O River Stone Winter Fest 2026 realizou-se no passado dia 21 de março, marcando mais uma edição dedicada ao espírito resiliente do metal underground nacional. O evento teve início pelas 17 horas, no espaço Grupo de Bombos Os Amigos de Cima, em Rio de Moinhos, Penafiel. Entre um ambiente quase familiar, ergueu-se um palco onde seis bandas – Nothisera, Viledög, Spiralist, Blame Zeus, Equaleft e Chaosaddition – deram corpo a uma noite longa e ruidosa, fiel à tradição de dar as boas-vindas à primavera com distorção e energia crua.

O festival destacou-se pela atmosfera de comunhão entre público, bandas e organização. Sentia-se uma ligação genuína, quase tribal, entre todos os presentes, desde os primeiros acordes até aos últimos momentos da noite. Houve espaço para o convívio, para a partilha de experiências e para aquela sensação tão própria do circuito underground: a de pertença. É impossível não reconhecer o mérito da organização, que conseguiu não só montar mais um evento coeso como já é habitual, mas também preservar aquela essência autêntica que muitas vezes se perde em produções maiores. Aqui, a música falou mais alto, e todos responderam à altura.
NOTHISERA
A abrir as hostilidades estiveram os Nothisera, com a honrosa e talvez difícil tarefa de dar o pontapé de saída para um recinto que ainda se encontrava em fase de enchimento. Ainda assim, nada pareceu afetar a entrega da banda, que subiu ao palco com uma confiança digna de quem já sabe ao que vem. A sua sonoridade, assente numa fusão de death metal e groove com nuances de nu-metal, revelou-se imediatamente eficaz ao vivo, conquistando desde cedo a atenção dos primeiros resistentes já presentes no evento.
Um dos grandes destaques da atuação foi, sem dúvida, a prestação vocal, marcada por uma impressionante versatilidade. Entre vocais agressivos e poderosos e momentos limpos nos refrões, o vocalista demonstrou não só capacidade técnica, mas também uma sensibilidade melódica que acrescenta profundidade às composições. A nível instrumental, os riffs pesados assumiram o protagonismo, daqueles que ficam na cabeça e se fazem sentir no corpo, com potencial garantido para deixar marcas no pescoço no dia seguinte. Ainda assim, a banda soube equilibrar essa intensidade com passagens mais atmosféricas e melódicas, criando dinâmicas interessantes que evitaram qualquer monotonia e mostraram uma identidade bem definida logo no arranque do festival.

VILEDÖG
Com o recinto já bem mais composto, foi a vez dos Viledög subirem ao palco, trazendo consigo uma descarga de thrash/groove metal claramente influenciada pelos gigantes do género, como os Metallica. Desde os primeiros minutos, o quarteto portuense mostrou ao que vinha, com uma energia visceral e contagiante que rapidamente aqueceu ainda mais o ambiente , mesmo quando o cair da noite começava a fazer-se sentir. O público respondeu à altura, e ao longo do concerto o espaço foi-se enchendo gradualmente, sinal claro de que algo especial estava a acontecer em palco.
A nível vocal, a performance foi extremamente coesa, com claras semelhanças ao registo de James Hetfield, sem nunca cair numa imitação forçada. Instrumentalmente, a influência dos mestres do thrash é evidente, mas trabalhada com uma abordagem mais moderna e personalizada. Um dos momentos altos surgiu a meio do set, com um solo absolutamente estrondoso que arrancou reações imediatas do público. um verdadeiro “Kirk Hammett português” em ação. Já na reta final, houve espaço para uma poderosa versão de “Pornocultura“ de Capela Mortuária, antes de encerrarem em grande com “Creeping Death“, num momento explosivo que culminou no primeiro grande mosh da noite e deixou a fasquia bem elevada para o resto do festival.

