
Com produção da Caveira Velha, Gerunda Produções e Chamuco, e em parceria com Acesso Music (Curitiba) e Nevoeiro Produções (Porto Alegre), a tão aguardada Altars of Sacrifice Tour trouxe o Nargaroth para uma série de cinco datas que movimentaram a espinha dorsal da cena extrema brasileira. O Cultura em Peso acompanhou essa jornada de perto e traz aqui o relato completo dessa incursão sombria.
Antes de adentrarmos aos palcos, é imperativo destacar a formação que acompanhou o frontman Ash Wagner. A coesão do espetáculo repousou sobre os ombros de músicos de altíssimo gabarito: os guitarristas Julio Rodas (Dreamlore, El Salvador) e Fernando Cortés (Ash Nazg Búrz, México), além do implacável baterista polonês Pawel “Pavulon” Jaroszewicz (Blindead 23, Vltimas, Shadohm, Ex-Vader). Ver essa seleção internacional em ação não apenas garantiu o peso da composição no palco, mas serviu para dissipar, de uma vez por todas, quaisquer estigmas ou ideias equivocadas sobre a ideologia da banda. O que vimos foi profissionalismo puro e um respeito mútuo entre os músicos e as equipes técnicas locais, além de uma resiliência admirável diante das dificuldades enfrentadas.

Ato I: O Despertar Carioca (27/03)

A turnê teve seu ponto de partida no Rio de Janeiro, no Experience Music, com abertura da banda Kulto. O que se viu foi uma casa cheia, provando que o Nargaroth, apesar das décadas de estrada, renovou seu pacto com o público, atraindo desde veteranos até uma nova geração sedenta por Black Metal.

Quando as luzes se apagaram e a intro instrumental ecoou, a descrença deu lugar à euforia: eles estavam finalmente ali. O início com a icônica “Black Metal ist Krieg“ foi o gatilho para o ritual. Embora o calor do Rio tenha mantido o público contido nos primeiros minutos, a energia subiu conforme o setlist avançava. Tecnicamente, o som estava sólido, salvo por uma oscilação persistente em uma das guitarras — um aparente mau contato que fazia o sinal oscilar, mas que não foi capaz de frear a horda.
Um dos trunfos dessa tour foi a inclusão do cover de “Dead Embryonic Cells“, do (real) Sepultura, após “Metalheart“, inédita. Se nas datas internacionais a recepção já era formidável, em solo brasileiro foi um verdadeiro incêndio. Ao final, Ash demonstrou uma cordialidade rara no gênero, atendendo cada fã que permaneceu após show, com paciência, ignorando até mesmo pequenos desentendimentos que surgiram na fila.
Ato II: A Devoção em Belo Horizonte (28/03)

No dia seguinte, o Caverna Rock Pub em BH recebeu um ritual de casa lotada e sem bandas de abertura. A execução foi cirúrgica. O ponto alto, inevitavelmente, foi a homenagem aos filhos ilustres da cidade: o cover do Sepultura em plena capital mineira gerou tanto impacto que o vídeo foi compartilhado pelo próprio Iggor Cavalera em suas redes sociais, selando o respeito entre a velha guarda mundial e o metal nacional, deixando a banda lisonjeada com tal atitude.

