Brutal Assault 2026: do slam ao caos de Primus na República Tcheca

Entre descobertas, apresentações brutais e um pit inesquecível de Primus, mais um mergulho pelos diferentes extremos do Brutal Assault 2026.

Internal Bleeding

Um dos padrinhos do slamming brutal death metal — ou simplesmente slam —, ao lado de bandas como Suffocation e Devourment — uma pena terem cancelado este ano —, o Internal Bleeding não deixou espaço para dúvidas quando o assunto foi técnica sólida, músicas à beira da insanidade e uma presença de palco extremamente viva.

Embora o guitarrista seja hoje o único integrante fundador, todos os demais colocaram corpo e alma para entregar uma das apresentações mais repulsivas e misantrópicas do festival — e, em termos de death metal, isso é um grande elogio. Gostei especialmente de ver o vocalista — com dorsais gigantescas, diga-se de passagem, e uma ótima ideia ao usar uma regata do Dripping — descer do palco para fazer crowdsurf e interagir diretamente com o público.

Quanto ao setlist, foi praticamente um shake de proteína misturando material antigo e novo, com Anointed by Servitude e Languish in Despair entre meus principais destaques. Eles foram pesados, rápidos e brutais para mostrar exatamente do que são feitos. Meu único arrependimento foi não poder vê-los duas vezes.

Ratos de Porão

Uma das maiores surpresas para mim foi, sem dúvida, o Ratos de Porão. Eu sabia que eles eram um nome enorme no Brasil, mas aquele foi meu primeiro contato de verdade com a banda. E, meu Deus, eles foram incríveis.

O Ratos de Porão possui uma combinação muito própria e extremamente bem equilibrada, na qual mensagens políticas contundentes convivem com uma diversão completamente descompromissada. As camisetas utilizadas no palco, as capas dos discos e o banner ao fundo carregam justamente essa dualidade.

Sinceramente, eu não tinha intenção alguma de entrar em mosh antes de chegar ali, mas eles tocaram de uma forma que tornava impossível não acompanhar aquela presença de palco completamente maluca. O jeito peculiar e engraçado de João dançar não se parecia com nada que eu tivesse visto na vida, e dei muitas risadas enquanto ouvia aquelas músicas absurdamente boas.

De alguma forma, eles também conseguiram transformar um palco de festival na atmosfera de um pequeno show de hardcore. Os guitarristas Jão e Juninho frequentemente se reuniam perto do baterista Boka, enquanto João continuava suas danças completamente peculiares ao redor deles.

O controle e a interação com o público também estiveram em um nível altíssimo e, como vocalista de uma banda de grind, acabei levando algumas lições dali. O set foi bastante variado, com inícios e paradas pensados especialmente para o palco, cânticos e gritos de guerra inseridos durante as músicas. 10/10.

Saor

Fui assistir ao Saor puramente por causa do gênero: atmospheric folk/black metal. Eu adoro atmoblack e adoro folk, então o que poderia dar errado? Bom, praticamente nada.

O Saor apresentou músicas bastante consistentes, combinando o misticismo do folk com os elementos hipnóticos do atmoblack. As partes suaves e sombrias, carregadas de folk, se misturaram lindamente à brutalidade do atmospheric black metal, evitando boa parte dos clichês comuns às bandas que alternam constantemente entre passagens delicadas e extremas.

Definitivamente, uma das boas descobertas do Brutal Assault. 8/10.

Sněť

A cena tcheca sempre foi conhecida por seus excelentes nomes do underground, mesmo durante o período comunista. Thrash, death, grind, black… escolha o gênero e provavelmente eles terão algo para oferecer. Um dos nomes mais recentes dessa cena é o Sněť, uma turma de jovens com algo a provar e um brilho nos olhos.

No palco, eles entregaram um death metal imundo e de esgoto, na linha de bandas como Sequestrum e Pissgrave. A apresentação foi extremamente coesa e agressiva.

Gostei especialmente da precisão dos guitarristas, enquanto o baixo também estava impecável. Os vocais foram simplesmente monstruosos e a bateria soou densa e volumosa. Como a banda possui aproximadamente um álbum de material no total, praticamente tocaram tudo o que já escreveram. Ainda deram uma prévia de uma música do próximo disco.

Outro fato interessante é que a banda compartilha o baterista com o Mordloch, que se apresentou no dia de aquecimento. Alguns integrantes também tocam na banda punk Vole. Vale a pena conferir esses nomes também.

Corrosion of Conformity

Gosto muito de como o Corrosion of Conformity consegue ser único. É possível encontrar inúmeras influências em praticamente qualquer álbum da banda. Há elementos de crossover — muito por conta das raízes punk —, southern, stoner, sludge e até heavy metal, criando uma sonoridade bastante particular.

