Se você é daqueles que cresceu usando delineador preto, ouvindo fitas cassete de doom metal nos anos 90 e discutindo se o melhor som gótico vinha da Noruega ou da Holanda, prepare um café (ou abra uma cerveja), porque precisamos falar da rainha indiscutível do gênero.
Lembro-me de quando conheci Liv Kristine, naquela época em que o estilo gótico romântico já estava saindo de moda e os primeiros sinais do cibergoth começavam a aparecer, quando espartilhos de veludo, saias de renda e colares com pedras pretas faziam parte do dia a dia. Naquele dia, recebi um álbum: *Velvet Darkness They Fear*, de uma banda que eu nunca tinha ouvido falar, o Theatre of Tragedy. É claro que ouvi-lo foi um deleite, já que o contraste entre a voz da garota e a voz completamente rouca do vocalista era uma delícia.
Foi muito tempo depois que descobri que o nome da cantora era Liv Kristine, uma loira baixinha que havia estudado literatura inglesa e que, graças a essa banda, popularizou o estilo “Beauty and the Beast”.
“Aegis” foi, para mim, o despertar para outro tipo de sonoridade. Descobrir que aquela voz podia ser tão doce quanto inquietante foi fascinante.
A separação da banda foi um duro golpe para o metal gótico. No entanto, Liv não ficou parada; ela lançou seus álbuns solo, entre os quais se destaca “Lovelorn”, um prenúncio do que viria com o Leave’s Eyes. Um álbum com sonoridades nórdicas que demonstrava a habilidade de Liv como letrista.
O Leave’s Eyes foi a explosão de tudo o que ela era capaz de fazer: sua voz estava no auge, as letras e os temas dependiam dela, grande parte da música se baseava nas histórias de sua terra natal, a Noruega, e era escrita em seu próprio idioma, além de adaptar suas canções folclóricas ao metal. E um dia, em 2018, Liv se despede do Leave’s Eyes.
Senti que foi um vazio, já que todo o conceito era inteiramente dela. Seu folclore, sua língua, as histórias de sua infância…
2026 e *Amor Vincit Omnia*. O título do álbum não é uma frase clichê; é uma declaração de guerra. Traduzido do latim como “O amor vence tudo”, o sétimo trabalho solo da norueguesa soa como um manifesto pessoal. Após alguns anos de introspecção desde o lançamento de River of Diamonds (2023), Liv uniu forças com o guitarrista Sascha Dannenberger para dar à luz um álbum que equilibra magistralmente a intensidade da velha guarda com a elegância contemporânea.
Como soa? Imagine uma viagem sonora onde convivem o dark rock mais hipnótico, a densidade do doom e aqueles toques melancólicos que só ela sabe injetar. O álbum abre com “Prelude”, uma introdução crua que mergulha você diretamente em uma atmosfera de misticismo, encerrando com o som de um coração batendo. A partir daí, o disco leva você a uma montanha-russa de emoções que vai desde a visceralidade de faixas como “Hold It with Your Life” até a poesia pura de “Tangerines”.
Para ser sincera, “Amor Vincit Omnia” é a música. Nela, Liv divide o microfone com seu marido, Michael Espenæs. O resultado? O retorno absoluto e sem filtros da fórmula icônica de “A Bela e a Fera” (vozes limpas contrastando com guturais) que a própria Liv ajudou a criar em meados dos anos 90. É pura magia auditiva.
Com a produção masterizada no lendário Stage One Studio por Andy Classen e uma arte visual gótica espetacular assinada por Marc Niederhagemann, o álbum soa imponente, nítido e com a urgência de ser interpretado em um palco.
Felizmente, a espera para ouvi-lo ao vivo está chegando ao fim. A turnê latino-americana de julho promete ser uma retrospectiva histórica. Não só ouviremos as novas composições de *Amor Vincit Omnia*, mas também aqueles hinos cult que marcaram nossa adolescência.
Nos vemos no Multiforo Alicia no dia 4 de julho. Ainda há ingressos disponíveis na plataforma Ticket Planet.


