Liderado pela belga/norte-americana Marliese “Marz” Beeuwsaert, Hulder afirmou-se como uma das forças mais revigorantes na recuperação do Black Metal Tradicional e Medieval. Sendo no essencial um projeto a solo de estúdio — onde Marz escreve, canta e assume a quase totalidade da instrumentação —, consegue a proeza rara de agradar tanto aos puristas da velha guarda como a uma nova vaga de ouvintes em busca de atmosferas densas e sombrias.
A grande virtude do som de Hulder reside no seu posicionamento estético. Marz rejeita o som de garagem intencionalmente abafado e “estático” — onde a música parece gravada numa cassete estragada e os instrumentos quase não se distinguem —, mas recusa da mesma forma a sobreprodução hiperpolida do post-black metal moderno. O som situa-se naquele meio-termo perfeito de meados dos anos 90: orgânico, cru e cortante, mas com a clareza necessária para que cada melodia, a bateria e as camadas de guitarra sobressaiam com impacto. Num género hoje fragmentado e muitas vezes desgastado por guerras ideológicas, a força de Hulder está em manter a música pura, focando-se estritamente na essência atmosférica, espiritual e pagã.
A caminhada até aqui foi exemplar. Após um punhado de demos promissoras, “Marz” reivindicou o trono com o excelente Godslastering: Hymns of a Forlorn Peasantry (2021), num equilíbrio irrepreensível entre fúria e misticismo medieval. Seguiu-se Verses in Oath (2024), um registo de afirmação que trouxe um salto evidente na produção e na coesão das composições. Contudo, olhando em retrospetiva, esse trabalho anterior acabou por carregar mais peso bruto e muscular do que propriamente “espírito”. É precisamente aí que este novo álbum marca a diferença.
No novo disco, sente-se um regresso à aura envolvente das raízes, mas elevado por uma maturidade de composição superior. Como fã confesso de Bathory, é impossível não notar aqui e ali o fantasma de Quorthon a pairar — não numa cópia barata, mas na solenidade pagã, nos ritmos marcados de marcha e no modo como os violões e cânticos limpos se misturam com a distorção das guitarras.
O álbum abre com a quietude contemplativa de “Bane of the Desolate”, uma introdução dedilhada e carregada de ruído de vento que prepara o terreno para a tempestade. Sem avisar, “The Crowning” avança com uma velocidade feroz e guitarras gélidas, mostrando a voz rasgada de Marz em pleno estado de graça. O lado mais épico e ancestral emerge em “In Blood and in Earth”, onde as flautas e os violões intercalados evocam a era dourada do pagan metal, oferecendo um dinamismo que faltava no registo anterior.
A faixa-título “Verbolgen” assume-se como o motor do disco, alternando passagens de agressividade pura com pausas atmosféricas e cânticos distantes, ostentando algumas das melodias mais memoráveis de todo o catálogo do projeto. O interlúdio de sintetizador em “Whispers of the Stone” traz aquele toque de “teclado de castelo” tipicamente noventista, servindo de fôlego para a cadência pesada de “Shadows Across the Keep” e a melancolia sufocante de “Vengeance from the Depths”. A viagem encerra em grande escala com “Eternity in Mist”, uma faixa longa, expansiva e solene, que consolida esta faceta mais espiritual da banda antes de se extinguir num fecho acústico.
Em suma, se o álbum anterior impressionou pelo peso, este novo registo devolve a Hulder a sua alma. É um trabalho maduro, focado e honesto, que honra o legado do Metal Extremo sem soar a um mero exercício de nostalgia.
Nota do Editor: 8.5/10


