O SonicBlast 2026 voltou a encher a Praia da Duna do Caldeirão de milhares de pessoas vindas dos mais variados cantos do mundo. Entre os dias 5 e 8 de agosto, Âncora ganhou uma nova vida e voltou a ser palco de um dos maiores festivais de música pesada em solo português. Com um cartaz encabeçado por nomes como Turbonegro, Deafheaven, Chat Pile, Kylesa e High on Fire, foram quatro dias de música, sol, suor e comunhão, numa celebração que deixou memórias difíceis de apagar.

Apesar do SonicBlast ser frequentemente associado às sonoridades stoner, doom e sludge que ajudaram a construir a sua identidade ao longo dos anos, o festival é hoje muito mais do que isso. A diversidade estilística do cartaz é uma das suas maiores forças, cruzando diferentes vertentes da música pesada e criando espaço para propostas tão distintas quanto o punk, hardcore, psych, post-metal ou death metal, sem nunca perder a identidade que o tornou especial. Mas a experiência vai muito além da música: com uma zona de campismo que se transforma numa pequena comunidade durante estes quatro dias, uma oferta gastronómica bastante diversificada e toda uma envolvência junto à praia, o SonicBlast proporciona uma experiência que se vive tanto dentro como fora dos palcos.
Ao longo do festival, passaram pelos 3 palcos nomes incontornáveis do panorama internacional, lado a lado com algumas das propostas mais interessantes da atualidade e com o melhor que a cena nacional tem para oferecer. Entre riffs, distorção, mosh pits e noites que se prolongaram até ao nascer do sol, o SonicBlast voltou a provar porque se tornou numa presença incontornável no calendário dos amantes da música pesada.
Após o warmup de 5 de agosto, que contou com Bongzilla, Capela Mortuária, Wizard Master e Spin the Skull, o público já estava plenamente mergulhado no espírito do SonicBlast e preparado para o que aí vinha. O primeiro dia oficial tinha, por isso, todas as condições para arrancar em grande!
FREE RIDE – Stage 3
Depois de um warmup que foi muito mais do que isso, coube aos madrilenos Free Ride a responsabilidade de inaugurar oficialmente o SonicBlast 2026. E se havia banda capaz de definir, logo às primeiras horas, aquilo que torna este festival tão especial, era precisamente este trio de Heavy Psych. Riffs pesados e hipnóticos, uma forte componente psicadélica e uma voz carregada de eco, capaz de transportar o público para universos paralelos, marcaram um concerto que cruzou o stoner com influências do rock dos anos 70 e uma atitude punk irreverente. Apesar da hora ainda precoce, já era bastante o público que se juntava em frente ao palco, respondendo à música dos espanhóis com a energia que o momento exigia.
Houve ainda espaço para uma surpresa quando um convidado especial, cujo nome, infelizmente, não conseguimos confirmar, subiu ao palco para acompanhar a banda nas vozes. Um detalhe que acrescentou ainda mais personalidade a um concerto que cumpriu na perfeição a difícil missão de dar o primeiro passo no primeiro dia oficial. Os Free Ride não só arrancaram o festival como deixaram desde cedo bem vincada a identidade sonora que o SonicBlast tão bem sabe construir.

ELEPHANT TREE – Main Stage 1
Uma alteração anunciada no dia, fez com que os Elephant Tree subissem ao Main Stage 1 cerca de uma hora mais cedo do que o inicialmente previsto, trocando de horário com os CLAMM. O concerto começou, no entanto, por um momento particularmente marcante: um dos membros da banda não pôde estar presente devido a uma complicação de saúde, relacionada com epilepsia, e os restantes elementos decidiram dedicar-lhe aquela atuação. Apesar das circunstâncias, a banda não deixou que a ausência afetasse a entrega em palco, demonstrando um profissionalismo e uma vontade de atuar que rapidamente contagiaram o público.
Musicalmente, os Elephant Tree trouxeram uma mistura de stoner, doom e rock psicadélico, com uma forte componente grunge que, em vários momentos, evocou inevitavelmente os Alice in Chains. A sua música assentou em riffs pesados e arrastados, mergulhados numa atmosfera densa e psicadélica, criando uma sensação quase hipnótica que se foi apoderando do recinto. Pesados, densos e atmosféricos, os britânicos construíram um concerto sólido, mas foi sobretudo a atitude perante a adversidade que acabou por definir a atuação. Nada parecia capaz de lhes retirar o foco e o público respondeu à altura, fazendo deste um dos primeiros momentos verdadeiramente especiais do dia.