O problema, para mim, é que o Corrosion of Conformity não chega realmente a se destacar em nenhuma dessas influências individualmente. Em vez disso, apresenta todas elas de uma maneira simplificada, agradável e quase pop.

A presença de palco foi excelente, e as americanas de meia-idade presentes no público certamente se divertiram muito durante o show, mas as músicas não me pareceram tão memoráveis ou empolgantes. Também houve alguns problemas de som, com as guitarras apresentando mais estalos e aspereza do que aquela característica sonoridade fuzzy.

Ainda assim, foi uma boa pausa no meio de um dia completamente insano. 6/10.

Coroner

O Coroner é simplesmente lendário. A partir de R.I.P., a banda viveu uma trajetória extremamente produtiva e incrível até seu quinto LP, Grin, explorando constantemente os limites do thrash metal.

Foi justamente por isso que fiquei tão empolgado ao saber que eles lançariam um novo álbum depois de mais de 30 anos, e também gostei de Dissonance Theory.

Ao chegar ao Brutal Assault, esperava que o Coroner tocasse principalmente músicas de Dissonance Theory e completasse o repertório com o melhor dos cinco primeiros discos. As faixas escolhidas do trabalho mais recente foram ótimas; acredito que selecionaram quatro das melhores músicas do álbum.

Por outro lado, não entendi algumas escolhas envolvendo os discos antigos. Não houve nenhuma faixa de No More Color, o que me surpreendeu, já que ele é frequentemente colocado entre os melhores trabalhos da banda, ao lado de Mental Vortex.

Entendo por que R.I.P. não recebeu espaço, considerando o tipo de sonoridade que a banda busca atualmente no palco, inclusive com um tecladista/programador ao vivo. Mas por que diabos escolher justamente aquelas duas músicas de Mental Vortex?

Semtex Revolution, Sirens ou I Want You (She’s So Heavy) definitivamente deveriam ter aparecido no setlist, e confesso que isso partiu um pouco meu coração.

Quanto ao som, não acredito que a presença de Stössel como quarto integrante no palco tenha acrescentado tanto à experiência. Sim, houve alguns efeitos interessantes conectando uma música à outra e uma introdução empolgante, mas basicamente foi isso. Não acho que tenham aproveitado essa quarta posição da melhor forma possível.

E, novamente, os samples estavam altos demais ou pouco definidos porque… aparentemente os palcos principais do Brutal Assault simplesmente não sabem lidar com eles.

Apesar de tudo isso, Coroner é Coroner. 7/10.

Dusk

Ainda não consigo acreditar que nunca tinha ouvido Dusk até agora. Esoteric e Disembowelment estão entre minhas bandas favoritas, e o Dusk tocou exatamente aquele funeral death/doom de que gosto.

Eles foram humildes para caralho. Nem sequer tinham um banner atrás da banda no palco. O vocalista e baixista Steve Crane, depois de urrar como um demônio ferido em cada faixa, agradecia aos fãs ou gentilmente nos pedia para permanecer ali depois do show para uma foto. Sua voz normal, quando falava com o público, era incrivelmente educada e elegante.

Aparentemente, tocaram praticamente todo o EP de estreia, Dusk, com exceção da quinta faixa, Consigned to Oblivion, além de duas músicas do primeiro LP e apenas uma do trabalho mais recente, Dissolved into Ash, de 2023.

O meio dos anos 1990 representa o auge do death-doom para mim, e o Dusk realmente estava entre os picos acima dos próprios picos. Não conseguia parar de bater cabeça ou me balançar ao som daquele desespero provocado pela atmosfera esmagadora e sombria da banda.

Foi uma experiência transcendental. Estou extremamente feliz por ter conhecido essa banda, que agora se tornou candidata a entrar entre minhas favoritas de todos os tempos.

Steve — o vocalista, porque eles têm outro Steve na guitarra — nos disse que havia merchandising disponível, mas não consegui encontrar nada na banca. Queria ir ao meet and greet e conversar com eles sobre a cena de funeral/death doom, porém esse encontro também não aconteceu.

Talvez a presença mais humilde e discreta de todo o festival e, ao mesmo tempo, uma das melhores. 10/10.

Sadistic Intent durante apresentação no Brutal Assault 2026
Foto @alp.yz | @culturaempeso

Sadistic Intent

Sadistic Intent… Esses obscuros lunáticos californianos não são desconhecidos para quem gosta de seu death metal old-school, satânico e pútrido. Os irmãos Cortez lançaram material sombrio e maligno nos anos 1990 e acabaram se tornando um nome conhecido dentro da cena death/thrash.

Mesmo tocando no minúsculo palco Octagon, eles nos engoliram e depois nos cuspiram para fora. A performance ao vivo estava a todo vapor, e foi impossível não entrar no mosh sobre aquele chão de concreto, mesmo sabendo perfeitamente que um movimento errado poderia nos deixar paraplégicos para o resto da vida, incapazes de nos mover ou até de ir ao banheiro, sobrevivendo apenas com comida por um canudo.

