Veteranos italianos desembarcam em São Paulo para apresentação única no Brasil ao lado de Torches of Nero e Orgasmicca.
Formada na Itália em 1988, a banda atravessou diferentes momentos do metal extremo europeu construindo uma identidade que nunca ficou presa a uma única definição. Black metal, doom, gothic e elementos sinfônicos se encontram em uma música carregada de atmosferas sombrias, misticismo e uma forte preocupação em criar uma experiência que vai além da simples agressividade.
Quase quatro décadas depois de seu surgimento, o Opera IX chega a São Paulo para uma apresentação exclusiva no Brasil, no dia 14 de novembro de 2026, na Burning House, em Água Branca.
E o momento não poderia ser mais interessante. A banda chega ao país trazendo também o seu trabalho mais recente, “Veneficium”, lançado em maio deste ano, enquanto divide a noite com duas representantes de diferentes gerações do metal extremo brasileiro: Torches of Nero e Orgasmicca.
Mais do que uma noite de shows, o encontro coloca frente a frente diferentes momentos, sonoridades e maneiras de enxergar o lado mais sombrio do metal.
Opera IX: quase quatro décadas de história nas sombras
Quando o Opera IX surgiu em Biella, na Itália, em 1988, o metal extremo ainda estava construindo suas próprias fronteiras. O black metal estava longe de ter a dimensão que alcançaria nos anos seguintes e as possibilidades de mistura entre diferentes vertentes do metal pesado eram muito menos comuns.
Foi dentro desse cenário que o guitarrista Ossian iniciou a trajetória do Opera IX.
Os primeiros anos foram marcados por demos e lançamentos que ajudaram a estabelecer a identidade da banda. “Gothik”, de 1990, e “Demo ’92”, de 1992, apresentavam um grupo ainda em formação, mas já interessado em criar uma atmosfera muito particular.
Em 1993 veio “The Triumph of the Death”, primeiro registro em 7″, e pouco depois a banda encontraria um de seus primeiros grandes momentos com “The Call of the Wood”, lançado em 1995.
É a partir daí que o nome Opera IX começa a ganhar uma dimensão maior dentro do underground europeu.
O disco apresenta uma banda cada vez mais interessada em construir ambientes, trabalhar mudanças de dinâmica e incorporar elementos que iam além do black metal tradicional. O resultado ajudou a criar aquela combinação entre agressividade e atmosfera que se tornaria uma das principais características do grupo.
Depois veio “Sacro Culto”, em 1998, preparando o terreno para aquele que talvez seja o trabalho mais emblemático de sua primeira fase.
“The Black Opera” e a consolidação de uma identidade
Lançado em 2000, “The Black Opera: Symphoniae Mysteriorum in Laudem Tenebrarum” marcou um momento decisivo na carreira do Opera IX.
O álbum aprofundou tudo aquilo que a banda vinha desenvolvendo: guitarras pesadas, passagens mais lentas e densas, teclados, elementos sinfônicos e uma atmosfera que aproximava o metal extremo de uma experiência quase teatral.
O disco também ajudou a ampliar consideravelmente o alcance do grupo. O álbum teria alcançado cerca de 18 mil cópias vendidas, número bastante expressivo para uma banda originária do underground, e abriu portas para apresentações em diferentes países.
Mais do que números, porém, The Black Opera permanece como um daqueles discos que ajudam a explicar por que determinadas bandas conseguem atravessar gerações.
Na sequência vieram “Maleventum” (2002), “Anphisbena” (2004), “Strix: Maledictae in Aeternum” (2012), “Back to Sepulcro” (2015) e “The Gospel” (2018).
São trabalhos que mostram uma banda em constante transformação, mas sem abandonar completamente os elementos que construíram sua identidade.
E talvez seja justamente essa capacidade de mudar sem perder sua essência que explique a longevidade do Opera IX.
“Veneficium”: um novo capítulo
Em 22 de maio de 2026, o Opera IX acrescentou mais um capítulo à sua história com o lançamento de “Veneficium”, seu décimo álbum de estúdio.
Agora, portanto, o disco não chega a São Paulo como uma promessa ou um trabalho prestes a ser lançado. Ele é parte do presente da banda.
E isso é importante.
Depois de quase quatro décadas de atividade, o Opera IX poderia facilmente se limitar a revisitar o passado e apostar apenas na nostalgia. Mas Veneficium mostra que existe ainda uma banda interessada em produzir material novo e manter viva sua própria linguagem.
O álbum percorre novamente terrenos sombrios e atmosféricos, combinando black metal com elementos doom, góticos e sinfônicos. Entre as faixas estão “Vocatio Mortuorum”, “Saltatio Corvi”, “Defixiones” e a própria “Veneficium”.
É um disco que dialoga naturalmente com a história do grupo, mas que chega em um momento diferente de sua carreira.
E é justamente por isso que a apresentação em São Paulo ganha outro peso: o público terá a oportunidade de ouvir músicas recentes ao lado de composições que fazem parte da história da banda desde os anos 1990.
Para quem acompanhou o Opera IX durante sua trajetória, será uma oportunidade de revisitar diferentes fases. Para quem descobriu a banda mais recentemente, será uma porta de entrada para uma discografia que atravessa gerações.
Torches of Nero: caos, tradição e um primeiro álbum que finalmente chegou
Se o Opera IX representa quase quatro décadas de história, o Torches of Nero mostra que o underground brasileiro continua produzindo bandas interessadas em olhar para o passado sem necessariamente viver nele.
Formado no Rio Grande do Sul, o trio construiu sua identidade a partir de uma sonoridade crua e visceral, bastante ligada ao black metal em sua forma mais agressiva e primitiva.
