ÚLTIMO DIA DE COMEMORAÇÃO.
A tarde nos recebeu com um clima bem mais agradável. Ao chegarmos a Villena de ônibus de traslado, muitos de nós já tínhamos feito amigos. O grupo em que estávamos reunia várias nacionalidades: Espanha, Colômbia, Chile, Japão e México. Uma mistura bastante variada que, antes de entrar no festival, aproveitou para compartilhar algumas cervejas e um café da manhã que nos ajudasse a aguentar o último dia do Leyendas del Rock.
Já dentro do recinto, cada um seguiu seu caminho. Junto com dois amigos, ficamos para curtir a apresentação do Eihwar, com um granizado na mão, porque, como mencionamos anteriormente, a barraca de sorvete foi um dos grandes sucessos gastronômicos durante todo o festival.

EIHWAR
A dupla francesa foi responsável por inaugurar o Doro Pesch Stage neste último dia, uma jornada bastante especial. A apresentação começou com “Hugrheim” e “Ragnarök”, revelando, desde os primeiros acordes, seu estilo nórdico marcante: folk tradicional acompanhado por ritmos percussivos potentes.
Os integrantes apareceram com trajes que pareciam ser parte essencial da proposta. O percussionista usava um capacete e roupas pretas, enquanto a vocalista, Asrunn, exibia um estilo pagão que se encaixava perfeitamente na atmosfera criada no palco.

Embora essa proposta seja relativamente nova, ela já alcançou bastante sucesso. Sua música consegue envolver os sentidos e transmitir uma sensação particular de tranquilidade por meio de danças e cantos nórdicos. A dupla conectou-se rapidamente com o público espanhol, que respondeu com aplausos e entusiasmo. Alguns participantes chegaram a dançar como se estivessem no meio de uma floresta, cercados por árvores, frio e misticismo.
Entre as músicas mais conhecidas estavam “Valhalla”, “The Forge” e “Berserkr”, nas quais a voz tranquila de Asrunn contrastava com o tom poderoso e grave de Mark, que trouxe um ritmo muito mais intenso e impactante.

Ambos os integrantes disseram algumas palavras em espanhol, mas Asrunn teve um gesto especial: mostrou um texto escrito em espanhol no celular, no qual agradeceu a acolhida, a oportunidade e o incentivo que o público espanhol lhes havia dado. Esse gênero também se destacou no line-up, justamente por se afastar dos estilos que dominaram boa parte do evento.
DEICIDE
A tranquilidade e a harmonia que Eihwar havia deixado no local durariam muito pouco… No palco paralelo, os músicos da Flórida, nos Estados Unidos, estavam prestes a desencadear uma destruição infernal. O Deicide, uma verdadeira referência do death metal, começou com seu estilo agressivo e contundente, incitando o circle pit, o mosh pit e toda a violência que somente Glen Benton à frente da banda é capaz de provocar.
Sua voz impressionante, que se mantém intacta ao longo das décadas, elevou ainda mais a temperatura. O repertório incluiu clássicos como “When Satan Rules His World”, “Bastard of Christ” e “Carnage in the Temple of the Damned”. O ritmo do circle pit acelerou quando tocaram músicas relativamente novas, como “Bury the Cross… With Your Christ”.

O público não parou de se mexer durante toda a apresentação. Foi um show feroz, provavelmente o mais agressivo nos palcos principais, junto com a apresentação do Slaughter to Prevail no primeiro dia.
O Deicide não precisou de um palco gigantesco nem de uma produção colossal para fazer o que sabe fazer de melhor: ir direto ao ponto, sem rodeios. Cada música parecia mais pesada que a anterior, deixando os pescoços do público completamente doloridos. Entre as favoritas estavam “Serpents of the Light”, “Satan Spawn, the Caco-Daemon” e “Scars of the Crucifix”, onde os vocais guturais de Glen deixaram mais de um de boca aberta.

