Se no dia 26 de junho alguém procurava o epicentro do peso na cidade do Porto, não precisou de ir muito longe: bastou seguir o rasto das frequências mais densas que saíam do Maus Hábitos. O icónico espaço da Invicta serviu de altar para uma noite em que o tempo pareceu dilatar-se ao ritmo do doom mais hipnótico e esmagador do panorama nacional. Com os Hazing Lungs a preparar o terreno e os Lord of Confusion a confirmarem o seu estatuto de mestres do doom psicodélico, a noite transformou-se num ritual sónico que deixou as paredes do Maus Hábitos a vibrar muito depois do último acorde.

A noite teve um motivo de peso: a celebração do novo álbum dos Lord of Confusion, The Weight of Life, lançado em Março de 2026 pela Larvae Records e pela Morbid and Miserable Records. O quarteto de Leiria não quis celebrar este marco sozinho e convidou os Hazing Lungs para abrir as hostilidades: uma escolha que, na prática, acabou por ser muito mais do que um simples ato de abertura. O que testemunhámos foi uma simbiose perfeita entre duas bandas que, embora distintas na sua abordagem, partilham o mesmo ADN de peso e dedicação absoluta à causa. O que se viveu? Um convite para mergulhar fundo numa atmosfera monolítica, onde cada riff serviu para consolidar a importância deste novo trabalho no panorama do doom nacional.
HAZING LUNGS
A missão de abrir uma noite destas é sempre exigente, mas os Hazing Lungs vieram para incendiar os amplificadores e para ditar uma lei de peso e densidade que exigiu atenção imediata. Com uma sonoridade que bebe diretamente da fonte mais clássica e obscura do stoner / doom, a banda trouxe ao palco do Maus Hábitos uma receita que é, ao mesmo tempo, infalível e arrebatadora. Esqueçam o stoner / doom monótono (se é que isso existe). O que vimos aqui foi uma performance física e monolítica que sintonizou o público, logo nos primeiros minutos, na frequência subgrave que viria a dominar toda a noite.
A grande surpresa, e a prova da maturidade do quarteto, foi a capacidade de infundir bluesy stoner com nuances psicadélicas que, por vezes, nos remetiam para a sujidade elegante de uns Church of Misery. O domínio instrumental foi, pura e simplesmente, incrível. Num género que, por natureza, exige lentidão e arrastamento, é fácil cair na armadilha da repetição que se torna cansativa, mas os Hazing Lungs marcaram pela diferença. Eles não tocam apenas lento, eles constroem camadas que vão surgindo a seu tempo, e nos vão elevando para novas dimensões.
A forma como cruzam riffs colossais com passagens psicodélicas penetrantes é, sem dúvida, o que os separa da multidão e eleva o seu som a outro patamar. São momentos que nos hipnotizam e tornam impossível desviar o olhar do palco, onde a música deixa de ser apenas uma sucessão de notas pesadas para se transformar em texturas densas que nos prendem ao chão. Mas parte desta camada de profundidade reside na gestão vocal: com João Abrantes e Pedro Coutinho a partilharem as vozes, a banda ganha uma dualidade fascinante. Enquanto um traz um timbre mais rasgado e visceral, quase como uma ferida aberta, o outro responde com um registo mais assombroso e profundo, criando um diálogo constante entre o desespero e a escuridão. Esta complexidade vocal, longe de ser apenas um adorno, acaba por conferir às faixas uma tridimensionalidade rara, tornando a atmosfera sonora não só opressiva, mas estranhamente viciante e hipnótica.
A evolução da própria atitude da banda durante a atuação foi outro ponto alto. Se começaram o concerto de forma algo contida, quase como se estivessem a calibrar as máquinas para o ritual, essa reserva desapareceu rapidamente. À medida que o set avançava, vimos os quatro músicos soltarem-se completamente, deixando-se dominar pela própria frequência e pela densidade asfixiante que estavam a criar. Foi fascinante assistir a essa transformação: o momento em que a contenção deu lugar ao abandono total, com a banda a fundir-se com os próprios instrumentos e a tornar-se uma extensão física da sua música.
No final de contas, a atuação dos Hazing Lungs foi muito além de uma simples abertura. Com uma fasquia técnica elevadíssima, a banda provou ser uma força da natureza que exige ser sentida com o volume no máximo.