CLAMM – Main Stage 2
Vindos de Melbourne, os CLAMM trouxeram ao Main Stage 2 uma dose generosa de post-punk e garage punk, sem grandes preocupações com produção ou floreados. Aqui, a alma vem primeiro. A voz foi, sem dúvida, um dos pontos mais fortes da atuação: crua, rasgada e carregada de uma atitude pós-punk que rapidamente se entranhou no público. Havia raiva, revolta e até alguma dor na forma como cada palavra era cuspida, com gritos que pareciam sair muito mais da alma do que propriamente da garganta. No instrumental, a simplicidade foi uma virtude: riffs diretos e sem grandes complexidades, aos quais as distorções das cordas iam acrescentando camadas de caos e tensão.
E se musicalmente os CLAMM não precisaram de muito para fazer estragos, em palco a atitude foi igualmente irrepreensível. O vocalista e guitarrista apresentou-se como um verdadeiro animal, pronto para dominar cada centímetro do palco mesmo sem grandes deslocações, e foi precisamente isso que fez. A energia quase descontrolada, aliada à crueza do som e à intensidade da interpretação, transformou o concerto numa descarga de punk visceral, daquelas que não procuram impressionar pela técnica, mas sim pela capacidade de transmitir algo genuíno.

TRASH TALK – Main Stage 2
Se havia uma banda que podia transformar o Main Stage 2 num verdadeiro campo de batalha, eram os Trash Talk. Para quem não conhecia a banda, a introdução lenta poderia até criar algumas expectativas erradas, mas rapidamente ficou claro aquilo que se seguia: brutalidade, adrenalina e destruição total.
Este foi, sem qualquer margem para discussão, um dos concertos mais marcantes de todo o festival. Começou praticamente com o vocalista a deixar um aviso: não gosta de palcos grandes, prefere estar perto das pessoas. Poucos instantes depois, já estava no meio do público, onde permaneceu durante a grande maioria da atuação. Entre temas curtos, diretos e tocados com uma ferocidade impressionante, havia sempre espaço para a interação: “palmas para os fotógrafos”, “palmas para a Super Bock” foram algumas das frases ouvidas por parte de Lee Spielman antes de, segundos depois, sermos novamente atropelados por uma descarga de hardcore punk. O concerto viveu constantemente sem qualquer separação entre palco e público, com os membros da banda a passarem mais tempo no meio da multidão do que em cima do palco.
A meio da atuação, aconteceu um daqueles momentos que ficam inevitavelmente gravados na memória de um festival. O público baixou-se por completo, enquanto cercava Lee Spielman, aguardando o momento certo, até que o vocalista deu o sinal e milhares de pessoas saltaram em simultâneo. A imagem era impressionante e a energia, difícil de traduzir para quem não esteve presente.
Já perto do final, os Trash Talk voltaram a elevar a fasquia com um dos maiores circle pits de todo o SonicBlast, abrindo literalmente um enorme círculo no meio da multidão. Entre momentos de aparente acalmia (quase sempre uma armadilha para o que vinha a seguir) e uma atitude absolutamente incansável, os americanos protagonizaram uma atuação que foi muito mais do que um concerto de hardcore: foi uma experiência física, caótica e profundamente coletiva. Que concerto foi este. Que adrenalina se sentiu.

MIDNIGHT – Main Stage 1
Ainda faltavam alguns minutos para os Midnight subirem ao Main Stage 1 e já era visível um verdadeiro mar de gente em frente ao palco. Não seria de estranhar: os americanos eram um dos nomes maiores desta edição e, depois da destruição provocada pelos Trash Talk, estavam reunidas todas as condições para mais uma descarga de violência sonora.
O seu black/speed metal entrou em cena sem pedir licença, com riffs penetrantes, velocidade destrutiva e uma energia absolutamente contagiante. A imagem da banda já deixava antever aquilo que se seguiria, mas ver apenas três músicos a produzirem aquele nível de intensidade continua a ser algo difícil de explicar. Tecnicamente irrepreensíveis, os Midnight não se limitaram a demonstrar a sua competência, mas trouxeram também uma atitude e uma presença em palco que fizeram deste um dos melhores concertos do dia, numa altura em que essa já era uma tarefa particularmente difícil de atingir (mesmo no início do festival).
