O amanhecer do último dia do Milagre Metaleiro Open Air trouxe consigo uma mudança drástica na atmosfera que até então dominava o Parque de Lazer das Cruzinhas. Ao contrário das jornadas anteriores, abençoadas por um tempo limpo e firme com forte calor durante o dia e o frio estrelado da noite, o fecho do festival foi recebido por um céu encoberto e por previsões meteorológicas que apontavam para a chegada iminente de chuva. No parque de campismo, o clima de descontração deu rapidamente lugar a uma visível tensão e expectativa. Diante da ameaça cinzenta, muitos festivaleiros optaram pela precaução, antecipando o desmonte das suas tendas e a salvaguarda dos seus pertences logo pelas primeiras horas da manhã.

Uma vez que as atuações foram programadas para começar mais cedo neste dia de encerramento, consequentemente o habitual espaço para o convívio matinal e a confraternização entre os campistas acabou por ser drasticamente reduzido. O ambiente geral dividia-se, assim, entre a preocupação com a instabilidade do tempo e uma latente ansiedade pela maratona de concertos que estava por vir. Apesar das nuvens carregadas que ameaçavam o recinto, o cartaz guardava para este último fôlego algumas das atrações mais aguardadas e grandiosas desta edição, prometendo um desfecho memorável independentemente das condições meteorológicas. E os que estavam ali claramente pouco se importavam com essas previsões, pois eram movidos pela paixão pelo metal.

E foi nessa atmosfera de ansiedade e antecipação que os festivaleiros chegaram à área do festival para a primeira apresentação dessa guinada final do Milagre Metaleiro Open Air ao início da tarde.

CAPELA MORTUÁRIA

Consagrada no circuito underground nacional, a banda Capela Mortuária tiveram a pesada responsabilidade de inaugurar o palco principal no terceiro e último dia do festival e subiram ao palco sem qualquer tipo de hesitação. O quarteto de Braga entregou uma dose massiva de thrash metal à moda antiga: rápido, pesado, furioso e com uma crueza técnica que remeteu de imediato para a sonoridade clássica e agressiva dos Sepultura. A banda captou a atenção imediata de todos os presentes através de uma introdução assente em temas de enorme peso, servindo também como chamariz àqueles que ainda não haviam se deslocado para à área do festival.

Para além do ataque sonoro, o espetáculo valeu pela energia sem igual transmitida em palco, tornando evidente que os músicos estavam a vontade e a divertir tanto quanto a plateia. O vocalista consagrou-se como uma autêntica força motriz da banda, gesticulando, saltando e entregando-se por completo a cada acorde. Esta postura dinâmica contagiou os festivaleiros. A pista dividiu-se então num equilíbrio perfeito entre os metaleiros que batiam cabeça ao ritmo implacável da bateria e aqueles que iniciavam o primeiro moshpit do dia, aquecendo de forma gradual a alma do recinto.

O grande momento de apoteose coletiva deu-se quando os Capela Mortuária decidiram prestar tributo a uma das maiores lendas do rock mundial. A banda disparou uma versão extraordinariamente violenta e acelerada do clássico Ace of Spades, dos Motörhead. A nova interpretação, ainda mais agressiva que o hino original, colocou o Parque de Lazer das Cruzinhas em absoluto delírio, erguendo um coro ecoante que se ouviu por todo o recinto, provando a eficácia da banda em dominar o espaço com o seu som cru e pesado.

A reta final da atuação reservou ainda uma surpresa memorável. Na penúltima música da tarde, o palco recebeu o músico convidado Luís Moreira, que assumiu com mestria as baquetas da bateria, permitindo que o baterista oficial da banda transitasse temporariamente para os vocais, compondo um duo feroz em Pornocultura. Com uma forte e assumida pegada hardcore/crossover, esta nova configuração convocou a comunidade para um moshpit renovado. O público respondeu prontamente ao desafio em uma roda enérgica. Os Capela Mortuária despediram-se sob fortes aplausos, cumprindo com a missão de injetar o combustível inicial para dar largada à derradeira etapa do festival.

