Aceitei escrever sobre Remnants of Atrophy, dos Horrific Visions, sabendo desde o primeiro momento que teria pela frente um pequeno desafio. O Brutal death metal nunca fez parte das minhas audições habituais e, precisamente por isso, procurei abordar este álbum de mente aberta. Dei-lhe várias voltas, tentei perceber a lógica por detrás da violência sonora e compreender aquilo que a banda procura transmitir antes de formar uma opinião.
O impacto inicial é exatamente o que se espera de um disco deste calibre: um autêntico muro de som que não dá espaço para respirar. Os riffs sucedem-se com uma agressividade quase constante, a bateria dispara sem contemplações e os vocais cavernosos reforçam uma atmosfera opressiva que acompanha o ouvinte do primeiro ao último minuto. Não há qualquer intenção de suavizar a experiência; os Horrific Visions sabem exatamente qual é o seu público e nunca desviam o pé do acelerador.
Apesar de não dominar particularmente este universo, foi impossível não reconhecer a competência da banda. Há um cuidado evidente na construção das músicas e uma execução técnica que vai muito além do simples objetivo de tocar depressa e pesado. Por detrás do caos aparente existe organização, com mudanças subtis de andamento, riffs suficientemente distintos entre si e pequenas variações que impedem que os cerca de 25 minutos de duração se transformem numa sucessão indiferenciada de violência sonora.
Faixas como “Deranged Perversion“, “Crippled Under the Weight of a Hollow World” e “Primal Regression“ são talvez os melhores exemplos dessa capacidade. Cada uma delas apresenta identidade própria, mantendo a intensidade sem perder clareza na composição. Nota-se que os Horrific Visions preferem confiar na força da escrita e da execução em vez de recorrer a truques ou excessos apenas para impressionar. O resultado é um álbum frontal, pesado e fiel aos princípios do brutal death metal.
Nem tudo, contudo, funciona da mesma forma. “Synaptic Decay“, o breve interlúdio que surge sensivelmente a meio da audição, acaba por quebrar um pouco o fluxo do disco. Não compromete a experiência nem retira impacto ao conjunto, mas também não acrescenta grande coisa, deixando a sensação de que poderia facilmente ter sido dispensado.
Talvez a minha maior reserva não esteja propriamente relacionada com o álbum, mas sim com a minha ligação ao género. É evidente que um ouvinte habituado ao Brutal death metal encontrará aqui detalhes técnicos, nuances e referências que me escapam. Ainda assim, esse exercício de sair da minha zona de conforto revelou-se bastante mais interessante
do que esperava e permitiu-me apreciar o trabalho da banda por aquilo que realmente é, sem preconceitos.
No final da audição fica claro que Remnants of Atrophy dificilmente será o disco responsável por converter quem nunca se identificou com este tipo de sonoridade. No entanto, para quem procura brutal death metal executado com convicção, técnica e uma identidade bem definida, esta estreia tem argumentos suficientes para merecer atenção. Pode não reinventar o género nem procurar fazê-lo, mas demonstra que ainda há espaço para lançar discos intensos, sólidos e memoráveis, construídos com qualidade e respeito pelas raízes daquilo que representam.
Nota do editor: 7/10


