Os lendários Heavenwood regressam aos discos dez anos depois do lançamento de The Tarot of the Bohemians (2016), apresentando agora a aguardada segunda parte dessa obra: The Tarot of the Bohemians – Part II, editado a 12 de junho de 2026 pela Mighty Music. Assinalado por duas listening sessions e meet & greets em Portugal, este lançamento marca o regresso de uma das bandas mais influentes e marcantes da história do metal português, gerando naturalmente uma enorme expectativa entre os fãs. Mas posso dizer-vos desde já que, por muito elevada que fosse essa expectativa, Ricardo Dias e companhia conseguiram superá-la. The Tarot of the Bohemians – Part II é muito mais do que uma continuação: é a confirmação de que os Heavenwood continuam a ser uma força criativa singular, capazes de honrar o seu legado enquanto expandem os limites da sua identidade artística.

Formados no início dos anos 90, os Heavenwood são uma das bandas mais emblemáticas, influentes e respeitadas da história do metal português. Pioneiros na fusão entre o Gothic Metal e atmosferas sombrias e melancólicas carregadas de emoção, alcançaram reconhecimento internacional com Diva (1996), um álbum de estreia que permanece até hoje como uma referência incontornável do género. Ao longo da sua carreira, a banda liderada por Ricardo Dias construiu uma identidade artística singular, assente em composições intensas, melodias marcantes e uma notável capacidade de equilibrar peso, melancolia e beleza.

Após o impacto de Diva, os Heavenwood consolidaram a sua reputação com lançamentos como Swallow (1998), que os levou aos palcos do mítico Wacken Open Air, Redemption (2008), Abyss Masterpiece (2011) e The Tarot of the Bohemians (2016). Entre períodos de atividade e hiatos, a banda manteve sempre intacto o seu estatuto de culto, reforçado por atuações memoráveis e por uma influência que ultrapassou largamente as fronteiras nacionais. Mais de três décadas após a sua formação, os Heavenwood continuam a ocupar um lugar de destaque quando se fala dos nomes fundamentais do metal português e da afirmação internacional do género produzido em Portugal.

E é assim que chegamos a The Tarot of the Bohemians – Part II, o tão aguardado regresso dos Heavenwood aos discos de estúdio. Um álbum que não só honra o legado construído ao longo de mais de três décadas de carreira, como se afirma também como uma das obras mais maduras, coesas e inspiradas da discografia da banda.

O álbum arranca com Death, uma faixa que assume desde os primeiros instantes a responsabilidade de abrir as portas para o universo sonoro de The Tarot of the Bohemians – Part II. Sustentada por uma melodia envolvente e imediatamente memorável, a música conquista o ouvinte logo nos primeiros segundos, funcionando como uma introdução perfeita ao que está para vir. A forma como os Heavenwood constroem a tensão e a atmosfera ao longo do tema demonstra uma confiança composicional notável, revelando uma banda plenamente consciente da identidade que pretende afirmar neste regresso. É também em Death que ficam definidos muitos dos elementos que caracterizam o álbum. O ADN gótico da banda está omnipresente, sustentado pelos vocais graves e carregados de melancolia de Ricardo Dias, mas surge enriquecido por passagens mais densas e sombrias, onde alguma dissonância é utilizada com inteligência para criar desconforto e profundidade emocional. A tudo isto juntam-se influências de Doom MetalMelodic Death Metal, que acrescentam peso, dinâmica e agressividade sem nunca comprometer a forte componente melódica que sempre distinguiu os Heavenwood. O resultado é uma abertura poderosa, cativante e extremamente eficaz, capaz de captar a atenção do ouvinte enquanto estabelece o tom emocional e musical de toda a obra.

