Por volta das nove, o ambiente no Route era pacato, mas era notório que toda aquela calma não iria durar muito. Aos poucos começavam a aparecer as primeiras camisolas pretas, conversas sobre bandas, cervejas na mão e aquele típico clima de sala underground antes do caos começar.
HORRIFICATION

Abrir as hostilidades nem sempre é uma tarefa fácil, mas os Horrification não mostraram qualquer dificuldade em assumir esse papel.
Desde o primeiro momento, entraram com uma energia muito sólida e um som agressivo, direto e claramente old school, estabelecendo imediatamente o ambiente da noite. Foi uma abertura segura, sem hesitações, com uma banda consistente em palco e com boa presença.
Com riffs dentro do death metal clássico, com estruturas pesadas, repetitivas e muito diretas, que ao vivo ganham ainda mais impacto. O resultado é uma verdadeira parede de som contínua, crua e suja, mais focada no peso e na agressividade do que em qualquer tipo de precisão clínica.


A bateria manteve sempre uma base firme e constante, sustentando o ritmo com segurança, enquanto a guitarra puxava pelo groove mais primitivo e esmagador do som. O baixo ajudou a reforçar essa densidade, deixando tudo ainda mais compacto e pesado.


No geral, foi uma atuação perfeita para abrir a noite. Com atitude e energia suficientes para preparar o público para o que vinha a seguir. Uma abordagem claramente “old school esmagadora”, que funcionou muito bem como primeiro impacto do alinhamento
SETLIST:
I.MACABRE VIOLENCE
II.ROTTEN DEAD
III.REALM OF PAIN
IV.DEVOURER
V.CADAVERIC STENCH
VI.MONOLITHIC RITES
VII.BLOOD TRANCE
VIII. NECROVOID
HOLOCAUSTO CANIBAL

Era suposto ser Holocausto a fechar a noite, mas acabaram por ser a segunda banda a subir ao palco.
Apesar de menos público do que estão habituados, isso não os impediu de dar um dos melhores concertos que já vi deles – e a verdade é que cada concerto que vejo deles parece melhor que o anterior. As condições do Route também acabam por contribuir para isso.
A prestação foi muito coesa e intensa: vocais com uma entrega extremamente agressiva e uma presença dominante, guitarras com riffs rápidos e precisos, e a bateria com blast beats constantes.



O resultado foi uma experiência de violência sonora controlada, com intensidade constante e uma performance coesa, mantendo aquele equilíbrio entre brutalidade e groove. Mesmo dentro do caos do grindcore, os Holocausto Canibal conseguem soar muito precisos ao vivo – os blast beats e riffs não se perdem na confusão. Há uma sensação clara de controlo dentro do caos; não é só “barulho”, mas sim uma estrutura bem definida sob distorção massiva.


Foram tocados 25 temas, divididos em 6 blocos, executados sem piedade e quase sem tempo para respirar, deixando o público com a sensação de ter sido “esquartejado em segundos”.

SETLIST:
01. AD BIZARRRE MOREM
02. ÊXODO MORTUOSO
03. EPICÉDIO MADRIGAZ
04. SINAXE DO SEPULCRO TAFÓFOBO
05. ANCESTRAIS RITOS HIPOXICOS
06. APRESTO EXECUTÓRIO
07. ANIQUILAÇÃO SÚIDEA
08. ÁVIDA TRAGAÇÃO
09. EXECRANDOS MANIFESTOS
10. OBJECTOFILIA PLATÔNICA
11. NECRO-FELAÇÃO
12. LACTOFILIA DESTALHADA
13. CONGREGAÇÃO DA FLAMA FELÍDEA
14. ANATEMAS NEFANDOS
15. ESQUARTEJADO EM SEGUNDOS
16. PRENÚNCIO DA VINGANÇA CAVICÓRNEA
17. SANGUE
18. INFECÇÃO
19. CAMPAS DO NEGRO BREU
20. GIRÂNDOLAS DA AGONIA PROFUNDA
21. EMPALAMENTO
22. MIASMAS ONANIZANTES
23. VIOLADA PELA MOTO-SERRA
24. QUÉRULO DOS FINADOS
25. SORTILÉGIO DA PERVERSÃO
No fim, ainda havia energia no público – e vontade de mais.
NIHILITY
Os Nihility apresentaram uma agressividade constante ao longo de todo o concerto, com uma entrega pesada e intensa que dominou o palco do início ao fim. A banda mostrou-se técnica, mas, ao mesmo tempo, com uma energia crua e muito bem canalizada para o ambiente ao vivo.

Os riffs fortes, cheios de groove e com a eficácia em palco, criaram momentos perfeitos para o headbang coletivo. Todos os elementos tiveram uma presença sólida, contribuindo para um som coeso e poderoso.
A bateria com uma enorme precisão, com blast beats devastadores num controlo técnico impressionante que sustentou toda a estrutura das músicas. O baixo acrescentou profundidade e alguma melodia ao som, enriquecendo a base sonora sem perder peso.
Na voz, os growls profundos e fortes, encaixaram perfeitamente no lado mais agressivo da banda. As guitarras trouxeram solos muito fortes e riffs com groove que se destacaram facilmente durante o concerto.



Houve também uma grande química entre os elementos em palco, com a banda a puxar constantemente uns pelos outros. Já mais para o fim, houve até um momento em que a baixista gritava para o baterista “dá-lhe!” e o guitarrista incentivava com um “parte essa m*rda toda” – apenas um exemplo para demonstrar a energia caótica e contagiante do concerto.



Uma banda completamente focada em fazer o público reagir, e isso funcionou perfeitamente. O público respondeu à altura, com headbangs e circle pits ao longo do concerto.
Acabaram por ser eles a fechar a noite e de certeza que saíram do palco com a sensação de missão cumprida, depois do concerto sólido e intenso que deram.
SETLIST:
01.MARTYRDOM FOR THE HERD
02.ORGANIC FALLACIES
03.SHALLOW ATARAXIA
04.THUS SPOKE THE ANTICHRIST
05.DESTROYING THE SCHAKLES OF PREJUDICE
06. WANDERING FORLORN
07. WILL TO POWER
08.THE RELIGIOUS DOGMA
09. PROPHECY OF DENIAL
10.HUMAN STUPIDITY
A noite acabou por se transformar numa descarga contínua de peso, distorção e violência sonora. Entre riffs, blast beats e paredes de som sufocantes, ficou provado, mais uma vez, que o underground continua vivo. Com poucos, mas valentes.
Mais do que os concertos em si, fica também a nota para o Route. Espaços destes são cada vez mais importantes para manter viva a cultura underground e dar palco a bandas que dificilmente teriam espaço noutros contextos. Há potencial, há público e há vontade – basta continuar a alimentar esta chama.
Um obrigada ao Route206 por nos acolher sempre de braços abertos e às bandas pela disponibilidade para criar mais uns episódios para o nosso quadro ”Backstage Talks” – brevemente disponíveis nas nossas redes sociais.😉🤘🏼
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