SPIRALIST
Seguiram-se os Spiralist, que nos presentearam com uma atuação intensa e envolvente, mergulhada num universo de metal progressivo, experimental e post-metal. Desde os primeiros momentos, ficou claro que a banda não vinha apenas tocar, vinha criar uma experiência! A plateia, já totalmente entregue, foi rapidamente absorvida por uma sonoridade densa e imprevisível, onde cada tema parecia desdobrar-se em múltiplas camadas.
Logo numa fase inicial, deu-se um dos momentos mais inesperados da noite: o vocalista larga a guitarra e recebe em palco Miguel Inglês, dos Equaleft, para uma colaboração que resultou de forma surpreendentemente natural. Entre os vocais mais rasgados e agressivos de Miguel e a entrega mais limpa e emocional de Bruno Costa, criou-se um contraste poderoso que enriqueceu ainda mais o tema.
Musicalmente, os Spiralist mostraram uma identidade vincada e sofisticada. Elementos de djent, distorções estrategicamente aplicadas e texturas sonoras que surgiam e desapareciam ao longo das músicas contribuíram para uma sensação constante de descoberta. As influências industriais, que por momentos faziam lembrar Nine Inch Nails, adicionaram um caráter sombrio e mecânico à atuação, sem nunca comprometer a fluidez. Os vocais, particularmente rasgados e carregados de desespero, menos comuns neste tipo de abordagem progressiva, destacaram-se precisamente por essa diferença, dando uma dimensão mais crua e visceral ao som da banda.
Ainda assim, reduzir a atuação dos Spiralist a um único elemento seria injusto. É difícil apontar um ponto mais forte quando composição, execução e presença em palco atingem níveis tão elevados de forma simultânea. O vocalista, assumindo-se como figura central, captou naturalmente as atenções, não só pela sua entrega vocal, mas também pela sua postura intensa e magnética. Cada gesto, cada expressão reforçaram a ligação com o público, que se manteve completamente rendido do início ao fim. Um concerto marcante, que deixou uma impressão profunda e elevou ainda mais o nível do festival.

BLAME ZEUS
Após uma merecida pausa para jantar e para revelar o cartaz da edição de verão, chegou a vez dos Blame Zeus tomarem conta do palco. E, como já é hábito, o quarteto não só correspondeu às expectativas, como voltou a superá-las. Há uma sensação clara de crescimento contínuo na banda. Concerto após concerto, vão afinando todos os detalhes, desde a presença em palco à coesão musical, e esta atuação foi mais uma prova disso mesmo. Com um público já completamente rendido, rapidamente se percebeu que estávamos perante um dos pontos altos da noite.
A forte ligação com os fãs foi evidente. Não só pela resposta calorosa da plateia, mas também pela forma como a banda se entregou em palco, demonstrando uma vontade genuína de estar ali e dar tudo. Essa energia foi recíproca, criando momentos de verdadeira comunhão que só reforçam a ideia de que os Blame Zeus são, atualmente, um nome incontornável no panorama nacional. Não é exagero dizer que justificam plenamente um lugar no pódio do metal feito em Portugal.
Musicalmente sólidos e performativamente intensos, houve vários momentos de destaque ao longo do set, mas “Left for Dead“acabou por sobressair como um dos mais explosivos, com a banda particularmente solta e fisicamente envolvida na sua execução. Ainda assim, seria redutor apontar apenas um pico num concerto que se manteve consistente e cativante do primeiro ao último tema. A entrega foi total, a atitude irrepreensível e o resultado final foi mais uma atuação memorável, que só veio reforçar o estatuto crescente da banda.