Capela Mortuária, por @madness_by_nuno_reis
Capela Mortuária, por @madness_by_nuno_reis

SETLIST:
1- Morto
2- Ordem
3- Estranho
4- Ego
5- Ódio
6- Imploro o caos
7- Ace of Spades (Motörhead cover)
8- Pornocultura
9- Thrash Faster

SOVENGAR

Às 16h25, o clima do festival sofreu uma transformação radical com a entrada em cena dos espanhóis da banda Sovengar. Praticantes de um folk/viking metal vigorante, o grupo trouxe consigo uma forte carga de energia e uma vincada performance teatral. Logo após uma introdução eletrónica que despertou a curiosidade geral, a banda disparou um ataque sonoro pesado e pautado por vocais ásperos e rústicos, transportando de imediato os festivaleiros para o imaginário de um autêntico barco viking cyberpunk. Sem qualquer tipo de barreira, o vocalista quebrou o protocolo logo à segunda música do setlist, Return to Battle, ao descer do palco para se pendurar na grade junto à primeira linha do público. O gesto surpreendeu a plateia e serviu para ensaiar o coro do refrão, que passou a ser executado em perfeita sintonia pela multidão.

A viagem conceitual prosseguiu quando o frontman questionou o recinto sobre quem ali gostava de piratas, obtendo uma resposta calorosa e afirmativa. O gatilho serviu para emendar duas composições nesta temática: primeiro, a festiva Drink (cover dos Alestorm), que colocou quase a totalidade do recinto a saltar, cantar e dançar; seguida imediatamente pela autoral Pirates. Nesta última, a imersão foi total, com direito a adereços no palco como chapéus de pirata, espada à cinta e bandeira hasteada, tornando impossível ficar indiferente ao virtuosismo performático da banda. O vocalista voltou a descer até junto dos fãs, subindo às estruturas de apoio para inflamar a massa humana, numa atmosfera cinemática que parecia transportar os presentes diretamente para dentro da trilha sonora da saga Piratas das Caraíbas.

A irreverência e o humor ganharam contornos ainda maiores antes de Fuck You Dragon. Num momento de pura descontração, a banda instigou toda a audiência a erguer o dedo médio e, assim que os primeiros acordes ecoaram, surgiu em palco uma personagem vestida de dragão, saltando e dançando. A performance inusitada arrancou gargalhadas genuínas à multidão, que cumpriu à risca a exigência do grupo, entoando o refrão em uníssono e mantendo o gesto satírico direcionado à criatura performática, consolidando a faceta mais divertida do espetáculo.

A intensidade dramática continuava e chegava ao seu ponto mais alto de toda a atuação com a obrigatória Drink Of Victory. Quando já parecia impossível superar a fasquia do espetáculo, o vocalista abandonou o palco, cruzou o meio da multidão e dirigiu-se ao balcão do bar do festival. Cantando deitado sobre a estrutura enquanto interagia com o staff, o músico viu um dos empregados servir-lhe um generoso golo de whisky diretamente da garrafa, seguido de um copo de cerveja oferecido pelo bar. À sua frente, os festivaleiros espontaneamente dançavam em uma roda que rapidamente se transformou numa espécie de “comboio humano” que seguiu o cantor até o centro da pista que, após circular pelo espaço, abriu num moshpit dançante com o vocalista a cantar ao centro. Aproveitando o breakdown instrumental, o vocalista pediu para ser carregado em crowdsurfing de braço em braço de volta ao palco, onde emendou diretamente com Dakkar Party, uma pesadíssima e hilariante versão metal do clássico pop Barbie Girl.

Mesmo após esboçarem uma despedida antes do tempo, os espanhóis guardavam um último trunfo na manga: Neón Wars. Mal a música arrancou, o palco voltou a ser invadido por elementos teatrais, desta vez com uma personagem vestida de ogre, numa alusão direta à estética conceptual da banda. Sem margem para dúvidas, os Sovengar assinaram a apresentação mais divertida, inusitada e cativante de todo o festival. Ao conquistarem os festivaleiros através de uma incrível harmonia entre peso musical e animação pura, a banda provou ser uma das adições mais bem-sucedidas e refrescantes ao cartaz desta edição do Milagre Metaleiro Open Air.