O local aberto e clima mais ameno, facilitou o público a manter fôlego e energia, mas o momento mais marcante de BH não veio do palco, e sim da grade. Um fã muito jovem, possivelmente em seu primeiro show da banda, personificou o sentimento da noite.
Ele tocou cada virada em um air drums com precisão milimétrica por praticamente toda apresentação, mas, durante a melancólica “Seven Tears Are Flowing to the River“, ele desabou. Encostado no monitor, de cabeça baixa e em prantos, ele nos lembrou do porquê fazemos isso: a música tem o poder de desconstruir e reconstruir o ser humano.
Quando Ash deixou o palco e o rapaz levantou o rosto banhado em lágrimas verdadeiras, todos ali que viram aquela cena, entenderam o peso daquela entrega. Ver aquele sentimento trouxe uma nostalgia inevitável de quando somos tocados pela nossa banda favorita pela primeira vez.
Os membros da banda eram abordados no pós-show e eles gentilmente os atendia com cordialidade e respeito impecáveis, novamente, Ash atendeu a todos que permaneceram após o show, em um contraste gritante com os Meet & Greets cobrados pelas bandas por um simples autógrafo, em dólares dentro do páis, que vemos por aí, inclusive dentro do próprio black metal que é tido como um estilo mais underground.
Ato III e IV: O Desafio de Curitiba e o “Fator Humano” (31/03)
Após a passagem por São Paulo no dia 29.03 no Hangar 110 (que você pode ler em detalhes aqui), e devemos fazer um apontamento justo, além do público comparecer em peso em pleno domingo, apesar do calor dentro do local, o som seguiu sem maiores problemas, e aparentemente com mesmo problema que ocorreu com a guitarra no show no Rio de Janeiro, e mais uma vez, ao final do show, Ash gentilmente atendeu aos fãs que permaneceram após a apresentação das três bandas.
Após um day off necessário, chegamos a Curitiba. O sul do país é conhecido por sua sede de metal extremo, e o Basement Cultural estava lotado em plena terça-feira. A abertura dos cariocas da Velho foi um massacre à parte, focando no excelente álbum Vingando as Bruxas (2025), tocado quase na íntegra: “Retornando ao Caos Primitivo“, “Destruindo os Mandamentos“, “Reunindo as Matilhas” e “Renascendo pelo Ódio“, além das clássicas “A Marca Invisível de Lúcifer” e “Satã, Apareça!” numa verdadeira celebração ao black metal nacional, mostrando a tradição de nossas bandas e o peso no cenário, mesmo sem precisar apelar para exposições massivas caricatas.

Entretanto, o show do Nargaroth em Curitiba foi um teste de resistência e resiliência. Embora a qualidade do som estivesse muito boa e com quase nenhum problema (ao menos da pista), o calor dentro da casa era desumano; aparelhos de ar-condicionado e ventiladores tornaram-se meros objetos decorativos, estavam ligados porém, não deram conta do mínimo. O público precisava sair do local constantemente para conseguir respirar. Esse cenário crítico atingiu diretamente a banda.

Ash, visivelmente afetado pela temperatura extrema, precisou encurtar o setlist, deixando a bela “Semper Fi“ de fora. Pelo mesmo motivo, infelizmente, ele não pôde atender os fãs após o show, o que gerou frustração em quem esperava por esse contato após 17 anos de ausência da banda na cidade. Fica o alerta para as casas de show tradicionais: o público de metal “grisalhou”, mas a energia despendida por tal público, não diminuiu e exige uma infraestrutura de ventilação que suporte a intensidade do palco.
Mesmo assim, a perfeita performance de “Love is a Dog From Hell“, a inédita “Metalheart” e a sequência com “Dead Embryonic Cells” levaram corpos a serem carregados no mosh. Em “Possessed by Black Fucking Metal“, era notável que a coesão do setlist era impecável e era impossível para queme estava contemplando, não se sentir totalmente domado e envolvido. Ao fim, com “Seven Tears Are Flowing to the River“, as gotas de suor foram muito mais que “sete lágrimas”, mas a emoção foi uníssona. Difícil não se deixar levar, e aqui não se trata apenas de nostalgia de uma época em que vivemos, é todo um conjunto: os riffs sendo tocados por outros músicos que trouxeram técnica e distorção impecável, perfeição de blast beats bem executados com pedais precisos e na altura perfeita que faziam sangue pulsar aliados ao vocal com o gutural rasgado e orgânico que somado a todo conjunto, completava a experiencia de ver, sentir e ouvir mais uma vez ao vivo.
Ato V: O Encerramento em solo Gaúcho (01/04)
Em Porto Alegre, no Gravador Pub, com produção conjunta com a Nevoeiro Produções, o desfecho da tour ocorreu sob um cenário peculiar: se de um lado, havia peso do black metal, do outro, havia o show do Guns N’ Roses, além de um jogo na casa do co-irmão (SC Internacional).