Seguimos para Temperance, uma faixa que evidencia de forma clara a maturidade composicional dos Heavenwood. A música inicia-se com uma introdução longa e arrastada, construída pacientemente através da entrada gradual de novas camadas sonoras que vão enriquecendo a atmosfera. Ricardo Dias não tem qualquer pressa em revelar todas as cartas. Pelo contrário, deixa que a música respire e cresça naturalmente, demonstrando a confiança e a experiência de quem domina a arte da composição e sabe que nem tudo precisa de acontecer nos primeiros minutos para captar a atenção do ouvinte. Cada elemento surge exatamente quando deve surgir, sem precipitações nem excessos. Quando a melodia assume finalmente o protagonismo e a voz entra em cena, sentimos que somos absorvidos por completo pelo tema. A partir daí, Temperance continua a evoluir de forma orgânica, revelando novos pormenores e acrescentando profundidade à sua já rica paisagem sonora. Mas se há uma conclusão que começa a tornar-se evidente a esta altura do álbum é que os Heavenwood continuam a ser verdadeiros mestres na criação de melodias. Grande parte dessa força nasce das guitarras, que tecem linhas melódicas simultaneamente melancólicas, elegantes e profundamente emotivas. São melodias que se insinuam lentamente, mas que acabam por se instalar na memória do ouvinte com uma eficácia impressionante. A fechar, a banda mergulha numa secção marcadamente Doom, onde o andamento abranda e o peso ganha protagonismo. É um final denso e esmagador, carregado de melancolia e atmosfera, que encerra a faixa de forma exemplar e reforça a diversidade de influências que coexistem harmoniosamente ao longo do álbum.

Depois do final lento, pesado e arrastado de Temperance, surge The Devil para alterar significativamente a dinâmica do álbum. Desde os primeiros momentos, a faixa apresenta uma abordagem mais rápida e agressiva, explorando territórios que até então ainda não tinham sido visitados. A aceleração traz uma nova energia ao disco, mas sem comprometer a identidade melancólica e atmosférica que tem sido uma constante ao longo da audição. Há inclusivamente momentos que se aproximam do universo do Black Metal, com a utilização cirúrgica de blast beats que surgem nos instantes certos para aumentar a intensidade e a sensação de caos. Tal como o próprio título sugere, The Devil é uma composição imprevisível e difícil de catalogar. A sua estrutura foge aos caminhos mais óbvios, alternando entre passagens melódicas de forte impacto, secções mais rápidas e agressivas e momentos de maior contemplação. No entanto, apesar das constantes mudanças de direção, a música nunca soa fragmentada. Pelo contrário, tudo parece acontecer de forma natural, como se cada transição fosse inevitável. Um dos aspetos mais impressionantes da faixa é o trabalho das guitarras, que assumem aqui um papel absolutamente central. Ao longo da música, as cordas vão apresentando diferentes temas e melodias, renovando constantemente o interesse do ouvinte e demonstrando uma riqueza composicional assinalável. Em vez de se apoiarem numa única ideia forte, os Heavenwood optam por desenvolver várias abordagens melódicas, todas elas igualmente eficazes e memoráveis. Mas as surpresas não se ficam pela componente instrumental. A determinada altura surge uma voz feminina que acrescenta uma camada extra de elegância e sensibilidade ao tema, criando um contraste particularmente interessante com a densidade da instrumentação. Já nos momentos finais, uma passagem de spoken words encerra a faixa com dramatismo, reforçando a sua aura sombria e misteriosa. É mais um exemplo da capacidade dos Heavenwood para combinar diferentes influências e atmosferas numa composição que, apesar da sua complexidade, nunca perde coerência nem impacto emocional.

The Lightning-Struck Tower traz consigo uma mudança de tonalidade, colocando a agressividade em primeiro plano sem abdicar da profundidade emocional que caracteriza os Heavenwood. A tensão é constante ao longo de toda a faixa, criando uma sensação de urgência e instabilidade que encaixa perfeitamente no conceito de destruição e renovação associado à carta da Torre no Tarot. Musicalmente, estamos perante um dos momentos mais fortes do álbum. O trabalho instrumental é notável, com cada elemento a contribuir para a construção de uma atmosfera intensa e envolvente. As guitarras, em particular, brilham pela forma como alternam entre peso, melodia e dramatismo, conduzindo a música através de sucessivas vagas de tensão e libertação. The Lightning-Struck Tower é uma reflexão musical sobre o colapso de velhas estruturas e a necessidade de mudança. Uma faixa poderosa, rica em nuances e mais uma prova da capacidade dos Heavenwood para transformar conceitos complexos em música carregada de emoção e significado.