Sovengar, por @edgar_silva_fotografia
Sovengar, por @edgar_silva_fotografia

SETLIST:
1- Intro
2- Cybertrolls
3- Return To Battle
4- Drink (cover Alestorm)
5- Pirates
6- Fuck You Dragon
7- Drink Of Victory
8- Drakkar Party
9- Neón Wars

GIRISH AND THE CHRONICLES

Após uma onda de metal lúdico dos Sovengar, pontualmente às 17h30, os indianos Girish and The Chronicles (GATC) subiram ao palco dispostos a assinar uma das apresentações mais singulares do dia. Trazendo um heavy metal clássico com refinadas nuances alternativas e uma forte energia, a banda impressionou de imediato pela sua representatividade e por um talento técnico avassalador. Diante de uma plateia que, na sua maioria, pouco conhecia o trabalho do grupo, o quarteto desfez qualquer ceticismo inicial através de solos de guitarra inacreditáveis e de uma potência vocal imperial por parte do seu frontman. O público, completamente rendido logo nos primeiros minutos, entregou-se sem reservas à estonteante musicalidade apresentada.

O nível de competência técnica da banda ficou expressamente evidente durante a execução de Disintegrate, faixa do mais recente álbum de estúdio. Num momento de pura destreza musical, o baixista e o guitarrista inverteram os seus papéis e trocaram de instrumentos em palco, entregando uma performance absolutamente irrepreensível em ambas as funções. A composição destacou-se por um som limpo, enriquecido por camadas melódicas profundas que preencheram o recinto. Os olhares atentos, hipnotizados e os semblantes de admiração na plateia não deixavam margem para dúvidas: a perícia musical e a versatilidade dos GATC operava num patamar de excelência.

Um dos momentos mais festivos do concerto foi com Rock N’ Roll Is Here To Stay. Após o vocalista questionar a multidão sobre o seu amor pelo género, a banda disparou um hino com fortes vibrações que nos remetem à sonoridade mais progressiva, arrancando um coro vigoroso que bradava o refrão em uníssono enquanto as guitarras choravam num solo longo e hipnotizante. Essa conexão histórica às raízes que foram fonte de inspiração para a banda estendeu-se à música Hail to the Heroes, tema introduzido como uma reverência explícita aos heróis do metal como Van Halen, Judas Priest e Iron Maiden. Esta contextualização gerou uma identificação imediata com os festivaleiros, que corresponderam prontamente cantando os versos e aplaudindo com enorme entusiasmo.

Podemos concluir que os Girish and The Chronicles entregaram aquela fórmula clássica bem executada do heavy metal e um manifesto apaixonado pelo música. Para o encerramento, a banda escolheu a enérgica Everynight Like Tonight, uma canção consideravelmente mais ritmada e acelerada que as anteriores. A faixa funcionou como a injeção ideal de adrenalina, elevando a energia do público e deixando o recinto totalmente elétrico e aquecido para receber a próxima atração do cartaz.

GATC, por @photo_rev1
GATC, por @photo_rev1

BLAZE BAYLEY

Com alguns minutos de adiantamento em relação ao horário previsto, o lendário ex-vocalista dos Iron Maiden e fundador dos Wolfsbane, Blaze Bayley, subiu ao palco com a sua banda para levar o Parque de Lazer das Cruzinhas a uma autêntica loucura coletiva. Trazendo ao festival a aclamada digressão comemorativa de aniversário, o britânico apresentou um setlist profundamente nostálgico e focado exclusivamente na sua marcante passagem pela Donzela de Ferro. A plateia, visivelmente ansiosa por este momento, correspondeu com um entusiasmo transbordante assim que ecoaram os primeiros acordes da bombástica Lord of the Flies. Foi o início de uma recepção apoteótica, marcada por uma avalanche de camisolas e bandeiras do Iron Maiden estendidas, galvanizando este espetáculo, desde o primeiro minuto, como aquele que arrancaria os maiores coros de todo o festival.

