist de temas que viajam até aos primeiros trabalhos da banda, houve ainda espaço para um cover de Mastodon, Blood And Thunder, que foi tocada em homenagem ao guitarrista Brent Hinds que morreu no passado dia 21 de agosto. Uma das influências da banda e que portanto faria todo o sentido homenagear aqui.

XEQUE-MATE- Palco 2
E fez-se tempo de os veteranos entrarem em palco, os Xeque-Mate, com o seu Heavy Metal clássico, no real sentido da palavra.
De uma banda com mais de 40 anos de carreira o que se pode esperar? Experiência, qualidade técnica e à-vontade com o público, mas estes portuenses ainda mostram uma juvenilidade incrível. Uma setlist explosiva e interpretada com uma atitude provocadora e com mensagens contemporâneas. Músicas como Filhos do Metal e Escrava da Noite não podiam faltar e foram cantadas em uníssono e acima de tudo foram sentidas pelo público e pela banda, o que significa que mesmo com mais de 40 anos de carreira, ainda usufruem da presença em palco. Quem corre por gosto não cansa!
O público fez questão de marcar presença e acompanhar Xico Soares em todos os refrões, resultando em momentos de fortes coros. Mais do que uma performance, a atuação dos Xeque-Mate foi (e sempre é) uma lição de como ser metaleiro e amante de música no modo geral.

GODIVA- Palco 1
Ainda por bandas lusitanas, mas agora vindos de Braga, foi a vez de do Melodic Death Metal com um trave Gótico de Godiva mostrarem do que são capazes e assim o foi.
Embora tivesse a percepção de que o som não estava perfeito, estes senhores justificaram e bem o porquê de serem uma banda com uma internacionalização crescente, com frequentes concertos que atravessam fronteiras.
Com uma abordagem cinematográfica de marcha mais aproximada a Septicflesh, Gorgon e Dimmu Borgir, orquestrações que seguem, em grande parte, a direção das guitarras, com alguns golpes para acentuar o espaço entre elas e com rugidos rudes e desgraçados que priorizam a compreensão sobre a sujidade, deixaram o ouvinte com poucas suposições para fazer e absolutamente rendidos àquilo que se estava a passar naquele palco.
O que foi e é notável em cada atuação é que Godiva não se limitam a criar algo à luz das suas influências, mas sim, a lutar para criar algo que, embora inspirado em várias bases, se distingue bem delas. Com uma voz única, um instrumental complexo e uma imagem cinematográfica, viciaram o ouvinte, em mais uma demonstração de competência e potencial ilimitado.

MORS PRINCIPIUM EST- Palco 2
Ainda na onda do Melodic Death Metal, estavam os Finlandeses Mors Principium Est e, pessoalmente, um dos grupos que mais ansiava ver nesta edição do Milagre Metaleiro Open Air.
Formados em Pori, Finlândia, em 1999, este grupo é uma das bandas emblemáticas do melodic death metal finlandês e este concerto foi uma prova disso. Com uma sonoridade moldada por influências de At the Gates, Dark Tranquillity, In Flames e Soilwork, mas com uma abordagem muito própria, mais acelerada, melódica e emocionalmente densa, deram um concerto cativante e que conquistou muitos novos fãs.
Com os seus riffs extremamente rápidos, precisos e complexos, com construções melódicas que se destacam pela sua densidade e refinamento e com uma harmonia de guitarras duplas, solos elaborados e passagens orquestrais, trouxeram profundidade e drama, um equilíbrio marcante entre agressividade e beleza emocional que contagiou o público.
Mors Principium Est entregaram uma performance sem artifícios. Nada de grandes cenários ou efeitos modernos, apenas uma entrega honesta e crua do melodeath que os tornou conhecidos e os tem levado muito longe.