Sensivelmente a meio do álbum, entramos na sua segunda metade, onde os Heavenwood continuam a explorar o simbolismo dos Arcanos Maiores do Tarot através de temas como The Moon, The Sun, Judgement, The Fool e The World. A jornada começa com The Stars, uma das faixas mais distintas do disco e aquela que nos apresenta, pela primeira vez, os vocais limpos de Ricardo Dias. Acompanhados por vocais femininos, estes conferem ao tema uma dimensão particularmente etérea e emotiva. É também aqui que a vertente mais gótica dos Heavenwood se manifesta de forma evidente. A música começa de forma mais leve e melódica, assente numa atmosfera envolvente e quase hipnótica, mas não tarda a revelar novas camadas. À medida que a composição evolui, o peso ganha espaço e os característicos vocais graves de Ricardo regressam com enorme impacto, acrescentando profundidade e dramatismo ao conjunto.

Em The Moon, os Heavenwood continuam a aprofundar a vertente mais gótica e atmosférica do álbum. A faixa envolve-nos numa atmosfera sombria e melancólica, mas simultaneamente rica em melodia. Inspirada nas dualidades associadas ao simbolismo da Lua, a composição desenvolve-se de forma fluida, alternando entre momentos mais delicados e passagens de maior intensidade. Existe uma constante sensação de tensão emocional ao longo da música, que vai crescendo gradualmente e mantendo o ouvinte completamente absorvido. Um dos grandes destaques do tema é o solo de guitarra: carregado de sentimento e perfeitamente enquadrado na estrutura da música, surge como um dos momentos mais inspirados de todo o álbum.

The Sunapresenta-se como mais uma pérola deste universo gótico cuidadosamente construído pelos Heavenwood. Os vocais limpos de Ricardo Dias assumem novamente um papel central, guiando o ouvinte por uma paisagem sonora profundamente melancólica e carregada de emoção. A sua interpretação revela-se particularmente expressiva, acrescentando uma dimensão humana e intimista a uma composição já de si bastante envolvente. Instrumentalmente, o tema opta por uma abordagem relativamente simples, mas essa simplicidade está longe de significar falta de profundidade. Pelo contrário, The Sun demonstra como uma boa composição não precisa de estruturas complexas para ser eficaz. Tal como em The Moon, os solos de guitarra voltam a assumir um papel de destaque, acrescentando beleza e intensidade à música sem nunca soarem excessivos. Já perto do final, a banda introduz uma passagem mais contemplativa que abranda momentaneamente o ritmo e aumenta a sensação de expectativa. É uma escolha inteligente que torna o desfecho ainda mais épico e emotivo, encerrando a faixa de forma memorável.

Pelo nome, The Judgement já deixava antever um regresso aos territórios mais pesados do álbum. E bastam poucos segundos para confirmar essa sensação. Ricardo Dias recupera os seus vocais graves e rasgados, devolvendo à música uma intensidade que contrasta fortemente com as atmosferas mais etéreas dos temas anteriores. É mais uma demonstração da versatilidade de The Tarot of the Bohemians – Part II, um álbum que se recusa constantemente a seguir caminhos previsíveis. Mas os Heavenwood não se limitam a aumentar o peso. Quando pensamos que já percebemos para onde a música se dirige, surgem coros infantis que acrescentam uma camada inesperada de dramatismo e solenidade. O contraste entre estas vozes e a interpretação mais agressiva de Ricardo cria um efeito particularmente eficaz, reforçando o carácter quase ritualístico da composição. Instrumentalmente, regressamos a estruturas mais complexas e menos imediatas, embora a capacidade da banda para criar melodias memoráveis permaneça intacta. Há uma riqueza de detalhes ao longo de toda a faixa que recompensa audições repetidas, revelando novos elementos a cada passagem. Nos instantes finais, The Judgement cresce até atingir uma dimensão quase épica. A música ganha uma grandiosidade impressionante, encerrando de forma majestosa e deixando o terreno preparado para a chegada de The Fool.