Demostrando uma enorme simpatia, Blaze fez questão de saudar os presentes com um caloroso e audível “muito obrigado” em português, desfazendo-se em sinceros elogios à paixão e à entrega do público nacional. E então a chegada oficial da chuva ao recinto coincidiu precisamente com a segunda música do concerto. Entretanto, a instabilidade meteorológica revelou-se incapaz de arrefecer a energia dos festivaleiros, que estavam completamente alucinados enquanto testemunhavam, diante de si, uma autêntica lenda viva a interpretar novamente os grandes êxitos da sua era à frente do gigante britânico com uma garra e vitalidade impressionantes.

O concerto atingiu o seu pico de intensidade e conexão com a chegada da mística Sign of the Cross. A multidão uniu-se num só espírito, erguendo as mãos, batendo cabeças e acompanhando cada linha lírica de forma visceral, o que deu origem a um massivo e emocionado moshpit que cantava e pulava a plenos pulmões. Sem dar tempo para recuperar o fôlego, o hino The Clansman prolongou esta explosão de energia, gerando um coro monumental onde os festivaleiros entoavam energeticamente as melodias instrumentais ao ritmo de “uô-uô-uô“. É difícil de traduzir em palavras a sensação arrepiante de estar diante de Blaze Bayley, que impõe-se como um verdadeiro maestro, sobretudo quando exigiu da audiência o seu “grito mais selvagem” (wildest scream), e sendo – como é óbvio – prontamente atendido com uma resposta coletiva descomunal.

Mais do que uma exaltação ao heavy metal mais puro, a reta final ficou marcada por uma lição de superação e resiliência. Aos 63 anos, e após ter ultrapassado graves problemas de saúde que quase lhe ceifaram a vida, Blaze Bayley dirigiu-se à plateia num discurso profundamente emotivo: instigou todos a perseguirem os seus objetivos, garantindo que nada é impossível se tomarem o futuro nas próprias mãos, e despediu-se com um apelo direto para que nunca desistam dos seus sonhos. O gatilho emocional serviu de rampa de lançamento para a explosiva Futureal, culminando no encerramento definitivo com a marcante Don’t Look to the Eyes of a Stranger. O público despediu-se em absoluto êxtase, rendido à voz firme, solene e cheia de profundidade de Blaze e à oportunidade única de vivenciar algumas das páginas mais douradas da história do metal.

Blaze Bayley, por @madness_by_nuno_reis
Blaze Bayley, por @madness_by_nuno_reis

SETLIST:
1- Doctor Doctor (UFO cover/Intro)
2- Lord of the Flies (Iron Maiden)
3- Justice of the Peace (Iron Maiden)
4- Judgement of Heaven (Iron Maiden)
5- Blood on the World’s Hands (Iron Maiden)
6- Look for the Truth (Iron Maiden)
7- Born as a Stranger (Carreira a solo de Blaze)
8- Sign of the Cross (Iron Maiden)
9- The Clansman (Iron Maiden)
10- Man on the Edge (Iron Maiden)
11- Futureal (Iron Maiden)
12- Don’t Look to the Eyes of a Stranger (Iron Maiden)

BELPHEGOR

Com o cair da noite, o Milagre Metaleiro Open Air preparava-se para uma mutação estética radical. Às 20h15, o palco principal transformou-se num autêntico altar profano para receber os austríacos Belphegor, referências incontornáveis do blackened death metal. A cenografia foi meticulosamente desenhada com ornamentos carregados de simbolismo ocultista: adagas ritualísticas, cruzes invertidas, correntes pesadas e crânios decoravam o espaço, que rapidamente foi tomado por uma densa penumbra de gelo seco e por uma música de suspense que ecoava nos altifalantes. Para completar a imersão sensorial, incensos foram acesos à frente da bateria para defumar o palco, enquanto o próprio céu cinzento parecia anunciar que uma vaga de chuva, frio e escuridão estava prestes a abater-se sobre o recinto.