O público respondeu desde o primeiro minuto e foi acompanhando cada aceleração com uma entrega impressionante. O momento de maior explosão chegou com Fucking Speed and Darkness, quando as vozes da multidão se uniram num enorme coro, embora essa sensação de comunhão tivesse estado presente durante praticamente toda a atuação. Cada tema parecia ser recebido como uma nova oportunidade para o público libertar a energia acumulada, enquanto os Midnight mantinham uma intensidade quase inabalável em cima do palco.
Entre crowdsurfing, mosh pits e uma multidão completamente entregue, houve até quem acabasse por permanecer no pit junto aos seguranças, simplesmente a aproveitar o momento. E talvez seja precisamente aí que reside a força dos Midnight ao vivo: conseguem fazer com que uma banda de apenas três elementos pareça muito maior do que aquilo que está efetivamente em palco. Rápidos, violentos e tecnicamente irrepreensíveis, deixaram o Main Stage 1 em estado de ebulição e protagonizaram um dos concertos mais memoráveis de todo o dia.

FRANKIE AND THE WITCH FINGERS – Main Stage 2
Com o recinto já a escurecer e as luzes do Main Stage 2 a ganhar cada vez mais protagonismo, os Frankie and the Witch Fingers encontraram um SonicBlast completamente cheio à sua espera. A banda tinha pela frente um desafio à altura da expectativa e não deixou ninguém ficar indiferente. Psych Punk cheio de rock’n’roll vibes, com riffs cheios de groove, energia contagiante e uma atitude perfeitamente calibrada entre a seriedade e a irreverência. Porque o rock’n’roll também é isto: não levar tudo demasiado a sério, mas fazê-lo com convicção.
A componente psicadélica foi-se entranhando no concerto através de uma sonoridade quase cósmica, com samples e efeitos a acrescentarem novas camadas ao seu rock rebelde. Havia qualquer coisa de cósmico e psicadélico no meio daquela energia punk, sem nunca se perder a essência crua e divertida da banda. Os Frankie and the Witch Fingers provaram ser uma verdadeira máquina ao vivo, alternando entre grooves contagiantes, riffs certeiros e momentos de pura atitude, num concerto que manteve o público preso do primeiro ao último tema.
E como terminar uma atuação destas? Da melhor maneira possível. Já perto do fim, o vocalista decidiu abandonar qualquer distância que ainda existisse entre palco e público e atirou-se literalmente para o meio da multidão, encerrando o concerto junto das pessoas que lhe tinham dado alma. Foi uma despedida à altura da energia demonstrada durante toda a atuação e uma imagem perfeita do espírito dos Frankie and the Witch Fingers: irreverente, imprevisível e, acima de tudo, feita para ser vivida ao vivo.

DEAFHEAVEN – Main Stage 1
Quando o relógio se aproximou das 21h50 e a introdução dos Deafheaven começou a ecoar pelo Main Stage 1, os primeiros gritos do público fizeram-se ouvir por todo o recinto. Era evidente que estávamos perante um dos momentos mais aguardados do dia. Assim que os cinco elementos entraram em palco, não houve tempo para respirar ou para qualquer espécie de aquecimento: a banda começou imediatamente a rasgar. Embora o som não estivesse perfeito nos primeiros dois temas, pouco importou. O público estava completamente entregue e rapidamente se deixou engolir pelas camadas densas das guitarras, pelas atmosferas expansivas e pela bateria irrepreensível. A agressividade e a melancolia dos Deafheaven coexistiam de forma quase inexplicável, criando aquele tipo de som que é impossível descrever totalmente por palavras, é preciso senti-lo.
E se musicalmente a banda demonstrou porque é considerada uma das grandes referências do post-black metal / shoegaze contemporâneo, em palco a intensidade foi ainda mais impressionante. Todos os elementos pareciam estar em permanente combustão, mas George Clarke assumiu, mais uma vez, o centro daquele furacão. O vocalista transforma-se completamente quando entra em palco: gestos e movimentos descontrolados, o corpo em permanente convulsão e uma expressão que parece transportar-nos para dentro da própria música. Um verdadeiro animal de palco, como se estivesse possuído por alguma entidade que só a música consegue controlar. Mas essa energia não é exclusiva de Clarke: guitarristas e baixista não param um segundo, enquanto a bateria mantém tudo em constante movimento. Nos Deafheaven, a música não é simplesmente para ser ouvida, mas sim para ser sentida fisicamente.