DIRKSCHNEIDER- Palco 1
22h em ponto e a inconfundível voz de Udo Dirkschneider pisou o palco 1 de Pindelo dos Milagres e contaminou o recinto com o seu Heavy Metal old school que nos remeteu à era de ouro dos grandes Accept.
Tivemos a oportunidade de testemunhar um retrato que transmite toda a força e presença clássica do heavy metal. Dirkschneider, com este projeto, pretende revisitar, com toda fidelidade e energia, os clássicos do período de ouro do heavy metal dos anos 80, especialmente os maiores êxitos de Accept. O seu som é um tributo puro e poderoso ao metal tradicional, marcado por riffs fortes, refrões epicamente cativantes, solos intensos e, acima de tudo, o vibrante timbre rouco de Udo, que se tornou símbolo indelével do género
Neste concerto, Udo Dirkschneider subiu ao palco sob grande expectativa que foi cumprida: a verdadeira voz inconfundível levou ao recinto um heavy metal old school puro e visceral. A banda inaugurou a atuação com o clássico título Balls to the Wall mantendo-se fiel à celebração do 40.º aniversário desse marco fundamental do Accept. Seguiram-se grandes clássicos que puseram a malta toda de braço no ar a cantar como Princess of the Dawn, Guardian of the Night, e Burning que nos permitiram viajar no tempo e sentir uma nostalgia gigante por esta era.
No fundo, esta performance soou como uma viagem direta à nostalgia do melhor heavy metal. O público cantou em uníssono, embalado pelos riffs clássicos e pela voz rouca e imponente de Udo, resultando numa experiência intensa, emocional e memorável.
Mais um marco histórico para o Milagre Metaleiro.

NECROPHOBIC- Palco 2
A expectativa estava alta para o concerto que se seguia mas, de alguma forma, Necrophobic conseguiram superar com maestria todas essas expectativas. Um dos maiores grupos de blackened death metal de sempre esteve em Pindelo dos Milagres e trouxe uma atmosfera carregada, riffs implacáveis e uma presença visual impactante. Era mais um marco histórico prestes a acontecer para a história do festival.
Estes senhores merecem destaque pois apresentam uma fusão renovada de death metal cru com black metal atmosférico, o tal blackened death metal. Isto traduziu-se em agressividade bruta e atmosfera sombria durante vários minutos. Com recurso a guitarras com tremolo picking impiedoso e transições entre trechos rápidos e fragmentos mais lentos e ameaçadores, o resultando foi uma realidade fria e épica. Mas não se enganem, pois dentro daquele aspeto frio, estes senhores conseguiram um feito que muito poucos do estilo conseguem: uma simpática tremenda e uma ligação muito deep com o público. Tocaram com corpo e alma e isso transmitiu se para o público, assim como deram ênfase à comunicação quer verbal quer com simples olhares, eliminando qualquer distanciamento entre banda e público. O resultado? Mesmo para aqueles que podem até não ser fãs do estilo, adoraram este concerto e fizeram questão de não perder um único segundo.
Por entre camadas sonoras densas, vocais guturais e temáticas que exploram anti‑cristianismo, satanismo e mitologia nórdica, criaram um clima ritualístico e visceral. Isto, aliado a uma entrega sem concessões, resultou num dos pontos mais altos do festival.
Necrophobic é uma potência do blackened death metal sueco, com quase quatro décadas de história, e este concerto comprovou mais uma vez que estes senhores merecem este título. Foram sinónimo de intensidade pura, ritual vivo e humildade máxima. E esta humildade foi vista até minutos após o concerto, quando os membros descem do palco e fazem questão de vir conhecer os fãs e tirar fotos com eles.
Mais uma vez afirmo: dos melhores momentos da XVI edição do Milagre Metaleiro Open Air.

TYR- Palco 1
A noite já ia bem avançada quando Týr, a renomada banda de metal das Ilhas Faroé, pisou o Palco 1 para nos levar numa viagem nórdica com recurso à sua combinação de folk metal, viking metal, progressive e power metal, com influências que vão desde canções tradicionais feroesas, até elementos do heavy e do metal progressivo.
Mais uma vez, as expectativas estavam altas, uma vez que são considerados uma das bandas de metal mais bem-sucedidas das Ilhas Faroé e do estilo de um modo geral. Este título foi mais uma vez defendido nesta atuação.
Num leque grande de bandas que fazem algo completamente diferente, Týr inclui-se. Com um som que se alimenta da tradição oral feroesa, e que incorpora melodias autênticas e harmonias complexas, com uma riqueza estilística diversa com músicas que variam entre baladas épicas, passagens progressivas e refrões grandiosos, estivemos perante uma presença forte de melodia, arranjos elaborados e mudanças de ritmo envolventes.
Algo que merece também destaque e que captou o público foi a alternância entre feroês (em temas mais tradicionais), inglês e até dinamarquês e islandês. Esta diversidade é também um dos seus pontos fortes, dando-lhes uma gigante diversidade e peso tradicional.
Neste concerto, a banda irradiou energia, paixão e uma conexão profunda com o público. Foi uma experiência absolutamente inesquecível onde nos proporcionaram uma viagem épica pelas paisagens agrestes do norte, e onde cada acorde ecoou como uma lenda antiga contada ao redor da fogueira. A voz de Heri Joensen ressoou como o chamado dos deuses nórdicos, e as melodias, entrelaçadas com tradições feroesas, envolveram o público numa névoa de nostalgia, bravura e honra ancestral. Foi um ritual que uniu o passado e o presente e onde cada espectador se sentiu parte de uma saga eterna.