Após longos minutos de uma proposital tensão cénica, a banda subiu ao palco pontualmente às 20h20, desencadeando a primeira grande descarga sonora com a demolidora Baphomet. Quase em perfeita sincronia com os primeiros acordes violentos, os céus cederam e a chuva começou a cair. Os músicos moviam-se com uma teatralidade estática e imponente, desferindo poses rigorosas que faziam o concerto assemelhar-se a um autêntico ritual sombrio. Diante desta exibição pautada pela brutalidade e pelas sombras, uma parte considerável da assistência permaneceu imóvel, num estado de quase torpor e hipnose coletiva. Em contrapartida, os devotos mais fervorosos entregavam-se a um bater de cabeças rítmico, impulsionando vários corpos num crowdsurfing incessante que parecia flutuar em direção a uma espécie de abismo sonoro.

À medida que o espetáculo avançava e o som se tornava progressivamente mais pesado e acelerado através de faixas como The Devil’s Son e Sanctus Diaboli Confidimus, os elementos da natureza convergiram de forma assustadora com a música. O frio intensificou-se e, por volta do quarto tema, a demolidora The Devils, o recinto foi castigado por uma tempestade torrencial acompanhada por raios. O cenário tornou-se apocalíptico, forçando uma fatia significativa do público a procurar abrigo na grande tenda da zona de refeições ou a retirar-se temporariamente para os seus veículos fora do recinto. No entanto, uma base impressionante de fãs entusiastas permaneceu irredutível na frente do palco, resistindo à intempérie enquanto o estrondo dos trovões reais se fundia com os ritmos extremos da bateria, como se a própria tempestade fizesse parte da partitura da banda.

O concerto seguiu num fluxo contínuo e sem tréguas, onde o tom de blasfêmia e a agressividade instrumental se emendavam sem interrupções. A chuva implacável só deu uma leve trégua nos momentos finais da atuação, mesmo a tempo de os Belphegor abandonarem o palco deixando o recinto submerso numa densa névoa e numa escuridão palpável. Mesmo para quem não é seguidor obstinado do género, foi impossível ficar indiferente ao impacto macabro da apresentação. Os veteranos austríacos assinaram uma das passagens mais marcantes e atmosféricas desta edição do Milagre Metaleiro Open Air, deixando a certeza de que conseguiram, de forma literal e figurada, profanar o clima do festival com o seu monumental ritual satânico.

Belphegor, por edgar_silva_fotografia
Belphegor, por edgar_silva_fotografia

SETLIST:
1- The Procession (Intro)
2- Baphomet
3- The Devil’s Son
4- Sanctus Diaboli Confidimus
5- The Devils
6- Stigma Diabolicum
7- Pactum in Aeternum
8- Lucifer Incestus
9- Virtus Asinaria – Prayer
10- Totentanz – Dance Macabre

PRIMAL FEAR

Sendo uma das atrações mais aguardadas de todo o festival, os alemães do Primal Fear assumiram a grande responsabilidade de trazer a multidão de volta à frente do palco após a tempestade torrencial que havia dispersado parte do público na atuação anterior. A chuva deu uma trégua substancial, tornando-se mais branda e intermitente. Foi o incentivo necessário para que o Milagre Metaleiro Open Air voltasse a ficar inundado do início ao fim por festivaleiros resilientes e sedentos pelo lendário power metal da banda. E a banda não fez cerimónias, atacando logo de início com os hinos ‘Destroyer’ e ‘I Am The Primal Fear’, disparados sob refrões cantados a plenos pulmões por milhares de vozes. O impacto sónico gerou uma movimentação frenética na pista, pautada por um headbanging coletivo e por uma vaga incontrolável de crowdsurfings que deixou a equipa de segurança bastante atarefada na frente das grades.