A viagem pelo material mais recente de Lonely People With Power foi recebida de braços abertos, com o público a acompanhar a banda com a mesma intensidade que esta colocava em palco. Quando temas como Winona ou Magnolia surgiram, o recinto transformou-se numa enorme massa de vozes, headbanging, mosh pits e crowdsurfing, com muitos dos presentes a desafiarem a própria voz para acompanhar Clarke nos seus gritos desesperados. Ao longo da atuação, os momentos de maior peso alternaram com passagens mais atmosféricas e expansivas, criando uma viagem emocional que nunca perdeu intensidade. Era impossível ficar simplesmente parado a assistir: havia uma força quase física a sair daquele palco e a tomar conta de toda a plateia.
No final, restava apenas a sensação de termos acabado de assistir a algo verdadeiramente especial. Os Deafheaven provaram, com uma autoridade absoluta, que o estatuto que conquistaram dentro do post-black metal não é fruto do acaso. A qualidade técnica esteve acompanhada de uma entrega emocional brutal, com cada elemento da banda a deixar a sua marca numa atuação que foi simultaneamente pesada, caótica, bela e profundamente humana. O público não esteve simplesmente a assistir a um concerto, mas esteve dentro dele, a viver cada explosão, cada grito e cada mudança de atmosfera. E quando tudo terminou, ficou aquela rara sensação de que tínhamos acabado de testemunhar um daqueles concertos que ficam para sempre associados à história de um festival. Se havia dúvidas sobre qual seria o concerto do dia, os Deafheaven acabavam de tornar a resposta bastante difícil de contestar.

CHAT PILE – Main Stage 1
Acabávamos de sair de um verdadeiro exorcismo emocional com os Deafheaven, mas o relógio ainda guardava espaço para outro. Às 22h55, os Chat Pile regressaram a Portugal para assumir o Main Stage 1 e provar porque são uma das bandas mais fascinantes da música pesada atual. O próprio vocalista descreveu o SonicBlast como “um dos melhores festivais do mundo”, e a banda fez questão de retribuir esse carinho com uma atuação hipnotizante, dolorosamente contagiante e absolutamente penetrante. O quarteto norte-americano continua a fazer algo verdadeiramente único no cruzamento entre noise rock, sludge e post-hardcore, e isso tornou-se evidente desde os primeiros minutos.
Se há um elemento que define a identidade dos Chat Pile, é o baixo. As suas linhas sustentam praticamente todo o corpo das músicas, funcionando como um estabilizador de peso absurdo sobre o qual a guitarra despeja camadas de distorção e a bateria constrói ritmos imprevisíveis e desconfortáveis. No centro de tudo está Raygun Busch, uma figura impossível de ignorar. A sua voz oscila entre o falado e o cantado de forma completamente singular, com um timbre simultaneamente familiar e profundamente inquietante. Cada palavra parece carregada de dor, trauma, raiva e desespero, enquanto os seus movimentos descontrolados e o olhar perturbador transformam o vocalista numa personagem que encarna na perfeição a identidade da banda. É impossível descrever totalmente a sua presença em palco, mas há algo de profundamente humano e assustador ao mesmo tempo.
Curiosamente, entre toda essa tensão sonora existia espaço para um humor inesperado. Entre músicas, Busch quebrava constantemente o ambiente para falar de filmes antigos, atores clássicos e pequenas curiosidades completamente aleatórias. Essa dualidade acabou por tornar o concerto ainda mais fascinante: momentos de descontração contrastavam violentamente com temas pesados e emocionalmente sufocantes, mostrando uma banda que nunca cai na caricatura da própria intensidade.
Ao longo da atuação, os Chat Pile viajaram por diferentes fases da sua discografia, passando por temas mais crus, outros mais atmosféricos e apresentando ainda material novo, sempre com a mesma identidade inconfundível. Destaque para temas como grimace_smoking_weed.jpeg e Why de God’s Country (2022), dois dos temas mais crus da banda que fazem todo o sentido quando tocados ao vivo, e ainda novos temas com mais melodia como Deep Blue e PEN I S SMALL que farão parte do novo disco Who Loves the Sun que será lançado em Setembro.