Setlist:
1- Psilocybians;
2- Hazing Lungs;
3- Boulder;
4- Mason’s Jar;
5- Mycelial Expansion;
6- Psilodoom.
LORD OF CONFUSION
Se a noite já tinha começado com um nível altíssimo, a subida dos Lord of Confusion ao palco do Maus Hábitos trouxe a autoridade de quem assina um dos regressos mais celebrados do doom nacional. A banda chegava à Invicta para apresentar o seu mais recente trabalho, The Weight of Life, e o que presenciámos foi o culminar de quase uma década de percurso onde a maturidade e a obscuridade se fundiram de forma magistral. Ao longo da atuação, a banda optou por um alinhamento focado no novo álbum, deixando de fora apenas Save Your Tears e We Are Here, o que serviu para dar uma coesão narrativa absoluta ao concerto. Foi um autêntico ritual sónico, onde a densidade dos riffs colossais se cruzou com texturas de sintetizadores dignas do melhor cinema de terror vintage.
No centro gravitacional deste ritual, tínhamos a Carlota (vocalista). É difícil encontrar uma voz tão marcante, e a explicação é simples: ela não se perde no perfeccionismo técnico estéril. A Carlota domina o equilíbrio raro entre a técnica e a alma, entregando interpretações onde a crueza e o timbre mágico se sobrepõem à preocupação com a precisão cirúrgica. É precisamente isso que torna o seu canto tão real e arrepiante. Quando ela deixa a alma transparecer na voz, o que ouvimos não é apenas uma performance, é um exorcismo pessoal que nos atrai para dentro da música.
Contudo, este ritual não seria possível sem a base monolítica que a sustenta. As cordas criaram uma parede de som imensa, onde os riffs arrastados de doom tradicional ganharam uma nova dimensão, enquanto o baixo de Danilo, que assume também as segundas vozes, traz o corpo e a agressividade necessários. Aliás, a dualidade vocal entre Carlota e Danilo, com este último a garantir o registo berrado e visceral, cria o contraste perfeito para as passagens mais etéreas.
Mas é nos teclados, também protagonizados por Carlota, que reside um dos grandes saltos deste novo trabalho: eles deixaram de ser um mero adorno para se assumirem como um elemento estruturante. Através de texturas de sintetizadores de inspiração vintage, criam ambientes assombrosos e, por vezes, quase cinematográficos, que funcionam como o fio condutor que nos transporta para dentro de um filme de terror clássico. Toda esta tapeçaria sonora é depois colada por uma percussão irrepreensível: o baterista revelou um trabalho técnico de topo, permitindo que o concerto respirasse e mantendo uma dinâmica precisa que nos guiou nos momentos de maior peso. A coesão entre o trabalho de teclas, o peso das cordas e a solidez da secção rítmica garantiu que o material de The Weight of Life ganhasse, ao vivo, uma vida própria, assustadoramente magnética.
Tendo seguido os Lord of Confusion nas suas atuações ao vivo desde 2024, é impossível não notar a curva de crescimento exponencial da banda. Cada concerto é uma nova lição de coesão, confiança e profissionalismo. Se há dois anos já víamos uma banda sólida, hoje encontramo-nos perante um quarteto que parece ter descoberto a sua forma final em palco. A forma como transformam as novas composições de The Weight of Life em paisagens simultaneamente sombrias e transcendentes prova que estamos perante uma banda no seu auge criativo, e no topo do que melhor se faz em portugal.

Setlist:
1-Life Is Heavy;
2- Dead Tree Poetry;
3- Wander ;
4- Afflatus;
5- Violet Visions.
No final, resta a certeza de que The Weight of Life é uma obra que ganha a sua verdadeira dimensão quando partilhada num ambiente de celebração como o que vivenciámos. A noite no Maus Hábitos foi um triunfo absoluto da música extrema, uma demonstração de força onde tanto os Hazing Lungs como os Lord of Confusion elevaram a fasquia do que esperamos de uma performance ao vivo. É um privilégio ver estas bandas atingirem o seu auge criativo com uma integridade tão inabalável.
Por último, fica um agradecimento sentido ao Maus Hábitos, num cenário cultural cada vez mais volátil, espaços como este, que abrem as suas portas e mantêm o pulso da música pesada vivo no Porto, são os verdadeiros pilares que sustentam o nosso underground. Que venham muitas mais noites como esta.