EQUALEFT
Já a chegar ao final da noite, e já com o público completamente mergulhado no espírito do festival, chegou a vez dos Equaleft subirem ao palco, uma das bandas mais respeitadas do circuito underground nacional. Com mais de duas décadas de percurso, o coletivo oriundo do Porto/Gaia traz consigo uma bagagem sólida construída tanto em estúdio como, sobretudo, em palco, onde sempre se destacou pela intensidade e consistência das suas atuações . Esse histórico fez-se sentir desde o primeiro tema, com uma presença confiante e madura, típica de quem já pisou inúmeros palcos e sabe exatamente como conquistar uma plateia.
Musicalmente, a banda entregou aquilo que melhor a define: uma combinação poderosa de groove metal com elementos de thrash e death, marcada por riffs pesados, ritmos envolventes e uma execução técnica irrepreensível . Há uma identidade muito própria no som dos Equaleft, construída ao longo dos anos, que equilibra agressividade com momentos mais melódicos e até alguma experimentação. Ao vivo, essa fórmula traduz-se numa descarga de energia contínua, onde cada música parece pensada para impacto direto, seja pelos grooves viciantes, seja pela intensidade vocal de Miguel Inglês, uma figura central na dinâmica da banda.
Mas se há algo que verdadeiramente distingue os Equaleft, é a sua atitude em palco. Conhecidos por criarem uma forte ligação com o público e por manterem uma postura intensa e envolvente, voltaram a provar por que razão são presença assídua nos principais festivais nacionais. Neste concerto, isso foi mais do que evidente: entrega total, interação constante e uma sensação de controlo absoluto sobre o ambiente vivido na sala. Foi uma atuação sólida, experiente e cheia de peso, exatamente aquilo que se espera de uma banda que há muito deixou de ser promessa para se afirmar como um nome incontornável do metal português.
E claro, tenho de mencionar a tradição de: No final do concerto, como é habitual, Miguel desce do palco e distribui húngaros pelo público. Parece-me um bom reforço energético e todos agradecemos de barriguinha cheia.

CHAOSADDICTION
Já depois da meia-noite, foi a vez dos Chaosaddition encerrarem a edição de 2026 do festival. Com o recinto já um pouco mais vazio, fruto do avançar da hora, poderia esperar-se um abrandar no ambiente, mas a realidade foi bem diferente. Os resistentes que se mantiveram até ao fim garantiram uma energia surpreendente, criando uma atmosfera que fazia parecer que o evento ainda estava no início. A banda aproveitou esse contexto e entregou um concerto intenso, direto e sem concessões, mostrando desde cedo que vinham determinados a fechar a noite em alta.
Conhecidos pela sua abordagem ao groove, com elementos de thrash, death metal e hardcore, os Chaosaddition trouxeram uma sonoridade marcada por peso, técnica e uma forte componente rítmica, onde elementos de hardcore e death moderno se cruzam com naturalidade. Ao vivo, isso traduziu-se numa descarga sonora compacta e envolvente, com breakdowns eficazes e uma presença em palco segura. Logo nos primeiros momentos do concerto, houve ainda espaço para uma surpresa: mais uma vez, Miguel Inglês (Equaleft) subiu ao palco para acompanhar vocalmente um dos temas, criando-se desde cedo um momento intenso de comunhão e violência sonora partilhada. Mesmo perante um público mais reduzido, a banda nunca baixou a fasquia, mantendo uma entrega total do primeiro ao último tema.
O resultado foi um encerramento digno e memorável, elevado não só pela dedicação tanto da banda como do público, mas também pela consistência e impacto da atuação dos Chaosaddition, que conseguiram transformar os últimos momentos do festival num dos seus momentos mais marcantes. Ficou a sensação clara de uma banda segura da sua identidade e capaz de conquistar qualquer palco. Uma prova de que, no underground, a intensidade não se mede em números, mas sim em atitude, e, nesta noite, essa atitude nunca faltou.

O River Stone Winter Fest 2026 voltou a afirmar-se como um dos eventos mais autênticos e apaixonados do circuito underground nacional. Viveu-se uma celebração genuína da música pesada, marcada pela diversidade sonora, pela qualidade consistente das atuações e, acima de tudo, pelo espírito de união que se viveu ao longo de toda a noite.
Num ambiente próximo e sem artifícios, ficou claro que iniciativas como esta são essenciais para manter viva a cena e dar palco a projetos que merecem ser ouvidos. Fica o reconhecimento à organização, às bandas e ao público, porque juntos criaram mais uma edição memorável e deixaram a certeza de que este festival continua a crescer na direção certa.
Quanto a nós, vemo-nos dia 19 de Setembro no River Stone X Summer Fest !


