O Sangue de Bode pavimentou sua estrada metal extremo brasileiro a partir de uma premissa clara: usar o som extremo como um espelho da podridão humana. Desde a estreia com A Sombra Que Me Acompanhava Era a Mesma do Diabo (2020), passando por Seja Bem-Vindo de Volta pra Cruz (2021) e Eu Sou a Derrota (2024), a banda sempre buscou confrontar a hipocrisia religiosa, a violência estrutural e o niilismo existencial. Em O Funeral de Tudo, lançado em abril deste ano, atinge o seu ápice, mostrando um grupo que refinou sua raiva sem perder a sujeira original, transformando a desgraça cotidiana em uma manifestação artística consciente.
Essa maturação fica evidente na produção e mixagem do álbum, assinadas pela própria banda ao lado de Lucas Campello e Carol Lippi. O som foge do estéril e supercomprimido tão comum no metal moderno: as guitarras soam orgânicas e rasgadas, o baixo preserva um peso grave quase tátil, e a bateria soa como se estivesse sendo espancada na mesma sala que o ouvinte. Complementando a experiência sonora, a arte da capa traduz visualmente a essência do registro: uma estética gélida e macabra que atua não apenas como adorno, mas como o pórtico de entrada para a atmosfera de luto e ruína que o disco carrega. A evolução técnica em relação aos lançamentos anteriores salta aos olhos, principalmente na arquitetura das guitarras. A adição de uma segunda guitarra trouxe uma densidade brutal, capaz de alternar entre o ríspido e o sufocante com extrema facilidade. O disco recusa rótulos engessados e transita entre o Grindcore, o Death Metal e o Black Metal, amarrado por desacelerações do Doom. A produção preserva a sujeira necessária do som extremo, permitindo que cada elemento encontre seu espaço de destruição, enquanto os vocais escrotam a dor de quem não enxerga saída.
Essa síntese conceitual ganha forma em duas faixas cruciais da obra. Em “Máxima Miséria”, a construção rápida e direta no estilo Death/Grind escancara a degradação da dignidade humana frente ao abandono e à exploração. Já em “O Mundo Acabou e o Novo Mundo Também”, a arquitetura sonora desacelera para um Doom sepulcral e arrastado; a mensagem atinge seu ponto mais incômodo ao expor a ilusão do progresso, culminando no questionamento sufocante sobre quem resta para carregar o próprio caixão quando o fim é inevitável.
"Nenhuma dignidade resta onde o lucro se alimenta da miséria"
O impacto dessas composições ganha vida na rotina exaustiva de estrada que o grupo mantém. Para além do estúdio, O Funeral de Tudo se materializa em uma turnê pulverizadora que tem levado o caos a palcos por todo o país. Mantendo a essência do faça-você-mesmo e encarando a rodovia em uma rotina intensa de van e suor, a banda entrega performances físicas, catárticas e absolutamente devastadoras a cada noite, provando que o palco é a extensão natural do seu discurso.Essa maratona de shows segue expandindo territórios de forma inédita. Ainda este ano, a turnê alcança um marco importante com as primeiras apresentações do grupo nos estados de Mato Grosso (BRA) e Mato Grosso do Sul (BRA). A marcha, no entanto, está longe de terminar: os planos já miram o próximo ano, quando a banda pretende estender o itinerário até a região Nordeste, provando que O Funeral de Tudo não é apenas um excelente disco gravado, mas uma força viva que continua queimando pelo underground brasileiro.

Ao fim da audição de O Funeral de Tudo, não sobra espaço para catarse higienizada ou consolo barato. O Sangue de Bode não entrega respostas, nem pretende acenar com qualquer falsa esperança para os dias sombrios que atravessamos; o que a banda faz é jogar a sujeira no centro da sala e nos obrigar a olhar para a decomposição sem desviar os olhos. É um registro incômodo, pesado e absolutamente necessário para o momento do metal extremo nacional. Em um cenário frequentemente pasteurizado pela busca por produções genéricas e polidas, a postura do quarteto carioca é um ato de resistência visceral. Ao aliar uma produção orgânica e sufocante a uma lírica afiada em português, o grupo reafirma que o underground só faz sentido quando incomoda, quando rasga a pele e reflete sem filtros a podridão da experiência humana.
Mais do que um grande disco em estúdio, O Funeral de Tudo é um manifesto vivo que se recusa a ficar preso no formato digital. Enquanto a van continuar rodando, cortando o asfalto do Centro-Oeste ao Nordeste para descarregar essa massa sonora no peito de quem está no mosh, o Sangue de Bode seguirá provando que a morte da arte é a complacência. O fim pode até ser inevitável, mas a trilha sonora do colapso está sendo tocada na sua forma mais pura e brutal.
A autenticidade de O Funeral de Tudo e dos trabalhos anteriores não nasce de um niilismo teórico ou de clichês do metal extremo, mas de cicatrizes reais e profundas. Nos primeiros passos da banda, a matéria-prima lírica e instrumental foi moldada pela vivência crua de perdas devastadoras, como a morte do pai do vocalista Verme (João) em decorrência de um câncer alimentado pelo alcoolismo e pouco tempo depois, o suicídio de um amigo próximo. Vivenciando esse luto e essa derrocada de perto ao lado do vocalista, o baterista Gabriel Sinuê e o baixista Jose Luiz transformaram o trauma compartilhado no único combustível possível para a sua arte. O Sangue de Bode nasceu, acima de tudo, porque eles precisavam expelir a dor, a raiva e a impotência diante da tragédia humana uma origem dolorosa que imprime até hoje uma verdade visceral em cada nota e cada urro gravado.
FAIXAS:
- Quase Fantasma
- Máxima Miséria
- O mundo Acabou e o Novo Mundo Também
- Ele Era Tão Bom
- Massacres
- Atento ao Sussurro
- Pus e Vômito
- Clube Velho
NOTA: 10/10