O carismático vocalista Ralf Scheepers não perdeu uma única oportunidade para exibir o seu alcance vocal estratosférico, puxando constantemente por ovações e gritos da plateia. Num dos momentos mais descontraídos da noite, ao considerar que a resposta do público não estava a atingir o volume desejado, o frontman recorreu à ironia através de um brilhante trocadilho fonético. Scheepers brincou dizendo que a banda tocava “deaf metal” (metal para surdos) e que, por isso, não conseguia ouvir a resposta da multidão. A piada, que brinca com a semelhança de pronúncia entre as palavras “death” (morte) e “deaf” (surdo), arrancou gargalhadas generalizadas e serviu de combustível para inflamar ainda mais os presentes que responderam finalmente com a altura requerida pelo comandante.

Os Primal Fear exibiram uma sintonia milimétrica e invejável, deliciando os seus fãs com coreografias sincronizadas entre os guitarristas, que se revezavam em duelos e solos de cortar o fôlego. O concerto serviu também para consagrar oficialmente perante o público português a mais recente adição da banda: a talentosa guitarrista Thalía Bellazecca, que entrou para o grupo há cerca de 2 anos. Com um carisma transbordante e um talento técnico sem igual, Thalía dominou o palco com uma precisão cirúrgica, provando ser a peça perfeita para injetar nova energia e vitalidade à formação clássica do grupo.

Para uma despedida apoteótica, a banda guardou duas cartadas atemporais do seu arsenal: Chainbreaker e o hino supremo Metal Is Forever, que levaram o recinto ao delírio absoluto. Ironicamente, numa coincidência poética até mesmo digna do nome do festival, os céus pareceram acalmar-se ao som do Primal Fear, pois já na segunda metade do espetáculo, as nuvens dissiparam-se, dando lugar a uma noite banhada pelo luar e pelas estrelas. Foi o desfecho perfeito para uma apresentação impecável e poderosa, que lavou a alma dos grandes aficionados do power metal internacional.

Primal Fear, por @photo_rev1
Primal Fear, por @photo_rev1

SETLIST:
1- Intro
2- We Walk Without Fear
3- Destroyer
4- I Am The Primal Fear
5- Nuclear Fire
6- Running In The Dust
7- King Of Madness
8- The Hunter
9- The End Is Near
10- Fighting The Darkness
11- Final Embrace
12- Chainbreaker
13- Metal Is Forever

INSOMNIUM

A grande honra de encerrar oficialmente a edição de 2026 do Milagre Metaleiro Open Air coube aos finlandeses Insomnium. Os astros do death metal melódico encontraram um público devidamente galvanizado sob um luar que iluminava o recinto juntamente com as estrelas que regressavam com imponência após a tempestade. A banda iniciou a sua jornada com a profunda Weighted Down With Sorrow e Valediction entregando uma apresentação avassaladora, pautada por uma bateria veloz e tão intensa que fazia o solo tremer literalmente sob os pés dos presentes. Com um som cheio, denso e perfeitamente distribuído, o vocalista Niilo Sevänen preencheu cada espaço da arena com os seus guturais profundos. Demonstrando uma postura inclusiva, o frontman convocou de imediato um massivo moshpit, fazendo questão de sublinhar que a roda era um espaço aberto para “meninos e meninas”.

A cenografia e a ambientação do palco merecem um destaque à parte nesta cobertura. Através de um jogo de luzes soberbo, fumo de gelo seco e projeções visuais em tons de preto e branco no ecrã de fundo, os Insomnium construíram uma atmosfera que dialogava milimetricamente com a sonoridade apresentada. Curiosamente, durante a execução de Gleam in the Black, a projeção de uma chuva no ecrã gerou uma simbiose perfeita e irónica com a realidade, remetendo diretamente para o clima adverso que castigara o festival momentos antes. A formação soube como ninguém alternar a agressividade do metal extremo com dinâmicas melódicas e rítmicas cativantes, que colocavam toda a plateia a balançar e a dançar em sintonia com os compassos da bateria.

