Na noite chuvosa de 20 de junho, o Bar Opinião provou, mais uma vez, por que é sinônimo de resistência sonora em Porto Alegre. O temporal que castigava as ruas não foi páreo para o enxame de fãs que lotou a casa para ver o encontro de duas gerações do punk/hardcore: os veteranos Ratos de Porão e a barulhenta Rotentix.
ROTENTIX: Rebelião, suor e punk rock sem freio no Opinião

A Rotentix foi a centelha que acendeu a pólvora naquela noite chuvosa de 20 de junho no Opinião. Abrindo para o Ratos de Porão, a banda porto-alegrense não entrou em cena para aquecer ninguém — entrou para explodir. Sem firula e com a urgência que só o punk permite, mandaram ver um set poderoso que soou como um grito coletivo contra o tédio, a hipocrisia e o sistema.

Entre porradas sonoras como “O Assustador”, “Ele Te Explorou”, “Tarja Preta” e a ácida “Cheio de Olheiras”, o vocal cuspia versos como quem arremessa pedras — direto e sem piedade. Mas foi com “Anarquia na Chuva Ácida”que o momento se tornou quase profético: a cidade ensopada e o público enlameado cantando como se o caos já fosse parte da paisagem.
Ainda rolou espaço para novidade: a inédita “0800 Ouvidoria do Punk Rock”, uma crítica debochada que mistura ironia e desespero em tempos de vozes silenciadas.
O set encerrou com o peso das raízes: Nery, da Los Vatos, subiu ao palco para dividir vocais em versões incandescentes de “The Crusher” e “R.A.M.O.N.E.S.”, deixando claro que o espírito do punk segue vivo, barulhento e necessário.
Ratos de Porão: mais de quarenta anos de caos… e nenhuma paciência

O Ratos de Porão mostrou por que segue sendo um dos nomes mais urgentes da música brasileira. Abrindo o set com a explosiva “Ódio”, João Gordo e companhia não deram espaço para respiro: foi soco atrás de soco sonoro, com um repertório que passeou por décadas de provocação, crítica social e peso.

A sequência com “Anarkophobia” e “Crucificados pelo Sistema” incendiou a pista, que já berrava refrões com os punhos erguidos. Entre pausas para água e afinadas, a banda ainda entregou clássicos como “Beber Até Morrer”, que transformou o Opinião numa roda de caos coletivo, e “Aids, Pop, Repressão”, que segue tão atual quanto incômoda.

Entre uma faixa e outra, João Gordo não poupou críticas — atacou duramente os governos estadual e municipal pelo descaso com a população atingida pelas enchentes no RS e fez piada perguntando quem ali havia “doado dinheiro pro Bolsonaro”.
O público respondeu com vaias ao ex-presidente e aplausos calorosos ao frontman, que segue com a língua afiada e o punho cerrado.
Com 21 músicas no set, o Ratos mais uma vez provou que sua discografia é munição para o pensamento crítico, o confronto e a catarse