Os resquícios do verão porto alegrense não deu trégua também: em pleno 1º de abril, uma temperatura daquelas em pleno outono, o que parecia uma mentira era a mais pura realidade, umidade que parecia ferver o sangue não só quem era do black metal, ou hard rock ou do futebol. Por motivos de força maior, não pude estar fisicamente no local, mas recorrendo a tecnologia (até sábado, o show estava integralmente disponível no youtube, porém foi derrubado pela plataforma por causa dos direitos autorais) e o relato de fãs, como William Guedes Cézar, além de gravações de vídeos, fotos, permitiram reconstruir o cenário com novo desafio: tentar descrever a emoção sentida por outros com a perspectiva de quem redigiu a matéria. Aqui, meus profundos agradecimento pelo tempo desprendido e disponibilidade.

A Velho abriu a noite com pontualidade britânica e agressividade nacional, entregando clássicos como “Satã, Apareça!” e “tratou de estabelecer a atmosfera da noite. Após uma breve introdução e pequenos ajustes nas guitarras, a banda mergulhou de cabeça na agressividade sonora que o público esperava — e recebeu com entusiasmo imediato” segundo narrou o fã William Guedes Cézar.
Ao comparar relatos, não houve mudanças no setlist em relação a Curitiba, e ainda segundo relatos, e que ao promover novo álbum, incendiou o público gaúcho, preparando o terreno com competência para o desfecho do ritual em terras brazucas!

Outra coisa notada entre os presentes foi que entre os intervalos o público se dividia entre as cervejas, conversas, encontros, reencontros e busca pelo merchandising disponível. Foi interessante observar que nas outras 4 cidades, o público também consumiu bastante material disponibilizado, não apenas do Nargaroth, mas, no caso do Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba, das bandas de abertura, o que é importantíssimo para as mesmas tendo em vista os valores que se arrecadam.

O Nargaroth entrou com um pequeno atraso e enfrentou algumas falhas técnicas no vocal, mas a conexão com os gaúchos foi inabalável. O público assumiu o protagonismo, sustentando as músicas quando o som oscilava.
O momento “folclórico” e memorável da noite foi quando Ash retornou ao palco com uma cuia de chimarrão logo após “I Burn For You“. Em um tom descontraído, ele selou sua ligação com a capital gaúcha, pedindo de forma bem-humorada que os fãs não “puxassem seu cabelo nem pegassem em sua bunda” durante as fotos. Essa faceta leve e interativa de Ash Wagner, vista tanto no palco quanto nas redes sociais durante toda a tour, é um sopro de renovação em uma cena muitas vezes é totalmente engessada e submersa no egocentrismo de alguns músicos e bandas.
A Altars of Sacrifice Tour encerrou com saldo amplamente positivo. Apesar dos imprevistos técnicos e dos locais que subestimaram o calor brasileiro (em algumas cidades, fora de época), a entrega dos músicos foi absoluta. Ver o respeito de Ash pelos fãs e a maestria dos músicos de apoio transformou o que poderia ser apenas “mais uma tour de Black Metal” em uma experiência de troca real.
O Nargaroth que passou pelo Brasil em 2026 é uma entidade mais madura, técnica e, surpreendentemente, mais próxima de sua base. Que o próximo álbum não demore a nos trazer esse ritual de volta, pois o underground brasileiro provou, mais uma vez, que sua fidelidade é forjada no calor, suor e fogo.
Setlist Altars of Sacrifice Tour Brasil 2026:

1.Sirens/Herbstleyd (instrumental)
2.Black Metal ist Krieg
3.Erik, May You Rape the Angels
4.The Agony of a Dying Phoenix
5.Sommer
6.Love Is a Dog From Hell
7.Metalheart
8.Dead Embryonic Cells (Sepultura cover)
9.I Burn for You
10.Semper Fi (menos em Curitiba)
11.Abschiedsbrief Des Prometheus
12.Possessed by Black Fucking Metal
13.Seven Tears Are Flowing to the River”