A trajetória começou com “Fallen Angel of Arcturo”, lançado em 2021. O registro apresentou as primeiras ideias de uma banda que buscava recuperar não apenas determinados elementos sonoros da velha escola, mas também aquela sensação de perigo, desconforto e espontaneidade que marcou boa parte do metal extremo de suas primeiras décadas.
Depois vieram “The Sermon of the Impure: Prophecy and Disgrace – Live Ritual”, registro ao vivo de 2022, o EP “MOKK”, de 2023, e “The First Denial”, lançado em 2024.
Até então, a banda vinha construindo sua história principalmente através de materiais curtos e registros que ajudavam a estabelecer sua personalidade.
Em 2026, porém, veio o passo mais importante dessa trajetória.
“Martyr of Disbelief: The Exposure”
O primeiro álbum completo do Torches of Nero, “Martyr of Disbelief: The Exposure”, foi lançado em 2026 pela Hammer of Damnation e rapidamente chamou a atenção da imprensa especializada brasileira.
O disco apresenta dez faixas e aposta em uma produção propositalmente áspera, com uma sonoridade que remete ao black metal mais cru e visceral.
Mas existe uma diferença importante entre simplesmente reproduzir uma fórmula antiga e entender por que aquela fórmula funcionava.
É justamente aí que o Torches of Nero parece encontrar seu espaço.
As referências são perceptíveis — nomes como Mayhem, Sarcófago, Rotting Christ, Profanatica, Venom e Sadistik Execution aparecem como pontos de contato — mas a banda procura transformar essas influências em algo próprio.
Resenhas recentes destacam justamente essa característica. Em vez de tentar impressionar pela técnica ou por uma produção extremamente polida, Martyr of Disbelief: The Exposure aposta na atmosfera, no caos e em uma abordagem direta.
É um álbum que parece interessado em recuperar uma determinada essência do black metal: aquela sensação de que a música precisa soar incômoda, agressiva e, principalmente, verdadeira.
E essa escolha faz do Torches of Nero uma abertura bastante coerente para o Opera IX.
Enquanto os italianos carregam consigo quase quatro décadas de história, o trio gaúcho mostra como algumas das ideias fundamentais do metal extremo continuam encontrando novas formas de existir.
Orgasmicca: beleza e escuridão em “Doce Penumbra”
Completando o line-up está a Orgasmicca, banda paulista formada em 2021 que segue por um caminho diferente dentro do metal extremo.
Aqui, a agressividade do black metal encontra uma abordagem mais atmosférica, melódica e carregada de elementos ligados ao dark metal e ao chamado romantic black metal.
A própria proposta da banda parte desse contraste: beleza e escuridão coexistindo na mesma música.
Temas como sensualidade, melancolia e sedução aparecem no trabalho do grupo, acompanhados por uma sonoridade que não depende apenas da velocidade ou da brutalidade para criar impacto.
A discografia da Orgasmicca ainda é curta, mas “Doce Penumbra”, lançado em maio de 2025, já oferece uma boa fotografia do momento atual da banda.
O EP reúne quatro faixas: “Umbra”, “Venus Inferna”, “Cellophane Dress” e “Violet Passion”, passando por aproximadamente 25 minutos de música.
São músicas que exploram uma dimensão mais envolvente do metal extremo, criando espaços onde as melodias e atmosferas têm tanta importância quanto o peso.
Em “Venus Inferna”, por exemplo, a banda trabalha uma atmosfera sensual e sombria, enquanto “Cellophane Dress” aposta em uma construção mais melódica e narrativa.
É uma proposta que se distancia tanto da crueza do Torches of Nero quanto da longa tradição do Opera IX, mas que encontra nos três grupos um ponto em comum: a vontade de criar uma identidade própria dentro do universo do metal extremo.
Três bandas, três momentos, uma mesma noite
O que torna esse encontro particularmente interessante é justamente o contraste.
O Opera IX chega carregando uma história que começou ainda nos anos 1980, atravessou diferentes momentos do metal extremo e produziu alguns trabalhos importantes para entender a evolução do black metal atmosférico e sinfônico europeu.
O Torches of Nero, por sua vez, representa uma nova geração que olha diretamente para a velha escola, mas procura transformar essas influências em uma linguagem própria. E chega a São Paulo em um momento especialmente importante, após o lançamento de seu primeiro álbum completo.
Já a Orgasmicca traz uma perspectiva mais recente e atmosférica, explorando os lados melódico, sombrio e sensual do black metal.
São três caminhos diferentes para chegar a um lugar parecido: a busca por uma música que tenha identidade e que consiga criar uma atmosfera própria.
E talvez seja justamente isso que faça desta noite algo maior do que simplesmente mais um show internacional.
É uma oportunidade de colocar lado a lado quase quatro décadas de história do metal extremo europeu e duas diferentes perspectivas do underground brasileiro atual.
Para o público paulista, existe ainda um detalhe que torna a ocasião ainda mais especial: esta será a única apresentação do Opera IX no Brasil.
No palco da Burning House, o passado e o presente do metal extremo se encontram.
E, considerando a história das bandas envolvidas, é difícil imaginar que seja uma noite para passar despercebida.
SERVIÇO
Opera IX em São Paulo
Data: 14 de novembro de 2026
Horário: 19h
Local: Burning House
Endereço: Av. Santa Marina, 247 – Água Branca – São Paulo/SP
Aberturas:
Torches of Nero
Orgasmicca
Ingressos: 101 Tickets
Venda de ingressos: 101 Tickets – Opera IX em São Paulo
Uma noite de metal extremo, três diferentes gerações e quase quatro décadas de história chegando a São Paulo.

