O Gangrena Gasosa sempre foi uma das entidades mais singulares do cenário underground brasileiro. Surgido no Rio de Janeiro (BRA) no final dos anos 1980, o grupo fundou o lendário “Saravá Metal”, uma mistura debochada, ácida e pesada que friccionava o peso do thrash metal e a urgência do hardcore com os pontos, percussões e a iconografia das religiões de matriz africana. Vestidos com as túnicas e representações visuais de Exus, Pombagiras e Tranca-Ruas, eles moldaram uma identidade bizarra e contagiante, fazendo da sátira e do choque cultural sua assinatura inconfundível.
Ao longo de décadas, a banda se consolidou na base do som pesado, mas a provocação estética sempre pediu um passo além. Essa postura desafiadora ganha um novo patamar com o lançamento de Ruas & Cemitérios, trabalho disponibilizado ontem que pega o ouvinte de surpresa ao desmantelar a fórmula que consagrou o grupo. Em vez da avalanche habitual de distorção e vocais rasgados, o disco propõe uma imersão profunda e dedicada ao universo espiritual que sempre os inspirou, entregando uma obra que rompe barreiras sem perder a raiz do terreiro.
Na estrutura de composição, Ruas & Cemitérios se afasta drasticamente do ataque agressivo das guitarras para abraçar uma construção puramente ritualística e espiritual. Abrindo os trabalhos, a faixa-título funciona como um verdadeiro pórtico de entrada: a música estabelece de cara o tom do álbum com uma cadência percussiva envolvente e cantos que evocam a proteção de Exu e Tranca-Ruas. Em vez de preencher o espaço com distorção pesada, a arquitetura sonora deixa a fala e a métrica linguística mais cristalinas, dando voz direta a cada entidade encarnada pelos integrantes e moldando uma atmosfera que soa como uma verdadeira invocação.A produção do registro pilotada pelo próprio vocalista Angelo Arede em parceria com a banda no estúdio do grupo priorizou uma estética límpida, orgânica e profunda. A escolha técnica focou em valorizar a ressonância natural dos atabaques, agogôs e curimbas, permitindo que a dinâmica percussiva do ogã Davi Sterminiun e as vozes sobrepostas guiassem todo o peso da obra. Destaque também para a faixa que homenageia Zé Pelintra, um dos singles de curiosidade da obra que traduz com perfeição essa proposta: sem a massa amuralhada do thrash metal, a faixa apoia a força do som no groove dos tambores, no eco espacial e na clareza dos versos, provando que o clima ritual se sustenta pela intenção espiritual e pela pureza dos arranjos.
"Guias, Atabaques e Amps: A Identidade Espiritual do Gangrena Gasosa"

Desde a sua gênese, o Gangrena Gasosa operou uma das fusões mais audaciosas da música brasileira ao colocar no mesmo altar o peso agressivo do metal e a mística das religiões de matriz africana. Em vez de recorrer ao ocultismo europeu tradicional no som pesado, a banda fincou pés na Umbanda e na Kimbanda, incorporando o respeito, a estética e a força simbólica das entidades que povoam a religiosidade popular. Ao vestir a caracterização dos Exus, Pombagiras e Zés Pelintras e integrar o balanço dos atabaques ao peso das guitarras, o grupo criou um canal de expressão tão autêntico que rompeu o circuito underground e os levou até palcos históricos como o do próprio Rock in Rio na edição de 2022. Ali, diante de multidões, o Saravá Metal provou que a ancestralidade brasileira e a força dos terreiros podem dialogar de frente e de igual para igual com qualquer vertente da música global.
O resultado final de Ruas & Cemitérios é um manifesto de ousadia que prova que o peso de uma banda nem sempre precisa vir do volume dos amplificadores. Ao mergulhar sem medo no resgate das suas próprias raízes estéticas, o Gangrena Gasosa entrega um disco corajoso, autêntico e carregado de uma brasilidade visceral. A recepção entusiasmada do público só confirma que a mudança de tom foi certeira, transformando o que poderia ser um experimento arriscado em uma das criações mais fascinantes da trajetória do grupo. Em suma, o álbum se estabelece como um marco de maturidade na discografia dos cariocas. Ruas e Cemitérios não apenas homenageia a ancestralidade e a cultura de terreiro com respeito e originalidade, mas expande os limites do que o som pesado brasileiro pode ser quando decide olhar para dentro da própria terra. Um trabalho marcante, inventivo e necessário para quem busca arte sem amarras.
FAIXAS:
- Dando a sua Gargalhada Tranca-Rua Apareceu
- Pombagira Rainha Feiticeira de Lúcifer
- Sonhos com Exu Tiriri Coroado
- Deixa o Osso pro João Caveira
- Omulu Chefe da Calunga
- Zé Pilintra Pulando Cruzado
NOTA: 9/10