À medida que o espetáculo avançava com canções como And Bells They Toll, a multidão aglomerava-se cada vez mais junto às grades. O público, extremamente atento, respirava a intensidade de uma atuação há muito aguardada. Ouvi em meio a uma plateia emocionada, relatos de fãs apaixonados que esperavam por aquele momento há mais de uma década. Quebrando um pouco aura sombria, os finlandeses esbanjaram simpatia ao revelarem que tinham aprendido a dizer o palavrão “caralho” em português, brincando recorrentemente com a palavra entre os temas. A atmosfera ganhou novos contornos de energia com a execução de Shadowlife, que embora fosse uma das faixas menos óbvias para parte do público, a sua atmosfera sombria, rica em variações de andamento — alternando trechos velozes com notas de guitarra profundamente melancólicas —, conquistou a pista de imediato, motivando palmas entusiasmadas dos presentes.

A energia explodiu em definitivo na segunda metade do espetáculo, após as passagens por Drawn to Black e Ephemeral. A banda aumentou drasticamente a rotação ao prometer tocar algo ainda mais caótico, fazendo referência à recepção brutal que a música seguinte recebera na Chéquia. Sob esse desafio, tocaram a demolidora Pale Morning Star, que desencadeou uma roda violenta no coração da pista. Sem dar tréguas aos mais resistentes, o grupo emendou de forma cirúrgica duas das composições mais aclamadas e aguardadas da sua discografia: a melódica Lose to Night e a clássica Mortal Share, fazendo o público iniciar um grande headbanging coletivo.

Visivelmente conectados com a vibração do público e felizes por partilharem aquele momento único, os músicos executavam cada faixa como se fosse a última, questionando recorrentemente se a plateia ainda tinha forças para mais uma. E para surpresa geral, os Insomnium presentearam o público do Milagre Metaleiro com um setlist consideravelmente mais longo do que o habitual em festivais, resgatando canções que já não tocavam ao vivo há vários meses. Os finlandeses guardaram para o final hinos imponentes como The Primeval Dark, While We Sleep e a derradeira Heart Like a Grave para o fecho absoluto. Foi um encerramento perfeito, memorável e repleto de alma e emoção para uma edição histórica do festival, deixando os festivaleiros arrebatados e com a certeza de que as trevas do metal escandinavo souberam iluminar de forma brilhante a última noite em Pindelo dos Milagres.

Imsomnium, por @madness_by_nuno_reis
Imsomnium, por @madness_by_nuno_reis

SETLIST:
1- Weighted Down With Sorrow
2- Valediction
3- Lilian
4- Gleam in the Black
5- And Bells They Toll
6- Shadowlife
7- Drawn to Black
8- Ephemeral
9- Pale Morning Star
10- Lose to Night
11- Mortal Share
12- The Primeval Dark
13- While We Sleep
14- Heart Like a Grave

A edição de 2026 do Milagre Metaleiro Open Air consagrou-se como um marco divisório na história do festival. Encerrando com uma lineup diversificada, ousada, imersiva e versátil, transpassando por subgéneros como o thrash, o heavy metal, o folk metal, o power metal e o gótico, conseguiu agradar todos os gostos por apresentar um cartaz onde todos os géneros celebram em harmonia uma mesma paixão coletiva: a música extrema. Entre a fúria e o misticismo de atuações memoráveis e a consagração sob o luar, o festival reafirmou o seu estatuto de paragem obrigatória no circuito da cena do metal no país.

A transição para o Parque de Lazer das Cruzinhas provou ser um triunfo absoluto, oferecendo uma infraestrutura exemplar que garantiu o bem-estar e elevou a experiência dos festivaleiros a um novo patamar de conforto e organização. Nem mesmo o “batismo de fogo” trazido pela tempestade extrema no último dia foi capaz de abalar a solidez do evento ou o espírito inabalável da sua comunidade.

Público, por @photo_rev1
Público, por @photo_rev1

O Milagre Metaleiro despediu-se com a celebração da plateia juntamente com todos os membros da organização e voluntários a cantar o hino do festival em uma grande festa que exalta a força da comunidade de Pindelo dos Milagres como a Aldeia do Metal, cumprindo a promessa de um evento inesquecível, deixando uma saudade imensa e a certeza de que a sua nova casa está pronta para acolher muitas outras páginas douradas da história do peso em Portugal.

Agradecimentos finais ao Caminhos Metálicos e ao Milagre Metaleiro pela cedência das fotografias.