A reação do público foi tão impressionante quanto a atuação. Quem já conhecia a banda fez questão de ocupar as primeiras filas muito antes do concerto começar. E quem estava ali por curiosidade acabou completamente hipnotizado, incapaz de desviar os olhos do palco. E talvez esse seja o maior elogio que se pode fazer aos Chat Pile: em apenas poucos anos de existência, conseguiram construir uma identidade que muitas bandas perseguem durante décadas sem nunca alcançar. Não soam a ninguém, não procuram agradar e fazem da estranheza a sua maior virtude.
No final, ficou a certeza de que tínhamos assistido não apenas a um dos melhores concertos do SonicBlast 2026, mas a uma atuação que ficará gravada na memória de todos os que encheram o recinto naquela noite. Obrigado, Chat Pile, por esta experiência inesquecível e obrigada ao festival por a tornar real.

SNAPPED ANKLES – Main Stage 2
Depois de duas atuações tão duras, cruas e intensas como as de Deafheaven e Chat Pile, e já com a noite bem avançada, fazia todo o sentido aliviar um pouco a tensão que pairava no ar. E nada melhor do que os londrinos Snapped Ankles para o fazer. O seu pós-punk experimental, onde cabem eletrónica, ritmos tribais, art rock e uma série de elementos difíceis de catalogar, criou uma verdadeira amálgama sonora que rapidamente tomou conta do Main Stage 2. A abordagem performativa da banda acrescentou ainda mais estranheza e personalidade ao espetáculo, enquanto a música ia transformando o ambiente num espaço mais leve, descontraído e inesperadamente dançável. Em alguns momentos, a atuação fez lembrar os Portugueses Blasted Mechanism, sobretudo pela forma como a música e a componente visual se fundiram numa experiência quase teatral.
Depois de horas de peso e intensidade, os Snapped Ankles conseguiram precisamente aquilo que o momento pedia: surpreender, divertir e fazer o público mexer-se. Longe de ser apenas uma pausa entre dois concertos mais pesados, a atuação dos britânicos mostrou que a diversidade do SonicBlast também passa por propostas completamente imprevisíveis, e que, por vezes, é preciso deixar os riffs de lado e simplesmente dançar.

BONGZILLA – Main Stage 1
Apesar de o relógio já marcar 01h10 e de o SonicBlast já levar muitas horas de música em cima, o recinto continuava bastante cheio para receber os Bongzilla. E não era difícil perceber porquê: nas conversas que fomos tendo ao longo do festival, o nome dos americanos surgia repetidamente entre aqueles que o público mais queria ver. A expectativa era, por isso, elevada, e a banda de Madison não demorou muito a mostrar porque continua a ser uma referência incontornável do stoner/sludge. Riffs lentos, arrastados e esmagadores tomaram conta do Main Stage 1, acompanhados por uma voz extremamente única, que oscilava entre berros rasgados e descontrolados, e outros mais densos e técnicos.
Durante cerca de uma hora, os Bongzilla fizeram aquilo que sabem fazer melhor: obrigaram um público já cansado e com o pescoço provavelmente em estado lastimável a continuar a fazer headbanging. A fórmula pode parecer simples à primeira vista, mas ao vivo ganha uma dimensão muito própria, com a enorme massa dos riffs a criar uma espécie de transe coletivo. Havia peso, havia groove e havia uma intensidade que não se perdeu apesar da hora tardia. A banda conseguiu ainda introduzir alguma experimentação durante a atuação, fugindo ocasionalmente ao que seria expectável e acrescentando novas camadas aos temas, algo que demonstrou não só a sua competência técnica, mas também uma vontade de tornar cada atuação numa experiência própria.
Os Bongzilla provaram ser muito mais do que uma banda de riffs pesados e lentos: existe uma química evidente entre os quatro elementos em palco e uma capacidade de transformar o recinto inteiro num único organismo a acompanhar o ritmo. Quando uma banda consegue manter milhares de pessoas a fazer headbanging depois de tantas horas de festival e já durante a madrugada, é porque alguma coisa está definitivamente a ser feita bem.