Sadistic Intent no palco Octagon durante o Brutal Assault 2026
Foto @alp.yz | @culturaempeso

Foi um caos absoluto. Independentemente da idade, esses maníacos tocaram e bateram cabeça de um lado para o outro, destruindo tanto o público quanto qualquer expectativa que pudéssemos ter levado conosco.

O setlist foi exclusivamente em velocidade máxima, embora eu adorasse ter ouvido alguns dos materiais mais recentes, como Reawakening.

Para finalizar: sou completamente obcecado por camisetas de turnê, e aquela feita especialmente para Party.San + Brutal Assault foi um presente enorme para mim. Assistiria tranquilamente ao Sadistic Intent de novo sempre que eles passassem por perto.

Primus durante apresentação no Brutal Assault 2026
Foto @alp.yz | @culturaempeso

Primus

O Primus era o grande headliner e, se você me perguntar, o único verdadeiro headliner daquele dia.

Primeiro, preciso dizer que meu tênis direito rasgou no pit do Primus, mas não me arrependo nem um pouco. Poderia ter sido a roupa inteira, quem se importa? Bom… talvez minha camiseta da turnê do Immo e minha única calça cargo eu preferisse preservar.

O Primus se preparou muito bem para sua primeira aparição na fortaleza de Jaroměř e também para seu primeiro show em solo tcheco em 15 anos.

Eles incendiaram o público com músicas mais simples, como Here Come the Bastards e The Ol’ Grizz, mas até essas faixas viraram imediatamente um convite para o público do Brutal Assault começar a pular por todos os lados.

Acho que foi a primeira vez que vi um verdadeiro “jump pit”. Basicamente, todos pulávamos a cada nota do baixo sagrado de Les.

Então chegou a vez de sua persona, Mr. Krinkle, com aquele chapéu horroroso de porco, tocando contrabaixo acústico com um maldito arco! Eu não sabia que eles tinham esse número no show, então toda aquela teatralidade realmente me deixou impressionado.

A metade restante do setlist foi uma insanidade completa. Tocar Too Many Puppies diretamente em Wynona’s Big Brown Beaver já havia deixado metade do pit com pequenas lesões.

Tivemos algum tempo para respirar com Duchess and the Proverbial Mind Spread, mas a transição de Welcome to This World para My Name Is Mud foi de explodir a cabeça.

Com apenas uma pequena e ridícula nota de baixo, já sabíamos exatamente o problema que estava prestes a chegar.

E ainda terminar aquela sequência incrível com Jerry Was a Race Car Driver para, logo depois, simplesmente abandonar o palco sem dizer ABSOLUTAMENTE NADA… aquilo foi puro Primus.

Primus em show no Brutal Assault 2026 na República Tcheca
Foto @alp.yz | @culturaempeso

Cara, eu ainda preciso falar mais sobre aquele pit.

Havia sujeitos fazendo danças folclóricas irlandesas. Tinha um cara enorme empurrando TODO MUNDO para abrir um espaço gigantesco no meio da pista e permitir que um jump pit insano surgisse atrás do outro.

E teve uma garota que começou a fazer uma dança bastante provocante comigo do nada… mas não vou reclamar.

Nunca vi um show ou um pit como aquele e duvido seriamente que algum dia veja novamente. Havia centenas, talvez milhares de metalheads gritando “Primus sucks” e recebendo o Primus como se a banda fosse algum tipo de messias maligno enviado à Terra pouco antes do dia do Ragnarök.

Jamais vou esquecer aquela noite. 10/10.

Primus diante do público durante o Brutal Assault 2026
Foto @alp.yz | @culturaempeso

Old Man’s Child

Eu ainda pretendia assistir a alguns outros shows depois do Primus, mas, meu Deus, estava completamente exausto. Em vez disso, fiz algum trabalho de imprensa na sala de imprensa e depois fui até a arquibancada natural descobrir que diabos estava acontecendo com Old Man’s Child.

Eu conhecia o Old Man’s Child como uma banda de black metal genérica e tradicional — principalmente olhando para o corpse paint de seu frontman e principal figura, Galder —, mas definitivamente não foi isso que encontrei no palco.

Mesmo após um hiato de dez anos, entre 2009 e 2019, e sem lançar material novo, o Old Man’s Child mostrou ser capaz de apresentar músicas marcantes e únicas, revelando alguns dos aspectos mais criativos do black metal.

Os elementos sinfônicos foram utilizados apenas como suporte para a melodia e a brutalidade da apresentação, encaixando-se perfeitamente na proposta da banda.

Embora eu não escute tanto black metal atualmente, certamente voltarei a ouvir Old Man’s Child em breve. 8/10.

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