No passado dia 24 de junho, o Buraco Pub serviu de epicentro para um sismo sonoro. O que parecia ser uma noite de quarta-feira normal em Ovar transformou-se num campo de batalha de powerviolence e grindcore. Entre a ferocidade técnica dos Bas Rotten e a entrega visceral dos americanos Escuela Grind, Ovar tremeu como há muito não se via. Foi daquelas noites em que a música provou, uma vez mais, que a alma mais pura e genuína vive no underground.

BAS ROTTEN
Para quem esperava que os Bas Rotten fossem “apenas” a banda de abertura da noite, a surpresa foi total e imediata. Longe de se limitarem a aquecer o ambiente, o grupo trouxe ao Buraco Pub uma entrega avassaladora, provando que a sua proposta de powerviolence, com fortes raízes no hardcore punk e nuances de grind, não é para ser ouvida de ânimo leve. Foi uma atuação onde a agressividade sonora foi acompanhada por uma técnica irrepreensível, resultando num espetáculo que nos envolveu e nos deixou, no final, completamente esgotados, no melhor sentido possível.
O compromisso da banda com a performance foi absoluto, deixando não só a alma e o suor em cima do palco, mas até algumas gotas de sangue. O vocalista, completamente possuído pela música, elevou a fasquia logo no segundo tema, momento em que começou a sangrar da testa, num reflexo da entrega física que viria a marcar todo o concerto. Esta intensidade não se ficou pelo palco, pois durante grande parte da atuação, o vocalista fundiu-se com o público, encurtando distâncias e transformando a audiência numa extensão da própria banda.
Musicalmente, havia uma urgência nos riffs e uma rapidez na percussão que não dava tempo para respirar, criando uma parede sonora que nos empurrava contra as paredes do Buraco. Era aquele tipo de som cru, mas com uma precisão cirúrgica na execução que nos faz questionar como é que ainda estamos de pé. A coesão entre os instrumentos foi notável, mostrando uma banda que conhece o seu próprio caos de trás para a frente.
Entre toda a descarga de energia e a ferocidade dos temas, houve ainda espaço para momentos de comédia que, inesperadamente, criaram um contraste genial com o ambiente pesado e agressivo criado pela música. Esta alternância entre a brutalidade sonora e a descontração entre temas apenas reforçou a personalidade única do grupo. É seguro afirmar que os Bas Rotten saíram do Buraco Pub com uma legião de novos fãs conquistados. Foi, sem dúvida, uma daquelas atuações marcantes que se sente tanto na pele como nos ouvidos, deixando claro que esta é uma banda que vive cada segundo do que faz.

ESCUELA GRIND
Depois da carga brutal dos Bas Rotten, a fasquia estava lá no alto, mas a verdade é que o público já sentia o cansaço a instalar-se. Só que, assim que os Escuela Grind subiram ao palco, esse cansaço evaporou-se num segundo. Os americanos chegaram e arrasaram completamente. Com a Katerina Economou a liderar o ataque com aquela energia magnética, foi impossível não voltar a entrar no pit de imediato. A banda não veio apenas para tocar as músicas, mas sim para nos devolver toda a energia que tínhamos gasto até ali.
O que mais marcou foi ver como eles estavam genuinamente felizes por ali estarem. Notava-se ao longe o sorriso nos rostos de cada um dos quatro, enquanto descarregavam o seu powerviolence / grindcore / death metal. Muita gente poderia pensar que, depois de pisarem palcos gigantes como o do Hellfest, tocar num recinto intimista como o Buraco Pub seria um “passo atrás”. Eles provaram exatamente o contrário. A própria Katerina foi sincera: podem vir palcos mundiais, mas nada lhes enche tanto o coração como esta proximidade visceral com o público.
O que separa os Escuela Grind de tantas outras bandas é a forma como o coletivo funciona. Não é um espetáculo focado apenas na voz, os quatro músicos operam como uma unidade, onde a secção rítmica tem tanto peso e presença quanto as guitarras. Cada nota parecia um disparo, e a forma como manobravam entre as passagens mais lentas e pesadas e as explosões de velocidade frenética foi de uma mestria incrível. Viu-se ali uma banda que, apesar da ascensão internacional, não perdeu o contacto com a essência do que é o movimento underground. A atuação foi um exercício técnico incrível, mas sempre com aquela alma que separa as bandas boas das bandas que nos mudam a noite. Foi suor, foi entrega total, foi um concerto para saltar do início ao fim sem pedir autorização.
O Buraco Pub tremeu e os ovarenses vão demorar muito tempo a esquecer a noite em que os Escuela Grind transformaram aquele espaço na sua casa. Foi memorável, intenso e, honestamente, é disto que a gente precisa.

No final, o que sobra depois de uma noite destas, para além do zumbido nos ouvidos e do corpo dorido pelos impactos no pit, é a certeza de que a música extrema ainda é um lugar de união, de honestidade bruta e de encontros que marcam. Entre a entrega sanguinária dos Bas Rotten e a energia contagiante dos Escuela Grind, o Buraco Pub tornou-se o centro do universo para quem lá esteve. Ovar pode ter voltado à calma habitual, mas a memória desta noite vai perdurar. Se perdeste, fica o aviso: da próxima vez, não arrisques ficar de fora.