MEPHISTOFELES – Main Stage 2
Já depois das duas da manhã, o Main Stage 2 recebeu os argentinos Mephistofeles, um dos nomes mais interessantes do circuito de stoner/doom sul-americano. Para quem ainda tinha energia para mais uma dose de riffs pesados, a proposta era clara desde os primeiros minutos: Black Sabbath e Ozzy Osbourne em palco, mas filtrados por uma sonoridade muito mais suja, psicadélica e carregada de fuzz. Os riffs arrastavam-se com aquele peso característico do doom, enquanto a guitarra de Gabriel Ravera acrescentava uma componente psicadélica e quase hipnótica ao conjunto. É uma fórmula profundamente enraizada no rock pesado dos anos 70, mas que os argentinos revestem de uma atitude mais obscura, decadente e quase ritualística.
A esta hora, depois de um dia inteiro de festival, já era impossível exigir ao corpo a mesma disponibilidade de horas antes, mas os primeiros temas deixaram uma impressão bastante clara: os Mephistofeles sabem exatamente onde querem levar o seu público. O baixo pesado, a bateria sólida e uma guitarra mergulhada em fuzz criam uma parede sonora espessa, enquanto a banda alterna entre momentos lentos e esmagadores e outros onde o groove ganha maior protagonismo. Não reinventam as raízes do doom, nem precisam de o fazer. Pegam na linguagem de Sabbath, acrescentam-lhe uma boa dose de psicadelismo, obscuridade e rock’n’roll sujo e transformam-na numa experiência própria, suficientemente pesada para manter o recinto acordado mesmo quando a madrugada já começava a pesar.
MADMESS – Stage 3
Já eram 3h30 da manhã quando os Madmess assumiram o Stage 3 para encerrar oficialmente este primeiro dia de SonicBlast. Originalmente portugueses e atualmente sediados em Londres, o trio trouxe consigo aquilo que tão bem caracteriza a sua identidade: o famoso Porto Fog, uma espécie de nevoeiro sonoro onde o heavy psych, o stoner e o rock progressivo se encontram. Fortemente influenciados pelo psicadelismo dos anos 60 e pelo prog dos anos 70, os Madmess constroem temas de longa duração, assentes em riffs carregados de fuzz, mudanças de dinâmica e longas viagens instrumentais.
A escolha para encerrar a noite no Stage 3 pareceu, por isso, particularmente adequada. Depois de um dia marcado por alguns dos nomes mais pesados e intensos do cartaz, os Madmess representam precisamente o lado mais viajante e exploratório do SonicBlast, aquele que não procura apenas esmagar com peso, mas também criar atmosferas e transportar quem ouve para outros lugares. A sua presença no cartaz de 2026 reforçou ainda a aposta do festival em propostas nacionais com uma identidade própria, e o trio acabou por fechar uma jornada que passou por punk, hardcore, post black metal, sludge e uma sério de outros estilos, sem nunca perder o fio condutor que une todas estas sonoridades: a vontade de explorar os limites do rock pesado.
Para além da seleção e qualidade das bandas, houve algo que se destacou ao longo de todo o primeiro dia: o ambiente. Por entre os vários palcos, era difícil encontrar uma banda que não parecesse estar completamente em casa no SonicBlast. Desde as propostas mais pequenas até aos nomes maiores do cartaz, todos pareceram absorver a energia do recinto e devolvê-la em palco, numa relação de perfeita cumplicidade com o público. E o público, esse, esteve simplesmente irrepreensível: participativo, energético e presente, mantendo o recinto muito bem composto durante praticamente todo o dia e noite dentro. A organização merece também uma palavra de destaque, sobretudo pelo cumprimento rigoroso dos horários, permitindo que tudo fluísse com uma precisão pouco habitual num festival desta dimensão. Entre palcos, estilos e milhares de pessoas, o SonicBlast conseguiu manter aquela sensação de comunidade que o distingue e que faz com que que todos estejamos no mesmo sítio, pela mesma razão.
E quando finalmente a noite terminou, depois de horas e horas de música, suor, headbanging, mosh pits, crowdsurfing e momentos que dificilmente se repetirão da mesma forma, ficou aquela sensação difícil de explicar de termos acabado de viver algo especial. O primeiro dia tinha-nos dado muito mais do que uma sucessão de concertos: deu-nos experiências, encontros e memórias que certamente irão acompanhar-nos durante muito tempo. O corpo pedia descanso, os ouvidos pediam silêncio e o pescoço já começava a cobrar todas as horas de headbanging, mas ainda havia muito SonicBlast pela frente. E assim, com a madrugada já instalada e a expectativa renovada, era altura de respirar fundo, recuperar forças e seguir para o Dia 2.