Chegamos a The Fool, o penúltimo capítulo do álbum e, muito provavelmente, um dos momentos em que a faceta mais gótica dos Heavenwood se manifesta de forma mais evidente. A faixa aproxima-se de uma balada gótica na forma como privilegia a melodia, a emoção e a atmosfera, revelando uma sensibilidade composicional absolutamente notável. O que mais impressiona é a capacidade da banda para encontrar um equilíbrio raríssimo entre acessibilidade e profundidade. A música possui melodias imediatamente cativantes e uma fluidez que a torna extremamente envolvente desde a primeira audição, mas sem nunca sacrificar a riqueza de detalhes e a identidade artística que os Heavenwood foram construindo ao longo da sua carreira. Pelo contrário, cada nova audição permite descobrir pequenas nuances, padrões melódicos e elementos recorrentes que enriquecem ainda mais a experiência. Existe uma leveza muito particular em The Fool, mas trata-se de uma leveza conquistada através da maturidade e da confiança de quem não sente necessidade de complicar para impressionar.

E, quase sem darmos por isso, chegamos ao capítulo final desta magnífica obra com The World. Mantendo a forte identidade gótica que percorre todo o álbum, a faixa destaca-se pela presença dos vocais femininos, que assumem aqui um papel fundamental na construção da sua atmosfera envolvente e emocional. Embora não faltem riffs pesados ao longo da composição, a sensação dominante é de leveza e elevação. Existe uma grandiosidade muito própria em The World, acompanhada por um sentimento de esperança e realização que transparece não apenas na letra, mas também na própria construção musical. Depois de uma viagem marcada por momentos de introspeção, conflito e transformação, esta faixa surge quase como uma resolução natural de tudo o que foi apresentado anteriormente. A música cresce de forma gradual e paciente, acumulando emoção a cada nova passagem até atingir um desfecho verdadeiramente arrebatador. Nos momentos finais, a repetição da letra assume um propósito claro, reforçando a mensagem da canção e intensificando o seu impacto emocional. É um final simultaneamente belo, poderoso e catártico, encerrando The Tarot of the Bohemians – Part II da única forma possível: com uma sensação de plenitude e transcendência que permanece muito depois da última nota se extinguir.

The Tarot of the Bohemians – Part II é um álbum que impressiona pela sua consistência, maturidade e capacidade de manter o ouvinte permanentemente envolvido ao longo de toda a sua duração. Longe de se acomodarem à fórmula que construíram ao longo de mais de três décadas de carreira, os Heavenwood apresentam um trabalho ambicioso, repleto de personalidade e confiança artística. A banda explora diferentes facetas da sua identidade, navegando entre o Gothic Metal, o Doom e apontamentos mais extremos, mas sem nunca perder coerência ou direção. Acima de tudo, este é um álbum onde a melodia reina soberana, servindo de fio condutor para uma experiência rica em emoção, atmosfera e profundidade.

Mais do que um simples regresso aos discos de estúdio após uma década, The Tarot of the Bohemians – Part II assume-se como um marco absolutamente central na discografia dos Heavenwood. Não só reafirma a relevância da banda no panorama do metal português e europeu, como também reforça a sua capacidade de evoluir sem perder a sua identidade. A qualidade da composição, a riqueza dos arranjos, a excelência das interpretações e a forma como cada elemento serve a narrativa conceptual do álbum, revelam uma banda em pleno domínio das suas capacidades. Num panorama onde tantas vezes se confunde complexidade com qualidade, os Heavenwood demonstram que a verdadeira grandeza está na capacidade de emocionar, surpreender e criar canções memoráveis. Dez anos depois do seu último registo de estúdio, a espera não só valeu a pena como resultou numa obra que consolida o estatuto da banda como um dos nomes maiores da história do metal português.

Alinhamento:
1- Death;
2- Temperance;
3- The Devil;
4- The Lightning- Struck Tower
5- The Stars;
6- The Moon;
7- The Sun;
8- The Judgement;
9- The Fool;
10- The World.

Banda: Heavenwoood
País: Portugal
Álbum: The Tarot of the Bohemians – Part II
Label: Mighty Music
Data de Lançamento: 12 Junho 2026

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