Uma verdadeira blasfêmia, um canto em homenagem a Satanás enquanto o sol começava a se pôr no horizonte. Também não foram necessários longos discursos: os rostos de satisfação dos integrantes foram mais do que suficientes para mostrar que a apresentação estava dando certo.
Finalmente chegou a vez de “Homage for Satan”. O circle pit ficou ainda mais feroz, a poeira se levantou por todos os lados e o solo de guitarra acrescentou uma dose extra de euforia.
O encerramento foi abrupto: a música parou de repente, dando lugar a uma enorme ovação enquanto o Deicide deixava o palco após um sucesso retumbante.
HEAVEN SHALL BURN
A energia estava à flor da pele e o público queria mais música destrutiva. Por isso, o Heaven Shall Burn encontrou o público perfeito ao iniciar sua apresentação ao ritmo de “Counterweight” e “My Revocation of Compliance”.
O poder alemão marcou presença em solo espanhol, com letras combativas, mensagens de justiça e um metal extremo forjado ao longo de três décadas.

A banda enfrentou alguns problemas de áudio durante parte de sua apresentação, fazendo com que a voz deixasse de ser ouvida em determinados momentos. Isso desanimou bastante o público, especialmente porque, até então, não haviam ocorrido problemas desse tipo. A própria banda parecia incomodada, mas não permitiu que o contratempo prejudicasse seu desempenho.
Assim, eles continuaram com “Numbing the Pain”, “Endzeit”, “A Whisper From Above” e “Thoughts and Prayers”. O controle vocal foi impressionante, com gritos estridentes, berros ensurdecedores e riffs constantes e velozes, acompanhados por uma bateria em ritmo acelerado.

Tudo isso transformou o encerramento desta edição em uma experiência maravilhosa: execuções técnicas, precisas e distintas entre si, mas capazes de provocar uma autêntica catarse entre os presentes. “Corium” e “Tirpitz” foram as responsáveis por encerrar o show, uma despedida furiosa que impressionou pela seriedade com que o Heaven Shall Burn aborda o gênero extremo e por sua enorme capacidade de execução.
HELLOWEEN
A essa hora da tarde, o público já havia se posicionado para curtir a atração principal do sábado: a banda alemã Helloween, que tinha programado um show completo como parte de sua “40 Years Anniversary Tour”.
O show começou diante de uma multidão enorme, embora, na verdade, não importasse onde você estivesse, fosse possível apreciar o espetáculo de maneira excelente. Esse é um dos aspectos que mais se destaca no Leyendas del Rock: por ser um local relativamente pequeno e aconchegante, permite curtir grandes bandas de uma distância muito menor, sem precisar ficar muito tempo no mesmo lugar. Isso também dá a possibilidade de ver mais bandas sem precisar correr constantemente de um palco para outro.

O show do Helloween foi simplesmente lindo! Um repertório que percorreu toda a história da banda, acompanhado por pirotecnia, lança-chamas, bolas e uma produção à altura da comemoração. Os alemães, considerados fundamentais no nascimento do power metal, impressionaram todos os presentes. O local estava lotado de pessoas cantando, dançando e tirando fotos. Cada integrante sorria constantemente, enquanto Michael Kiske e Andi Deris se complementavam mais uma vez com perfeição, dividindo os vocais e exibindo suas tradicionais jaquetas de couro pretas e vermelhas.

Ambos interagiram com o público, fizeram com que ele participasse dos coros e realizaram dinâmicas que elevaram o show a um nível ainda maior. A banda começou com tudo e manteve esse ritmo com “March of Time”, “The King for a 1000 Years”, “Future World”, “We Burn”, “Twilight of the Gods” e “Ride the Sky”. Kai Hansen e Michael Weikath demonstraram mais uma vez aquele estilo maduro, sólido e de verdadeiras superestrelas, sendo peças fundamentais da história do heavy metal. Sascha Gerstner complementou o espetáculo com solos técnicos, longos e complexos que deram arrepios.

A enxurrada de música não deu trégua. As duas horas de show passaram num piscar de olhos, enquanto cantávamos junto música após música desta turnê que celebra quatro décadas de história. Após um solo de bateria, veio o hino “I Want Out”, fazendo o público rugir com força e o refrão fazer Villena tremer.
Em seguida, diminuímos o ritmo por um momento com a versão acústica de “In the Middle of a Heartbeat”, que fez algumas lágrimas rolarem entre os presentes.

Entre as músicas mais longas, destacou-se o clássico “Halloween”, que nos levou de volta ao século passado e demonstrou que poucas bandas conseguem criar obras-primas capazes de se manterem atuais e se aperfeiçoarem com o passar dos anos. A reta final chegou com “Eagle Fly Free”, “Power” e “Dr. Stein”.