ROTTING CHRIST- Palco 2
Rotting Christ é daquelas bandas que é, para mim, impossível ser imparcial ao escrever sobre. Sendo estes gregos uma das minhas bandas favoritas, torna-se impossível não escrever com o coração mas com a atuação que deram nesta noite, nem preciso de me esforçar para ser imparcial. Foi absolutamente estrondoso este concerto que deram, 100% profissional e esta opinião foi partilhada por todos os presentes: fãs de longa data ou não, pequenos e graúdos, homens ou mulheres, TODOS se apaixonaram ao som destes enormes senhores!
O público português fez uma recepção apoteótica aos helênicos que foi sentida como se de uma epopeia pelas várias épocas e várias civilizações mundanas, na busca da verdade e da liberdade de pensamento, que muitas vezes o cristianismo nos absteve. A energia esteve presente do início ao fim da atuação em todas as faixas (sem exceção) tocadas pelos gregos e isso demonstra o quão fãs somos desta enorme banda que conta já com mais de 35 anos de história.
A setlist foi estrategicamente escolhida. Logicamente, uma banda com o reportório extenso de grandes hinos como é o caso de Rotting Christ, terá sempre dificuldade em não falhar alguns temas amados pelo público, como foi o caso de faixas como Yggdrasill, Saoirse ou The Apostate do seu mais recente trabalho, ou Aealo e ...Pir Threontai. Mas dentro do tempo que tinham (que para Rotting Christ, será sempre pouco) tocaram muitas das músicas obrigatórias como In Yumen-Xibalba, Grandis Spiritus Diavolos, The Raven e Like Father Like Son. E durante todo o concerto, viu-se moshe, circle pit e punhos no ar para berrar em uníssono os refrões dos clássicos.
Estivemos envolvidos numa cerimónia sombria e arrebatadora, onde o tempo pareceu suspender-se entre o profano e o sagrado. As guitarras soaram como cânticos antigos, e a voz do enorme Sakis Tolis rasgou o silêncio como uma invocação, feroz, hipnótica, quase ritualística. Envolto em luzes vermelhas e sombras densas, o público não assistiu: fez questão de participar! Cada batida, cada verso, foi um pulsar coletivo, uma celebração da escuridão com alma. No fim, não foi apenas um espetáculo, foi uma experiência espiritual marcada no sangue e no som.
Donos de um estilo muito próprio, são verdadeiros profissionais ao vivo. Sempre muito interativos com o público, sempre a puxar pelo mesmo, mesmo não sendo isso necessário, e sempre cheios de energia contagiante. Um dos melhores grupos de metal que alguma vez existiu na história da música extrema, continuam atuação após atuação a conquistar mais e mais corações. Obrigada Rotting Christ, e obrigada Milagre Metaleiro por mais uma oportunidade de ver estes senhores!

Neste terceiro dia, Dirkschneider invadiu o palco com a fúria autêntica dos Accept, resgatando clássicos do heavy metal com visceralidade e chama primordial. Já Rotting Christ mergulharam o ambiente cheio de neblina de black metal ritualístico, enquanto Necrophobic e Mors Principium Est intensificaram a noite com atmosferas sombrias e melodias técnicas implacáveis. Com Godiva, Xeque‑Mate, Revolution Within, Moonshade, Jolly Joker, Daeria e Tyr, o dia foi uma tapeçaria vibrante de estilos, desde o heavy ao thrash, do épico ao folk, vivemos uma jornada emotiva e explosiva, onde cada riff ressoou como um ultraje espiritual e cada solo despertou o aço que há em nós.
Neste sábado, em Pindelo dos Milagres, parámos no tempo enquanto o coração bateu ao ritmo dos amplificadores, e sentimos aquela sensação de pertença. Mais um dia onde milhares de memórias foram construídas, sonhos realizados e energia esgotada. A nostalgia do final do festival já se sentiu no ar, mas ainda havia mais um dia a viver, e que dia!