Não há nada a reclamar do Helloween. É uma das bandas mais sérias do mundo: bom som, excelente performance e uma execução impecável. Um exemplo que muitas bandas deveriam seguir, deixando para trás as brigas e resolvendo seus problemas como deve ser, com o único objetivo de oferecer qualidade musical. Todos os integrantes agradeceram repetidas vezes. A melhor dupla de vocalistas arrasou no Leyendas del Rock e encerrou a celebração com chave de ouro. A melhor apresentação de todo o festival.
WARCRY
Muitas pessoas decidiram ir embora depois do show do Helloween, mas o encerramento espanhol ainda reservava duas bandas de enorme calibre e importância histórica. A primeira foi o WarCry, uma das bandas favoritas do heavy metal espanhol. Seguindo a linha do power metal, o grupo apresentou um espetáculo dinâmico, começando com “Alma de Conquistador”, “Nuevo Mundo” e “Perdido”.

O autor deste artigo cantou todas as músicas, ficando praticamente sem voz, especialmente porque “Devorando el Corazón” e “Ardo por Dentro” tocaram diretamente o coração. Depois veio “Lo siento”, pertencente ao material mais recente da banda. Muitos dos presentes ainda não conheciam a música, mas um deles conhecia — então também cantamos juntos.

A parte mais tranquila chegou com “Lo siento”, “Siempre” e “Huelo el miedo”. Mais tarde, veio “Quiero Oírte”, dedicada a todos os fãs e transformada em um dos momentos mais marcantes da apresentação, quando os coros do público chegaram a superar a própria voz de Víctor García.
A conexão que o WarCry consegue estabelecer com seus fãs também é digna de respeito. É uma formação que se mantém ativa há várias décadas e que conquistou grandes feitos ao longo de sua trajetória.

Pablo García apresentou solos belíssimos em seu instrumento; o erudito da música, Santi Novoa, brilhou nos teclados; Roberto García manteve uma presença marcante, sempre animado com o baixo, enquanto Rafael Yugueros permaneceu sorridente, golpeando a bateria com enorme força. Ouvir o WarCry em sua própria terra foi uma excelente decisão. Um medley de músicas chegou com “Luz del Norte”, nossa favorita, seguida por “Alejandro” e “Señor”.

O encerramento veio com “Solo Sé”, “Tú mismo” e o hino que fala sobre o poder do heavy metal, a persistência de continuar frequentando shows e manter viva a chama do volume brutal: “Hoy Gano Yo”. Desta vez, o heavy metal realmente venceu. A imprensa destacou o grande show apresentado pelo WarCry, enquanto a banda agradeceu ao público e falou sobre a história do festival, a tradição de suas apresentações no evento e o desejo de que o Leyendas del Rock continue avançando e crescendo por muitas décadas.
ANKHARA
O fim do festival estava cada vez mais próximo. A essa altura da noite, a maior parte do público já havia ido embora. Eram quase duas da manhã quando o Ankhara iniciou sua apresentação diante dos mais resistentes do festival, aqueles que ainda queriam aproveitar uma última descarga de energia e não estavam dispostos a aceitar que a celebração chegasse ao fim.

O Ankhara entregou um show de power metal muito sólido, acompanhado por um áudio bastante agradável, que permitiu ouvir com clareza a voz de Pacho Brea, uma referência do heavy metal espanhol e músico que já colaborou com diversas bandas do país.
Com uma presença séria e acompanhado por grandes músicos, Pacho assumiu os vocais durante esta turnê de celebração de trinta anos. A mensagem da banda foi clara: continuar trabalhando em novas músicas, sem ficar estagnada no passado.

Entre as músicas do repertório estava “Sigo en pie”, uma faixa que representa muito bem o heavy e o power metal tradicional espanhol. Também foi entoado o clássico “No digas nunca”, que soou limpo e muito bem executado, com guitarras precisas e contundentes. E assim chegamos ao fim.

O Ankhara encerrou sua apresentação depois das três da manhã, sob aplausos, colocando o ponto final no XX aniversário do Leyendas del Rock, em Villena, Espanha. Agradecemos a todas as pessoas que tornaram tudo isso possível, pela gentileza, atenção e pela ótima energia compartilhada durante estes quatro dias. Nos vemos na próxima edição. Vida longa ao volume brutal.
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